Poemas neste tema
Silêncio
António Ramos Rosa
O Instante
Quem posso eu chamar, que palavras lúcidas
e sóbrias, veementes
poderão despertar as ondas felizes,
que outro apelo, que outro alento
aproximará as árvores, o hálito das suas frases?
Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,
que prodígios da terra deslizarão no repouso,
que declives, que jardins, que palácios diminutos,
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes?
Quem me dará o sossego da fábula mais pura
com o exacto relevo imediata e vagarosa?
Real e perfeita
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados,
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso
é o instante que descobre o animal mais ardente,
a mais ardente exactidão
a mais oferecida à claridade,
a mais contínua, a mais profunda suavidade.
Estamos dentro de um seio donde nascemos
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão
de murmúrios silvestres e a magia natural
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha
aqui e agora, reconcentração na felicidade,
na evidência de delícias, múltiplas, fatais.
e sóbrias, veementes
poderão despertar as ondas felizes,
que outro apelo, que outro alento
aproximará as árvores, o hálito das suas frases?
Quem me oferecerá no seu corpo o estuário das mãos,
que prodígios da terra deslizarão no repouso,
que declives, que jardins, que palácios diminutos,
que intangíveis enlaces, que adoráveis volumes?
Quem me dará o sossego da fábula mais pura
com o exacto relevo imediata e vagarosa?
Real e perfeita
num deslizar de gozo, em lábios que emudecem deslumbrados,
real e completo, secreto, imediato, maravilhoso
é o instante que descobre o animal mais ardente,
a mais ardente exactidão
a mais oferecida à claridade,
a mais contínua, a mais profunda suavidade.
Estamos dentro de um seio donde nascemos
como de uma montanha latente, somos a nascente confusão
de murmúrios silvestres e a magia natural
de um silêncio límpido, abraçamos a maravilha
aqui e agora, reconcentração na felicidade,
na evidência de delícias, múltiplas, fatais.
1 079
António Ramos Rosa
Um Obscuro Jardim
Lembro-me ou esqueço um obscuro jardim,
um lagarto de cinza, um lagarto de sombra
já não cintila entre os gerânios e as rosas.
Lembro-me ou esqueço, alguém escreve
com sílabas de orvalho que nada significam.
Tudo está e não está nesse jardim obscuro
onde a cinza é um espelho do fluxo do silêncio.
Lembro-me ou esqueço os frutos de oiro
e de veludo amadurecidos, a boca de musgo,
a voz da água, a cicatriz incandescente
da grande pedra. Que volúvel sossego
tão anterior a tudo na nudez do sono
e na alegria fiel à sombra que germina!
um lagarto de cinza, um lagarto de sombra
já não cintila entre os gerânios e as rosas.
Lembro-me ou esqueço, alguém escreve
com sílabas de orvalho que nada significam.
Tudo está e não está nesse jardim obscuro
onde a cinza é um espelho do fluxo do silêncio.
Lembro-me ou esqueço os frutos de oiro
e de veludo amadurecidos, a boca de musgo,
a voz da água, a cicatriz incandescente
da grande pedra. Que volúvel sossego
tão anterior a tudo na nudez do sono
e na alegria fiel à sombra que germina!
1 195
António Ramos Rosa
Os Signos Na Água
Os inacabados signos
silenciosos
que são a realidade e o desejo,
vejo-os no silêncio adormecidos
como um corpo de água que na água se dissipa.
Que dizer senão a confiança na imobilidade?
Tenho sede de uma nascente de água incerta.
Porquê a violência de uma palavra na simplicidade liberta?
O sabor do mistério dissipa-nos, desperta-nos.
Não toques mais nas formas consumadas
ou inventa ao nível da força errante
o sopro que pelos dedos desliza numa confiança simples.
silenciosos
que são a realidade e o desejo,
vejo-os no silêncio adormecidos
como um corpo de água que na água se dissipa.
Que dizer senão a confiança na imobilidade?
Tenho sede de uma nascente de água incerta.
Porquê a violência de uma palavra na simplicidade liberta?
O sabor do mistério dissipa-nos, desperta-nos.
Não toques mais nas formas consumadas
ou inventa ao nível da força errante
o sopro que pelos dedos desliza numa confiança simples.
1 218
António Ramos Rosa
A Volubilidade do Ser
Um sopro sobre as nuvens, sobre as ondas e as árvores
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
e a terra iluminou-se como uma fulva corola.
Estamos perto de estar na lucidez aérea.
E todo o ser desperta e longamente esquiva-se.
Que sinuosas cortesias nas evidências que se acendem!
O que não pode ser dito, o que não pode ser amado
fulgura no silêncio numa brancura imóvel.
Que nudez de amantes sem fantasmas, que alegria no vento,
que ouro tão leve, tão dócil, tão alegre!
No ar desenham-se mil caprichos, mil delícias,
mil carícias e é o ócio que vence na harmonia.
Nada interrompe ou obscurece os volúveis enlaces
que se consumam na claridade. O pensamento move-se
na evidência de ser o próprio ritmo do ar.
1 125
António Ramos Rosa
A Casa
Um sossegado alento na penumbra de madeira.
A casa adormeceu e está viva numa tranquila pulsação.
Oiço um leve martelar de teclas de sombra.
Um prato de cobre brilha verticalmente na obscuridade.
A mesa é redonda e limpa como um círculo de harmonia.
Numa parede flutuam arabescos cintilantes.
O tempo segrega sílabas de argila e espuma.
A casa adormeceu e está viva numa tranquila pulsação.
Oiço um leve martelar de teclas de sombra.
Um prato de cobre brilha verticalmente na obscuridade.
A mesa é redonda e limpa como um círculo de harmonia.
Numa parede flutuam arabescos cintilantes.
O tempo segrega sílabas de argila e espuma.
1 092
António Ramos Rosa
Quase
Quase vejo uma face cega e tranquila entre o sono e a morte.
Quase se ilumina uma imagem de água na veracidade do enigma.
Quase a nitidez de um círculo de paz, quase uma sílaba,
quase uma constelação do ar, quase uma confiança
no vazio. Ou nem sequer um marulho ou vibração clara
porque a mão escreve crivada de fulgores vazios
e todas as corolas se apagam no deserto.
É quase a transparência, é quase o limiar.
Extinguiram-se os sonhos e os caminhos, extinguiu-se a água
e o gérmen, que é semelhante à água. Não há fundo,
e já não ouço o tropel dos apelos, o rumor dos ombros.
Com os olhos desertos procuro a respiração do mar.
Quase se ilumina uma imagem de água na veracidade do enigma.
Quase a nitidez de um círculo de paz, quase uma sílaba,
quase uma constelação do ar, quase uma confiança
no vazio. Ou nem sequer um marulho ou vibração clara
porque a mão escreve crivada de fulgores vazios
e todas as corolas se apagam no deserto.
É quase a transparência, é quase o limiar.
Extinguiram-se os sonhos e os caminhos, extinguiu-se a água
e o gérmen, que é semelhante à água. Não há fundo,
e já não ouço o tropel dos apelos, o rumor dos ombros.
Com os olhos desertos procuro a respiração do mar.
1 038
António Ramos Rosa
Moradia
Talvez serenamente a moradia contínua
de uma limpidez e de uma leveza extremas.
Vejo as dunas da casa as vivas águas
a madeira que é uma nascente lisa
as largas folhas os papéis da sombra.
Sinto um odor novo a ramos e a pólen no silêncio.
A casa sabe a terra, a um inexplorado campo.
Ninguém me estendeu a mão mas o silêncio é cordial.
O corpo que vejo é de uma essencial delicadeza.
A ordem clara da mesa corresponde à transparência do jardim.
O meu pensamento vagueia nulo num vazio habitável.
Compreendo as árvores na sua obscura e leve densidade.
Mais do que nunca estou imerso no ser na sua luz intacta.
Perdi os atributos estou reduzido à essência.
Além é ainda aqui o horizonte brilha no interior da casa.
Amo na tranquilidade do átrio em consonância com as árvores e o mar.
de uma limpidez e de uma leveza extremas.
Vejo as dunas da casa as vivas águas
a madeira que é uma nascente lisa
as largas folhas os papéis da sombra.
Sinto um odor novo a ramos e a pólen no silêncio.
A casa sabe a terra, a um inexplorado campo.
Ninguém me estendeu a mão mas o silêncio é cordial.
O corpo que vejo é de uma essencial delicadeza.
A ordem clara da mesa corresponde à transparência do jardim.
O meu pensamento vagueia nulo num vazio habitável.
Compreendo as árvores na sua obscura e leve densidade.
Mais do que nunca estou imerso no ser na sua luz intacta.
Perdi os atributos estou reduzido à essência.
Além é ainda aqui o horizonte brilha no interior da casa.
Amo na tranquilidade do átrio em consonância com as árvores e o mar.
1 123
António Ramos Rosa
A Haste
Na claridade da pedra sobre a poeira áspera
a eloquência imóvel de uma nascente vazia.
Na espessura do vento sem folhagem, a branca incandescência.
Do vazio nada se levanta, nada quebra o sigilo.
O ouvido é liso ao rumor de um poço abandonado.
Não há cifras na força do silêncio. Apenas a mão
é porosa e frágil quando o espaço nos escuta.
Uma chama escrita dilata-se volúvel
e no ardor imóvel inventa-se uma haste.
a eloquência imóvel de uma nascente vazia.
Na espessura do vento sem folhagem, a branca incandescência.
Do vazio nada se levanta, nada quebra o sigilo.
O ouvido é liso ao rumor de um poço abandonado.
Não há cifras na força do silêncio. Apenas a mão
é porosa e frágil quando o espaço nos escuta.
Uma chama escrita dilata-se volúvel
e no ardor imóvel inventa-se uma haste.
1 184
António Ramos Rosa
A Fábula do Vento
O que eu te quero contar não foi dito nem está escrito na pele de nenhuma página. Ou foi dito e escrito milhares de vezes e milhares de vezes apagado pela própria palavra. Sem visão, no vão do esquecimento, tento iniciar uma fábula do vento até à ondulação, até à transparência. Tenho na boca o sabor de um canto que é já o canto de um sabor aéreo. O meu desejo procura construir cálices incendiados, sílabas amorosas, hieroglifos de água e fogo. Não estou no centro mas na orla da distância, na frescura da soberana inteligência do mar. Reconheço agora todas as qualidades do silêncio, da brancura e da luz e da sua móvel mas permanente equivalência. A interrogação mais pura levanta-se e resolve-se em mil ondas incessantes, nas volutas vertiginosas do vento.
1 178
António Ramos Rosa
Nas Evidências do Calor
Nas evidências do calor, reconheço a primazia do solo e os músculos pacientes dos caminhos. Cada acaso do meu campo vital, cada pulsação e cada sopro afirmam a força da terra e a resina das palavras. As evidências respiram em uníssono com o corpo harmonioso. Pelo fogo, pela cinza, pela seiva. Algo se nos oferece e nos interroga, algo nos aceita. Simples, soberana é a voz silenciosa do espaço. À claridade das pedras e das árvores, eleva-se, num silencioso gesto de presença, a figura germinal de uma alegria terrestre.
661
António Ramos Rosa
O Que Separa E o Que Une
O que separa prevalece em suas lâmpadas opacas.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.
É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.
Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.
Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.
Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
A atenção não se comove. Conhecer
não é libertar o mundo.
Não espero na claridade mais do que a monotonia
pungente e corrosiva.
A móvel sombra que diviso não é mais do que uma sombra.
Tudo o que me rodeia não é glória discreta.
É aqui o sítio sem sabor, a superfície
em que a forma não sobe ao poder mais intenso,
aqui não há o ritmo do aberto,
aqui nada está imerso no azul do ser,
aqui não há brisas que transfigurem o quotidiano.
Que vigília de árvores poderá abrir a imóvel passagem
que é uma planura do pensamento e um profundo espaço?
Haverá um rio que passe através de tudo e que tudo limpe
como se fosse uma inteligência em movimento que estremece e abre?
Sinto que singro e que celebro e me desprendo
num retorno a um presente em que confio.
Talvez o anel prenda ainda a substância
que quer a liberdade, a argila ardente
e aérea,
talvez o círculo se cerre ainda sobre o corpo.
Mas uma brisa de sombra imediata
traz a leveza funda que inebria e liberta
e um acorde branco de intemporal frescura.
Tudo agora se diz com a língua do silêncio.
Junto do mais fresco impulso do desejo
participo de uma absoluta harmonia, de uma glória simples.
Nada é secreto ou tudo é secreto e evidente.
Tudo é tão central e tão fluente que dir-se-ia um rio.
Palavras e coisas alcançaram o mais claro apogeu.
Um luminoso rosto nasceu da respiração da água.
568
António Ramos Rosa
Meio-Dia
Contemplo a mulher adormecida. Ocupa uma metade do terraço, longa e voluptuosamente extensa, constelada de um silêncio que é todo aéreo e ondulante. Em volta o mundo converteu-se num pomar unânime. É um meio-dia interminável. Tudo está imóvel, fixo, como um centro. As superfícies lisas, brancas, sem reflexos, sem sombras. Imperceptível, insondável é o gesto fulgurante da imobilidade. A intensidade da presença identifica-se com o vazio da ausência. O meu corpo entende o corpo da mulher, enrola-se nas volutas da sua música silenciosa, adere às paisagens brancas do seu sono completo. Imóvel, não procuro palavras, nem as mais leves e transparentes: sinto-me fluido, extremamente aberto. Conheço as sensações da mulher nua: água, terra, fogo e vento. Conheço-a e amo-a através delas, numa relação de felicidade intensa e ao mesmo tempo imponderável. O sono da mulher é de horizontes múltiplos e em si germina o centro abrindo o aberto sem limites.
1 239
António Ramos Rosa
Pausas, Pausas Brancas
Pausas, pausas brancas
para que a cabeça
role por uma colina de mil esparsos perfumes.
para que a cabeça
role por uma colina de mil esparsos perfumes.
1 052
António Ramos Rosa
O Efémero Paraíso
Um mundo onde a ignorância é primavera
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
onde a alegria estremece deslumbrada
por um país que é um efémero paraíso
que se demora até ao fundo de uma esfera
por onde tudo se liberta com o vento e aclara.
O inalterável resplandece numa concha cristalina.
O próprio sopro é o movimento e as torrentes vibram.
Tudo se completa na unidade do silêncio.
Respira-se a folhagem com uma inteligência nova.
As linhas íntimas brilham na sombra do ar.
Um campo intenso recebe a grande luz. As sombras
cintilam na lucidez do repouso. A página abre-se.
Por graciosos canais circula o sentido iminente.
Uma única sílaba se respira ágil e leve.
Uma árvore marinha dá a resposta branca.
1 135
António Ramos Rosa
No Vaivém Imóvel
Nada mais que um pouco de luz e um pouco de vento. E umas quantas árvores cuja folhagem tremula e fulge, no delírio do ar. É real o que vejo, o que respiro: sou o próprio espaço em que estou. Trânsito fresco de minúsculas sombras e de folhas cintilantes. Circulam palavras leves de silêncio, de água, de ar. Ninguém é o sopro ligeiro que estimula e tranquiliza o vinho do sangue. Límpido o corpo, aberto e completo, límpida a sua ferida vertical. No vaivém imóvel há uma fulguração de um voo branco de sossegada iridiscência. Livre e certo, numa embriagada incerteza, o coração repousa e arde de luz e de alegria.
1 078
António Ramos Rosa
O Encontro
Por vezes, sem qualquer esforço, sou uma atmosfera ou identifico-me com um arvoredo, com a sua cor sombria, cor de veludo e silêncio, cor de estar ou ser, intemporal e densa. Eis onde vivo por momentos. Onde sou uma respiração do silêncio. Ou então uma encosta. Umas quantas janelas onde já ninguém vem assomar-se. Uma faixa oblíqua de cor ensimesmada no abandono de uma tristeza que é um gesto da imobilidade. Alongado, profundo, externo gosto de ser e nada mais. Estar ou ser no encontro tornou-se a exactidão pura de uma densidade tranquila e suficiente, internamente imensa. Contemplação intensa e calma, como liberta do desejo, e todavia a forma e o fundo do desejo como substância única, salva numa completa tranquilidade. Neste muro inabitável, por abandonado e solitário, está a mais viva e a mais sossegada habitabilidade do mundo. Sinto a vibração aérea do imperecível e todavia efémero. Sou agora, abandonando-me, o próprio encontro com o que não responde e que responde no silêncio do inanimado. Horizontal, vertical, estou reunido como uma pedra e não me afundo, não soçobro entre a sombra e a água.
1 073
António Ramos Rosa
O Excesso do Simples
Quando estarei desperto, preparado para? Na verdade, nada pressinto, a minha espera é vazia e prolonga-se no vazio sem qualquer rumo ou perspectiva. Onde a consistência interna de um corpo, onde a água, onde o subtil temor do perigo? Escrevo no entanto para a aceitação do mundo, para a perda e a festa reunidas na palavra inicial. Mas como, se não oiço ninguém, se não busco nada, se não procuro ninguém? Aqui não é aqui, mas o vão, o inominável obstáculo que é talvez o vazio. Voracidade e luz. Sol sem sombra, superfícies e superfícies brancas, ofuscantes. Vivo entre abandonos: abandonando, abandonado. Mas alguém respira na intensidade extrema do silêncio. A sua palavra é água e principia e completa. Mas essa voz agora está calada. E estas palavras separam-se, sem volubilidade, sem os seus gestos novos. Escrevo no entanto por uma vida selvagem e delicada e neutra. Algo busca em mim outra boca, algo inventa o júbilo da nudez do fogo. Atinjo o excesso e o excesso é o simples, o fortuito, o imediato. Eis que a pedra canta silenciosamente uma canção.
1 126
António Ramos Rosa
No Cimo
Abolido no cimo com o deus nulo do ar. A verdade apaga-se sem caminho, sem trama, sem as consoantes de pedra. Nudez com a terra e o sol no prisma flexível, no extremo círculo do silêncio. Veias abertas. Sulcos subtis. O corpo abriu-se inteiramente às brancas nascentes do vazio. Enraizado num lugar errante onde tudo respira, o deserto já não é o exílio, mas o astro único onde a sombra reverdece. Terra, ainda, dos ardentes cabelos, das primaveras vivas. O segredo indizível, maravilha discreta, ondula no ar como um aroma, como um murmúrio ou um nome leve que perpassa sem sentido, um sabor apenas, uma luz breve na morada móvel, uma trémula ilha transparente.
1 237
António Ramos Rosa
A Nudez Das Palavras
A nudez das palavras como o único caminho,
o múltiplo caminho em que a sombra explode
deslumbrada. Dizer a ignorância da terra
e a profundidade da ausência no seu inabitável
silêncio. Uma falha secreta permanece sempre
aberta. Que indefinido sinal poderá surgir
do ilegível? Tudo está suspenso no vazio.
Onde a espuma, onde a respiração profusa
do mistério? Porque não recolhe o ar
o desejo de um início e o repouso da origem?
Palavras, palavras ainda mais nuas com a pureza do húmus
e a luz das pedras. Palavras para a ausência e o abandono.
Para o pouco e o nada, para a sobriedade do silêncio.
No coração do vazio há uma claridade que inicia.
Prepara-te para a aliança na vacuidade da tua morada.
o múltiplo caminho em que a sombra explode
deslumbrada. Dizer a ignorância da terra
e a profundidade da ausência no seu inabitável
silêncio. Uma falha secreta permanece sempre
aberta. Que indefinido sinal poderá surgir
do ilegível? Tudo está suspenso no vazio.
Onde a espuma, onde a respiração profusa
do mistério? Porque não recolhe o ar
o desejo de um início e o repouso da origem?
Palavras, palavras ainda mais nuas com a pureza do húmus
e a luz das pedras. Palavras para a ausência e o abandono.
Para o pouco e o nada, para a sobriedade do silêncio.
No coração do vazio há uma claridade que inicia.
Prepara-te para a aliança na vacuidade da tua morada.
1 192
António Ramos Rosa
Corpo Nocturno
Suspenso de uma varanda nocturna, na densa evanescência da noite, quem escuta, quem vê as sílabas derrubadas, as vogais e as gotas noctâmbulas, as miríades estilhaçadas de um dédalo que é talvez o corpo incendiado, o corpo inacessível? Todo o desejo é desejo de espaço e das gargantas que o habitam, despertas, vivíssimas. Um sombrio sangue mistura-se à espuma do ar, combina-se com o silêncio das árvores, penetra nas bocas com um delicado calor. Breve maravilha imóvel. Que música de minúcias leves! É apenas um lábio ou uma boca que crepita na sombra? Os ombros respiram como barcos, as palavras enrolam-se como folhas calmas no corpo que se abandona à terra numa obscura e ardente lucidez.
1 174
António Ramos Rosa
Na Perda Sem Fim
Escrevo-te quando a mão já não escreve quase. Aqui, onde ainda estou e onde não estou, aqui onde nada ocorre a não ser a infinita perda que. Mas não será este o caminho? Para quê esperar, para quê crer? A negação aceite, assumida porventura, a não-esperança, não seria a transparência mesma, a nudez do puro vazio? Talvez este seja o maior mito, o mito da morte de todos os mitos.
Porque nada tenho, nada sou, a não ser esta vacuidade silenciosa. Talvez ela preserve o gérmen na sua obscuridade irredutível. Nada sei a não ser que, inacessível, é algumas vezes próxima, igual, permanente, inicial. Na verdade, sou e não sou esta abertura que apenas sinto por vislumbres que no entanto se prolongam habitáveis no seu puro enigma natural, tranquilo. É nela que sinto a possibilidade de uma outra vida, original, e a sua liberdade silenciosa. Escrever é actualizar a possibilidade de me identificar com este obscuro fluxo que a palavra reaviva no seu silêncio essencial.
………………………………………………………………………
Que desejo eu ser na perda sem fim, irrecusável, irredutível? Que as minhas palavras coagulassem como mãos de silêncio dentro da boca e que cheias e vazias não falassem, antes contivessem a palavra iminente, silenciosa, inicial, a viva palavra do silêncio. Assim, nada me distinguiria do vazio ardente, nenhuma distância me separaria do fluxo, eu seria um animal de fogo e sombra. Abolido, seria a própria perda e o seu canto, a lisura extrema da nudez, a neutralidade vibrante. Habitante da coincidência branca, sem figuras, sem ecos, que podem as palavras dizer na vacuidade livre? Apenas um murmúrio branco, quase imperceptível, a respiração da página e uma igualdade nula que em igualdade se resolve sempre dispersa e una, sempre nula, voz que se desenha em silêncio, mas não palavra, lucidez vazia do ilegível, plenitude de nada.
Porque nada tenho, nada sou, a não ser esta vacuidade silenciosa. Talvez ela preserve o gérmen na sua obscuridade irredutível. Nada sei a não ser que, inacessível, é algumas vezes próxima, igual, permanente, inicial. Na verdade, sou e não sou esta abertura que apenas sinto por vislumbres que no entanto se prolongam habitáveis no seu puro enigma natural, tranquilo. É nela que sinto a possibilidade de uma outra vida, original, e a sua liberdade silenciosa. Escrever é actualizar a possibilidade de me identificar com este obscuro fluxo que a palavra reaviva no seu silêncio essencial.
………………………………………………………………………
Que desejo eu ser na perda sem fim, irrecusável, irredutível? Que as minhas palavras coagulassem como mãos de silêncio dentro da boca e que cheias e vazias não falassem, antes contivessem a palavra iminente, silenciosa, inicial, a viva palavra do silêncio. Assim, nada me distinguiria do vazio ardente, nenhuma distância me separaria do fluxo, eu seria um animal de fogo e sombra. Abolido, seria a própria perda e o seu canto, a lisura extrema da nudez, a neutralidade vibrante. Habitante da coincidência branca, sem figuras, sem ecos, que podem as palavras dizer na vacuidade livre? Apenas um murmúrio branco, quase imperceptível, a respiração da página e uma igualdade nula que em igualdade se resolve sempre dispersa e una, sempre nula, voz que se desenha em silêncio, mas não palavra, lucidez vazia do ilegível, plenitude de nada.
1 140
António Ramos Rosa
O Tempo
Que dizer quando o tempo se esquece e há um nimbo
verde que abriga num claro sortilégio?
Estamos tão atentos que vemos os minúsculos
matizes. É talvez a nascente que cintila.
O sangue ascende até ao cimo das árvores.
Todo o mundo é música de água ou transparência.
A inteligência é o sabor completo do silêncio.
Onde estamos é a insondável delicadeza de uma estrela.
A criança está com a mãe numa nebulosa dourada.
O desejo de união encontra a terra fluida.
Alguns sons vêm da sombra e formam uma esfera.
Algumas palavras se juntam e são pétalas abertas.
Todo o nosso saber é uma ignorância fértil.
O ritmo das nuvens ordena as nossas mesas.
Por toda a parte radiosos, minúsculos afluentes.
verde que abriga num claro sortilégio?
Estamos tão atentos que vemos os minúsculos
matizes. É talvez a nascente que cintila.
O sangue ascende até ao cimo das árvores.
Todo o mundo é música de água ou transparência.
A inteligência é o sabor completo do silêncio.
Onde estamos é a insondável delicadeza de uma estrela.
A criança está com a mãe numa nebulosa dourada.
O desejo de união encontra a terra fluida.
Alguns sons vêm da sombra e formam uma esfera.
Algumas palavras se juntam e são pétalas abertas.
Todo o nosso saber é uma ignorância fértil.
O ritmo das nuvens ordena as nossas mesas.
Por toda a parte radiosos, minúsculos afluentes.
680
António Ramos Rosa
Na Perda Sem Perda
Donde parto — acaso partirei? Porque não me poderei manter na expectativa da não-espera, aberto e nulo, ao nível exacto da sombra, apagado e porventura vivo ainda, sobre uma folha, como um insecto, dormindo sem avidez, envolvido por fugidias sombras, igualado ao silêncio de mil rumores vegetais? Porque me abri eu, porque parti? Posso acaso regressar ao primeiro embalo do ar, que não era quimera nem visão, que não era nada ou era a simplicidade aérea, a completa entrega de um corpo verde que se prolongava pelo espaço, que era espaço e se demorava na imobilidade como num sonho? Que volúpia, que nostalgia! Quando fui assim? Quando serei assim? Será que, escrevendo, me aproximo desse letargo ardente, será que, na sombra do que escrevo, no vazio que abro, abrigo a criança feliz que nunca se perdeu e que na perda não permite a perda? Sei agora talvez o sabor de outra ignorância. Dir-se-ia que o impossível desejo se volveu na respiração da página e na abertura do corpo. Nada começou, tudo terá já começado, mas é agora que as palavras se apagam nas veias suaves do ar, é agora que, nas altas ervas do espaço, um corpo se entrega e se consuma unido à boca do silêncio…
1 106
António Ramos Rosa
No Ovo da Sombra
Escrevo não para abrir um espaço, escrevo talvez para me fechar num grande ovo de sombra com árvores imensas e lâmpadas de pedra. Longe, longe, longe, na amplitude, no compacto, na ignorância cálida, na perfeição fechada do enigma. Eis que encontro o encontro na cegueira azul, no silêncio da afasia, na boca apagada e escura, na imobilidade vegetal. É o regresso ao sim do sono e à densidade terrestre. Conheço agora a palavra que não vibra, a palavra imersa no sal da sua sombra. Longínquo, longínquo é o espaço onde nada ressoa, onde tudo flui obscuro e aéreo, onde nada se diz, onde nada se perde.
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