Poemas neste tema
Sonhos e Imaginação
Pablo Neruda
LIV
É verdade que as andorinhas
vão se estabelecer na lua?
Levarão a primavera
tirando-a das cornijas?
Se afastarão no outono
as andorinhas da lua?
Buscarão amostras de bismuto
a bicadas no céu?
E aos balcões voltarão
polvilhadas de cinza?
vão se estabelecer na lua?
Levarão a primavera
tirando-a das cornijas?
Se afastarão no outono
as andorinhas da lua?
Buscarão amostras de bismuto
a bicadas no céu?
E aos balcões voltarão
polvilhadas de cinza?
1 176
Pablo Neruda
XIII
É verdade que só na Austrália
há crocodilos voluptuosos?
Como repartem o sol
na laranjeira as laranjas?
Vinha de uma boca amarga
a dentadura do sal?
É verdade que voa de noite
sobre minha pátria um condor negro?
há crocodilos voluptuosos?
Como repartem o sol
na laranjeira as laranjas?
Vinha de uma boca amarga
a dentadura do sal?
É verdade que voa de noite
sobre minha pátria um condor negro?
576
Pablo Neruda
LV
Por que não mandam as toupeiras
e as tartarugas à lua?
Os animais engenheiros
de cavidades e ranhuras
não poderiam tomar o encargo
destas longínquas inspeções?
e as tartarugas à lua?
Os animais engenheiros
de cavidades e ranhuras
não poderiam tomar o encargo
destas longínquas inspeções?
1 025
Pablo Neruda
Noite - LXXXIII
É bom, amor, sentir-te perto de mim na noite,
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.
Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.
Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos
algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.
invisível em teu sonho, seriamente noturna,
enquanto eu desenrolo minhas preocupações
como se fossem redes confundidas.
Ausente, pelos sonhos teu coração navega,
mas teu corpo assim abandonado respira
buscando-me sem ver-me, completando meu sonho
como uma planta que se duplica na sombra.
Erguida, serás outra que viverá amanhã,
mas das fronteiras perdidas na noite,
deste ser e não ser em que nos encontramos
algo fica acercando-nos na luz da vida
como se o selo da sombra assinalasse
com fogo suas secretas criaturas.
1 286
Pablo Neruda
LVI
Não achas que os dromedários
preservam lua em suas corcovas?
Não a semeiam nos desertos
com persistência clandestina?
E não estará emprestado o mar
por um curto tempo à terra?
Não teremos que devolvê-lo
com suas marés à lua?
preservam lua em suas corcovas?
Não a semeiam nos desertos
com persistência clandestina?
E não estará emprestado o mar
por um curto tempo à terra?
Não teremos que devolvê-lo
com suas marés à lua?
1 231
Pablo Neruda
XLVIII
São os seios das sereias
os redondos caracóis?
Ou são ondas petrificadas
ou jogo imóvel da espuma?
Não se incendiou a pradaria
com os vagalumes selvagens?
Os cabeleireiros do outono
despentearam os crisântemos?
os redondos caracóis?
Ou são ondas petrificadas
ou jogo imóvel da espuma?
Não se incendiou a pradaria
com os vagalumes selvagens?
Os cabeleireiros do outono
despentearam os crisântemos?
1 019
Pablo Neruda
Manhã - XXI
Oh que todo o amor propague em mim sua boca,
que não sofra um momento mais sem primavera,
eu não vendi senão minhas mãos à dor,
agora, bem-amada, deixa-me com teus beijos.
Cobre a luz do mês aberto com teu aroma,
fecha as portas com tua cabeleira
e em relação a mim não esqueças que se desperto e choro
é porque em sonhos apenas sou um menino perdido
que busca entre as folhas da noite tuas mãos,
o contato do trigo que tu me comunicas,
um rapto cintilante de sombra e energia.
Oh, bem-amada, e nada mais que sombra
por onde me acompanhes em teus sonhos
e me digas a hora da luz.
que não sofra um momento mais sem primavera,
eu não vendi senão minhas mãos à dor,
agora, bem-amada, deixa-me com teus beijos.
Cobre a luz do mês aberto com teu aroma,
fecha as portas com tua cabeleira
e em relação a mim não esqueças que se desperto e choro
é porque em sonhos apenas sou um menino perdido
que busca entre as folhas da noite tuas mãos,
o contato do trigo que tu me comunicas,
um rapto cintilante de sombra e energia.
Oh, bem-amada, e nada mais que sombra
por onde me acompanhes em teus sonhos
e me digas a hora da luz.
1 539
Pablo Neruda
XI
Até quando falam os outros
se nós temos falado?
Que diria José Martí
do pedagogo Marinello?
Quantos anos tem novembro?
Que segue pagando o outono
com tanto dinheiro amarelo?
Como chamar esse coquetel
que mistura vodca com relâmpagos?
se nós temos falado?
Que diria José Martí
do pedagogo Marinello?
Quantos anos tem novembro?
Que segue pagando o outono
com tanto dinheiro amarelo?
Como chamar esse coquetel
que mistura vodca com relâmpagos?
547
Pablo Neruda
Noite - LXXXI
Já és minha. Repousa com teu sonho em meu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como o âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,
enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.
Amor, dor, trabalhos, devem dormir agora.
Gira a noite sobre suas invisíveis rodas
e junto a mim és pura como o âmbar dormido.
Nenhuma mais, amor, dormirá com meus sonhos.
Irás, iremos juntos pelas águas do tempo.
Nenhuma viajará pela sombra comigo,
só tu, sempre-viva, sempre sol, sempre lua.
Já tuas mãos abriram os punhos delicados
e deixaram cair suaves sinais sem rumo
teus olhos se fecharam como duas asas cinzas,
enquanto eu sigo a água que levas e me leva:
a noite, o mundo, o vento enovelam seu destino,
e já não sou sem ti senão apenas teu sonho.
1 274
Pablo Neruda
Os sonhos
Irmã da água empenhada e de suas adversárias
as pedras do rio, a argila evidente, a tosca madeira;
quando levantavas sonhando a fronte na noite de Capri
caíam espigas de tua cabeleira, e em meu pensamento
voava o hipnótico enxame do campo do Chile;
meu sonho desviava seus trens para Antofagasta;
entravam chovendo na alva de Pillanlelbún,
ali onde o rio recolhe o cheiro do velho curtume
e a chuva salpica o recinto dos derrubados.
as pedras do rio, a argila evidente, a tosca madeira;
quando levantavas sonhando a fronte na noite de Capri
caíam espigas de tua cabeleira, e em meu pensamento
voava o hipnótico enxame do campo do Chile;
meu sonho desviava seus trens para Antofagasta;
entravam chovendo na alva de Pillanlelbún,
ali onde o rio recolhe o cheiro do velho curtume
e a chuva salpica o recinto dos derrubados.
1 149
Pablo Neruda
V
Que guardas sob tua corcova?
disse um camelo a uma tartaruga.
E a tartaruga perguntou:
Que conversas com as laranjas?
Tem mais folhas uma pereira
que Em Busca do Tempo Perdido?
Por que se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?
disse um camelo a uma tartaruga.
E a tartaruga perguntou:
Que conversas com as laranjas?
Tem mais folhas uma pereira
que Em Busca do Tempo Perdido?
Por que se suicidam as folhas
quando se sentem amarelas?
1 203
Pablo Neruda
VI
Por que o chapéu da noite
voa com tantos furos?
O que diz a velha cinza
quando caminha junto ao fogo?
Por que choram tanto as nuvens
e cada vez são mais alegres?
Para quem ardem os pistilos
do sol em sombra de eclipse?
Quantas abelhas tem o dia?
voa com tantos furos?
O que diz a velha cinza
quando caminha junto ao fogo?
Por que choram tanto as nuvens
e cada vez são mais alegres?
Para quem ardem os pistilos
do sol em sombra de eclipse?
Quantas abelhas tem o dia?
1 155
Pablo Neruda
II - o Rio
Eu entrei em Florença. Era
de noite. Tremi escutando
quase adormecido o que o doce rio
me contava. Eu não sei
o que dizem os quadros nem os livros
(não todos os quadros nem todos os livros,
só alguns),
mas sei o que dizem
todos os rios.
Têm o mesmo idioma que tenho.
Nas terras selvagens
o Orinoco me fala
e entendo, entendo
histórias que não posso repetir.
Há segredos meus
que o rio levou,
e o que me pediu lhe vou cumprindo
pouco a pouco na terra.
Reconheci na voz do Arno então
velhas palavras que buscavam minha boca,
como o que nunca conheceu o mel
e acha que reconhece seu sabor.
Assim escutei as vozes
do rio de Florença,
como se antes de ser me houvessem dito
o que agora escutava:
sonhos e passos que me uniam
à voz do rio,
seres em movimento,
lances de luz na história,
tercetos acesos como lâmpadas.
O pão e o sangue cantavam
com a voz noturna da água.
de noite. Tremi escutando
quase adormecido o que o doce rio
me contava. Eu não sei
o que dizem os quadros nem os livros
(não todos os quadros nem todos os livros,
só alguns),
mas sei o que dizem
todos os rios.
Têm o mesmo idioma que tenho.
Nas terras selvagens
o Orinoco me fala
e entendo, entendo
histórias que não posso repetir.
Há segredos meus
que o rio levou,
e o que me pediu lhe vou cumprindo
pouco a pouco na terra.
Reconheci na voz do Arno então
velhas palavras que buscavam minha boca,
como o que nunca conheceu o mel
e acha que reconhece seu sabor.
Assim escutei as vozes
do rio de Florença,
como se antes de ser me houvessem dito
o que agora escutava:
sonhos e passos que me uniam
à voz do rio,
seres em movimento,
lances de luz na história,
tercetos acesos como lâmpadas.
O pão e o sangue cantavam
com a voz noturna da água.
1 326
Pablo Neruda
XXXII
Há algo mais tolo na vida
que chamar-se Pablo Neruda?
Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?
Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?
Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?
Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
que chamar-se Pablo Neruda?
Há no céu da Colômbia
um colecionador de nuvens?
Por que sempre se fazem em Londres
os congressos de guarda-chuvas?
Sangue cor de amaranto
tinha a rainha de Sabá?
Quando Baudelaire chorava
chorava com lágrimas negras?
1 064
Pablo Neruda
IV
Quantas igrejas tem o céu?
Por que não ataca o tubarão
as impávidas sereias?
Conversa a fumaça com as nuvens?
É verdade que a esperança
se deve regar com orvalho?
Por que não ataca o tubarão
as impávidas sereias?
Conversa a fumaça com as nuvens?
É verdade que a esperança
se deve regar com orvalho?
1 069
Pablo Neruda
XVI
Trabalham o sal e o açúcar
construindo uma torre branca?
É verdade que no formigueiro
os sonhos são obrigatórios?
Sabes que meditações
rumina a terra no outono?
(Por que não dar uma medalha
à primeira folha de ouro?)
construindo uma torre branca?
É verdade que no formigueiro
os sonhos são obrigatórios?
Sabes que meditações
rumina a terra no outono?
(Por que não dar uma medalha
à primeira folha de ouro?)
936
Pablo Neruda
XXIII
Converte-se em peixe voador
se transmigra a borboleta?
Então não era verdade
que vivia Deus na lua?
De que cor é o olor
do pranto azul das violetas?
Quantas semanas tem um dia
e quantos anos tem um mês?
se transmigra a borboleta?
Então não era verdade
que vivia Deus na lua?
De que cor é o olor
do pranto azul das violetas?
Quantas semanas tem um dia
e quantos anos tem um mês?
1 154
Pablo Neruda
XL
A quem o condor andrajoso
dá conta de seu encargo?
Como se chama a tristeza
numa ovelha solitária?
E que ocorre no pombal
se aprendem canto as pombas?
Se as moscas fabricam mel
ofenderão as abelhas?
dá conta de seu encargo?
Como se chama a tristeza
numa ovelha solitária?
E que ocorre no pombal
se aprendem canto as pombas?
Se as moscas fabricam mel
ofenderão as abelhas?
1 120
Pablo Neruda
I
Por que os imensos aviões
não passeiam com seus filhos?
Qual é o pássaro amarelo
que enche o ninho de limões?
Por que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?
Onde deixou a lua cheia
seu noturno saco de farinha?
não passeiam com seus filhos?
Qual é o pássaro amarelo
que enche o ninho de limões?
Por que não ensinam a tirar
mel do sol aos helicópteros?
Onde deixou a lua cheia
seu noturno saco de farinha?
1 246
Pablo Neruda
XXI
E quando se fundou a luz
isto sucedeu na Venezuela?
Onde está o centro do mar?
Por que ali não vão as ondas?
É certo que aquele meteoro
foi uma pomba de ametista?
Posso perguntar a meu livro
se é verdade que eu o escrevi?
isto sucedeu na Venezuela?
Onde está o centro do mar?
Por que ali não vão as ondas?
É certo que aquele meteoro
foi uma pomba de ametista?
Posso perguntar a meu livro
se é verdade que eu o escrevi?
1 289
Pablo Neruda
XIX
Contaram o ouro que tem
o território do milho?
Sabes que é verde ao meio-dia
a neblina na Patagônia?
Quem canta no fundo da água
na lagoa abandonada?
De que ri a melancia
quando a estão assassinando?
o território do milho?
Sabes que é verde ao meio-dia
a neblina na Patagônia?
Quem canta no fundo da água
na lagoa abandonada?
De que ri a melancia
quando a estão assassinando?
1 038
Pablo Neruda
XX
É verdade que o âmbar contém
as lágrimas das sereias?
Como se chama uma flor
que voa de pássaro em pássaro?
Não é melhor nunca que tarde?
E por que o queijo se dispôs
a exercer proezas na França?
as lágrimas das sereias?
Como se chama uma flor
que voa de pássaro em pássaro?
Não é melhor nunca que tarde?
E por que o queijo se dispôs
a exercer proezas na França?
1 064