Temas
Poemas neste tema

Saudade e Ausência

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

1 - THE MAD FIDDLER

THE MAD FIDDLER

I

THE MAD FIDDLER


THE MAD FIDDLER

Not from the northern road,
Not from the southern way
First his wild music flowed
Into the village that day.

He suddenly was in the lane,
The people came out to hear
He suddenly went, and in vain
Their hopes wished him to appear.

His music strange did fret
Each heart to wish 'twas free.
If was not a melody yet
It was not no melody.

Somewhere far away
Somewhere far outside
Being forced to live, they
Felt this tune replied.

Replied to that longing
All have in their breasts,
To lost sense belonging
To forgotten quests.

The happy wife now knew
That she had married ill,
The glad fond lover grew
Weary of loving still,

The maid and the boy felt glad
That they had dreaming only
The lone hearts that were sad
Felt somewhere less lonely.

In each soul woke the flower
Whose touch leaves earthless dust,
The soul's husband's first hour,
The thing completing us,

The shadow that comes to bless
From kissed depths unexpressed,
The luminous restlessness
That is better than rest.

As he came, he went.
They felt him but half-be.
Then he was quietly blent
With silence and memory.

Sleep left again their laughter,
Their tranced hope ceased to last,
And but a small time after
They knew not he had passed.

Yet when the sorrow of living,
Because life is not willed,
Comes back in dreams' hours, giving
A sense of life being chilled,

Suddenly each remembers –
It glows like a coming moon
On where their dream-life embers –
The mad fiddlers tune.
4 705
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Não sei de que maneira a sucessão

ACTO III


Não sei de que maneira a sucessão
Dos dias tem achado este meu ser
Que a si mesmo se tem ignorado.

Não sei que tempo vago atravessei
Nos breves dias de febril ausência
De parte do meu ser. Agora
Não sei o que há em mim que sobrenada
A ignorada coisa que perdi.
Cansado já doutra maneira vaga,
Sinto-me diferentemente o mesmo;
Não sei detidamente o que mudou
Em mim, nem sei o que de mim me resta
A não ser esta vaga e horrorosa
Sufocação da existência inerte
Num pavor. Mas a mesma já não é.

Sinto pavor, mas já não é o mesmo
Pavor, nem é a mesma solidão
D'outrora, a solidão em que me sinto.

Queimei livros, papéis,
Destruí tudo por ficar bem só,
Por quê não sei, não sabê-lo desejo.

Resta-me apenas um desejo ermo
De amar e de sentir, mas não me sinto
Educado no ser ou natural
Ao sentimento, à emoção, à vida,
Mas alheado (...) e negramente
E orgulhoso mais por ser distante
Do que distante por ser orgulhoso.
Pesado fardo da grandeza! Horror!
Não a reis ou a príncipes lhes pesa
E o responsável ânimo (...)
Como a mim o existir. Pesa-me mais
Do que dantes, mas – como o sei?
Menos misteriosamente, menos
Intimamente. Estou mais apagado
E a minha antiga dor imorredoura
Mais escondida dentro em mim de mim
E eu menos, não sei como, isolado
Só de mim mesmo, perdido (...)

Neste atordoamento nasce em mim
Qualquer coisa de negro e estranho e novo
Que pressinto com medo, e que, outrora,
Arredado de mim dentro em minha alma,
Eu pressentia sem o pressentir,
Sem consciência consciente dela.
Como a linha de negro num poente
Se ergue em negra nuvem e enegrece
E cresce levantando-se e obumbrando
O firmamento, sinto despontar
Prenúncios de tormento e confusão
Num silêncio que insiste dentro em mim.




Há entre mim e o real um véu
À própria concepção impenetrável.
Não me concebo amando, combatendo,
Vivendo como os outros. Há em mim, íntima,
Uma impossibilidade de existir
De que abortei, vivendo.




Tudo transcende tudo
E é mais real e menor do que é.
Sinto-me perturbado
E a consciência da perturbação
Mais me perturba.
Não sei que desejar
Nem que desejável ser em mim.
Todo o modo de ser além da morte
Me apavora e confrange.



Montanhas, solidões, objectos todos,
Ainda que assim eu tenha de morrer,
Revelai-me a vossa alma, isso que faz
Que se me gele a mente ao perceber
Que realmente existis e em verdade,
Que sois facto, existência, coisas, ser.

Quantos o sentem, quantos, ao ouvir-me
«Estou aqui» compreenderão
Íntima e inteiramente, ouvindo n'alma
A alma da minha voz?
A expressão
Fez-se para o vulgar, para o banal.
A poesia torce-a e dilacera-a;
Mas isto que eu em vão impor-lhe quero
Transcende-lhe o poder e a sugestão.
Metáfora nem símbolo o exprime;
Desespero ao ouvir-me assim dizer
Isso que n'alma tenho. Sinto-o, sinto-o
E só falando não me compreendo.

No mais simples dos factos é que existe
O horror maior nisto: que há existência.
Sentir isto, eis o horror que não tem nome!
Mas senti-lo a sentir, intimamente,
Não com anseios ou suspiros d'alma,
Mas com pavor supremo, com gelado
Inerte horror de desesperação.





De vez em quando surge-me nos lábios
Uma canção de amor e, instintivo,
Nela choro uma amada morta. Sim.
É a noiva eterna morta de um eu
Que não soube amar.
Ah, que feliz
Seria se eu pudesse aniquilar
O pensamento, a comoção – o que eu
Mais odeio e mais prezo – e m'envolver
Numa vida vazia e trabalhosa,
Com amores, ternura! Beberia
A alegria do regato de existir
Sem perguntar onde era a sua origem
Nem onde tinha fim. Felicidade
Fez-se para quem a não pode sentir.
Completo e apreensível horror
Do mistério que eis volta ao pensamento!

Hoje se morre alguém que estimo – se eu
Estou ainda algo em mim absorto
No que é mais do que eu – se morre alguém
Que amo – admitamo-lo – já não choro,
Não sinto dor: gela-me apenas, muda,
A presença da morte que triplica
O sentimento do mistério em mim.
4 190