Poemas neste tema
Tempo e Passagem
Fernando Pessoa
35 - THE HOURS
The hours are weary of being hours.
Oh, to be aught else! they say.
Their task's to age children, hopes and flowers,
Paint lips cold and hairs gray.
They sicken and sadden and deaden beauty.
When they pass and look behind,
Lining the path of their ended duty
They only weeping fmd.
So, Oh, to be something else! they say,
For they think they know
That the things and thoughts they take away
Really fade and go.
But they do not know, blind misers screening
A robber‑changed false pelf,
That everything has Another Meaning -
Ay, even God Himself
Oh, to be aught else! they say.
Their task's to age children, hopes and flowers,
Paint lips cold and hairs gray.
They sicken and sadden and deaden beauty.
When they pass and look behind,
Lining the path of their ended duty
They only weeping fmd.
So, Oh, to be something else! they say,
For they think they know
That the things and thoughts they take away
Really fade and go.
But they do not know, blind misers screening
A robber‑changed false pelf,
That everything has Another Meaning -
Ay, even God Himself
1 484
Fernando Pessoa
E o som só dentro do relógio acentuado
E o som só dentro do relógio acentuado
No serão sem ninguém das casas de jantar da província
Põe-me o tempo inteiro em cima da alma,
E enquanto não chega a hora do chá das tias velhas,
O meu coração ouve o tempo passar e sofre comigo.
Tic-tac mais sonolento que o dos outros relógios —
Na parede, de madeira, este tem pêndulo e oscila.
O meu coração tem saudades não sabe de quê.
Tenho que morrer...
Tic-tac mecânico e certo — serão sereno mecânico na província.
No serão sem ninguém das casas de jantar da província
Põe-me o tempo inteiro em cima da alma,
E enquanto não chega a hora do chá das tias velhas,
O meu coração ouve o tempo passar e sofre comigo.
Tic-tac mais sonolento que o dos outros relógios —
Na parede, de madeira, este tem pêndulo e oscila.
O meu coração tem saudades não sabe de quê.
Tenho que morrer...
Tic-tac mecânico e certo — serão sereno mecânico na província.
1 603
Fernando Pessoa
Só uma cousa me apavora
Só uma cousa me apavora
A esta hora, a toda a hora:
É que verei a morte frente a frente,
Inevitavelmente.
Ah, este horror, como poder dizer?
Não lhe poder fugir! Não podê-lo esquecer!
E nessa hora em que eu e a Morte
Nos encontrarmos
O que verei? o que saberei?
O que não verei? o que não saberei?
Horror! A vida é má e é má a morte,
Mas quisera viver eternamente
Sem saber nunca, (...) e inconsciente
Isso que a morte traz e (...)
Não me tenta o mistério
Nem desejo saber
O que é que vai do berço ao cemitério
No ardor chamado viver.
A verdade apavora-me e confrange,
Perturba-me como a ninguém.
Que o tempo cesse!
Que pare e fique sempre este momento!
Que eu nunca me aproxime desse
Horror que mata o pensamento!
Envolvei-me, fechai-me dentro em vós
E que eu não morra nunca.
Odeio a vida, amarga-me e horroriza.
Mas a morte — oh a morte, velada
O próprio horror dentro em mim paralisa
Deixando a dor funda e estagnada.
Horror! Horror! O tempo, oh vidas com vida!
Mistérios menores onde esquecer
Se pode a mor dor indefinida,
Menos horrorosos porque não sabeis dizer
Esse segredo que dito deveis trazer.
Não me deixeis morrer...
A esta hora, a toda a hora:
É que verei a morte frente a frente,
Inevitavelmente.
Ah, este horror, como poder dizer?
Não lhe poder fugir! Não podê-lo esquecer!
E nessa hora em que eu e a Morte
Nos encontrarmos
O que verei? o que saberei?
O que não verei? o que não saberei?
Horror! A vida é má e é má a morte,
Mas quisera viver eternamente
Sem saber nunca, (...) e inconsciente
Isso que a morte traz e (...)
Não me tenta o mistério
Nem desejo saber
O que é que vai do berço ao cemitério
No ardor chamado viver.
A verdade apavora-me e confrange,
Perturba-me como a ninguém.
Que o tempo cesse!
Que pare e fique sempre este momento!
Que eu nunca me aproxime desse
Horror que mata o pensamento!
Envolvei-me, fechai-me dentro em vós
E que eu não morra nunca.
Odeio a vida, amarga-me e horroriza.
Mas a morte — oh a morte, velada
O próprio horror dentro em mim paralisa
Deixando a dor funda e estagnada.
Horror! Horror! O tempo, oh vidas com vida!
Mistérios menores onde esquecer
Se pode a mor dor indefinida,
Menos horrorosos porque não sabeis dizer
Esse segredo que dito deveis trazer.
Não me deixeis morrer...
1 347
Fernando Pessoa
Eu no tempo não choro que me leve
Eu no tempo não choro que me leve
A juventude, o já encanecer
A cabeça que pouco ainda esteve
Sob o Sol solto e a tarde a arrefecer.
Nem choro que não me ames, que faleça
O amor que vi em ti, que também haja
Uma tarde do amar, que desfaleça
E a noite fique, (...)
Mais que tudo choro já não te amar,
Sim, choro a tragédia de não ser o mesmo na alma,
De te ser infiel sem infidelidade,
De me ter esquecido de ti sem propriamente te aborrecer.
Não é o tempo ido em que te amei que choro.
Choro não te amar já por isso ser natural.
Choro ter-te esquecido, choro não me poder lembrar
Com saudade do tempo em que te amei.
Isso é que choro, sim, com as verdadeiras lágrimas
Que contém em si os piores mistérios —
A morte essencial das coisas,
O acabar das almas, mais grave que o dos corpos,
O abismo onde a única esperança é poder haver Deus
E um outro sentido desconhecido a tudo que se teve e se foi
Um outro lado, nem côncavo nem convexo à curva da vida.
A juventude, o já encanecer
A cabeça que pouco ainda esteve
Sob o Sol solto e a tarde a arrefecer.
Nem choro que não me ames, que faleça
O amor que vi em ti, que também haja
Uma tarde do amar, que desfaleça
E a noite fique, (...)
Mais que tudo choro já não te amar,
Sim, choro a tragédia de não ser o mesmo na alma,
De te ser infiel sem infidelidade,
De me ter esquecido de ti sem propriamente te aborrecer.
Não é o tempo ido em que te amei que choro.
Choro não te amar já por isso ser natural.
Choro ter-te esquecido, choro não me poder lembrar
Com saudade do tempo em que te amei.
Isso é que choro, sim, com as verdadeiras lágrimas
Que contém em si os piores mistérios —
A morte essencial das coisas,
O acabar das almas, mais grave que o dos corpos,
O abismo onde a única esperança é poder haver Deus
E um outro sentido desconhecido a tudo que se teve e se foi
Um outro lado, nem côncavo nem convexo à curva da vida.
1 587
Fernando Pessoa
Hora a hora não dura a face antiga
Hora a hora não dura a face antiga
Dos repetidos seres, e hora a hora,
Pensando, envelhecemos.
Tudo passa ignorado, e o que, sabido,
Fica só sabe que ignora, porém nada
Torna, ciente ou néscio.
Pares, assim, do que não somos pares,
Da hora incerta a chama agasalhemos
Com côncavas mãos frias.
Dos repetidos seres, e hora a hora,
Pensando, envelhecemos.
Tudo passa ignorado, e o que, sabido,
Fica só sabe que ignora, porém nada
Torna, ciente ou néscio.
Pares, assim, do que não somos pares,
Da hora incerta a chama agasalhemos
Com côncavas mãos frias.
922
Fernando Pessoa
Nem relógio parado, nem a falta
Nem relógio parado, nem a falta
Da água em clepsidra, ou na ampulheta a areia
Tiram o tempo ao tempo.
Da água em clepsidra, ou na ampulheta a areia
Tiram o tempo ao tempo.
1 599
Fernando Pessoa
Pequeno é o espaço que de nós separa
Pequeno é o espaço que de nós separa
O que havemos de ser quando morrermos.
Não conhecemos quem será o morto
De hoje que então acaba.
Só o passado, comum a nós e a ele,
Será indício de que a nossa alma
Persiste e como antiga ama, conta
Histórias esquecidas…
Se pudéssemos pôr o pensamento
Com esta visão adentro de ideia
Que havemos de ter naquela hora,
Estranhos olharíamos
O que somos, cuidando ver um outro
E o espaço temporal que hoje habitamos
Luz onde nossa alma nasceu
Alheia antes de a termos.
O que havemos de ser quando morrermos.
Não conhecemos quem será o morto
De hoje que então acaba.
Só o passado, comum a nós e a ele,
Será indício de que a nossa alma
Persiste e como antiga ama, conta
Histórias esquecidas…
Se pudéssemos pôr o pensamento
Com esta visão adentro de ideia
Que havemos de ter naquela hora,
Estranhos olharíamos
O que somos, cuidando ver um outro
E o espaço temporal que hoje habitamos
Luz onde nossa alma nasceu
Alheia antes de a termos.
1 578
Fernando Pessoa
A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora
A vida é triste. O céu é sempre o mesmo. A hora
Passa segundo nossa estéril, tímida maneira.
Ah não haver terraços sobre o impossível.
Passa segundo nossa estéril, tímida maneira.
Ah não haver terraços sobre o impossível.
846
Fernando Pessoa
Folha após folha vemos caem
De amore suo
Folha após folha vemos caem,
Cloé, as folhas todas.
Nem antes para elas, para nós
Que sabemos que morrem.
Assim, Cloé, assim,
O amor, antes que o corpo que empregamos
Nele, em nós envelhece;
E nós, diversos, somos, inda jovens,
Só a mútua lembrança.
Ah, se o que somos será isto sempre
E só uma hora é o que somos,
Com tal excesso e fúria em cada amplexo
A hausta vida ponhamos,
Que encha toda a memória, e nos beijemos
Como se, findo o beijo
Único, sobre nós ruísse a súbita
Mole do inteiro mundo.
Folha após folha vemos caem,
Cloé, as folhas todas.
Nem antes para elas, para nós
Que sabemos que morrem.
Assim, Cloé, assim,
O amor, antes que o corpo que empregamos
Nele, em nós envelhece;
E nós, diversos, somos, inda jovens,
Só a mútua lembrança.
Ah, se o que somos será isto sempre
E só uma hora é o que somos,
Com tal excesso e fúria em cada amplexo
A hausta vida ponhamos,
Que encha toda a memória, e nos beijemos
Como se, findo o beijo
Único, sobre nós ruísse a súbita
Mole do inteiro mundo.
1 508
Fernando Pessoa
De uma só vez recolhe
De uma só vez recolhe
Quantas flores puderes.
Não dura mais que até à morte o dia.
Colhe de que recordes.
A vida é pouco e cerca-a
A sombra e o sem remédio.
Não temos regras que compreendamos,
Súbditos sem governo.
Goza este dia como
Se a Vida fosse nele.
Homens nem deuses fadam, nem destinam
Senão o que ignoramos.
Quantas flores puderes.
Não dura mais que até à morte o dia.
Colhe de que recordes.
A vida é pouco e cerca-a
A sombra e o sem remédio.
Não temos regras que compreendamos,
Súbditos sem governo.
Goza este dia como
Se a Vida fosse nele.
Homens nem deuses fadam, nem destinam
Senão o que ignoramos.
1 698
Fernando Pessoa
Não torna atrás a negregada prole
Não torna atrás a negregada prole
Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
Saudoso de todos.
Regular de Saturno,
Nem magnos deuses implorados volvem
Quem foi à luz que vemos.
Moramos, hóspedes na vida, e usamos
Um tempo do discurso,
Um breve amor, um sorriso breve, e um dia
Saudoso de todos.
1 127
Fernando Pessoa
Pequena vida consciente, sempre
Pequena vida consciente, sempre
Da repetida imagem perseguida
Do fim inevitável, a cada hora
Sentindo-se mudada,
E, como Orfeu volvendo à vinda esposa
O olhar algoz, para o passado erguendo
A memória pra em mágoas o apagar
No baratro da mente.
Da repetida imagem perseguida
Do fim inevitável, a cada hora
Sentindo-se mudada,
E, como Orfeu volvendo à vinda esposa
O olhar algoz, para o passado erguendo
A memória pra em mágoas o apagar
No baratro da mente.
1 382
Fernando Pessoa
Teu olhar não tem remorsos
Teu olhar não tem remorsos
Não é por não ter que os ter.
É porque hoje não é ontem
E viver é só esquecer.
Não é por não ter que os ter.
É porque hoje não é ontem
E viver é só esquecer.
1 313
Fernando Pessoa
The day is sad as I am sad,
The day is sad as I am sad,
But that no moment can abate
That pang that is all I have had
To take with me and see and feel
While life goes by like a mere wheel.
No. Deeper things than skies and plains
Are dark and lower'd o'er in me.
My sorrows are more empty pains
Than of which plains landscapes can symbols be.
And my own [?] weight of life and self
Resembles nothing but itself.
But that no moment can abate
That pang that is all I have had
To take with me and see and feel
While life goes by like a mere wheel.
No. Deeper things than skies and plains
Are dark and lower'd o'er in me.
My sorrows are more empty pains
Than of which plains landscapes can symbols be.
And my own [?] weight of life and self
Resembles nothing but itself.
1 383
Fernando Pessoa
Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;
Quem fui é externo a mim. Se lembro, vejo;
E ver é ser alheio. Meu passado
Só por visão relembro.
Aquilo mesmo que senti me é claro.
Alheia é a alma antiga; o que me sinto
Chegou hoje à estalagem.
Quem pode conhecer, entre tanto erro
De modos de sentir-se, a exacta forma
Que tem para consigo?
E ver é ser alheio. Meu passado
Só por visão relembro.
Aquilo mesmo que senti me é claro.
Alheia é a alma antiga; o que me sinto
Chegou hoje à estalagem.
Quem pode conhecer, entre tanto erro
De modos de sentir-se, a exacta forma
Que tem para consigo?
833
Fernando Pessoa
Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte
Quem és, não o serás, que o tempo e a sorte
Te mudarão em outro.
Para quê pois em seres te empenhares
O que não serás tu?
Teu é o que és, teu o que tens, de quem
E o que outro tiveres?
Te mudarão em outro.
Para quê pois em seres te empenhares
O que não serás tu?
Teu é o que és, teu o que tens, de quem
E o que outro tiveres?
1 287
Fernando Pessoa
1. Little flower that wert on the hill,
1.
Little flower that wert on the hill,
Where art thou to-day?
Thou that saw'st thyself in the rill
Art thou gone away?
Ah, now I see that thou art dead
And that thy charm from us is fled.
Little flower that wert on the hill,
Where art thou to-day?
Thou that saw'st thyself in the rill
Art thou gone away?
Ah, now I see that thou art dead
And that thy charm from us is fled.
1 405
Fernando Pessoa
Quatro vezes mudou a estação falsa
Quatro vezes mudou a estação falsa
No falso ano, no imutável curso
Do tempo consequente;
Ao verde segue o seco, e ao seco o verde;
E não sabe ninguém qual é o primeiro,
Nem o último, e acabam.
No falso ano, no imutável curso
Do tempo consequente;
Ao verde segue o seco, e ao seco o verde;
E não sabe ninguém qual é o primeiro,
Nem o último, e acabam.
1 536
Fernando Pessoa
Sorrow no more for the faded rose,
Sorrow no more for the faded rose,
Nor of the yellow lily despair.
These, as we see them, are but their shows.
They are elsewhere.
Tis but their shadow lives in our light.
As we see them (...)
They live more truly in our delight
Than in their forms.
The beauty they had was never lost,
It moved away
From the present hour and the form once tossed
Into space and day.
But the undying essence of the (...)
The rose that faded from yesterday
Is where yesterday is.
I shall have again the flower and the day,
The self and the bliss.
Nor of the yellow lily despair.
These, as we see them, are but their shows.
They are elsewhere.
Tis but their shadow lives in our light.
As we see them (...)
They live more truly in our delight
Than in their forms.
The beauty they had was never lost,
It moved away
From the present hour and the form once tossed
Into space and day.
But the undying essence of the (...)
The rose that faded from yesterday
Is where yesterday is.
I shall have again the flower and the day,
The self and the bliss.
1 408
Fernando Pessoa
When slattern Time, worn out with toil of wearing,
When slattern Time, worn out with toil of wearing,
With loose‑tied pack shall trudge upon my years,
And I shall feel that forced occasion nearing
That despair's self (that must live to be) fears,
I, being beggared of all wealth of hope -
So prodigal have I to wishes been -
Shall with known uselessness for the coin grope
To pay that the hour’s ending be serene.
I shall not enter the great silent cave
With curious ardour, or ease out of sun,
But all that with me I shall then still have
Will be a coward rage that all is done.
No hope the cave's a passage shall control
Fear of the immediate night of the shown hole.
With loose‑tied pack shall trudge upon my years,
And I shall feel that forced occasion nearing
That despair's self (that must live to be) fears,
I, being beggared of all wealth of hope -
So prodigal have I to wishes been -
Shall with known uselessness for the coin grope
To pay that the hour’s ending be serene.
I shall not enter the great silent cave
With curious ardour, or ease out of sun,
But all that with me I shall then still have
Will be a coward rage that all is done.
No hope the cave's a passage shall control
Fear of the immediate night of the shown hole.
1 391
Fernando Pessoa
Tenho ainda na lembrança
Tenho ainda na lembrança
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!
Como uma coisa que vejo,
O quando inda eras criança.
Nunca mais me dás um beijo!
1 732
Fernando Pessoa
Não tenhas nada nas mãos [2]
Não tenhas nada nas mãos
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
Salvo uma memória na alma
Que quando te puserem
Nas mãos o óbolo último
Nada terás deixado.
Tu serás só tu próprio
Não poderão roubar-te
O que nunca tiveste.
Que trono te querem dar
Que Atropos to não tire?...
Que Coroa que não fane
No arbítrio de Minos?
Que horas que não te tornem
Da estatura da sombra
Que serás quando fores
O fim da tua estrada?
Colhe as flores. Abdica
E sê Rei de ti próprio.
2 218
Fernando Pessoa
Seguro assento na coluna firme [ 3]
Seguro assento na coluna firme
Dos versos em que fico.
O criador interno movimento
Por quem fui autor deles
Passa, e eu sobrevivo, já não quem
Escreveu o que fez.
Chegada a hora, passarei também
E os versos, que não sentem
Serão a única restança posta
Nos capitéis do tempo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morremos a obra viva.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado faz que eles a rejam.
Mas se assim é, é assim.
Aquele agudo interno movimento,
Por quem fui autor deles
Primeiro passa, e eu, outro já do que era,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, também serei menos
Que os versos permanentes.
E papel, ou papiro escrito e morto
Tem mais vida que a mente.
Na noite a sombra é mais igual à noite
Que o corpo que alumia.
Dos versos em que fico.
O criador interno movimento
Por quem fui autor deles
Passa, e eu sobrevivo, já não quem
Escreveu o que fez.
Chegada a hora, passarei também
E os versos, que não sentem
Serão a única restança posta
Nos capitéis do tempo.
A obra imortal excede o autor da obra;
E é menos dono dela
Quem a fez do que o tempo em que perdura.
Morremos a obra viva.
Assim os deuses esta nossa regem
Mortal e imortal vida;
Assim o Fado faz que eles a rejam.
Mas se assim é, é assim.
Aquele agudo interno movimento,
Por quem fui autor deles
Primeiro passa, e eu, outro já do que era,
Póstumo substituo-me.
Chegada a hora, também serei menos
Que os versos permanentes.
E papel, ou papiro escrito e morto
Tem mais vida que a mente.
Na noite a sombra é mais igual à noite
Que o corpo que alumia.
1 081
Fernando Pessoa
A flor que és, não a que dás, eu quero. [2]
Ad juvenem rosam offerentem
A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço?
Tão curto tempo é a mais longa vida,
E a juventude nela!
Flor vives, vã; porque te flor não cumpres?
Se te sorver esquivo o infausto abismo,
Perene velarás, absurda sombra,
O que não dou buscando.
Na oculta margem onde os lírios frios
Da infera leiva crescem, e a corrente
Monótona, não sabe onde é o dia,
Sussurro gemebundo.
A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço?
Tão curto tempo é a mais longa vida,
E a juventude nela!
Flor vives, vã; porque te flor não cumpres?
Se te sorver esquivo o infausto abismo,
Perene velarás, absurda sombra,
O que não dou buscando.
Na oculta margem onde os lírios frios
Da infera leiva crescem, e a corrente
Monótona, não sabe onde é o dia,
Sussurro gemebundo.
1 525