Poemas neste tema
Sucesso e Fracasso
Charles Bukowski
A Geração Falida
era muito mais fácil ser gênio nos anos 20, havia
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.
e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.
tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time
era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.
e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.
você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.
era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.
agora
agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.
quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.
volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?
a Geração Falida?
eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade
e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.
gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.
D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.
G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.
Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.
e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.
enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,
agora
agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...
se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.
mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.
era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo
agora
há tantos de nós.
Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja
embora
-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
apenas três ou quatro revistas literárias e se você publicasse nelas
umas quatro ou cinco vezes podia terminar no salão de Gertie,
você podia provavelmente encontrar Picasso para um copo de vinho, ou
talvez apenas Miró.
e sim, se você mandasse sua papelada com carimbo postal de Paris
as chances de publicação eram muito maiores.
muitos escritores encerravam seus manuscritos com a palavra "Paris" e a data.
tendo um patrono, havia tempo para
escrever, comer, beber e dar uns passeios pela Itália e até pela
Grécia
era bom ser fotografado com outros do seu time
era bom parecer asseado, enigmático e magro.
foto na praia era ótimo.
e sim, você podia escrever cartas para os 15 ou 20
outros
resmungando sobre uma coisa ou outra.
você podia receber uma carta de Ezra ou de Hem, Ezra gostava
de dar orientações e Hem gostava de praticar a escrita
nas cartas, quando não podia praticar a outra.
era um grande jogo romântico então, cheio da fúria
da descoberta.
agora
agora somos tantos, são centenas de revistas literárias,
centenas de editoras, milhares de títulos.
quem vai sobreviver desse monturo?
perguntar é quase uma grossura.
volto atrás, leio livros sobre as vidas dos meninos
e meninas lá dos 20.
se eles foram a Geração Perdida, como você chamaria a gente?
vendo a gente sentada aqui no meio das ogivas
com nossas máquinas de escrever elétricas?
a Geração Falida?
eu preferia estar na Perdida a estar na Falida, mas quando leio livros sobre
eles
sinto delicadeza e generosidade
e quando leio sobre o suicídio de Harry Crosby em seu quarto de hotel
com sua prostituta
a coisa me parece tão real como a torneira que está pingando agora
na pia do meu banheiro.
gosto de ler sobre eles: Joyce cego e zanzando
pelas livrarias como uma tarântula, como diziam.
Dos Passos com seus recortes de notícias usando uma
máquina de escrever com fita vermelha.
D.H. tarado e de porre, H.D. sabida o bastante para usar
suas iniciais que pareciam muito mais literárias do que Hilda Doolittle.
G. B. Shaw, firmado há muito tempo, nobre e
estúpido como a realeza, carne e cérebro virando mármore. um saco.
Huxley passeando seu cérebro com grande alegria, discutindo com Lawrence que a coisa não era na barriga nem nos colhões,
que a glória estava era no crânio.
e aquele matuto do Sinclair Lewis despontando.
enquanto isso,
com a revolução terminada, os russos estavam libertos e morrendo.
Gorki, sem ter nada por que lutar, sentado numa sala, tentando
achar frases para elogiar o governo.
muitos outros falidos na vitória,
agora
agora há tantos de nós
mas devíamos estar agradecidos, porque em cem anos
se o mundo não estiver destruído, pense bem, quanto ficará de tudo isso:
ninguém realmente capaz de falhar ou de vencer - só algum mérito relativo, ainda mais diminuído pela nossa superioridade numérica.
estaremos todos catalogados e arquivados.
está certo...
se você ainda tem dúvidas sobre aqueles outros
anos dourados
veja que há outras criaturas curiosas: Richard
Aldington, Teddy Dreiser, F. Scott, Hart Crane, Wyndham Lewis, a
Black Sun Press.
mas para mim, os anos 20 estavam centrados principalmente em Hemingway
saindo da guerra e começando a datilografar.
era tudo tão simples, tão deliciosamente calmo
agora
há tantos de nós.
Ernie, você não imaginava como era bom
quatro décadas atrás quando vocês metiam o cérebro no
suco de laranja
embora
-posso garantir
não fosse isto o melhor de vocês.
852
Charles Bukowski
Todas as Perdas...
eu disse a ela na cama então
depois de voar toda a descida
até ali
eu disse a ela na cama
depois
"não tem volta,
cê sabe, é danado
de ruim demais..."
e era, embora eu
ficasse 2 ou
3 dias
e aí ela me levou
até o aeroporto
cachorro no
banco traseiro
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.
eu saí
disse a ela
"não entre",
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora
assanhei o pêlo dele,
ele lambeu meu rosto
de volta.
que fracasso.
inclinado para dentro
segurava minha mala,
ela me deu um pequeno
beijo de adeus,
e então eu me virei e
caminhei para
o guichê do aeroporto
e o cara do controle
destacou fora
a outra metade do bilhete de ida
e volta.
"fumante ou
não-fumante?", o funcionário
perguntou.
"bebedor", eu
respondi.
recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal
porque todo mundo
que eu sabia
que não sabia
ia ficar
sabendo.
depois de voar toda a descida
até ali
eu disse a ela na cama
depois
"não tem volta,
cê sabe, é danado
de ruim demais..."
e era, embora eu
ficasse 2 ou
3 dias
e aí ela me levou
até o aeroporto
cachorro no
banco traseiro
aquele cachorro que tinha vivido
conosco
naqueles poucos
anos.
eu saí
disse a ela
"não entre",
o cachorro pulou pra cima
e pra baixo,
ele sabia que eu estava indo embora
assanhei o pêlo dele,
ele lambeu meu rosto
de volta.
que fracasso.
inclinado para dentro
segurava minha mala,
ela me deu um pequeno
beijo de adeus,
e então eu me virei e
caminhei para
o guichê do aeroporto
e o cara do controle
destacou fora
a outra metade do bilhete de ida
e volta.
"fumante ou
não-fumante?", o funcionário
perguntou.
"bebedor", eu
respondi.
recebi meu bilhete de embarque
e caminhei até
o portão
me sentindo mal
porque todo mundo
que eu sabia
que não sabia
ia ficar
sabendo.
1 202
Charles Bukowski
Carta do Norte
meu amigo escreve falando de rejeições e editores,
e conta sua visita a K.,ou R., ou W,
e pergunta se estou na S., número 12, que ele
tem um poema nela
e T. escreveu da Flórida
mas recusou seus poemas, R. dorme na tipografia
e T. o criticou impiedosamente....
encontrou o editor da Revista X. na rua,
e o editor parecia que tinha levado um chute nos colhões
no momento em que ele o identificou
e pediu sua opinião sobre os poemas,
é bom imprensar esses caras de vez em quando,
dar uma escovadela neles;
as agências de publicidade esqueceram dele, e W. está
demorando demais para ler o seu livro, ganhou só cinco
pratas para ler no Unicorn,
telefonou a K., da Revista W., parece um bom sujeito,
e acha à que acabou com R.,
manda uns recortes para que eu me divirta:
seu nome numa coluna de jornal, vai ter que telefonar para R. de novo: S. está lecionando
na universidade
e ele não aguenta ir, M. é homo,
C. não é capaz de se decidir e P. está louco com ele
porque ele bebeu cerveja na frente de N.
só cartas de recusa, mas ele sabe que sua produção é boa.
L. esteve lá para pegar um maço de Pall Malls emprestado, o puto o deixa
doente, sempre se lamentando...
B. escreve dizendo que P está com problemas, é preciso esquematizar
uma ajuda,
terrivelmente desanimado. dinheiro nem para os selos.
morto sem selos, escreva-me, ele diz,
estou na baixa.
escrever para você? meu amigo, sobre o quê?
eu só me interesso
por poesia.
e conta sua visita a K.,ou R., ou W,
e pergunta se estou na S., número 12, que ele
tem um poema nela
e T. escreveu da Flórida
mas recusou seus poemas, R. dorme na tipografia
e T. o criticou impiedosamente....
encontrou o editor da Revista X. na rua,
e o editor parecia que tinha levado um chute nos colhões
no momento em que ele o identificou
e pediu sua opinião sobre os poemas,
é bom imprensar esses caras de vez em quando,
dar uma escovadela neles;
as agências de publicidade esqueceram dele, e W. está
demorando demais para ler o seu livro, ganhou só cinco
pratas para ler no Unicorn,
telefonou a K., da Revista W., parece um bom sujeito,
e acha à que acabou com R.,
manda uns recortes para que eu me divirta:
seu nome numa coluna de jornal, vai ter que telefonar para R. de novo: S. está lecionando
na universidade
e ele não aguenta ir, M. é homo,
C. não é capaz de se decidir e P. está louco com ele
porque ele bebeu cerveja na frente de N.
só cartas de recusa, mas ele sabe que sua produção é boa.
L. esteve lá para pegar um maço de Pall Malls emprestado, o puto o deixa
doente, sempre se lamentando...
B. escreve dizendo que P está com problemas, é preciso esquematizar
uma ajuda,
terrivelmente desanimado. dinheiro nem para os selos.
morto sem selos, escreva-me, ele diz,
estou na baixa.
escrever para você? meu amigo, sobre o quê?
eu só me interesso
por poesia.
1 075
Charles Bukowski
Muito
peguei o táxi para Newport e estudei as pregas no
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
crânio do motorista, todo o previsto se vai:
a derrota veio tantas vezes
(como a chuva)
que ganhou mais significado
que a vitória, o artista é bom no
piano
e nós esperamos num canto
(este poeta!)
aguardando para recitar
poemas; é como uma cave, isso aqui:
cheia de morcegos e putas
e música sem corpo
movo-me no dorso do mundo, minha cabeça dói,
e procurando determinada porta
penso com carinho no bem-sucedido papai Haydn
se acabando no jardim chuvoso
acima da cópula
desses ratões sem ouvido...
o sol está numa caixa por aí
dormindo como um gato
os morcegos dão rasantes, um corpo
pega na minha mão (a do copo
a mão direita é a que bebe)
uma mulher, uma horrível
danada de uma mulher, uma coisa viva
senta
e pisca
para mim:
Hank, a coisa diz,
estão lhe esperando firme e
forte!
que se fodam, eu digo, que se fodam.
eu engordei um bocado e
fiquei vulgar (uma morte deliberada
na cozinha) e
subitamente caio na risada
considerando minha excelente forma física
como a de algum porco de um homem de negócios
e nem sequer cuido
de me levantar
para mijar...
Anjos,
nós crescemos apartados
1 071
Charles Bukowski
Poema de Amor
lugar nenhum e meio
na torre
desmoronada
que os vermes conquistem
a glória
escuro dentro da
escuridão
a última aposta
perdida
tentando
alcançar
silêncio
ósseo.
na torre
desmoronada
que os vermes conquistem
a glória
escuro dentro da
escuridão
a última aposta
perdida
tentando
alcançar
silêncio
ósseo.
1 148
Charles Bukowski
Assassinato
competição, ganância, desejo de fama –
depois de ótimos começos eles na maioria das vezes
escrevem quando não querem escrever, escrevem por
encomenda, escrevem em troca de Cadillacs e garotas
mais jovens – e para pagar
velhas esposas descartadas.
eles aparecem em talk shows, frequentam festas
com seus pares.
a maioria vai para Hollywood, eles viram franco-atiradores e
bisbilhoteiros
e têm mais e mais casos com garotas e/ou
homens mais e mais
jovens.
eles escrevem entre Hollywood e as festas,
é escrita com relógio de ponto
e no meio das calcinhas e/ou dos
suportes atléticos
e da cocaína
muitos deles dão jeito de se complicar com a
Receita Federal.
entre velhas esposas, novas esposas, garotas
mais e mais novas (e/ou)
todos os seus adiantamentos e direitos autorais –
as centenas de milhares de
dólares –
são agora subitamente
dívidas.
a escrita vira um espasmo
inútil
a punheta de um dom
outrora
poderoso.
isso acontece e acontece e
continua igual:
a mutilação do talento
que os deuses raramente
dão
mas tão rapidamente
tiram.
depois de ótimos começos eles na maioria das vezes
escrevem quando não querem escrever, escrevem por
encomenda, escrevem em troca de Cadillacs e garotas
mais jovens – e para pagar
velhas esposas descartadas.
eles aparecem em talk shows, frequentam festas
com seus pares.
a maioria vai para Hollywood, eles viram franco-atiradores e
bisbilhoteiros
e têm mais e mais casos com garotas e/ou
homens mais e mais
jovens.
eles escrevem entre Hollywood e as festas,
é escrita com relógio de ponto
e no meio das calcinhas e/ou dos
suportes atléticos
e da cocaína
muitos deles dão jeito de se complicar com a
Receita Federal.
entre velhas esposas, novas esposas, garotas
mais e mais novas (e/ou)
todos os seus adiantamentos e direitos autorais –
as centenas de milhares de
dólares –
são agora subitamente
dívidas.
a escrita vira um espasmo
inútil
a punheta de um dom
outrora
poderoso.
isso acontece e acontece e
continua igual:
a mutilação do talento
que os deuses raramente
dão
mas tão rapidamente
tiram.
1 039
Charles Bukowski
Aproveite o Dia
sujeito nojento ele ficava o tempo todo limpando o nariz na
manga e também peidando a intervalos
regulares, ele não tinha
nem pente
nem boas maneiras
nem quem o desejasse.
uma de cada três palavras suas era uma víscera
grosseira
e ele arreganhava os dentes quebrados e
amarelos
seu hálito fedendo acima do
vento
ele enterrava continuamente na virilha
sua mão
esquerda
e tinha sempre uma
piada suja
à disposição,
um bronco do mais baixo
nível
um homem
muitíssimo muitíssimo
evitado
até que
ganhou na loteria
estadual.
agora
você precisa ver
o sujeito: sempre uma jovem aos risos em
cada braço
ele come nos melhores
restaurantes
os garçons brigando para pegá-lo
nas mesas
deles
ele arrota e peida noite
afora
derramando sua taça de vinho
pegando seu bife com os
dedos
enquanto
suas damas o chamam de
“original” e “o cara mais
engraçado que já conheci”.
e o que fazem com ele
na cama
é uma tremenda
vergonha.
o que precisamos ter sempre em
mente, contudo, é que
50% da loteria estadual vai para o
Sistema Educacional e
isso é importante
quando você percebe que
apenas uma pessoa em
cada nove
sabe soletrar corretamente
“emulação”.
manga e também peidando a intervalos
regulares, ele não tinha
nem pente
nem boas maneiras
nem quem o desejasse.
uma de cada três palavras suas era uma víscera
grosseira
e ele arreganhava os dentes quebrados e
amarelos
seu hálito fedendo acima do
vento
ele enterrava continuamente na virilha
sua mão
esquerda
e tinha sempre uma
piada suja
à disposição,
um bronco do mais baixo
nível
um homem
muitíssimo muitíssimo
evitado
até que
ganhou na loteria
estadual.
agora
você precisa ver
o sujeito: sempre uma jovem aos risos em
cada braço
ele come nos melhores
restaurantes
os garçons brigando para pegá-lo
nas mesas
deles
ele arrota e peida noite
afora
derramando sua taça de vinho
pegando seu bife com os
dedos
enquanto
suas damas o chamam de
“original” e “o cara mais
engraçado que já conheci”.
e o que fazem com ele
na cama
é uma tremenda
vergonha.
o que precisamos ter sempre em
mente, contudo, é que
50% da loteria estadual vai para o
Sistema Educacional e
isso é importante
quando você percebe que
apenas uma pessoa em
cada nove
sabe soletrar corretamente
“emulação”.
750
Charles Bukowski
A Ilha Que Vai Encolhendo
estou trabalhando nele com
o amanhecer se curvando na minha direção...
quase acertei a mão às 3:34 mas ele
me escapou dos dedos
com a feitiçaria de um
peixinho prateado...
agora
com a meia-luz se movendo na minha direção
como a morte filha da mãe
eu desisto da batalha
me levanto
ando em direção ao banheiro
bato de cara
numa parede
solto uma deplorável risada
miante...
ligo a luz e
começo a mijar, sim, no
lugar certo
e
depois de puxar a descarga
penso: mais uma noite
que se foi.
bem, nós lhe demos um pouco de
gritaria
de todo modo.
lavamos nossas
garras...
desligamos a
luz
andamos na direção do
quarto onde a
esposa
desperta o bastante
para dizer: “não pisa
no gato!”
o que nos traz de volta
às
reais
questões
enquanto encontramos a cama
nos enfiamos nas cobertas
rosto para o teto: um
homem
aterrado
bêbado
gordo
e velho.
o amanhecer se curvando na minha direção...
quase acertei a mão às 3:34 mas ele
me escapou dos dedos
com a feitiçaria de um
peixinho prateado...
agora
com a meia-luz se movendo na minha direção
como a morte filha da mãe
eu desisto da batalha
me levanto
ando em direção ao banheiro
bato de cara
numa parede
solto uma deplorável risada
miante...
ligo a luz e
começo a mijar, sim, no
lugar certo
e
depois de puxar a descarga
penso: mais uma noite
que se foi.
bem, nós lhe demos um pouco de
gritaria
de todo modo.
lavamos nossas
garras...
desligamos a
luz
andamos na direção do
quarto onde a
esposa
desperta o bastante
para dizer: “não pisa
no gato!”
o que nos traz de volta
às
reais
questões
enquanto encontramos a cama
nos enfiamos nas cobertas
rosto para o teto: um
homem
aterrado
bêbado
gordo
e velho.
1 283
Charles Bukowski
Você Fica Tão Sozinho Às Vezes Que Até Faz Sentido
quando era um escritor passando fome eu costumava ler os principais escritores nas
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
principais revistas (na biblioteca, é claro) e isso me deixava
muito mal porque – sendo um estudante da palavra e do percurso, eu percebia
que eles eram impostores: eu conseguia captar cada emoção falsa, cada
fingimento rematado, eu acabava sentindo que os editores viviam
no mundo da lua – ou sofriam pressão política para publicar
panelinhas de poder
mas
eu apenas continuei escrevendo e não comendo muito – caí de 89 quilos
para 62 – mas – adquiri muita prática datilografando e lendo cartas de rejeição
impressas.
foi quando cheguei aos 62 quilos que eu disse, que vá tudo pro inferno, parei
de datilografar e me concentrei na bebida e nas ruas e nas damas das
ruas – pelo menos aquelas pessoas não liam a Harper’s, The Atlantic ou
Poetry, a magazine of verse.
e francamente, foi uma justa e refrescante folga de dez anos
então voltei e tentei de novo para constatar que os editores ainda viviam
no mundo da lua e/ou etc.
mas eu tinha subido a 102 quilos
descansado
e cheio de música de fundo –
pronto para dar mais um tiro no
escuro.
875
Charles Bukowski
Não Registrado
meu cavalo era o cinza
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
com chance de 4 para um
com largada veloz
e ele tinha um comprimento e
meio
na reta final
com três quartos percorridos
quando sua perna dianteira esquerda
estalou
e ele tombou
arremessando seu jóquei
por cima do pescoço e da
cabeça.
por sorte
os corredores se esquivaram tanto
do cavalo quanto do
jóquei – que
se levantou e se afastou mancando
dos coices do
animal.
potencial de acidente:
eis algo
não registrado
no Programa das Corridas.
no clube
eu vi Harry
parado num canto
distante.
ele era um ex-
agente de jóqueis
agora trabalhando como
treinador
mas não tendo
lá muitas montarias
para treinar.
estava escondido atrás dos
óculos escuros
com aspecto
terrível.
“você foi no cinza?”,
eu perguntei.
“é”, ele disse,
“pesado...”
“você precisa de uma transfusão,
não é muito, mas...”
eu enfiei
3 notas dobradas
de 20 no bolso do
casaco dele.
“valeu”, ele
disse.
“aposta num bom.”
Harry já tinha feito
coisas legais por mim
e de todo modo
ele era um dos
melhores
batalhando uma pequena vantagem
numa das mais sangrentas
atividades
que há: estamos tentando
vencer as porcentagens
e a cada dia
alguns precisam cair
de modo que
outros possam
avançar. (o hipódromo é igual
a qualquer outro lugar
só que ali
isso costuma acontecer
mais
depressa.)
eu fui pegar
um café.
gostei da corrida seguinte
uma disputa de três quartos de milha para
não vencedores de
duas.
um bom acerto
colocaria os deuses no
lugar
e curaria
tudo
num clarão
glorioso...
1 193
Charles Bukowski
Tentando Chegar a Tempo
novo jóquei recém-chegado do Arizona
não conhece esta cidade
mas seu agente conseguiu pra ele uma montaria
na primeira corrida
do último sábado
e o jóquei pegou a
autoestrada
no mesmo dia do jogo
de futebol
entre U.S.C. e U.C.L.A.
e ficou preso
numa das duas pistas especiais
o que o levou para o Rose Bowl
e não ao
hipódromo.
ele foi obrigado a dirigir o caminho todo
até o estacionamento
do jogo de futebol
até que pudesse dar
meia-volta.
na hora em que chegou ao hipódromo
a primeira corrida
tinha terminado.
outro jóquei havia vencido com sua
montaria.
hoje por lá
notei no programa que o
novo jóquei do Arizona
tinha uma boa montaria na
sexta.
aí o cavalo foi tirado da corrida
em cima da hora.
às vezes dar a largada
no momento grandioso
é equivalente a
tentar obter uma ereção
num tornado
e mesmo que você consiga
ninguém tem tempo
para perceber.
não conhece esta cidade
mas seu agente conseguiu pra ele uma montaria
na primeira corrida
do último sábado
e o jóquei pegou a
autoestrada
no mesmo dia do jogo
de futebol
entre U.S.C. e U.C.L.A.
e ficou preso
numa das duas pistas especiais
o que o levou para o Rose Bowl
e não ao
hipódromo.
ele foi obrigado a dirigir o caminho todo
até o estacionamento
do jogo de futebol
até que pudesse dar
meia-volta.
na hora em que chegou ao hipódromo
a primeira corrida
tinha terminado.
outro jóquei havia vencido com sua
montaria.
hoje por lá
notei no programa que o
novo jóquei do Arizona
tinha uma boa montaria na
sexta.
aí o cavalo foi tirado da corrida
em cima da hora.
às vezes dar a largada
no momento grandioso
é equivalente a
tentar obter uma ereção
num tornado
e mesmo que você consiga
ninguém tem tempo
para perceber.
974
Charles Bukowski
O Grande Plano
passando fome num inverno da Filadélfia
tentando ser escritor
eu escrevia e escrevia e bebia e bebia e
bebia
e aí parei de escrever e me concentrei na
bebida.
era outra
forma de arte.
se você não consegue se dar bem com uma coisa você
tenta outra.
claro, eu vinha praticando a
forma da bebida
desde os 15 anos
de idade.
e havia muita competição
nesse campo
também.
era um mundo cheio de bêbados e escritores e
escritores bêbados.
e assim
eu virei um bêbado faminto em vez de um escritor
faminto.
a melhor coisa era o resultado
instantâneo.
e logo virei o maior e
melhor bêbado da vizinhança e
talvez da cidade
inteira.
�
aquilo com absoluta certeza era melhor do que esperar
sentado as cartas de rejeição da New Yorker e da
Atlantic Monthly.
claro, eu nunca considerei a sério a ideia de largar
o jogo da escrita, eu só queria fazer uma
pausa de dez anos
deduzindo que se ficasse famoso cedo demais
eu não teria mais nada na reta final
e agora eu tenho,
obrigado,
com a bebida ainda
descendo.
tentando ser escritor
eu escrevia e escrevia e bebia e bebia e
bebia
e aí parei de escrever e me concentrei na
bebida.
era outra
forma de arte.
se você não consegue se dar bem com uma coisa você
tenta outra.
claro, eu vinha praticando a
forma da bebida
desde os 15 anos
de idade.
e havia muita competição
nesse campo
também.
era um mundo cheio de bêbados e escritores e
escritores bêbados.
e assim
eu virei um bêbado faminto em vez de um escritor
faminto.
a melhor coisa era o resultado
instantâneo.
e logo virei o maior e
melhor bêbado da vizinhança e
talvez da cidade
inteira.
�
aquilo com absoluta certeza era melhor do que esperar
sentado as cartas de rejeição da New Yorker e da
Atlantic Monthly.
claro, eu nunca considerei a sério a ideia de largar
o jogo da escrita, eu só queria fazer uma
pausa de dez anos
deduzindo que se ficasse famoso cedo demais
eu não teria mais nada na reta final
e agora eu tenho,
obrigado,
com a bebida ainda
descendo.
1 244
Charles Bukowski
A Morte Sentou No Meu Colo E Rachou de Rir
eu estava escrevendo três contos por semana
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
e os enviando à Atlantic Monthly
todos voltavam.
meu dinheiro era para selos e envelopes
e papel e vinho
e fiquei tão magro que eu costumava
chupar minhas bochechas
para dentro
e elas se tocavam por cima da minha
língua (foi então que pensei sobre a
Fome de Hamsun – na qual ele comia sua própria
carne; uma vez experimentei morder meu pulso
mas era muito salgado).
de todo modo, certa noite em Miami Beach (não
faço a menor ideia do que é que eu estava fazendo naquela
cidade) eu não comia fazia 60 horas
e peguei meus últimos centavos
famintos
fui até a venda da esquina e
comprei um pão.
meu plano era mastigar cada fatia lentamente –
como se cada uma fosse uma fatia de peru
ou um suculento
bife
e voltei para o meu quarto e
abri o embrulho e as
fatias de pão estavam verdes
e bolorentas.
nada de festa para mim.
eu simplesmente larguei o pão no
chão
e me sentei naquela cama refletindo sobre
o bolor verde, a
decadência.
meu dinheiro de aluguel já estava gasto e
eu escutava todos os sons
de todas as pessoas naquela
pensão
e no chão estavam
as dezenas de contos com as
dezenas de cartas de rejeição da
Atlantic Monthly.
era cedo da noite e eu
desliguei a luz e
fui me deitar e
não demorou até que eu
escutasse os camundongos saindo,
pude ouvi-los rastejando sobre os meus
contos imortais e
comendo o
pão verde bolorento.
e de manhã
quando acordei
vi que
tudo que restava do
pão
era o bolor
verde.
eles haviam comido até o
limite do bolor
deixando
nacos
em meio aos contos e às
cartas de rejeição
enquanto eu ouvia o som do
aspirador de pó da minha
senhoria
batendo ao longo do
corredor
lentamente se aproximando da minha
porta.
1 190
Charles Bukowski
Para Os Meus Amigos da Ivy League:
muitos daqueles que conheci nos circuitos de leitura ou dos quais me falaram nos circuitos
de leitura nos velhos tempos são agora ou professores ou poetas-residentes
e amealharam Guggenheims e N.E.A.s** e diversas outras bolsas.
bem, eu mesmo já tentei obter uma Gugg certa vez, ganhei inclusive um N.E.A. de modo que não posso
criticar o golpe
mas
você tinha que ver os caras naquela época: maltrapilhos, olhos esbugalhados, vociferando
contra o sistema
agora
foram ingeridos, digeridos, polidos
escrevem resenhas para os periódicos
escrevem poesia bem trabalhada, serena, inofensiva
editam tantas das revistas que nem sei para onde eu deveria mandar este
poema
já que eles atacam meu trabalho com alarmante regularidade
e
não consigo ler os deles
porém seus ataques a mim foram eficazes neste país
e
se não fosse pela Europa eu provavelmente ainda seria um escritor passando fome
ou morando na rua
ou arrancando ervas daninhas no seu jardim
ou...?
bem
você conhece o velho ditado: gosto não se
discute
e
ou eles estão certos e eu errado ou então estou certo e eles todos estão
errados
ou
talvez seja algo no meio disso.
a maioria das pessoas no mundo não dá a mínima
e
com frequência sinto a mesma
coisa.
** National Endowment for the Arts. (N.T.)
de leitura nos velhos tempos são agora ou professores ou poetas-residentes
e amealharam Guggenheims e N.E.A.s** e diversas outras bolsas.
bem, eu mesmo já tentei obter uma Gugg certa vez, ganhei inclusive um N.E.A. de modo que não posso
criticar o golpe
mas
você tinha que ver os caras naquela época: maltrapilhos, olhos esbugalhados, vociferando
contra o sistema
agora
foram ingeridos, digeridos, polidos
escrevem resenhas para os periódicos
escrevem poesia bem trabalhada, serena, inofensiva
editam tantas das revistas que nem sei para onde eu deveria mandar este
poema
já que eles atacam meu trabalho com alarmante regularidade
e
não consigo ler os deles
porém seus ataques a mim foram eficazes neste país
e
se não fosse pela Europa eu provavelmente ainda seria um escritor passando fome
ou morando na rua
ou arrancando ervas daninhas no seu jardim
ou...?
bem
você conhece o velho ditado: gosto não se
discute
e
ou eles estão certos e eu errado ou então estou certo e eles todos estão
errados
ou
talvez seja algo no meio disso.
a maioria das pessoas no mundo não dá a mínima
e
com frequência sinto a mesma
coisa.
** National Endowment for the Arts. (N.T.)
1 043
Charles Bukowski
O Jogador
eu tinha 40 pela vitória do cavalo 6
ele tinha 2 corpos de vantagem na reta final
estava correndo junto à grade
quando o jóquei o chicoteou
com a mão direita
e o cavalo bateu na madeira
tombou
derrubou o jóquei
e lá se foi a corrida
para mim.
essa era a sétima corrida
e considerei que o cavalo
poderia ter perdido
de qualquer maneira
e aí considerei a ideia de ir embora
mas decidi jogar na
oitava,
botei 20 pela vitória numa aposta de 5 para
um.
na nona eu apostei 40 pela vitória
do segundo favorito
e quando a campainha tocou na largada
o cavalo empinou e
deixou meu jóquei
na baia.
desci a escada rolante
e saí pelo
portão
onde um jovem me pediu
um dólar para que pudesse
pegar o ônibus
para casa.
eu dei a nota e
falei
“você deveria manter distância deste
lugar”.
“é”, ele disse, “eu
sei.”
então segui rumo ao estacionamento
procurando cigarros nos bolsos do meu
casaco.
nada.
ele tinha 2 corpos de vantagem na reta final
estava correndo junto à grade
quando o jóquei o chicoteou
com a mão direita
e o cavalo bateu na madeira
tombou
derrubou o jóquei
e lá se foi a corrida
para mim.
essa era a sétima corrida
e considerei que o cavalo
poderia ter perdido
de qualquer maneira
e aí considerei a ideia de ir embora
mas decidi jogar na
oitava,
botei 20 pela vitória numa aposta de 5 para
um.
na nona eu apostei 40 pela vitória
do segundo favorito
e quando a campainha tocou na largada
o cavalo empinou e
deixou meu jóquei
na baia.
desci a escada rolante
e saí pelo
portão
onde um jovem me pediu
um dólar para que pudesse
pegar o ônibus
para casa.
eu dei a nota e
falei
“você deveria manter distância deste
lugar”.
“é”, ele disse, “eu
sei.”
então segui rumo ao estacionamento
procurando cigarros nos bolsos do meu
casaco.
nada.
1 131
Charles Bukowski
O Trapézio Imóvel
Saroyan disse para sua esposa: “eu preciso
apostar para poder
escrever”. ela lhe disse para
ir em frente.
ele perdeu $350.000
quase tudo no hipódromo
mas mesmo assim não conseguiu escrever ou
pagar seus impostos.
ele fugiu do governo e se exilou
em Paris.
mais tarde voltou, se virou
como pôde
endividado até o
pescoço –
direitos autorais
definhando.
mesmo assim não conseguia escrever ou
o que escrevia não
funcionava porque o tremendo
e bravo otimismo
que tanto animou
todo mundo
durante a depressão
simplesmente virou
água com açúcar
durante
os bons tempos.
ele morreu
na condição de lenda minguante
com um vasto bigode
em forma de guidão
igualzinho ao que o pai dele
costumava usar
no velho estilo
armênio de Fresno
num mundo que já não podia
usar
Wiliam.
apostar para poder
escrever”. ela lhe disse para
ir em frente.
ele perdeu $350.000
quase tudo no hipódromo
mas mesmo assim não conseguiu escrever ou
pagar seus impostos.
ele fugiu do governo e se exilou
em Paris.
mais tarde voltou, se virou
como pôde
endividado até o
pescoço –
direitos autorais
definhando.
mesmo assim não conseguia escrever ou
o que escrevia não
funcionava porque o tremendo
e bravo otimismo
que tanto animou
todo mundo
durante a depressão
simplesmente virou
água com açúcar
durante
os bons tempos.
ele morreu
na condição de lenda minguante
com um vasto bigode
em forma de guidão
igualzinho ao que o pai dele
costumava usar
no velho estilo
armênio de Fresno
num mundo que já não podia
usar
Wiliam.
1 119
Charles Bukowski
É Por Isso Que Os Enterros São Tão Tristes
ele tem todas as ferramentas mas é preguiçoso, não tem
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
fogo, as mulheres sugam seus sentidos, suas
emoções, ele só quer dirigir seu
carro vistoso,
ele manda encerar o carro uma vez por mês
joga fora os sapatos quando ficam
arranhados
mas ele tem a melhor mão direita no
ramo
e seu gancho de esquerda é capaz de afundar as costelas de um homem
quando eu consigo fazê-lo se mexer
mas
ele não tem um pingo de imaginação
está entre os dez melhores
mas falta música.
ele ganha dinheiro
mas vai tudo sumir das mãos
dele.
um dia ele não conseguirá fazer
sequer o pouco
que está fazendo agora.
sua ideia de vitória é baixar o
máximo número de calcinhas
possível.
ele é
campeão nisso.
e quando você me vê gritando com ele
em seu canto entre os
assaltos
estou tentando acordá-lo para o fato de que
a HORA é
AGORA.
ele apenas sorri para mim:
“que diabo, luta você com ele, ele é
osso duro...”
você não imagina, primo, quantos
homens
são capazes
mas
não fazem.
889
Charles Bukowski
A Única Vida
eu era como um daqueles doidos dos séculos passados, eu era
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.
ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.
ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
Romanticamente louco com a minha obsessão – ha, ha, ser um
escritor, eu escrevia noite e dia. eu escrevia até quando estava
adormecido
e na maioria das vezes eu escrevia quando estava bêbado, até quando não
estava escrevendo.
ah, aquelas dúzias de quartos baratos, minha barriga achatada contra
o cu, fui a 60 quilos numa carcaça de
um metro e oitenta. passei fome. haha, para poder escrever.
(esta é uma história verídica) (não são todas?) e
todos os meus escritos voltavam e afinal precisei
jogá-los fora porque
havia mais espaço de papel do que havia espaço de
mim
e continuei a escrever novas obras que continuaram
voltando e eu pensava
Schopenhauer, Van Gogh, Shostakovich, Céline, Dos-
toiévski
e continuava escrevendo e tudo voltava
de novo
e eu pensava
Villon, Górki, Turguêniev, Sherwood Anderson
e escrevia e escrevia
e ainda nada acontecia
e quando afinal comi
você não imagina como
a comida pode ser verdadeiramente linda, cada mordida um milagre de
luz solar sobre a alma cambaleante, haha,
e eu pensava,
Hamsun, Ezra Pound, T.S. Eliot
mas nada acontecia –
todas as minhas máquinas de escrever perdidas na penhora e eu
imprimia as páginas em tinta
e elas voltavam
e eu as jogava fora
e escrevia um pouco mais e passava fome um pouco
mais.
ah, tive um aprendizado, tive sim, e agora tive um pouco de
sorte, alguns estão começando a pensar que posso escrever, mas
na verdade só a escrita é o lance, agora como foi antes,
seja sim ou não ou algo no meio, é só a escrita, é
o único siga quando tudo mais diz pare
e uma parte ainda volta agora e penso
Nietzsche, e.e. cummings, Robinson Jeffers, Sartre, Camus, Hemingway,
o som da máquina, o som da máquina, palavras
mordendo papel, não há nada mais, não pode haver nada
mais, não importa que volte, não importa que fique e quando
acabar, ha
ha.
1 015
Charles Bukowski
Vivo Para Escrever E Agora Estou Morrendo
já contei antes e nunca foi publicado então
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.
mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.
depois
pra quem mais?
o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.
e o editor da Esquire
e a Atlantic Monthly
e Harper’s.
“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...
e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.
pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...
levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.
pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:
vivo para escrever e agora estou
morrendo.
e
cada dia
eu achava que seria
meu último.
eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.
eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.
eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.
um dia frio era seguido por outro,
lentamente.
a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum
só
conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”
então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”
ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?
e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.
mas Caresse
Crosby?
black sun press?
eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”
dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”
no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.
só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.
é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...
e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.
não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.
vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
talvez eu não tenha contado direito, então
é assim: eu estava em Atlanta, morando num barraco
por $1.25 por semana.
sem luz.
sem aquecimento.
um frio de rachar, estou sem dinheiro mas tenho
selos
envelopes
papel.
mando cartas pedindo socorro, só que não conheço
ninguém.
tem os meus pais mas sei que eles não vão estar
nem aí.
escrevo uma pra eles
mesmo assim.
depois
pra quem mais?
o editor da New Yorker, ele deve me conhecer, eu
enviei um conto por semana pra ele por
anos.
e o editor da Esquire
e a Atlantic Monthly
e Harper’s.
“não estou submetendo texto”, eu
escrevia, “ou talvez esteja... de todo modo...”
e aí vinha a proposta: “só um dólar, vai
salvar a minha vida...” e etc. e etc...
e por algum motivo
eu tinha os endereços de Kay Boyle e Caresse
Crosby
e
escrevi para elas.
pelo menos Caresse tinha me publicado em sua
Portfolio...
levei todas as cartas até a caixa de correio
larguei lá dentro e
esperei.
pensei, alguém ficará com pena do escritor
faminto, sou um homem
dedicado:
vivo para escrever e agora estou
morrendo.
e
cada dia
eu achava que seria
meu último.
eu atrasava o aluguel, encontrava pedaços de comida
nas ruas, geralmente
congelados.
eu levava pra casa e descongelava
embaixo da colcha.
eu pensava no Fome de Hamsun
e
ria.
um dia frio era seguido por outro,
lentamente.
a primeira carta foi do meu pai,
seis páginas, e sacudi as páginas
repetidas vezes
mas não havia dinheiro
algum
só
conselhos,
o principal sendo
este: “você nunca será um
escritor! o que você escreve é feio
demais! ninguém quer ler essa
bosta!”
então chegou o
dia!
uma carta de Caresse
Crosby!
eu abri.
nada de dinheiro
mas
texto datilografado bonitinho:
“Caro Charles,
foi bom receber notícias
suas. desisti da
revista. moro agora num
castelo na Itália. é
no alto de uma montanha mas
embaixo há um vilarejo
com frequência desço lá
para ajudar os pobres. sinto
que é a minha missão.
com amor,
Caresse...”
ela não tinha lido minha carta?
eu
era o pobre!
eu precisava ser um camponês
italiano para me
qualificar?
e os editores das revistas nunca
responderam e tampouco
Kay Boyle
mas nunca gostei do que ela escrevia
de qualquer maneira.
e nunca esperei grande coisa
dos editores das
revistas.
mas Caresse
Crosby?
black sun press?
eu agora até lembro como
afinal saí de
Atlanta.
eu estava simplesmente vagando pelas
ruas e cheguei a uma
pequena área
arborizada.
havia uma cabana de zinco ali
e um grande letreiro vermelho
dizendo: “vagas de trabalho!”
dentro havia um homem com
agradáveis olhos azuis e ele era
bastante cordial
e assinei pra me juntar aos
operários de uma ferrovia:
“em algum ponto a oeste de
Sacramento.”
no caminho de volta
naquele vagão empoeirado de cem anos de idade com
os assentos rasgados e os ratos e
as latas de feijão com carne de porco
nenhum dos caras sabia que eu tinha sido
publicado na Portfolio junto com
Sartre, Henry Miller, Genet e
etc.
junto com reproduções de pinturas de
Picasso e etc. e etc.
e se tivessem ficado sabendo estariam
cagando e andando
e francamente
eu mesmo estava.
só algumas décadas depois
quando eu me via em circunstâncias ligeiramente melhores
que me aconteceu de ler sobre a morte de
Caresse Crosby
e outra vez fiquei desconcertado
por sua recusa em
mandar uma reles notinha para um
gênio americano faminto.
é isso
esta é a última vez que vou escrever essa
história.
ela deveria ser
publicada...
e se for vou receber centenas
de cartas
de gênios americanos famintos
pedindo uma prata, cinco pratas, dez ou
mais.
não vou lhes dizer que estou ajudando os
pobres, à la Caresse.
vou mandá-los ler
os Poemas reunidos de
Kay Boyle.
1 243
Charles Bukowski
Um Poema Para Mim Mesmo
Charles Bukowski contesta o incontestável
trabalhava nos Correios
assusta pessoas nas ruas
é um neurótico
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski é o Rei dos Poetas Teimosos
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski escreve com dureza e age com medo
age com medo e escreve com dureza
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski tem $90.000 no banco e está
preocupado
Charles Bukowski vai ganhar $20.000 por ano nos
próximos 4 anos e
está preocupado
Charles Bukowski é um bêbado
Charles Bukowski ama sua filha
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski diz que odeia leituras de poesia em público
faz leituras de poesia em público
e tem chiliques quando o cachê é inferior a
$50
Charles Bukowski ganhou uma crítica boa na Der Spiegel
Charles Bukowski foi publicado na Penguin Poetry Series #13
Charles Bukowski acabou de escrever seu primeiro romance
tem dois pares velhos de sapato – um preto, outro marrom
Charles Bukowski foi certa vez casado com uma milionária
Charles Bukowski é conhecido no underground
Charles Bukowski dorme até o meio-dia e sempre acorda de
ressaca
Charles Bukowski foi louvado por Genet e Henry Miller
muita gente rica e bem-sucedida gostaria de ser
Charles Bukowski
Charles Bukowski bebe e conversa com fascistas, revolucionários,
babacas, putas e loucos
Charles Bukowski não gosta de poesia
parece um lutador mas apanha todas as vezes
ele bebe scotch ou vinho
Charles Bukowski foi funcionário dos Correios por onze anos
Charles Bukowski foi carteiro nos Correios por 3 anos
escreveu Notas de um velho safado
que está em livrarias do Canal do Panamá até
Amsterdã
Charles Bukowski se embebeda com professores universitários e os manda
chupar merda;
certa vez bebeu meio litro de uísque num só gole numa festa
para caretas, e o que é que
Charles Bukowski estava fazendo lá?
Charles Bukowski está nos arquivos da Universidade de Santa Barbara
foi o que provocou os tumultos em Isla Vista
Charles Bukowski se deu bem – ele pode foder um gambá numa cloaca
e se sair com um royal flush num furacão texano
quase todo mundo quer ser
Charles Bukowski
se embebedar com
Charles Bukowski
todas as garotas de cabelos pretos com bocetas apertadinhas querem
dar para
Charles Bukowski
até quando ele fala de suicídio
Charles Bukowski sorri e às vezes ri
e quando seus editores lhe dizem
mal chegamos no adiantamento ainda
ou nós não fizemos a nossa tabulação bianual
mas você se deu bem
Charles Bukowski
não se preocupe
e a Penguin Books cobra de
Charles Bukowski 2 libras devidas depois que
a primeira edição se esgotou, mas não se preocupe, nós
faremos uma segunda
edição,
e quando o bebum no sofá cai de cara
e Charles Bukowski tenta botá-lo de volta no sofá
o bebum lhe dá um soco no nariz
Charles Bukowski já teve até uma bibliografia escrita a seu respeito
ou tabulada a seu respeito
ele simplesmente não erra
seu mijo não fede
tudo está ótimo,
ele se embebeda até com seu senhorio e sua
senhoria, todo mundo gosta dele, acha que ele é
só só só...
Charles Bukowski tem ombros caídos
ele dá bicadas em teclas que não respondem ao chamado
sabendo que se deu bem
sabendo que ele é excelente
Charles Bukowski está indo à falência
está falindo
num período de aclamação
num período de professores e editores e boceta
ninguém poderá entender que suas últimas cédulas
estão queimando mais rápido do que
cocô de cachorro encharcado de gasolina F-310
e Marina precisa de sapatos
novos.
claro, ele não entende o
intangível, mas
entende.
Charles Bukowski não tem noção
ele se debruça sobre uma máquina de escrever
bêbado às 3:30 da manhã
que outra pessoa leve a bola
ele está machucado e sua bunda foi
chutada
já era
a noite está se mostrando
Charles Bukowski, querido garoto,
o jogo está terminando e você
jamais passou
do meio-campo,
seu imprestável.
trabalhava nos Correios
assusta pessoas nas ruas
é um neurótico
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski é o Rei dos Poetas Teimosos
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski escreve com dureza e age com medo
age com medo e escreve com dureza
inventa as merdas que escreve
principalmente as partes sobre sexo
Charles Bukowski tem $90.000 no banco e está
preocupado
Charles Bukowski vai ganhar $20.000 por ano nos
próximos 4 anos e
está preocupado
Charles Bukowski é um bêbado
Charles Bukowski ama sua filha
Charles Bukowski trabalhava nos Correios
Charles Bukowski diz que odeia leituras de poesia em público
faz leituras de poesia em público
e tem chiliques quando o cachê é inferior a
$50
Charles Bukowski ganhou uma crítica boa na Der Spiegel
Charles Bukowski foi publicado na Penguin Poetry Series #13
Charles Bukowski acabou de escrever seu primeiro romance
tem dois pares velhos de sapato – um preto, outro marrom
Charles Bukowski foi certa vez casado com uma milionária
Charles Bukowski é conhecido no underground
Charles Bukowski dorme até o meio-dia e sempre acorda de
ressaca
Charles Bukowski foi louvado por Genet e Henry Miller
muita gente rica e bem-sucedida gostaria de ser
Charles Bukowski
Charles Bukowski bebe e conversa com fascistas, revolucionários,
babacas, putas e loucos
Charles Bukowski não gosta de poesia
parece um lutador mas apanha todas as vezes
ele bebe scotch ou vinho
Charles Bukowski foi funcionário dos Correios por onze anos
Charles Bukowski foi carteiro nos Correios por 3 anos
escreveu Notas de um velho safado
que está em livrarias do Canal do Panamá até
Amsterdã
Charles Bukowski se embebeda com professores universitários e os manda
chupar merda;
certa vez bebeu meio litro de uísque num só gole numa festa
para caretas, e o que é que
Charles Bukowski estava fazendo lá?
Charles Bukowski está nos arquivos da Universidade de Santa Barbara
foi o que provocou os tumultos em Isla Vista
Charles Bukowski se deu bem – ele pode foder um gambá numa cloaca
e se sair com um royal flush num furacão texano
quase todo mundo quer ser
Charles Bukowski
se embebedar com
Charles Bukowski
todas as garotas de cabelos pretos com bocetas apertadinhas querem
dar para
Charles Bukowski
até quando ele fala de suicídio
Charles Bukowski sorri e às vezes ri
e quando seus editores lhe dizem
mal chegamos no adiantamento ainda
ou nós não fizemos a nossa tabulação bianual
mas você se deu bem
Charles Bukowski
não se preocupe
e a Penguin Books cobra de
Charles Bukowski 2 libras devidas depois que
a primeira edição se esgotou, mas não se preocupe, nós
faremos uma segunda
edição,
e quando o bebum no sofá cai de cara
e Charles Bukowski tenta botá-lo de volta no sofá
o bebum lhe dá um soco no nariz
Charles Bukowski já teve até uma bibliografia escrita a seu respeito
ou tabulada a seu respeito
ele simplesmente não erra
seu mijo não fede
tudo está ótimo,
ele se embebeda até com seu senhorio e sua
senhoria, todo mundo gosta dele, acha que ele é
só só só...
Charles Bukowski tem ombros caídos
ele dá bicadas em teclas que não respondem ao chamado
sabendo que se deu bem
sabendo que ele é excelente
Charles Bukowski está indo à falência
está falindo
num período de aclamação
num período de professores e editores e boceta
ninguém poderá entender que suas últimas cédulas
estão queimando mais rápido do que
cocô de cachorro encharcado de gasolina F-310
e Marina precisa de sapatos
novos.
claro, ele não entende o
intangível, mas
entende.
Charles Bukowski não tem noção
ele se debruça sobre uma máquina de escrever
bêbado às 3:30 da manhã
que outra pessoa leve a bola
ele está machucado e sua bunda foi
chutada
já era
a noite está se mostrando
Charles Bukowski, querido garoto,
o jogo está terminando e você
jamais passou
do meio-campo,
seu imprestável.
1 019
Charles Bukowski
Um Longo Dia Quente No Hipódromo
o dia todo lá no hipódromo queimando no sol
eles viraram tudo de ponta-cabeça, lançaram as
apostas remotas todas. tive um único vencedor, um
lance de 6 pra 1. é em dias como esse que você percebe
o logro em andamento.
eu estava no clube. encontro geralmente o
maître d’ do Musso’s no clube. naquele
dia eu encontrei meu médico. “mas onde é que você andava?”,
ele me perguntou. “nada além de ressacas ultimamente”,
respondi. “apareça mesmo assim. você não vai
querer ficar doente. podemos almoçar. conheço um
tailandês, vamos comer uma comida tailandesa. você ainda
escreve aqueles troços pornográficos?” “sim”, eu disse,
“é só assim que eu consigo fazer.” “vou me
sentar com você”, ele disse, “peguei o 6.”
“peguei o 6 também”, eu disse, “ou seja,
estamos fodidos.”
sentamos e ele me falou sobre suas quatro
esposas: a primeira não queria copular.
a segunda queria ir esquiar em
Aspen toda hora. a terceira era
louca. a quarta era ok, eles
ficaram juntos por sete anos.
os cavalos saíram do portão. o médico
apenas olhava para mim e falava sobre sua quarta
esposa. um médico bem falastrão. eu tinha
acessos de tontura ouvindo sua falação sentado
na beira da mesa de exame. mas ele tinha
trazido minha filha ao mundo e tinha cortado
fora minhas hemorroidas.
ele seguia falando da quarta esposa...
a corrida era de 6 furlongs e a menos que seja um bando
de perdedores lentos os 6 furlongs são geralmente corridos
em algo entre um minuto e nove ou dez
segundos. o primeiro cavalo era 24 pra um e tinha
pulado para uma liderança de três comprimentos. o filho da
puta parecia não ter nenhuma intenção de
parar.
“escuta”, eu disse, “você não vai olhar
a corrida?”
“não”, ele disse, “não aguento olhar, fico
aflito demais.”
ele começou de novo com a quarta esposa.
“espera”, eu disse, “estão vindo pela
reta final!”
o 24 pra um chegou com cinco comprimentos. já
era.
“não tem lógica nenhuma em nada desse troço aqui”,
disse o médico.
“eu sei”, eu disse, “mas a pergunta que você deve
me responder é: ‘por que nós estamos aqui?’.”
ele abriu a carteira e me mostrou uma foto de
seus dois filhos. falei que eram belas
crianças e que restava uma corrida.
“estou quebrado”, ele disse, “preciso ir. perdi
$425.”
“tá bom, tchau.” apertamos as mãos.
“me liga”, ele disse, “a gente vai no restaurante tailandês.”
a última corrida não foi melhor: botaram pra correr um
9 pra um que estava subindo de categoria e
não tinha vencido nenhuma corrida em dois anos.
desci a escada rolante com os perdedores. era
uma quinta-feira quente de julho. o que é que o meu médico
estava fazendo no hipódromo numa quinta? e
se eu estivesse com câncer ou gonorreia? Jesus Cristo, não
dava pra confiar mais em ninguém.
eu tinha lido no jornal entre as corridas
que uns garotos haviam invadido uma
casa e espancado uma mulher de 96 anos
até a morte e haviam espancado quase até a morte
a irmã ou filha cega de 82 anos,
eu não lembrava direito. mas haviam levado um
aparelho de televisão a cores.
pensei, se me pegarem aqui
amanhã, eu mereço perder. não
estarei aqui, creio que
não.
andei até o meu carro com o Programa
das Corridas do dia seguinte enrolado na
mão direita.
eles viraram tudo de ponta-cabeça, lançaram as
apostas remotas todas. tive um único vencedor, um
lance de 6 pra 1. é em dias como esse que você percebe
o logro em andamento.
eu estava no clube. encontro geralmente o
maître d’ do Musso’s no clube. naquele
dia eu encontrei meu médico. “mas onde é que você andava?”,
ele me perguntou. “nada além de ressacas ultimamente”,
respondi. “apareça mesmo assim. você não vai
querer ficar doente. podemos almoçar. conheço um
tailandês, vamos comer uma comida tailandesa. você ainda
escreve aqueles troços pornográficos?” “sim”, eu disse,
“é só assim que eu consigo fazer.” “vou me
sentar com você”, ele disse, “peguei o 6.”
“peguei o 6 também”, eu disse, “ou seja,
estamos fodidos.”
sentamos e ele me falou sobre suas quatro
esposas: a primeira não queria copular.
a segunda queria ir esquiar em
Aspen toda hora. a terceira era
louca. a quarta era ok, eles
ficaram juntos por sete anos.
os cavalos saíram do portão. o médico
apenas olhava para mim e falava sobre sua quarta
esposa. um médico bem falastrão. eu tinha
acessos de tontura ouvindo sua falação sentado
na beira da mesa de exame. mas ele tinha
trazido minha filha ao mundo e tinha cortado
fora minhas hemorroidas.
ele seguia falando da quarta esposa...
a corrida era de 6 furlongs e a menos que seja um bando
de perdedores lentos os 6 furlongs são geralmente corridos
em algo entre um minuto e nove ou dez
segundos. o primeiro cavalo era 24 pra um e tinha
pulado para uma liderança de três comprimentos. o filho da
puta parecia não ter nenhuma intenção de
parar.
“escuta”, eu disse, “você não vai olhar
a corrida?”
“não”, ele disse, “não aguento olhar, fico
aflito demais.”
ele começou de novo com a quarta esposa.
“espera”, eu disse, “estão vindo pela
reta final!”
o 24 pra um chegou com cinco comprimentos. já
era.
“não tem lógica nenhuma em nada desse troço aqui”,
disse o médico.
“eu sei”, eu disse, “mas a pergunta que você deve
me responder é: ‘por que nós estamos aqui?’.”
ele abriu a carteira e me mostrou uma foto de
seus dois filhos. falei que eram belas
crianças e que restava uma corrida.
“estou quebrado”, ele disse, “preciso ir. perdi
$425.”
“tá bom, tchau.” apertamos as mãos.
“me liga”, ele disse, “a gente vai no restaurante tailandês.”
a última corrida não foi melhor: botaram pra correr um
9 pra um que estava subindo de categoria e
não tinha vencido nenhuma corrida em dois anos.
desci a escada rolante com os perdedores. era
uma quinta-feira quente de julho. o que é que o meu médico
estava fazendo no hipódromo numa quinta? e
se eu estivesse com câncer ou gonorreia? Jesus Cristo, não
dava pra confiar mais em ninguém.
eu tinha lido no jornal entre as corridas
que uns garotos haviam invadido uma
casa e espancado uma mulher de 96 anos
até a morte e haviam espancado quase até a morte
a irmã ou filha cega de 82 anos,
eu não lembrava direito. mas haviam levado um
aparelho de televisão a cores.
pensei, se me pegarem aqui
amanhã, eu mereço perder. não
estarei aqui, creio que
não.
andei até o meu carro com o Programa
das Corridas do dia seguinte enrolado na
mão direita.
1 100
Charles Bukowski
O Ex-Pugilista
ele se aferrava com força ao corpo
aguentava bem
e adorava uma briga
já levava uma sequência de sete e tinha uma pequena mancha
sobre um dos olhos,
e então topou com um garoto de Camden
cujos braços eram finos como arames –
era dos bons,
os gorilas da audiência urraram e jogaram dinheiro;
os dois caíram e se levantaram muitas vezes,
mas ele perdeu aquela
e perdeu também a revanche
na qual nenhum dos dois chegou a lutar,
agarrados um ao outro como se fossem amantes através das vaias,
e agora ele trabalha com o Mike
trocando pneus e óleo e baterias,
a mancha sobre o olho
ainda jovem,
mas você não fala com ele,
você não pergunta nada para ele
exceto talvez
será que vai chover?
ou
acha que o sol vai aparecer?
ao que ele normalmente responderia
claro que não,
mas você encheria seu tanque de gasolina
e iria embora.
aguentava bem
e adorava uma briga
já levava uma sequência de sete e tinha uma pequena mancha
sobre um dos olhos,
e então topou com um garoto de Camden
cujos braços eram finos como arames –
era dos bons,
os gorilas da audiência urraram e jogaram dinheiro;
os dois caíram e se levantaram muitas vezes,
mas ele perdeu aquela
e perdeu também a revanche
na qual nenhum dos dois chegou a lutar,
agarrados um ao outro como se fossem amantes através das vaias,
e agora ele trabalha com o Mike
trocando pneus e óleo e baterias,
a mancha sobre o olho
ainda jovem,
mas você não fala com ele,
você não pergunta nada para ele
exceto talvez
será que vai chover?
ou
acha que o sol vai aparecer?
ao que ele normalmente responderia
claro que não,
mas você encheria seu tanque de gasolina
e iria embora.
1 103
Charles Bukowski
K.O.
ele era barbada, gordo como um beija-flor
e eu o mantinha golpeando,
lançava um soco e trocava a guarda e dava um tempo:
todos esperavam pela luta da noite,
bebendo cerveja, e eu pensava
como vamos mobiliar a casa,
eu precisava de uma bancada e algumas ferramentas,
e então ele disparou uma direita –
eu tinha ficado olhando para as luzes
e a próxima coisa que fui capaz de me lembrar
foram todos uivando, e eu de joelhos como se
rezasse, e quando me levantei
ele era forte e eu era fraco;
bem, pensei, vou voltar para a fazenda,
eu sempre fui um pobre vencedor.
e eu o mantinha golpeando,
lançava um soco e trocava a guarda e dava um tempo:
todos esperavam pela luta da noite,
bebendo cerveja, e eu pensava
como vamos mobiliar a casa,
eu precisava de uma bancada e algumas ferramentas,
e então ele disparou uma direita –
eu tinha ficado olhando para as luzes
e a próxima coisa que fui capaz de me lembrar
foram todos uivando, e eu de joelhos como se
rezasse, e quando me levantei
ele era forte e eu era fraco;
bem, pensei, vou voltar para a fazenda,
eu sempre fui um pobre vencedor.
1 026
Charles Bukowski
Perdido
não
não temos não temos como vencer
decidimos que não podemos vencer
apenas por um instante pensávamos poder
mas foi por apenas um instante
agora sabemos que não podemos vencer
não podemos ficar parados e vencer
ou correr e vencer
ou fazer certo e vencer
ou fazer errado e vencer
alguma outra pessoa vai vencer
é por isso que essa pessoa está lá e
nós estamos aqui
é terrível ser derrotado
naquilo que realmente importa
isto acontecerá
aceitar isso é impossível
saber isso é mais importante
que pombas ou rebimbocas ou
amor.
não temos não temos como vencer
decidimos que não podemos vencer
apenas por um instante pensávamos poder
mas foi por apenas um instante
agora sabemos que não podemos vencer
não podemos ficar parados e vencer
ou correr e vencer
ou fazer certo e vencer
ou fazer errado e vencer
alguma outra pessoa vai vencer
é por isso que essa pessoa está lá e
nós estamos aqui
é terrível ser derrotado
naquilo que realmente importa
isto acontecerá
aceitar isso é impossível
saber isso é mais importante
que pombas ou rebimbocas ou
amor.
1 232