Poemas neste tema
Solidão
Fernando Pessoa
Lembro-me bem do seu olhar.
Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto...
Sim o resto parece-se apenas com a vida.
Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.
Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
Onde sofrer seja uma coisa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.
Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.
Ele atravessa ainda a minha alma,
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar. O resto...
Sim o resto parece-se apenas com a vida.
Ontem, passei nas ruas como qualquer pessoa.
Olhei para as montras despreocupadamente
E não encontrei amigos com quem falar.
De repente vi que estava triste, mortalmente triste,
Tão triste que me pareceu que me seria impossível
Viver amanhã, não porque morresse ou me matasse,
Mas porque seria impossível viver amanhã e mais nada.
Fumo, sonho, recostado na poltrona.
Dói-me viver como uma posição incómoda.
Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
Onde sofrer seja uma coisa mais suave,
Onde viver custe menos ao pensamento,
E onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
E acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
Nem no dia do mês ou da semana que é hoje.
Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
Um coração exageradamente espontâneo
Que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
Que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta
Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.
4 847
Fernando Pessoa
Um dia baço mas não frio...
Um dia baço mas não frio...
Um dia como
Se não tivesse paciência pra ser dia,
E só num assomo,
Num ímpeto vazio
De dever, mas com ironia,
Se desse luz a um dia enfim
Igual a mim,
Ou então
Ao meu coração,
Um coração vazio,
Não de emoção
Mas de buscar, enfim –
Um coração baço mas não frio.
18/03/1935
Um dia como
Se não tivesse paciência pra ser dia,
E só num assomo,
Num ímpeto vazio
De dever, mas com ironia,
Se desse luz a um dia enfim
Igual a mim,
Ou então
Ao meu coração,
Um coração vazio,
Não de emoção
Mas de buscar, enfim –
Um coração baço mas não frio.
18/03/1935
4 371
Fernando Pessoa
VIII. FERNÃO DE MAGALHÃES
No vale clareia uma fogueira.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto –
Cingi-lo, dos homens, o primeiro –,
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.
Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.
Uma dança sacode a terra inteira.
E sombras disformes e descompostas
Em clarões negros do vale vão
Subitamente pelas encostas,
Indo perder-se na escuridão.
De quem é a dança que a noite aterra?
São os Titãs, os filhos da Terra,
Que dançam da morte do marinheiro
Que quis cingir o materno vulto –
Cingi-lo, dos homens, o primeiro –,
Na praia ao longe por fim sepulto.
Dançam, nem sabem que a alma ousada
Do morto ainda comanda a armada,
Pulso sem corpo ao leme a guiar
As naus no resto do fim do espaço:
Que até ausente soube cercar
A terra inteira com seu abraço.
Violou a Terra. Mas eles não
O sabem, e dançam na solidão;
E sombras disformes e descompostas,
Indo perder-se nos horizontes,
Galgam do vale pelas encostas
Dos mudos montes.
4 798
Fernando Pessoa
Tudo, menos o tédio, me faz tédio.
Tudo, menos o tédio, me faz tédio.
Quero, sem ter sossego, sossegar.
Tomar a vida todos os dias
Como um remédio,
Desses remédios que há para tomar.
Tanto aspirei, tanto sonhei, que tanto
De tantos tantos me fez nada em mim.
Minhas mãos ficaram frias
Só de aguardar o encanto
Daquele amor que as aquecesse enfim
Frias, vazias,
Assim.
05/09/1934
Quero, sem ter sossego, sossegar.
Tomar a vida todos os dias
Como um remédio,
Desses remédios que há para tomar.
Tanto aspirei, tanto sonhei, que tanto
De tantos tantos me fez nada em mim.
Minhas mãos ficaram frias
Só de aguardar o encanto
Daquele amor que as aquecesse enfim
Frias, vazias,
Assim.
05/09/1934
5 025
Fernando Pessoa
Na véspera de nada
Na véspera de nada
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.
Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.
11/10/1934
Ninguém me visitou.
Olhei atento a estrada
Durante todo o dia
Mas ninguém vinha ou via,
Ninguém aqui chegou.
Mas talvez não chegar
Queira dizer que há
Outra estrada que achar,
Certa estrada que está,
Como quando da festa
Se esquece quem lá está.
11/10/1934
4 704
Fernando Pessoa
Não sei de que maneira a sucessão
ACTO III
Não sei de que maneira a sucessão
Dos dias tem achado este meu ser
Que a si mesmo se tem ignorado.
Não sei que tempo vago atravessei
Nos breves dias de febril ausência
De parte do meu ser. Agora
Não sei o que há em mim que sobrenada
A ignorada coisa que perdi.
Cansado já doutra maneira vaga,
Sinto-me diferentemente o mesmo;
Não sei detidamente o que mudou
Em mim, nem sei o que de mim me resta
A não ser esta vaga e horrorosa
Sufocação da existência inerte
Num pavor. Mas a mesma já não é.
Sinto pavor, mas já não é o mesmo
Pavor, nem é a mesma solidão
D'outrora, a solidão em que me sinto.
Queimei livros, papéis,
Destruí tudo por ficar bem só,
Por quê não sei, não sabê-lo desejo.
Resta-me apenas um desejo ermo
De amar e de sentir, mas não me sinto
Educado no ser ou natural
Ao sentimento, à emoção, à vida,
Mas alheado (...) e negramente
E orgulhoso mais por ser distante
Do que distante por ser orgulhoso.
Pesado fardo da grandeza! Horror!
Não a reis ou a príncipes lhes pesa
E o responsável ânimo (...)
Como a mim o existir. Pesa-me mais
Do que dantes, mas – como o sei?
Menos misteriosamente, menos
Intimamente. Estou mais apagado
E a minha antiga dor imorredoura
Mais escondida dentro em mim de mim
E eu menos, não sei como, isolado
Só de mim mesmo, perdido (...)
Neste atordoamento nasce em mim
Qualquer coisa de negro e estranho e novo
Que pressinto com medo, e que, outrora,
Arredado de mim dentro em minha alma,
Eu pressentia sem o pressentir,
Sem consciência consciente dela.
Como a linha de negro num poente
Se ergue em negra nuvem e enegrece
E cresce levantando-se e obumbrando
O firmamento, sinto despontar
Prenúncios de tormento e confusão
Num silêncio que insiste dentro em mim.
Há entre mim e o real um véu
À própria concepção impenetrável.
Não me concebo amando, combatendo,
Vivendo como os outros. Há em mim, íntima,
Uma impossibilidade de existir
De que abortei, vivendo.
Tudo transcende tudo
E é mais real e menor do que é.
Sinto-me perturbado
E a consciência da perturbação
Mais me perturba.
Não sei que desejar
Nem que desejável ser em mim.
Todo o modo de ser além da morte
Me apavora e confrange.
Montanhas, solidões, objectos todos,
Ainda que assim eu tenha de morrer,
Revelai-me a vossa alma, isso que faz
Que se me gele a mente ao perceber
Que realmente existis e em verdade,
Que sois facto, existência, coisas, ser.
Quantos o sentem, quantos, ao ouvir-me
«Estou aqui» compreenderão
Íntima e inteiramente, ouvindo n'alma
A alma da minha voz?
A expressão
Fez-se para o vulgar, para o banal.
A poesia torce-a e dilacera-a;
Mas isto que eu em vão impor-lhe quero
Transcende-lhe o poder e a sugestão.
Metáfora nem símbolo o exprime;
Desespero ao ouvir-me assim dizer
Isso que n'alma tenho. Sinto-o, sinto-o
E só falando não me compreendo.
No mais simples dos factos é que existe
O horror maior nisto: que há existência.
Sentir isto, eis o horror que não tem nome!
Mas senti-lo a sentir, intimamente,
Não com anseios ou suspiros d'alma,
Mas com pavor supremo, com gelado
Inerte horror de desesperação.
De vez em quando surge-me nos lábios
Uma canção de amor e, instintivo,
Nela choro uma amada morta. Sim.
É a noiva eterna morta de um eu
Que não soube amar.
Ah, que feliz
Seria se eu pudesse aniquilar
O pensamento, a comoção – o que eu
Mais odeio e mais prezo – e m'envolver
Numa vida vazia e trabalhosa,
Com amores, ternura! Beberia
A alegria do regato de existir
Sem perguntar onde era a sua origem
Nem onde tinha fim. Felicidade
Fez-se para quem a não pode sentir.
Completo e apreensível horror
Do mistério que eis volta ao pensamento!
Hoje se morre alguém que estimo – se eu
Estou ainda algo em mim absorto
No que é mais do que eu – se morre alguém
Que amo – admitamo-lo – já não choro,
Não sinto dor: gela-me apenas, muda,
A presença da morte que triplica
O sentimento do mistério em mim.
Não sei de que maneira a sucessão
Dos dias tem achado este meu ser
Que a si mesmo se tem ignorado.
Não sei que tempo vago atravessei
Nos breves dias de febril ausência
De parte do meu ser. Agora
Não sei o que há em mim que sobrenada
A ignorada coisa que perdi.
Cansado já doutra maneira vaga,
Sinto-me diferentemente o mesmo;
Não sei detidamente o que mudou
Em mim, nem sei o que de mim me resta
A não ser esta vaga e horrorosa
Sufocação da existência inerte
Num pavor. Mas a mesma já não é.
Sinto pavor, mas já não é o mesmo
Pavor, nem é a mesma solidão
D'outrora, a solidão em que me sinto.
Queimei livros, papéis,
Destruí tudo por ficar bem só,
Por quê não sei, não sabê-lo desejo.
Resta-me apenas um desejo ermo
De amar e de sentir, mas não me sinto
Educado no ser ou natural
Ao sentimento, à emoção, à vida,
Mas alheado (...) e negramente
E orgulhoso mais por ser distante
Do que distante por ser orgulhoso.
Pesado fardo da grandeza! Horror!
Não a reis ou a príncipes lhes pesa
E o responsável ânimo (...)
Como a mim o existir. Pesa-me mais
Do que dantes, mas – como o sei?
Menos misteriosamente, menos
Intimamente. Estou mais apagado
E a minha antiga dor imorredoura
Mais escondida dentro em mim de mim
E eu menos, não sei como, isolado
Só de mim mesmo, perdido (...)
Neste atordoamento nasce em mim
Qualquer coisa de negro e estranho e novo
Que pressinto com medo, e que, outrora,
Arredado de mim dentro em minha alma,
Eu pressentia sem o pressentir,
Sem consciência consciente dela.
Como a linha de negro num poente
Se ergue em negra nuvem e enegrece
E cresce levantando-se e obumbrando
O firmamento, sinto despontar
Prenúncios de tormento e confusão
Num silêncio que insiste dentro em mim.
Há entre mim e o real um véu
À própria concepção impenetrável.
Não me concebo amando, combatendo,
Vivendo como os outros. Há em mim, íntima,
Uma impossibilidade de existir
De que abortei, vivendo.
Tudo transcende tudo
E é mais real e menor do que é.
Sinto-me perturbado
E a consciência da perturbação
Mais me perturba.
Não sei que desejar
Nem que desejável ser em mim.
Todo o modo de ser além da morte
Me apavora e confrange.
Montanhas, solidões, objectos todos,
Ainda que assim eu tenha de morrer,
Revelai-me a vossa alma, isso que faz
Que se me gele a mente ao perceber
Que realmente existis e em verdade,
Que sois facto, existência, coisas, ser.
Quantos o sentem, quantos, ao ouvir-me
«Estou aqui» compreenderão
Íntima e inteiramente, ouvindo n'alma
A alma da minha voz?
A expressão
Fez-se para o vulgar, para o banal.
A poesia torce-a e dilacera-a;
Mas isto que eu em vão impor-lhe quero
Transcende-lhe o poder e a sugestão.
Metáfora nem símbolo o exprime;
Desespero ao ouvir-me assim dizer
Isso que n'alma tenho. Sinto-o, sinto-o
E só falando não me compreendo.
No mais simples dos factos é que existe
O horror maior nisto: que há existência.
Sentir isto, eis o horror que não tem nome!
Mas senti-lo a sentir, intimamente,
Não com anseios ou suspiros d'alma,
Mas com pavor supremo, com gelado
Inerte horror de desesperação.
De vez em quando surge-me nos lábios
Uma canção de amor e, instintivo,
Nela choro uma amada morta. Sim.
É a noiva eterna morta de um eu
Que não soube amar.
Ah, que feliz
Seria se eu pudesse aniquilar
O pensamento, a comoção – o que eu
Mais odeio e mais prezo – e m'envolver
Numa vida vazia e trabalhosa,
Com amores, ternura! Beberia
A alegria do regato de existir
Sem perguntar onde era a sua origem
Nem onde tinha fim. Felicidade
Fez-se para quem a não pode sentir.
Completo e apreensível horror
Do mistério que eis volta ao pensamento!
Hoje se morre alguém que estimo – se eu
Estou ainda algo em mim absorto
No que é mais do que eu – se morre alguém
Que amo – admitamo-lo – já não choro,
Não sinto dor: gela-me apenas, muda,
A presença da morte que triplica
O sentimento do mistério em mim.
4 190
Fernando Pessoa
Na noite em que não durmo
Na noite em que não durmo
Não dorme
O relógio também.
Pus na alma esvurmo.
É enorme
O que a treva contém.
Podridão da alma, moribundo
Do que me julguei ser,
Ouço o mundo.
É um vento surdo e fundo,
Que do abismo profundo
Vela o meu morrer.
Indiferente assisto
Ao cadaverizar
Do que sou.
Em que alma ou corpo existo?
Vou dormir ou despertar?
Onde estou se não estou?
Nada. É na treva onde fala
O relógio fatal,
Uma grande, anónima sala,
Uma grande treva onde se cala,
Um grande bem que sabe a mal,
Uma vida que se desiguala,
Uma morte que não sabe a que é igual.
13/03/1933
Não dorme
O relógio também.
Pus na alma esvurmo.
É enorme
O que a treva contém.
Podridão da alma, moribundo
Do que me julguei ser,
Ouço o mundo.
É um vento surdo e fundo,
Que do abismo profundo
Vela o meu morrer.
Indiferente assisto
Ao cadaverizar
Do que sou.
Em que alma ou corpo existo?
Vou dormir ou despertar?
Onde estou se não estou?
Nada. É na treva onde fala
O relógio fatal,
Uma grande, anónima sala,
Uma grande treva onde se cala,
Um grande bem que sabe a mal,
Uma vida que se desiguala,
Uma morte que não sabe a que é igual.
13/03/1933
4 295
Fernando Pessoa
No meu sonho estiolaram
No meu sonho estiolaram
As maravilhas de ali,
No meu coração secaram
As lágrimas que sofri.
Mas os que amei não acharam
Quem eu era, se era em si,
E a sombra veio e notaram
Quem fui e nunca senti.
10/08/1932
As maravilhas de ali,
No meu coração secaram
As lágrimas que sofri.
Mas os que amei não acharam
Quem eu era, se era em si,
E a sombra veio e notaram
Quem fui e nunca senti.
10/08/1932
4 056
Fernando Pessoa
A lâmpada nova
A lâmpada nova
No fim de apagar
Volta a dar a prova
De estar a brilhar.
Assim a alma sua
Deveras desperta
Quando a noite é nua
E se acha deserta.
Vestígio que ergueu
Sem ser no lugar
De onde se perdeu...
Nasce devagar!
03/08/1934
No fim de apagar
Volta a dar a prova
De estar a brilhar.
Assim a alma sua
Deveras desperta
Quando a noite é nua
E se acha deserta.
Vestígio que ergueu
Sem ser no lugar
De onde se perdeu...
Nasce devagar!
03/08/1934
4 449
Fernando Pessoa
O vento sopra lá fora.
O vento sopra lá fora.
Faz-me mais sozinho, e agora
Porque não choro, ele chora.
É um som abstracto e fundo.
Vem do fim vago do mundo.
Seu sentido é ser profundo.
Diz-me que nada há em tudo.
Que a virtude não é escudo
E que o melhor é ser mudo.
27/12/1933
Faz-me mais sozinho, e agora
Porque não choro, ele chora.
É um som abstracto e fundo.
Vem do fim vago do mundo.
Seu sentido é ser profundo.
Diz-me que nada há em tudo.
Que a virtude não é escudo
E que o melhor é ser mudo.
27/12/1933
5 243
Fernando Pessoa
É um campo verde e vasto,
É um campo verde e vasto,
Sozinho sem saber,
De vagos gados pasto,
Sem águas a correr.
Só campo, só sossego,
Só solidão calada.
Olho-o, e nada nego
E não afirmo nada.
Aqui em mim me exalço
No meu fiel torpor.
O bem é pouco e falso,
O mal é erro e dor.
Agir é não ter casa,
Pensar é nada ter.
Aqui nem luzes ou asa
Nem razão para a haver.
E um vago sono desce
Só por não ter razão,
E o mundo alheio esquece
À vista e ao coração.
Torpor que alastra e excede
O campo e o gado e os ver.
A alma nada pede
E o corpo nada quer.
Feliz sabor de nada.
Insciência do mundo,
Aqui sem porto ou estrada,
Nem horizonte ao fundo.
24/01/1933
Sozinho sem saber,
De vagos gados pasto,
Sem águas a correr.
Só campo, só sossego,
Só solidão calada.
Olho-o, e nada nego
E não afirmo nada.
Aqui em mim me exalço
No meu fiel torpor.
O bem é pouco e falso,
O mal é erro e dor.
Agir é não ter casa,
Pensar é nada ter.
Aqui nem luzes ou asa
Nem razão para a haver.
E um vago sono desce
Só por não ter razão,
E o mundo alheio esquece
À vista e ao coração.
Torpor que alastra e excede
O campo e o gado e os ver.
A alma nada pede
E o corpo nada quer.
Feliz sabor de nada.
Insciência do mundo,
Aqui sem porto ou estrada,
Nem horizonte ao fundo.
24/01/1933
4 274
Fernando Pessoa
Ah, só eu sei
Ah, só eu sei
Quanto dói meu coração
Sem fé nem lei,
Sem melodia nem razão.
Só eu, só eu,
E não o posso dizer
Porque sentir é como o céu,
Vê-se mas não há nele que ver.
10/08/1932
Quanto dói meu coração
Sem fé nem lei,
Sem melodia nem razão.
Só eu, só eu,
E não o posso dizer
Porque sentir é como o céu,
Vê-se mas não há nele que ver.
10/08/1932
4 821
Fernando Pessoa
Como é por dentro outra pessoa
Como é por dentro outra pessoa
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
1934
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição de qualquer semelhança
No fundo.
1934
4 681
Fernando Pessoa
Vai pela estrada que na colina
Vai pela estrada que na colina
É um risco branco na encosta verde
Risco que em arco sobe e declina
E, sem que iguale, se à vista perde –
A cavalgada, formigas, cores,
De gente grande que aqui passou.
Eram dois sexos multicolores
E riram muitos por onde estou.
Por certo alegres assim prosseguem.
Quem porém sabe se o não sou mais –
Eu, só de vê-los e como seguem;
Eu, só de achá-los todos iguais?
Eles para eles são um do outro;
Pra mim são todos – a cavalgada –,
Numa alegria, distante e neutro,
Que a nenhum deles pode ser dada.
Os sentimentos não têm medida,
Nem, de uns para outros, comparação.
Vai já na curva que é a descida
A cavalgada meu coração.
15/12/1932
É um risco branco na encosta verde
Risco que em arco sobe e declina
E, sem que iguale, se à vista perde –
A cavalgada, formigas, cores,
De gente grande que aqui passou.
Eram dois sexos multicolores
E riram muitos por onde estou.
Por certo alegres assim prosseguem.
Quem porém sabe se o não sou mais –
Eu, só de vê-los e como seguem;
Eu, só de achá-los todos iguais?
Eles para eles são um do outro;
Pra mim são todos – a cavalgada –,
Numa alegria, distante e neutro,
Que a nenhum deles pode ser dada.
Os sentimentos não têm medida,
Nem, de uns para outros, comparação.
Vai já na curva que é a descida
A cavalgada meu coração.
15/12/1932
3 630
Fernando Pessoa
Ladram uns cães a distância,
Ladram uns cães à distância,
Cai uma tarde qualquer,
Do campo vem a fragrância
De campo, e eu deixo de ver.
Um sonho meio sonhado,
Em que o campo transparece,
Está em mim, está a meu lado,
ora me lembra ou me esquece.
E assim neste ócio profundo
Sem males vistos ou bens,
Sinto que todo este mundo
É um largo onde ladram cães.
25/12/1932
Cai uma tarde qualquer,
Do campo vem a fragrância
De campo, e eu deixo de ver.
Um sonho meio sonhado,
Em que o campo transparece,
Está em mim, está a meu lado,
ora me lembra ou me esquece.
E assim neste ócio profundo
Sem males vistos ou bens,
Sinto que todo este mundo
É um largo onde ladram cães.
25/12/1932
4 766
Fernando Pessoa
Passam na rua os cortejos
Passam na rua os cortejos
Das pessoas existentes.
Algumas vão ter ensejos,
Outras vão mudar de fato,
E outras são inteligentes.
Não conheço ali ninguém.
Nem a mim eu me conheço.
Olho-os sem nenhum desdém.
Também vou mudar de fato.
Também vivo e também esqueço.
Passam na rua comigo,
E eu e eles somos nós.
Todos temos um abrigo,
Todos mudamos de fato,
Ai, mas somos nus a sós.
26/09/1930
Das pessoas existentes.
Algumas vão ter ensejos,
Outras vão mudar de fato,
E outras são inteligentes.
Não conheço ali ninguém.
Nem a mim eu me conheço.
Olho-os sem nenhum desdém.
Também vou mudar de fato.
Também vivo e também esqueço.
Passam na rua comigo,
E eu e eles somos nós.
Todos temos um abrigo,
Todos mudamos de fato,
Ai, mas somos nus a sós.
26/09/1930
4 488
Fernando Pessoa
Há um grande som no arvoredo.
Há um grande som no arvoredo.
Parece um mar que há lá em cima.
É o vento, e o vento faz um medo...
Não sei se um coração me estima...
Sozinho sob os astros certos
Meu coração não sai da vida...
Ó vastos céus, iguais e abertos,
Que é esta alma indefinida?
21/10/1930
Parece um mar que há lá em cima.
É o vento, e o vento faz um medo...
Não sei se um coração me estima...
Sozinho sob os astros certos
Meu coração não sai da vida...
Ó vastos céus, iguais e abertos,
Que é esta alma indefinida?
21/10/1930
4 144
Fernando Pessoa
Bem, hoje que estou só e posso ver
Bem, hoje que estou só e posso ver
Com o poder de ver do coração
Quanto não sou, quanto não posso ser,
Quanto, se o for, serei em vão,
Hoje, vou confessar, quero sentir-me
Definitivamente ser ninguém,
E de mim mesmo, altivo, demitir-me
Por não ter procedido bem.
Falhei a tudo, mas sem galhardias,
Nada fui, nada ousei e nada fiz,
Nem colhi nas ortigas dos meus dias
A flor de parecer feliz.
Mas fica sempre, porque o pobre é rico
Em qualquer coisa, se procurar bem,
A grande indiferença com que fico.
Escrevo-o para o lembrar bem.
02/07/1931
Com o poder de ver do coração
Quanto não sou, quanto não posso ser,
Quanto, se o for, serei em vão,
Hoje, vou confessar, quero sentir-me
Definitivamente ser ninguém,
E de mim mesmo, altivo, demitir-me
Por não ter procedido bem.
Falhei a tudo, mas sem galhardias,
Nada fui, nada ousei e nada fiz,
Nem colhi nas ortigas dos meus dias
A flor de parecer feliz.
Mas fica sempre, porque o pobre é rico
Em qualquer coisa, se procurar bem,
A grande indiferença com que fico.
Escrevo-o para o lembrar bem.
02/07/1931
3 703
Fernando Pessoa
De aqui a pouco acaba o dia.
Daqui a pouco acaba o dia.
Não fiz nada.
Também, que coisa é que faria?
Fosse o que fosse, estava errada.
Daqui a pouco a noite vem.
Chega em vão
Para quem como eu só tem
Para contar o coração.
E após a noite a irmos dormir
Torna o dia.
Nada farei senão sentir.
Também que coisa é que faria?
31/08/1930
Não fiz nada.
Também, que coisa é que faria?
Fosse o que fosse, estava errada.
Daqui a pouco a noite vem.
Chega em vão
Para quem como eu só tem
Para contar o coração.
E após a noite a irmos dormir
Torna o dia.
Nada farei senão sentir.
Também que coisa é que faria?
31/08/1930
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Fernando Pessoa
Cheguei à janela,
Cheguei à janela,
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.
Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.
Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.
26/02/1931
Porque ouvi cantar.
É um cego e a guitarra
Que estão a chorar.
Ambos fazem pena,
São uma coisa só
Que anda pelo mundo
A fazer ter dó.
Eu também sou um cego
Cantando na estrada,
A estrada é maior
E não peço nada.
26/02/1931
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Fernando Pessoa
Vem dos lados da montanha
Vem dos lados da montanha
Uma canção que me diz
Que, por mais que a alma tenha,
Sempre há-de ser infeliz.
O mundo não é seu lar
E tudo que ele lhe der
São coisas que estão a dar
A quem não quer receber.
Diz isto? Não sei. Nem voz
Ouço, música, à janela
Onde me medito a sós
Como o luzir de uma estrela.
14/11/1931
Uma canção que me diz
Que, por mais que a alma tenha,
Sempre há-de ser infeliz.
O mundo não é seu lar
E tudo que ele lhe der
São coisas que estão a dar
A quem não quer receber.
Diz isto? Não sei. Nem voz
Ouço, música, à janela
Onde me medito a sós
Como o luzir de uma estrela.
14/11/1931
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Fernando Pessoa
Passava eu na estrada pensando impreciso,
Passava eu na estrada pensando impreciso,
Triste à minha moda.
Cruzou um garoto, olhou-me, e um sorriso
Agradou-lhe a cara toda.
Bem sei, bem sei, sorrirá assim
A um outro qualquer.
Mas então sorriu assim para mim...
Que mais posso eu querer?
Não sou nesta vida nem eu nem ninguém,
Vou sem ser nem prazo...
Que ao menos na estrada me sorria alguém
Ainda que por acaso.
22/04/1928
Triste à minha moda.
Cruzou um garoto, olhou-me, e um sorriso
Agradou-lhe a cara toda.
Bem sei, bem sei, sorrirá assim
A um outro qualquer.
Mas então sorriu assim para mim...
Que mais posso eu querer?
Não sou nesta vida nem eu nem ninguém,
Vou sem ser nem prazo...
Que ao menos na estrada me sorria alguém
Ainda que por acaso.
22/04/1928
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