Poemas neste tema
Animais e Natureza
Fernando Pessoa
Para quê complicar inutilmente,
Para quê complicar inutilmente,
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
Pensando, o que impensado existe? Nascem
Ervas sem razão dada —
Para elas olhos, não razões, tenhamos.
Como através de um rio as contemplemos.
1 472
Fernando Pessoa
51 - INVERSION
Here in this wilderness
Each tree and stone fills me
With the sadness of a great glee.
God in His altogetherness
Is whole‑part of each stone and tree.
An inner outward seeingness
Makes my clear self unknown.
(O Godfully alone!)
God in His overbeingness
Survives His death each tree and every stone
Ay, in the barkness and clodfulness
Of tree and sand and stone
God is only His Own,
God in all His godfulness,
Whose concrete soul's each thing's abstraction.
Each tree and stone fills me
With the sadness of a great glee.
God in His altogetherness
Is whole‑part of each stone and tree.
An inner outward seeingness
Makes my clear self unknown.
(O Godfully alone!)
God in His overbeingness
Survives His death each tree and every stone
Ay, in the barkness and clodfulness
Of tree and sand and stone
God is only His Own,
God in all His godfulness,
Whose concrete soul's each thing's abstraction.
1 438
Fernando Pessoa
O ar do campo vem brando,
O ar do campo vem brando,
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.
Faz sono haver esse ar.
Já não sei se estou sonhando
Nem de que serve sonhar.
1 540
Fernando Pessoa
THE VULTURES
Oh, vultures that this bleak land shows
Where, the wild wind with fury blows,
What are those bones beneath your wing?
- They are Hermagoras, the king.
His queen to another court hath gone,
Another king sits on his throne,
His riches all are in the East,
Elsewhere his courtiers dance and feast.
We have made his rotting flesh our food,
His gentle skin to tear was good;
For his mantle black and his fair array
His servants took as here he lay.
The sun hath bleached his skeleton
And ants and worms do breed thereon,
And those he loved if they go by
Disdain his bones beneath the sky.
Where, the wild wind with fury blows,
What are those bones beneath your wing?
- They are Hermagoras, the king.
His queen to another court hath gone,
Another king sits on his throne,
His riches all are in the East,
Elsewhere his courtiers dance and feast.
We have made his rotting flesh our food,
His gentle skin to tear was good;
For his mantle black and his fair array
His servants took as here he lay.
The sun hath bleached his skeleton
And ants and worms do breed thereon,
And those he loved if they go by
Disdain his bones beneath the sky.
1 495
Fernando Pessoa
LITTLE BIRD
Poet
Little bird, sing me a sweet song deep
Of what is not to‑day;
Be it not the future that yet doth sleep
In the hall where Time his hours doth keep,
More than far away.
Sing me a song of the things thou knew'st
And desirest e'er,
Be it a song to which but is used
The heart that has to love refused
What is merely fair.
Bird
Young, too young hither I was brought
From the dells and trees;
Weep with me - I remember them not
Save with a vague and a pining thought:
Can I sing of these?
Poet
Sing, little bird, sing me that song -
None can be more dear -
Come of the spirit that doth long
Not for the past with a sadness strong,
But for what was never here.
Sing me, sing me that song, little bird;
I would also sing
Of sounds I remember yet never heard,
Of wishes by which my soul is stirred
Till then bliss doth sting.
Bird
To breathe that singing I have no might;
Sing it deeply thou!
I sing when the day is clear and bright
And when the moon is so much in night
That thy tears do flow.
But thou, thou sing'st in woe, in ill,
And thy voice is fit
To speak of what the wish doth fill
With pinings indescribable,
Shadows vague of it.
Poet
Ay, little bird, let us sing in all weather
A song, of to‑day,
Come of the sense we feel together
That nothing that doth die and wither
Truly goes away.
Little bird, sing me a sweet song deep
Of what is not to‑day;
Be it not the future that yet doth sleep
In the hall where Time his hours doth keep,
More than far away.
Sing me a song of the things thou knew'st
And desirest e'er,
Be it a song to which but is used
The heart that has to love refused
What is merely fair.
Bird
Young, too young hither I was brought
From the dells and trees;
Weep with me - I remember them not
Save with a vague and a pining thought:
Can I sing of these?
Poet
Sing, little bird, sing me that song -
None can be more dear -
Come of the spirit that doth long
Not for the past with a sadness strong,
But for what was never here.
Sing me, sing me that song, little bird;
I would also sing
Of sounds I remember yet never heard,
Of wishes by which my soul is stirred
Till then bliss doth sting.
Bird
To breathe that singing I have no might;
Sing it deeply thou!
I sing when the day is clear and bright
And when the moon is so much in night
That thy tears do flow.
But thou, thou sing'st in woe, in ill,
And thy voice is fit
To speak of what the wish doth fill
With pinings indescribable,
Shadows vague of it.
Poet
Ay, little bird, let us sing in all weather
A song, of to‑day,
Come of the sense we feel together
That nothing that doth die and wither
Truly goes away.
1 595
Fernando Pessoa
Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito,
Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito,
Vejo os campos, os campos todos,
E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira,
Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos —
Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido.
Vivam, vivam, vivam
Os montes, e a planície, e as ervas!
Vivam os rios, vivam as fontes!
Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!
Vivam os entes vivos e os bichos pequenos,
Os bichos que correm, insectos e aves,
Os animais todos, tão reais sem mim,
Os homens, as mulheres, as crianças,
As famílias, e as não-famílias, igualmente!
Tudo quanto sente sem saber porquê!
Tudo quanto vive sem pensar que vive!
Tudo que acaba e nunca se aumenta com nada,
Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer,
Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério,
E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida.
Ah, estou liberto!
Ah, quebrei todas
As algemas do pensamento.
Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo,
Eu o próprio abismo que sonhei,
Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra
E a sombra e os caminhos e os atalhos eram eu!
Ah, estou liberto...
Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte
E vi o mesmo que vias, mas com meus olhos,
Verdadeiramente com meus olhos,
Verdadeiramente verdadeiros...
Ah vi que não há muitos abismos!
Vi que (...)
Vejo os campos, os campos todos,
E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira,
Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos —
Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido.
Vivam, vivam, vivam
Os montes, e a planície, e as ervas!
Vivam os rios, vivam as fontes!
Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!
Vivam os entes vivos e os bichos pequenos,
Os bichos que correm, insectos e aves,
Os animais todos, tão reais sem mim,
Os homens, as mulheres, as crianças,
As famílias, e as não-famílias, igualmente!
Tudo quanto sente sem saber porquê!
Tudo quanto vive sem pensar que vive!
Tudo que acaba e nunca se aumenta com nada,
Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer,
Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério,
E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida.
Ah, estou liberto!
Ah, quebrei todas
As algemas do pensamento.
Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo,
Eu o próprio abismo que sonhei,
Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra
E a sombra e os caminhos e os atalhos eram eu!
Ah, estou liberto...
Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte
E vi o mesmo que vias, mas com meus olhos,
Verdadeiramente com meus olhos,
Verdadeiramente verdadeiros...
Ah vi que não há muitos abismos!
Vi que (...)
1 340
Fernando Pessoa
MOMENTS - I
I
The hen said «I can fly».
Do you know why?
Over a fence she flew.
The eagle said «Can I fly?»
Can you tell why?
Unto the stars she could not go.
The hen said «I can fly».
Do you know why?
Over a fence she flew.
The eagle said «Can I fly?»
Can you tell why?
Unto the stars she could not go.
1 276
Fernando Pessoa
Mas ah! se a morte, sem ser nada ou noite,
Mas ah! se a morte, sem ser nada ou noite,
Não explicasse nada, e eternamente
Vagabundos conscientes do erro eterno,
Nossas presenças pávidas girassem
Na eterna circunferência do mistério
Exuis do abstracto centro! Ah! Quem nos diz
Que aquele horror, que toda a vida fita
E não quer ver, nos não conduz a outra
Espécie de vida, sem ser esta salvo
Em não saber mais nada da verdade?
Quem diz que quando a vida cessa acaba
A ilusão, ou que a morte, libertando
Da limitada personalidade,
Em outra nos lança, sempre longe
Do ignoto ponto onde já nada é falso?
Ah! quão melhor não fora, como as aves
Ou animais dos montes e das selvas
Não conhecer de longe cousa alguma!
Porque mistério é que as estrelas fixas
Nos ergueram do chão, e a pé puseram,
Instável, o seguro animal certo
Na sua marcha olhando para o chão?
Passam os Deuses, e o próprio uno Deus
Não dura. As crenças como nuvens deixam
Os homens, e o mistério permanece.
Será porém melhor que encontrássemos
A verdade, ou que não a achemos nunca?
Quem caberá melhor ou a (...)
Ou à felicidade?
Canto das aves, som dos rios, som
Das árvores movendo-se na calma,
Quando distais do que eu mal sei que sou!
Qual é diferença entre nós que eu
(...)
Não explicasse nada, e eternamente
Vagabundos conscientes do erro eterno,
Nossas presenças pávidas girassem
Na eterna circunferência do mistério
Exuis do abstracto centro! Ah! Quem nos diz
Que aquele horror, que toda a vida fita
E não quer ver, nos não conduz a outra
Espécie de vida, sem ser esta salvo
Em não saber mais nada da verdade?
Quem diz que quando a vida cessa acaba
A ilusão, ou que a morte, libertando
Da limitada personalidade,
Em outra nos lança, sempre longe
Do ignoto ponto onde já nada é falso?
Ah! quão melhor não fora, como as aves
Ou animais dos montes e das selvas
Não conhecer de longe cousa alguma!
Porque mistério é que as estrelas fixas
Nos ergueram do chão, e a pé puseram,
Instável, o seguro animal certo
Na sua marcha olhando para o chão?
Passam os Deuses, e o próprio uno Deus
Não dura. As crenças como nuvens deixam
Os homens, e o mistério permanece.
Será porém melhor que encontrássemos
A verdade, ou que não a achemos nunca?
Quem caberá melhor ou a (...)
Ou à felicidade?
Canto das aves, som dos rios, som
Das árvores movendo-se na calma,
Quando distais do que eu mal sei que sou!
Qual é diferença entre nós que eu
(...)
1 119
Fernando Pessoa
A ÍBIS
A Íbis, a ave do Egipto
Pousa sempre sobre um pé
O que é
Esquisito.
É uma ave sossegada,
Porque assim não anda nada.
Pousa sempre sobre um pé
O que é
Esquisito.
É uma ave sossegada,
Porque assim não anda nada.
3 009
Fernando Pessoa
Sim, talvez tenham razão.
Sim, talvez tenham razão.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.
Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.
No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.
E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.
E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.
Talvez em cada coisa uma coisa oculta more,
Mas essa coisa oculta é a mesma
Que a coisa sem ser oculta.
Na planta, na árvore, na flor
(Em tudo que vive sem fala
E é uma consciência e não o com que se faz uma consciência),
No bosque que não é árvores mas bosque,
Total das árvores sem soma,
Mora uma ninfa, a vida exterior por dentro
Que lhes dá a vida;
Que floresce com o florescer deles
E é verde no seu verdor.
No animal e no homem entra.
Vive por fora por dentro
É um já dentro por fora,
Dizem os filósofos que isto é a alma
Mas não é a alma: é o próprio animal ou homem
Da maneira como existe.
E penso que talvez haja entes
Em que as duas coisas coincidam
E tenham o mesmo tamanho.
E que estes entes serão os deuses,
Que existem porque assim é que completamente se existe,
Que não morrem porque são iguais a si mesmos,
Que podem mentir porque não têm divisão [?]
Entre quem são e quem são,
E talvez não nos amem, nem nos queiram, nem nos apareçam
Porque o que é perfeito não precisa de nada.
1 610
Fernando Pessoa
Andorinha que passaste,
Andorinha que passaste,
Quem é que te esperaria?
Só quem te visse passar
E esperasse no outro dia.
Quem é que te esperaria?
Só quem te visse passar
E esperasse no outro dia.
1 667
Fernando Pessoa
Olho os campos, Neera [4]
Olho os campos, Neera
Verdes campos, e sinto
Como virá um dia
Em que não mais os veja.
Par de árvores cobre
O céu aqui sem nuvens
E faz correr mais triste
A viva e alegre linfa.
Mas por um só momento
Fugaz e passageiro
Esta ideia eu emprego
Para o seu uso triste.
Cedo me volve a calma
Com que me faço o espelho
Do céu imperturbado
E da fonte insciente.
Deixa o futuro, — porque
Não está aqui, não é nada;
Só o fugaz presente
Enquanto dura existe.
Vive a imperfeita hora
Sem olhar além dela
E sem nada esperares
Dos homens, nem dos deuses.
Verdes campos, e sinto
Como virá um dia
Em que não mais os veja.
Par de árvores cobre
O céu aqui sem nuvens
E faz correr mais triste
A viva e alegre linfa.
Mas por um só momento
Fugaz e passageiro
Esta ideia eu emprego
Para o seu uso triste.
Cedo me volve a calma
Com que me faço o espelho
Do céu imperturbado
E da fonte insciente.
Deixa o futuro, — porque
Não está aqui, não é nada;
Só o fugaz presente
Enquanto dura existe.
Vive a imperfeita hora
Sem olhar além dela
E sem nada esperares
Dos homens, nem dos deuses.
1 456
Fernando Pessoa
Baila o trigo quando há vento
Baila o trigo quando há vento
Baila porque o vento o toca
Também baila o pensamento
Quando o coração provoca.
Baila porque o vento o toca
Também baila o pensamento
Quando o coração provoca.
2 770
Fernando Pessoa
Jovem morreste, porque regressaste,
A. Caeiro
Jovem morreste, porque regressaste,
Ó deus inconsciente, onde teus pares
De após Cronos te esperam
Ressuscitados deles.
Antes de ti já era a Natureza,
Mas não a alma de compreendê-la.
Deu-te o deus o instinto
Com que sentir as cousas.
Os deuses imortais reconduziste
À humana visão obscurecida
(...)
(...)
Sós ficamos, mas não abandonados,
Porque a obra, que deixaste, és tu ainda
Qual luz à extinta estrela
Póstuma a terra alaga.
Por seu os deuses contam quem
E com teu nome a divindade prestas
De ser eterna à pátria
Odisseia cidade
Igual des ti às sete que contendem,
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
Ou heptápila Tebas
Ogígia mãe de Píndaro.
Jovem morreste, porque regressaste,
Ó deus inconsciente, onde teus pares
De após Cronos te esperam
Ressuscitados deles.
Antes de ti já era a Natureza,
Mas não a alma de compreendê-la.
Deu-te o deus o instinto
Com que sentir as cousas.
Os deuses imortais reconduziste
À humana visão obscurecida
(...)
(...)
Sós ficamos, mas não abandonados,
Porque a obra, que deixaste, és tu ainda
Qual luz à extinta estrela
Póstuma a terra alaga.
Por seu os deuses contam quem
E com teu nome a divindade prestas
De ser eterna à pátria
Odisseia cidade
Igual des ti às sete que contendem,
Cidades por Homero, ou alcaica Lesbos,
Ou heptápila Tebas
Ogígia mãe de Píndaro.
1 405
Fernando Pessoa
O Suspiro do mundo: - Vida, morte,
Vida, morte,
Riso, pranto
É o manto
Que me cobre.
Natureza,
Amor, beleza,
Tudo quanto
A alma descobre.
O Mistério
Deste mundo
Teu profundo
Olhar leu;
D'além dele —
Cerra a alma
De pavor! —
Venho eu.
Nada, nada
Já acalma
Tua dor.
Tu bem sabes
Ser minha voz
Mais atroz
De mudo horror
No que não diz,
E só tu sentes
E compreendes.
Cerra, infeliz
Cerra a (tua) alma
Ao meu pavor!
(Fausto, com os olhos fechados, encolhido na cadeira, treme como que dum grande frio.)
Riso, pranto
É o manto
Que me cobre.
Natureza,
Amor, beleza,
Tudo quanto
A alma descobre.
O Mistério
Deste mundo
Teu profundo
Olhar leu;
D'além dele —
Cerra a alma
De pavor! —
Venho eu.
Nada, nada
Já acalma
Tua dor.
Tu bem sabes
Ser minha voz
Mais atroz
De mudo horror
No que não diz,
E só tu sentes
E compreendes.
Cerra, infeliz
Cerra a (tua) alma
Ao meu pavor!
(Fausto, com os olhos fechados, encolhido na cadeira, treme como que dum grande frio.)
1 536
Fernando Pessoa
O cão que veio do abismo
O cão que veio do abismo
Roeu-me os ossos da alma,
E erguendo a perna — o que eu cismo —
Mijou no meu misticismo
Que me dava a minha calma.
O cão veio de onde dorme
Aquele anseio que tenho
Por qualquer coisa de enorme
Que indistintamente forme
A forma de quanto estranho.
E depois de isso completo
O cão que veio do abismo
Que estava inteiro e repleto
Fez sobre tudo o dejecto
Que é hoje o meu misticismo.
Roeu-me os ossos da alma,
E erguendo a perna — o que eu cismo —
Mijou no meu misticismo
Que me dava a minha calma.
O cão veio de onde dorme
Aquele anseio que tenho
Por qualquer coisa de enorme
Que indistintamente forme
A forma de quanto estranho.
E depois de isso completo
O cão que veio do abismo
Que estava inteiro e repleto
Fez sobre tudo o dejecto
Que é hoje o meu misticismo.
1 527
Fernando Pessoa
Não há abismos!
Da casa do monte, símbolo eterno e perfeito,
Vejo os campos, os campos todos,
E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira,
Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos —
Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido.
Vivam, vivam, vivam
Os montes, e a planície, e as ervas!
Vivam os rios, vivam as fontes!
Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!
Vivam os entes vivos e os bichos pequenos,
Os bichos que correm, insectos e aves,
Os animais todos, tão reais sem mim,
Os homens, as mulheres, as crianças,
As famílias, e as não-famílias, igualmente!
Tudo quanto sente sem saber porquê!
Tudo quanto vive sem pensar que vive!
Tudo que acaba e nunca se aumenta com nada,
Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer,
Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério,
E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida.
Ah, estou liberto!
Ah, quebrei todas
As algemas do pensamento.
Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo,
Eu o próprio abismo que sonhei,
Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra
E a sombra e os caminhos e os atalhos eram eu!
Ah, estou liberto...
Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte
E vi o mesmo que vias, mas com meus olhos,
Verdadeiramente com meus olhos,
Verdadeiramente verdadeiros...
Ah vi que não há muitos abismos!
(...)
Não há abismos!
Nada é sinistro!
Não há mistério verdadeiro!
Não há mistério ou verdade!
Não há Deus, nem vida, nem alma distante da vida!
Tu, tu mestre Caeiro, tu é que tinhas razão!
Mas ainda não viste tudo; tudo é mais ainda!
Alegre cantaste a alegria de tudo,
Mas sem pensá-lo tu sentias
Que é porque a alegria de tudo é essencialmente inevitável.
Como cantaras alegre a morte futura
Se a puderas pensar como morte,
Se deveras sentiras a noite e o acabamento?
Não, não: tu sabias
Não com teu pensamento, mas com teu corpo inteiro,
Com todos os teus sentidos tão acordados ao mundo
Que não há nada que morra, que não há coisa que cesse,
Que cada momento não passa nunca,
Que a flor colhida fica sempre na haste,
Que o beijo dado é eterno,
Que na essência e universo das coisas
Tudo é alegria e sol
E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra.
Embandeira em canto e rosas!
E da estação de província, do apeadeiro campestre,
— Lá vem o comboio!
Com lenços agitados, com olhos que brilham eternos
Saudemos em ouro e flores a morte que chega!
Não, não enganas!
Avó carinhosa de terra já grávida!
Madrinha disfarçada dos sentimentos expressos!
E o comboio entra na curva, mais lento, e vai parar...
E com grande explosão de todas as minhas esperanças
Meu coração universo
Inclui a ouro todos os sóis,
Borda-se a prata todas as estrelas,
Entumesce-se em flores e verduras,
E a morte que chega conclui que a já conhecem
E no seu rosto grave desabrocha
O sorriso humano de Deus!
Vejo os campos, os campos todos,
E eu os saúdo por fim com a voz verdadeira,
Eu lhes dou vivas, chorando, com as lágrimas certas e os vivas exactos —
Eu os aperto a meu peito, como filho que encontrasse o pai perdido.
Vivam, vivam, vivam
Os montes, e a planície, e as ervas!
Vivam os rios, vivam as fontes!
Vivam as flores, e as árvores, e as pedras!
Vivam os entes vivos e os bichos pequenos,
Os bichos que correm, insectos e aves,
Os animais todos, tão reais sem mim,
Os homens, as mulheres, as crianças,
As famílias, e as não-famílias, igualmente!
Tudo quanto sente sem saber porquê!
Tudo quanto vive sem pensar que vive!
Tudo que acaba e nunca se aumenta com nada,
Sabendo, melhor que eu, que nada há que temer,
Que nada é fim, que nada é abismo, que nada é mistério,
E que tudo é Deus, e que tudo é Ser, e que tudo é Vida.
Ah, estou liberto!
Ah, quebrei todas
As algemas do pensamento.
Eu, o claustro e a cave voluntários de mim mesmo,
Eu o próprio abismo que sonhei,
Eu, que vi em tudo caminhos e atalhos de sombra
E a sombra e os caminhos e os atalhos eram eu!
Ah, estou liberto...
Mestre Caeiro, voltei à tua casa do monte
E vi o mesmo que vias, mas com meus olhos,
Verdadeiramente com meus olhos,
Verdadeiramente verdadeiros...
Ah vi que não há muitos abismos!
(...)
Não há abismos!
Nada é sinistro!
Não há mistério verdadeiro!
Não há mistério ou verdade!
Não há Deus, nem vida, nem alma distante da vida!
Tu, tu mestre Caeiro, tu é que tinhas razão!
Mas ainda não viste tudo; tudo é mais ainda!
Alegre cantaste a alegria de tudo,
Mas sem pensá-lo tu sentias
Que é porque a alegria de tudo é essencialmente inevitável.
Como cantaras alegre a morte futura
Se a puderas pensar como morte,
Se deveras sentiras a noite e o acabamento?
Não, não: tu sabias
Não com teu pensamento, mas com teu corpo inteiro,
Com todos os teus sentidos tão acordados ao mundo
Que não há nada que morra, que não há coisa que cesse,
Que cada momento não passa nunca,
Que a flor colhida fica sempre na haste,
Que o beijo dado é eterno,
Que na essência e universo das coisas
Tudo é alegria e sol
E só no erro e no olhar há dor e dúvida e sombra.
Embandeira em canto e rosas!
E da estação de província, do apeadeiro campestre,
— Lá vem o comboio!
Com lenços agitados, com olhos que brilham eternos
Saudemos em ouro e flores a morte que chega!
Não, não enganas!
Avó carinhosa de terra já grávida!
Madrinha disfarçada dos sentimentos expressos!
E o comboio entra na curva, mais lento, e vai parar...
E com grande explosão de todas as minhas esperanças
Meu coração universo
Inclui a ouro todos os sóis,
Borda-se a prata todas as estrelas,
Entumesce-se em flores e verduras,
E a morte que chega conclui que a já conhecem
E no seu rosto grave desabrocha
O sorriso humano de Deus!
1 179
Fernando Pessoa
EPIGRAM - When Cynthia smiled all Nature smiled, the streams
When Cynthia smiled all Nature smiled, the streams
Glinted like diamonds in the golden beams;
Upon the branches sang the tuneful birds,
Amid the lowing of the grazing herds.
When Cynthia laughed the world was reft of pain
And varied flowers smiled on the enwitched swain;
The very storm restrained its fitful might,
The seas were ripples and the earth was bright.
If Cynthia frowned the skies gave out a groan,
The earth a shudder and the wind a moan;
Men's heads were drooped, no youthful face was glad,
The flowers had closed, the fields were stern and sad.
If Cynthia railed all Nature's voice was hoarse,
The very orbs withheld their wanted course;
The sun was pale, the moon gave out no light,
All night was hell, all day was like to night.
But, though I lived that day, my blinded eyes
Such many miracles beheld not rise.
Methought the sun preserved his wonted shine
And that men were, as ever, undivine,
Methought the storm went on, nor crash'd the less
And pain also, men suffering without cease;
Nor on the branches sang the birds the more
Nor brightened Nature her too bounteous store;
Nor wandered yet the world, or hung behind,
Nor did the orbs; what wandered was thy mind.
Glinted like diamonds in the golden beams;
Upon the branches sang the tuneful birds,
Amid the lowing of the grazing herds.
When Cynthia laughed the world was reft of pain
And varied flowers smiled on the enwitched swain;
The very storm restrained its fitful might,
The seas were ripples and the earth was bright.
If Cynthia frowned the skies gave out a groan,
The earth a shudder and the wind a moan;
Men's heads were drooped, no youthful face was glad,
The flowers had closed, the fields were stern and sad.
If Cynthia railed all Nature's voice was hoarse,
The very orbs withheld their wanted course;
The sun was pale, the moon gave out no light,
All night was hell, all day was like to night.
But, though I lived that day, my blinded eyes
Such many miracles beheld not rise.
Methought the sun preserved his wonted shine
And that men were, as ever, undivine,
Methought the storm went on, nor crash'd the less
And pain also, men suffering without cease;
Nor on the branches sang the birds the more
Nor brightened Nature her too bounteous store;
Nor wandered yet the world, or hung behind,
Nor did the orbs; what wandered was thy mind.
1 418
Fernando Pessoa
Não consentem os deuses mais que a vida. [2]
Não consentem os deuses mais que a vida.
Por isso, Lídia, duradouramente
Façamos-lhe a vontade
Ao sol e entre as flores.
Camaleões pousados na Natureza
Tomemos sua calma e alegria
Por cor da nossa vida,
Por um jeito do corpo.
Como vidros às luzes transparentes
E deixando cair a chuva triste,
Só mornos ao sol quente,
E reflectindo um pouco.
Por isso, Lídia, duradouramente
Façamos-lhe a vontade
Ao sol e entre as flores.
Camaleões pousados na Natureza
Tomemos sua calma e alegria
Por cor da nossa vida,
Por um jeito do corpo.
Como vidros às luzes transparentes
E deixando cair a chuva triste,
Só mornos ao sol quente,
E reflectindo um pouco.
1 129
Fernando Pessoa
Todas as opiniões que há sobre a Natureza
Todas as opiniões que há sobre a Natureza
Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das coisas
Nunca foi coisa em que pudesse pegar, como nas coisas.
Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das coisas sem ciência?
Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.
Nunca fizeram crescer uma erva ou nascer uma flor.
Toda a sabedoria a respeito das coisas
Nunca foi coisa em que pudesse pegar, como nas coisas.
Se a ciência quer ser verdadeira,
Que ciência mais verdadeira que a das coisas sem ciência?
Fecho os olhos e a terra dura sobre que me deito
Tem uma realidade tão real que até as minhas costas a sentem.
Não preciso de raciocínio onde tenho espáduas.
1 182
Florbela Espanca
Sou Eu!
À minha ilustre camarada Laura Chaves
Pelos campos em fora, pelos combros,
Pelos montes que embalam a manhã,
Largo os meus rubros sonhos de pagã,
Enquanto as aves poisam nos meus ombros...
Em vão me sepultaram entre escombros
De catedrais duma escultura vã!
Olha-me o loiro sol tonto de assombros,
E as nuvens, a chorar, chamam-me irmã!
Ecos longínquos de ondas... de universos..
Ecos dum Mundo... dum distante Além,
Donde eu trouxe a magia dos meus versos!
Sou eu! Sou eu! A que nas mãos ansiosas
Prendeu da vida, assim como ninguém,
Os maus espinhos sem tocar nas rosas!
Pelos campos em fora, pelos combros,
Pelos montes que embalam a manhã,
Largo os meus rubros sonhos de pagã,
Enquanto as aves poisam nos meus ombros...
Em vão me sepultaram entre escombros
De catedrais duma escultura vã!
Olha-me o loiro sol tonto de assombros,
E as nuvens, a chorar, chamam-me irmã!
Ecos longínquos de ondas... de universos..
Ecos dum Mundo... dum distante Além,
Donde eu trouxe a magia dos meus versos!
Sou eu! Sou eu! A que nas mãos ansiosas
Prendeu da vida, assim como ninguém,
Os maus espinhos sem tocar nas rosas!
2 103
Florbela Espanca
Rústica
Eu q’ria ser camponesa;
Ir esperar-te à tardinha
Quando é doce a Natureza
No silêncio da devesa,
E só voltar à noitinha...
Levar o cântaro à fonte
Deixá-lo devagarinho,
E correndo pela ponte
Que fica detrás do monte
Ir encontrar-te sozinho...
E depois quando o luar
Andasse pelas estradas,
D’olhos cheios do teu olhar
Eu voltaria a sonhar,
P’los caminhos de mãos dadas.
E depois se toda a gente
Perguntasse: “Que encarnada,
Rapariga! Estás doente?”
Eu diria: “É do poente,
Que assim me fez encarnada!”
E fitando ao longe a ponte,
Com meu olhar cheio do teu,
Diria a sorrir pro monte:
“O cant’ro ficou na fonte
Mas os beijos trouxe-os eu...”
Ir esperar-te à tardinha
Quando é doce a Natureza
No silêncio da devesa,
E só voltar à noitinha...
Levar o cântaro à fonte
Deixá-lo devagarinho,
E correndo pela ponte
Que fica detrás do monte
Ir encontrar-te sozinho...
E depois quando o luar
Andasse pelas estradas,
D’olhos cheios do teu olhar
Eu voltaria a sonhar,
P’los caminhos de mãos dadas.
E depois se toda a gente
Perguntasse: “Que encarnada,
Rapariga! Estás doente?”
Eu diria: “É do poente,
Que assim me fez encarnada!”
E fitando ao longe a ponte,
Com meu olhar cheio do teu,
Diria a sorrir pro monte:
“O cant’ro ficou na fonte
Mas os beijos trouxe-os eu...”
2 458
Florbela Espanca
Esfinge
Sou filha da charneca erma e selvagem.
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos d’oiro, p’los caminhos,
Desta minh’alma ardente são a imagem.
Embalo em mim um sonho vão, miragem:
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos,
Fôssemos um pedaço de paisagem!
E à noite, à hora doce da ansiedade
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da saudade...
E à tua espera, enquanto o mundo dorme,
Ficaria, olhos quietos, a cismar...
Esfinge olhando a planície enorme...
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos d’oiro, p’los caminhos,
Desta minh’alma ardente são a imagem.
Embalo em mim um sonho vão, miragem:
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca e tu o Sol, sozinhos,
Fôssemos um pedaço de paisagem!
E à noite, à hora doce da ansiedade
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da saudade...
E à tua espera, enquanto o mundo dorme,
Ficaria, olhos quietos, a cismar...
Esfinge olhando a planície enorme...
2 249
Florbela Espanca
Quem fez ao sapo o leito carmesim
Quem fez ao sapo o leito carmesim
De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?
Santa Teresa em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?
Quem nos deu olhos para ver os astros
– Sem nos dar braços para os alcançar?!...
De rosas desfolhadas à noitinha?
E quem vestiu de monja a andorinha,
E perfumou as sombras do jardim?
Quem deu esses cabelos de rainha
Ao girassol? Quem fez o mar? E a minha
Alma a sangrar? Quem me criou a mim?
Santa Teresa em místicos arroubos?
Os monstros? E os profetas? E o luar?
Quem nos deu olhos para ver os astros
– Sem nos dar braços para os alcançar?!...
1 557