Poemas neste tema
Velhice e Envelhecimento
Charles Bukowski
Poema de Amor Para Uma Stripper
50 anos atrás eu observava as garotas
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nós girávamos em nossos assentos e
fazíamos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitários
tanto tempo atrás.
agora, Rosalie,
ou tão absolutamente velha ou
tão tranquila embaixo da
terra,
este é o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
você.
você era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz é
amarela
e as noites são
lentas.
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nós girávamos em nossos assentos e
fazíamos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitários
tanto tempo atrás.
agora, Rosalie,
ou tão absolutamente velha ou
tão tranquila embaixo da
terra,
este é o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
você.
você era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz é
amarela
e as noites são
lentas.
610
Charles Bukowski
Poema nos Meus 43 Anos
Terminar sozinho
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida ---
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.
...de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...
e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.
no túmulo de um quarto
sem cigarros
nem bebida ---
careca como uma lâmpada,
barrigudo,
grisalho,
e feliz por ter
um quarto.
...de manhã
eles estão lá fora
ganhando dinheiro:
juízes, carpinteiros,
encanadores, médicos,
jornaleiros, guardas,
barbeiros, lavadores de carro,
dentistas, floristas,
garçonetes, cozinheiros,
motoristas de táxi...
e você se vira
para o lado esquerdo
pra pegar o sol
nas costas
e não
direto nos olhos.
1 177
Charles Bukowski
Amor
já vi velhos casais
sentados em cadeiras de balanço
um diante do outro
sendo felicitados e celebrados
por estarem juntos há 50 ou 60
anos
que muito
tempo atrás teriam
aceitado qualquer outra
coisa
mas o destino
o medo e as
circunstâncias
os amarraram,
e quando lhes falamos
como são maravilhosos
em seu grandioso e duradouro
amor
só eles
realmente sabem
mas não podem nos dizer
que desde o momento em que
se conheceram
em diante
não significou
tanto assim
como
esperar pela morte
agora.
é mais ou menos o
mesmo.
sentados em cadeiras de balanço
um diante do outro
sendo felicitados e celebrados
por estarem juntos há 50 ou 60
anos
que muito
tempo atrás teriam
aceitado qualquer outra
coisa
mas o destino
o medo e as
circunstâncias
os amarraram,
e quando lhes falamos
como são maravilhosos
em seu grandioso e duradouro
amor
só eles
realmente sabem
mas não podem nos dizer
que desde o momento em que
se conheceram
em diante
não significou
tanto assim
como
esperar pela morte
agora.
é mais ou menos o
mesmo.
1 290
Charles Bukowski
Quem Diabos É Tom Jones?
fiquei dormindo
com uma garota de
24 anos de Nova York
por duas semanas,
mais ou menos pela época
da greve dos lixeiros
lá fora, e certa noite
essa mulher de 34 anos
apareceu e falou
“quero ver minha rival”,
fez isso e então
disse: “ah, você é uma
coisinha querida!”
depois só sei que houve um
turbilhão de gatas selvagens –
festival de berros e unhadas,
gemidos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torci meu joelho. então
elas atravessaram a
porta e desceram a entrada
e saíram pela rua.
viaturas cheias de policiais
chegaram. um helicóptero da polícia
circulou acima.
eu me parei no banheiro
e escancarei um sorriso no espelho.
não é frequente aos
55 anos de idade
que ocorra tão
esplêndida ação.
foi melhor do que os
distúrbios de Watts.
então a de 34 anos
entrou de volta. estava toda
mijada e sua
roupa estava rasgada e
vinha seguida por 2 policiais
que queriam saber
por quê.
erguendo meu calção
eu tentei explicar.
com uma garota de
24 anos de Nova York
por duas semanas,
mais ou menos pela época
da greve dos lixeiros
lá fora, e certa noite
essa mulher de 34 anos
apareceu e falou
“quero ver minha rival”,
fez isso e então
disse: “ah, você é uma
coisinha querida!”
depois só sei que houve um
turbilhão de gatas selvagens –
festival de berros e unhadas,
gemidos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torci meu joelho. então
elas atravessaram a
porta e desceram a entrada
e saíram pela rua.
viaturas cheias de policiais
chegaram. um helicóptero da polícia
circulou acima.
eu me parei no banheiro
e escancarei um sorriso no espelho.
não é frequente aos
55 anos de idade
que ocorra tão
esplêndida ação.
foi melhor do que os
distúrbios de Watts.
então a de 34 anos
entrou de volta. estava toda
mijada e sua
roupa estava rasgada e
vinha seguida por 2 policiais
que queriam saber
por quê.
erguendo meu calção
eu tentei explicar.
1 036
Charles Bukowski
Sorrindo, Brilhando, Cantando
minha filha parecia uma Katharine Hepburn muito jovem
na apresentação de Natal da escola primária.
estava lá com os outros
sorrindo, brilhando, cantando
no vestido longo que eu tinha comprado pra ela.
ela parece a Katharine Hepburn, falei à mãe dela
que estava sentada à minha esquerda.
ela parece a Katharine Hepburn, falei à minha namorada
que estava sentada à minha direita.
a vó da minha filha estava a dois assentos de mim;
não falei nada pra ela.
nunca gostei das atuações de Katharine Hepburn,
mas sempre gostei de sua aparência,
de sua classe, sabe,
alguém com quem você podia conversar na cama
por uma hora e meia antes de pegar no
sono.
posso ver que minha filha vai ser uma
mulher belíssima.
um dia quando eu estiver bastante velho
ela provavelmente vai me trazer o urinol com um sorriso
dos mais amáveis.
e ela provavelmente vai se casar com um caminhoneiro que
caminha pesadão
e joga boliche todas as quintas à noite
com a rapaziada.
bem, nada disso importa.
o que importa é o agora.
sua avó é uma grande mulher de rapina.
sua mãe é uma liberal psicótica e amante da vida.
seu pai é um bêbado.
minha filha parecia uma Katharine Hepburn muito jovem.
depois da apresentação de Natal
nós fomos ao McDonald’s e comemos, e alimentamos os pardais.
faltava uma semana para o Natal.
estávamos menos preocupados com isso do que nove décimos da cidade.
isso é classe, nós dois temos classe.
ignorar a vida no momento certo exige uma sabedoria especial:
como um Feliz Ano-Novo para
todos vocês.
na apresentação de Natal da escola primária.
estava lá com os outros
sorrindo, brilhando, cantando
no vestido longo que eu tinha comprado pra ela.
ela parece a Katharine Hepburn, falei à mãe dela
que estava sentada à minha esquerda.
ela parece a Katharine Hepburn, falei à minha namorada
que estava sentada à minha direita.
a vó da minha filha estava a dois assentos de mim;
não falei nada pra ela.
nunca gostei das atuações de Katharine Hepburn,
mas sempre gostei de sua aparência,
de sua classe, sabe,
alguém com quem você podia conversar na cama
por uma hora e meia antes de pegar no
sono.
posso ver que minha filha vai ser uma
mulher belíssima.
um dia quando eu estiver bastante velho
ela provavelmente vai me trazer o urinol com um sorriso
dos mais amáveis.
e ela provavelmente vai se casar com um caminhoneiro que
caminha pesadão
e joga boliche todas as quintas à noite
com a rapaziada.
bem, nada disso importa.
o que importa é o agora.
sua avó é uma grande mulher de rapina.
sua mãe é uma liberal psicótica e amante da vida.
seu pai é um bêbado.
minha filha parecia uma Katharine Hepburn muito jovem.
depois da apresentação de Natal
nós fomos ao McDonald’s e comemos, e alimentamos os pardais.
faltava uma semana para o Natal.
estávamos menos preocupados com isso do que nove décimos da cidade.
isso é classe, nós dois temos classe.
ignorar a vida no momento certo exige uma sabedoria especial:
como um Feliz Ano-Novo para
todos vocês.
1 022
Charles Bukowski
Quieto
sentado esta noite
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
a esta
mesa
junto à
janela
a mulher está
acabrunhada
no
quarto
ela está em seus
dias especialmente
ruins.
bem, eu tenho
os meus
então
em deferência
a ela
a máquina de escrever
está
parada.
é esquisito
imprimir este troço
à
mão
me faz lembrar os
tempos
passados
quando as coisas
não
iam bem
de outra
maneira.
agora
o gato vem
me
ver
ele desaba
sob a mesa
entre os meus
pés
estamos ambos
derretendo
no mesmo
fogo.
e, querido
gato, ainda estamos
trabalhando com o
poema
e alguns
notaram
que há certa
“derrapagem”
aqui.
bem, aos 65
anos de idade eu posso
“derrapar”
à vontade e mesmo assim
deixar esses
críticos piegas
comendo
poeira.
Li Po sabia
o que fazer:
beber mais uma
garrafa e
enfrentar
as consequências.
eu me viro à minha
direita, vejo uma cabeça
enorme (refletida na
janela) sugando
um cigarro
e
nós arreganhamos os dentes
um para o
outro.
aí
me viro
de volta
fico aqui sentado
e
imprimo mais palavras sobre este
papel
não há nunca
uma derradeira
declaração
grandiosa
e esse é o
dilema
o embuste
que trabalha
contra
nós
mas
eu queria que você pudesse ver
o meu
gato
ele tem uma
pincelada
de branco em seu
rosto
contra um
fundo
amarelo-laranja
e aí
eu levanto a cabeça
e olho cozinha
adentro
vejo uma porção
brilhante
sob a luz
no alto
que se dissolve aos poucos em
escuridão
e depois numa escuridão
mais escura e
mais além não consigo
ver
nada.
1 119
Charles Bukowski
Visita a Venice
nós fomos dar uma caminhada ao longo da praia em Venice
os hippies sentados esperando pelo Nirvana
alguns deles golpeando bongôs,
as últimas das velhas damas judias esperando a morte
esperando pelo momento de seguir seus maridos que já partiram faz tanto tempo,
o mar ondulava para lá e para cá,
ficamos cansados e nos deitamos num gramado
e minha filha de 8 anos passou os dedos por
minha barba dizendo: “Hank, está ficando cada vez mais
branca!” Eu ri direto para o céu, ela era
tão engraçada. então ela tocou meu bigode: “Está ficando
branco também”. Eu ri de novo. “E as minhas sobrancelhas?”,
eu perguntei. “Tem um aqui. É meio branco e meio
vermelho.”
“é?” “sim.”
fechei meus olhos por um momento. ela passou os dedos pelo meu
cabelo. “Mas não tem branco no seu cabelo, Hank. Nem um único
cabelo é branco...”
“Não, aqui perto da orelha direita”, eu disse, “está começando.”
levantamos e continuamos nossa caminhada até o carro.
“Frances tem o cabelo todo branco”, ela disse.
“Sim”, eu disse, “mas são aqueles 5 longos cabelos brancos
pendurados no queixo dela que não são muito bonitos.”
“Foi por isso que vocês se separaram?”
“Não, ela alegou que eu fui pra cama com outra mulher.”
“Você fez isso?”
“Veja como o céu está alto!”
o mar ondulava pra lá e pra cá.
“Ela não vai achar homem algum disposto a beijá-la com aqueles 5 cabelos brancos
no queixo dela.”
“Mas ela acha!”
“Ah é?”
“Bem, não muitos...”
“50.000?”
“Ah, não...”
“5?”
“Sim, 5. Um homem para cada cabelo.”
entramos de volta no carro e eu a conduzi de volta até
sua mãe.
os hippies sentados esperando pelo Nirvana
alguns deles golpeando bongôs,
as últimas das velhas damas judias esperando a morte
esperando pelo momento de seguir seus maridos que já partiram faz tanto tempo,
o mar ondulava para lá e para cá,
ficamos cansados e nos deitamos num gramado
e minha filha de 8 anos passou os dedos por
minha barba dizendo: “Hank, está ficando cada vez mais
branca!” Eu ri direto para o céu, ela era
tão engraçada. então ela tocou meu bigode: “Está ficando
branco também”. Eu ri de novo. “E as minhas sobrancelhas?”,
eu perguntei. “Tem um aqui. É meio branco e meio
vermelho.”
“é?” “sim.”
fechei meus olhos por um momento. ela passou os dedos pelo meu
cabelo. “Mas não tem branco no seu cabelo, Hank. Nem um único
cabelo é branco...”
“Não, aqui perto da orelha direita”, eu disse, “está começando.”
levantamos e continuamos nossa caminhada até o carro.
“Frances tem o cabelo todo branco”, ela disse.
“Sim”, eu disse, “mas são aqueles 5 longos cabelos brancos
pendurados no queixo dela que não são muito bonitos.”
“Foi por isso que vocês se separaram?”
“Não, ela alegou que eu fui pra cama com outra mulher.”
“Você fez isso?”
“Veja como o céu está alto!”
o mar ondulava pra lá e pra cá.
“Ela não vai achar homem algum disposto a beijá-la com aqueles 5 cabelos brancos
no queixo dela.”
“Mas ela acha!”
“Ah é?”
“Bem, não muitos...”
“50.000?”
“Ah, não...”
“5?”
“Sim, 5. Um homem para cada cabelo.”
entramos de volta no carro e eu a conduzi de volta até
sua mãe.
1 109
Charles Bukowski
Procura-Se Ajuda
eu era um jovem demente e aí encontrei certo livro escrito por um
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
homem mais velho demente e me senti melhor porque ele era
capaz de botar no papel
e aí encontrei um livro de uma fase posterior desse mesmo homem mais velho
demente
só que a mim
ele já não parecia demente ele só parecia ser
maçante –
todos nós aguentamos bem por um tempo, aí com defeitos e
lapsos e erros inerentes
na maioria de nós
tão frequentemente nos deterioramos da noite para o dia
chegando a um estado tão próximo da defecação
que o resultado final é quase insuportável para os
sentidos.
por sorte, encontrei alguns outros homens dementes que quase permaneceram do
mesmo jeito até que
morreram.
isso é mais digno, sabe, e beneficia um pouco mais as nossas
vidas
conforme desempenhamos as nossas –
umbrosas –
tarefas.
1 129
Charles Bukowski
Poema de Amor Para Marina
minha menina tem 8 anos
e isso é idade suficiente para pensar
bem ou mal ou
qualquer coisa
então relaxo em volta dela e
ouço várias coisas espantosas
sobre sexo
a vida em geral e a vida em particular;
na maior parte é muito
fácil
exceto que eu me tornei pai quando os homens na maioria
se tornam avôs, sou um iniciante muito tardio
em tudo,
e eu me deito na grama e na areia
e ela arranca dentes-de-leão
e os coloca no meu
cabelo
enquanto eu cochilo sob a brisa marítima.
eu desperto
me sacudo
falo: “que diabo?”
e flores caem sobre os meus olhos e sobre o meu nariz
e sobre os meus lábios.
eu as removo com a mão
e ela se senta em cima de mim
dando risadinhas.
filha,
certo ou errado,
eu te amo, sim,
é só que às vezes eu ajo como se
você não estivesse presente,
mas houve brigas com mulheres
bilhetes deixados em cômodas
trabalhos em fábricas
pneus furados em Compton às 3 da manhã,
todas essas coisas que impedem as pessoas de
conhecer umas às outras e
pior do que
isso.
obrigado pelas
flores.
e isso é idade suficiente para pensar
bem ou mal ou
qualquer coisa
então relaxo em volta dela e
ouço várias coisas espantosas
sobre sexo
a vida em geral e a vida em particular;
na maior parte é muito
fácil
exceto que eu me tornei pai quando os homens na maioria
se tornam avôs, sou um iniciante muito tardio
em tudo,
e eu me deito na grama e na areia
e ela arranca dentes-de-leão
e os coloca no meu
cabelo
enquanto eu cochilo sob a brisa marítima.
eu desperto
me sacudo
falo: “que diabo?”
e flores caem sobre os meus olhos e sobre o meu nariz
e sobre os meus lábios.
eu as removo com a mão
e ela se senta em cima de mim
dando risadinhas.
filha,
certo ou errado,
eu te amo, sim,
é só que às vezes eu ajo como se
você não estivesse presente,
mas houve brigas com mulheres
bilhetes deixados em cômodas
trabalhos em fábricas
pneus furados em Compton às 3 da manhã,
todas essas coisas que impedem as pessoas de
conhecer umas às outras e
pior do que
isso.
obrigado pelas
flores.
1 317
Charles Bukowski
O Que Estou Fazendo?
preciso parar de enfrentar esses corredores enlouquecidos na autoestrada enquanto
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
rugimos por aberturas estreitíssimas com estéreo ribombando sem parar
ao meio-dia e no entardecer e na escuridão
quando na verdade tudo que queremos é sentar em frescos jardins verdes
conversando calmamente com bebidas na mão.
o que nos faz ficar desse jeito? – unhas encravadas? – ou o fato de que as mulheres
não são suficientes? – que tolice nos faz beliscar o nariz da
Morte
continuamente?
será que temos medo do lento urinol? – ou de babar sobre ervilhas
malcozidas trazidas por uma enfermeira entediada com estúpidas
pernas grossas?
que temerário impulso estouvado nos faz pisar fundo com
uma só mão na direção?
não temos noção da paz de envelhecer
suavemente?
que maldito grito de guerra é esse?
nós somos os mais doentes da espécie – enquanto bons museus – a grande arte –
gerações de conhecimento – são todos esquecidos
enquanto vemos profundidade no fato de sermos
babacas –
vamos acabar virando
fotografias – quase em tamanho natural – penduradas
como advertência na
parede do Tribunal de Trânsito
e as pessoas vão estremecer só um pouquinho e
virar o rosto
sabendo que
ego demais não é
suficiente.
1 030
Charles Bukowski
Uma Turma Boa, No Fim Das Contas
tenho sempre notícias dos cães velhos,
homens que estão escrevendo há
décadas,
poetas todos,
ainda estão diante de suas
máquinas
escrevendo melhor do que
nunca
tendo superado esposas e guerras e
empregos
e todas as coisas que
acontecem.
de muitos eu não gostava por razões
pessoais
e artísticas...
mas o que eu deixei de ver foi
a persistência deles e
sua capacidade de
aprimoramento.
esses cães velhos
vivendo em quartos enfumaçados
entornando a
garrafa...
eles vergastam as
fitas das máquinas: eles vieram
para
lutar.
homens que estão escrevendo há
décadas,
poetas todos,
ainda estão diante de suas
máquinas
escrevendo melhor do que
nunca
tendo superado esposas e guerras e
empregos
e todas as coisas que
acontecem.
de muitos eu não gostava por razões
pessoais
e artísticas...
mas o que eu deixei de ver foi
a persistência deles e
sua capacidade de
aprimoramento.
esses cães velhos
vivendo em quartos enfumaçados
entornando a
garrafa...
eles vergastam as
fitas das máquinas: eles vieram
para
lutar.
1 129
Charles Bukowski
De Um Cão Velho Em Seu Porre
ah, meu amigo, é terrível, pior
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.
a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.
mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.
a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.
vou encerrar a noite
com
cerveja.
do que isso – você só vai
ficando bom –
uma garrafa virada e
vazia –
os poemas fervilhando na sua
cabeça
mas
a meio caminho entre os 60 e
os 70
você detém a mão
antes de abrir a
segunda garrafa –
às vezes
não abre
pois após 50 anos de
bebedeira pesada
você pode presumir
que essa garrafa adicional
vai te mandar
balbuciando para
uma casa de repouso
ou te conceder
um derrame
sozinho na sua
casa
os gatos mastigando a
sua carne
enquanto a névoa matinal
penetra pela tela
quebrada.
a gente nem pensa no
fígado
e se o fígado
não pensa na
gente, tudo
bem.
mas de fato parece
que quanto mais bebemos
tanto melhores as palavras
ficam.
a morte não importa
mas a derradeira inconveniência
da quase-morte é o pior dos
tormentos.
vou encerrar a noite
com
cerveja.
1 046
Charles Bukowski
Hein?
na
Alemanha França Itália
eu posso caminhar pelas ruas e ser
seguido por
rapazes rindo
mocinhas
dando risadinhas e
velhas
damas empinando seus
narizes...
ao passo que
na América
sou só mais um
velho
cansado
fazendo seja lá o que
os velhos cansados
fazem.
ah, isso tem suas
compensações:
posso levar minhas calças
à lavanderia ou
entrar numa
fila de supermercado
sem nenhum tumulto em
absoluto:
os deuses me concederam
um doce
anonimato.
mas
por vezes
considero a sério minha
fama ultramarina
e
a única coisa
que me vem à cabeça é
que
devo ter uns
tradutores
bons pra caralho.
decerto
devo a eles
os pelos do meu
saco
ou
possivelmente
meu próprio
saco.
Alemanha França Itália
eu posso caminhar pelas ruas e ser
seguido por
rapazes rindo
mocinhas
dando risadinhas e
velhas
damas empinando seus
narizes...
ao passo que
na América
sou só mais um
velho
cansado
fazendo seja lá o que
os velhos cansados
fazem.
ah, isso tem suas
compensações:
posso levar minhas calças
à lavanderia ou
entrar numa
fila de supermercado
sem nenhum tumulto em
absoluto:
os deuses me concederam
um doce
anonimato.
mas
por vezes
considero a sério minha
fama ultramarina
e
a única coisa
que me vem à cabeça é
que
devo ter uns
tradutores
bons pra caralho.
decerto
devo a eles
os pelos do meu
saco
ou
possivelmente
meu próprio
saco.
1 236
Charles Bukowski
Poema de Amor Para Uma Stripper
50 anos atrás eu observava as garotas
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nós girávamos em nossos assentos e
fazíamos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitários
tanto tempo atrás.
agora Rosalie,
ou tão absolutamente velha ou
tão tranquila embaixo da
terra,
este é o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
você.
você era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz é
amarela
e as noites são
lentas.
rebolando e fazendo striptease
no Burbank e no Follies
e era muito triste
e muito dramático
e a luz mudava de verde para
roxo para rosa
e a música era alta e
vibrante,
agora sento aqui esta noite
fumando e bebendo
ouvindo música
clássica
mas ainda me lembro de alguns de
seus nomes: Darlene, Candy, Jeanette
e Rosalie.
Rosalie era a
melhor, sabia como fazer,
e nós girávamos em nossos assentos e
fazíamos barulhos
e Rosalie dava magia
para os solitários
tanto tempo atrás.
agora Rosalie,
ou tão absolutamente velha ou
tão tranquila embaixo da
terra,
este é o garoto
com o rosto cheio de espinhas
que mentiu sobre sua
idade
apenas para ver
você.
você era boa, Rosalie,
em 1935,
boa o bastante para lembrar
agora
quando a luz é
amarela
e as noites são
lentas.
1 182
Charles Bukowski
A Ilha Que Vai Encolhendo
estou trabalhando nele com
o amanhecer se curvando na minha direção...
quase acertei a mão às 3:34 mas ele
me escapou dos dedos
com a feitiçaria de um
peixinho prateado...
agora
com a meia-luz se movendo na minha direção
como a morte filha da mãe
eu desisto da batalha
me levanto
ando em direção ao banheiro
bato de cara
numa parede
solto uma deplorável risada
miante...
ligo a luz e
começo a mijar, sim, no
lugar certo
e
depois de puxar a descarga
penso: mais uma noite
que se foi.
bem, nós lhe demos um pouco de
gritaria
de todo modo.
lavamos nossas
garras...
desligamos a
luz
andamos na direção do
quarto onde a
esposa
desperta o bastante
para dizer: “não pisa
no gato!”
o que nos traz de volta
às
reais
questões
enquanto encontramos a cama
nos enfiamos nas cobertas
rosto para o teto: um
homem
aterrado
bêbado
gordo
e velho.
o amanhecer se curvando na minha direção...
quase acertei a mão às 3:34 mas ele
me escapou dos dedos
com a feitiçaria de um
peixinho prateado...
agora
com a meia-luz se movendo na minha direção
como a morte filha da mãe
eu desisto da batalha
me levanto
ando em direção ao banheiro
bato de cara
numa parede
solto uma deplorável risada
miante...
ligo a luz e
começo a mijar, sim, no
lugar certo
e
depois de puxar a descarga
penso: mais uma noite
que se foi.
bem, nós lhe demos um pouco de
gritaria
de todo modo.
lavamos nossas
garras...
desligamos a
luz
andamos na direção do
quarto onde a
esposa
desperta o bastante
para dizer: “não pisa
no gato!”
o que nos traz de volta
às
reais
questões
enquanto encontramos a cama
nos enfiamos nas cobertas
rosto para o teto: um
homem
aterrado
bêbado
gordo
e velho.
1 283
Charles Bukowski
O Falecimento de Um Grande Homem
ele era o único escritor vivo que conheci e verdadeiramente
admirava e ele estava morrendo quando o
conheci.
(neste esporte somos retraídos nos louvores até mesmo para com
quem o pratica muito bem, mas nunca tive esse
problema com J.F.)
eu o visitei diversas vezes no
hospital (nunca havia ninguém por
perto) e ao entrar no quarto
eu nunca tinha certeza se ele estava adormecido
ou?
“John?”
ele estava estirado ali na cama, cego
e amputado:
diabetes
avançada.
“John, é o
Hank...”
ele respondia e aí nós conversávamos por
um breve tempo (quase sempre ele falava e eu
ouvia: afinal, ele era o nosso mentor, nosso
deus):
Pergunte ao pó
Espere a primavera, Bandini
Dago Red
todos os outros.
ir parar em Hollywood escrevendo
roteiros de cinema
foi isso que o
matou.
“a pior coisa”, ele me disse,
“é a amargura, as pessoas acabam tão
amargas.”
ele não estava amargo, embora tivesse
total direito de
estar...
no enterro eu
encontrei vários de seus coleguinhas
roteiristas.
“que tal a gente escrever algo sobre
o John”, um deles
sugeriu.
“acho que não consigo”, eu
disse a eles.
e, claro, eles nunca
escreveram.
admirava e ele estava morrendo quando o
conheci.
(neste esporte somos retraídos nos louvores até mesmo para com
quem o pratica muito bem, mas nunca tive esse
problema com J.F.)
eu o visitei diversas vezes no
hospital (nunca havia ninguém por
perto) e ao entrar no quarto
eu nunca tinha certeza se ele estava adormecido
ou?
“John?”
ele estava estirado ali na cama, cego
e amputado:
diabetes
avançada.
“John, é o
Hank...”
ele respondia e aí nós conversávamos por
um breve tempo (quase sempre ele falava e eu
ouvia: afinal, ele era o nosso mentor, nosso
deus):
Pergunte ao pó
Espere a primavera, Bandini
Dago Red
todos os outros.
ir parar em Hollywood escrevendo
roteiros de cinema
foi isso que o
matou.
“a pior coisa”, ele me disse,
“é a amargura, as pessoas acabam tão
amargas.”
ele não estava amargo, embora tivesse
total direito de
estar...
no enterro eu
encontrei vários de seus coleguinhas
roteiristas.
“que tal a gente escrever algo sobre
o John”, um deles
sugeriu.
“acho que não consigo”, eu
disse a eles.
e, claro, eles nunca
escreveram.
1 050
Charles Bukowski
Ajudar Os Mais Velhos
eu estava parado na fila do banco hoje
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
quando o velhinho na minha frente
deixou cair os óculos (por sorte, dentro do
estojo)
e enquanto ele se curvava
eu vi como era difícil para
ele
e falei “espera, deixa que eu
pego...”
mas enquanto eu apanhava os óculos
ele deixou cair a bengala
uma linda, negra e reluzente
bengala
e eu lhe devolvi os óculos
então resgatei a bengala
firmando o velhinho
enquanto lhe dava sua bengala.
ele não disse nada,
apenas sorriu para mim.
então se virou
para a frente.
fiquei atrás dele esperando
a minha vez.
1 135
Charles Bukowski
Aceito...
talvez eu esteja ficando louco, não tem problema
mas esses poemas não param de despontar no alto da minha
cabeça com mais e mais
força. agora
depois dos oceanos de trago que já
consumi
parece evidente que o desgaste deveria
ser minha justa recompensa já que sigo
consumindo – ao passo que
os hospícios, as ruas e os cemitérios estão
cheios de gente da minha
laia –
porém toda noite quando visito esta máquina
com a minha garrafa
os poemas fulguram e saltam, sem
parar – rugindo na alegria
do poder tranquilo: 65 anos
dançando – minha boca se contorcendo num
minúsculo sorriso
enquanto estas teclas continuam emitindo
uma substancial energia de vesgo
milagre.
os deuses foram bons comigo ao longo deste
estilo de vida que teria matado
até um touro
e eu estou longe de ser um
touro.
senti desde o começo,
claro, que havia uma estranha corrosão
dentro de mim
mas nem em sonho imaginei essa
sorte
essa absoluta dádiva
divina
minha morte vai parecer no máximo
uma
ideia tardia.
mas esses poemas não param de despontar no alto da minha
cabeça com mais e mais
força. agora
depois dos oceanos de trago que já
consumi
parece evidente que o desgaste deveria
ser minha justa recompensa já que sigo
consumindo – ao passo que
os hospícios, as ruas e os cemitérios estão
cheios de gente da minha
laia –
porém toda noite quando visito esta máquina
com a minha garrafa
os poemas fulguram e saltam, sem
parar – rugindo na alegria
do poder tranquilo: 65 anos
dançando – minha boca se contorcendo num
minúsculo sorriso
enquanto estas teclas continuam emitindo
uma substancial energia de vesgo
milagre.
os deuses foram bons comigo ao longo deste
estilo de vida que teria matado
até um touro
e eu estou longe de ser um
touro.
senti desde o começo,
claro, que havia uma estranha corrosão
dentro de mim
mas nem em sonho imaginei essa
sorte
essa absoluta dádiva
divina
minha morte vai parecer no máximo
uma
ideia tardia.
1 173
Charles Bukowski
Sapatos
quando você é jovem
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
um par de
sapatos de salto alto
femininos
só ali guardado
sozinho
no armário
pode incendiar seus
ossos;
quando você é velho
é só
um par de sapatos
sem
ninguém
dentro
e
dá no
mesmo.
1 221
Charles Bukowski
Parabéns, Chinaski
conforme me aproximo dos 70
recebo cartas, cartões, presentinhos
de pessoas estranhas.
felicitações, elas me
dizem,
felicitações.
sei o que querem dizer:
do jeito que vivi
eu deveria ter morrido em metade
do tempo.
empilhei sobre mim uma montanha de
grandioso abuso, fui
descuidado comigo mesmo
quase ao nível da
loucura,
ainda estou aqui
debruçado nesta máquina
nesta sala impregnada de fumaça,
a grande lata de lixo à minha
esquerda
cheia de embalagens
vazias.
os médicos não têm respostas
e os deuses estão
calados.
felicitações, morte,
por sua paciência.
eu te ajudei o máximo que
pude.
agora mais um poema
e uma volta na sacada,
que bela noite aqui.
estou usando cueca e meias,
coço suavemente minha velha
barriga,
olho lá fora
olho além do lá fora
onde o escuro encontra o escuro
tem sido uma loucura
esse jogo.
recebo cartas, cartões, presentinhos
de pessoas estranhas.
felicitações, elas me
dizem,
felicitações.
sei o que querem dizer:
do jeito que vivi
eu deveria ter morrido em metade
do tempo.
empilhei sobre mim uma montanha de
grandioso abuso, fui
descuidado comigo mesmo
quase ao nível da
loucura,
ainda estou aqui
debruçado nesta máquina
nesta sala impregnada de fumaça,
a grande lata de lixo à minha
esquerda
cheia de embalagens
vazias.
os médicos não têm respostas
e os deuses estão
calados.
felicitações, morte,
por sua paciência.
eu te ajudei o máximo que
pude.
agora mais um poema
e uma volta na sacada,
que bela noite aqui.
estou usando cueca e meias,
coço suavemente minha velha
barriga,
olho lá fora
olho além do lá fora
onde o escuro encontra o escuro
tem sido uma loucura
esse jogo.
1 099
Charles Bukowski
Encurralado
bem, disseram que acabaria
assim: velho. talento esgotado. sem encontrar a
palavra
ouvindo os passos
escuros, eu me viro
olho para trás...
ainda não, cão velho...
muito em breve.
agora
eles se reúnem falando de
mim: “sim, aconteceu, ele
já era... é
triste...”
“ele nunca foi grande coisa,
foi?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles estão comemorando a minha queda
em tabernas que já não
frequento.
agora
eu bebo sozinho
nesta máquina
defeituosa
enquanto as sombras assumem
formas
eu luto na lenta
retirada
agora
minha promessa de outrora
definhando
definhando
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
foi uma belíssima
luta
ainda
é.
assim: velho. talento esgotado. sem encontrar a
palavra
ouvindo os passos
escuros, eu me viro
olho para trás...
ainda não, cão velho...
muito em breve.
agora
eles se reúnem falando de
mim: “sim, aconteceu, ele
já era... é
triste...”
“ele nunca foi grande coisa,
foi?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles estão comemorando a minha queda
em tabernas que já não
frequento.
agora
eu bebo sozinho
nesta máquina
defeituosa
enquanto as sombras assumem
formas
eu luto na lenta
retirada
agora
minha promessa de outrora
definhando
definhando
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
foi uma belíssima
luta
ainda
é.
1 297
Charles Bukowski
Um Leitor Escreve
“Caro sr. Chinaski:
Ainda gosto da sua escrita mas gostava
mais nos bons tempos, quero dizer, quando você
escrevia coisas como ‘quando ela se curvou eu
vi aquela bunda toda’. Ou
você escrevia sobre as detenções de bêbados e os ratos
e as baratas e os camundongos.
Eu gostava de todos os seus problemas com mulheres, eu tenho
problemas com mulheres também e realmente curtia o que
você estava nos passando.
Eu gostava da loucura toda, das brigas no
beco, das batidas da polícia.
Seria bom se houvesse mais disso, me dá energia.
Sei que você vai cagar pra isso mas vou
lhe contar mesmo assim.
Temos um grupo, a gente toma umas,
bota uns discos do Frank Sinatra e lê os seus textos
em voz alta.
Queira nos dar mais daquilo de
antigamente.
é isso aí!”
Caro Leitor:
Sobre o sr. Sinatra vamos esquecer, mas
devo lhe dizer que tenho hoje 70 anos de idade e é
uma surpresa para mim também mas se eu continuasse escrevendo sobre
espiar as bundas das mulheres eu não teria tempo de
escrever sobre como meu gato atravessa a sala enquanto
transmite os segredos da Eternidade para o meu cérebro, quero dizer,
olha, dá pra escrever sobre algo até a morte, a maioria faz isso ao
descobrir que faz vender livros mas não escrevo para vender
livros eu escrevo para impedir que as entranhas da minha psique se afoguem
nas águas cheias de bosta desta assim chamada Existência.
Pegue Hemingway, ele foi escrevendo cada vez mais pra dentro do mesmo
círculo apertado que afinal se fechou e o espremeu até a
morte.
Pegue J.D. Salinger, ele escreveu histórias vívidas e
envolventes da juventude etílica mas quando ficou mais velho não
havia mais nada parecido para escrever.
A especialização é a morte, um doce ruim apodrecido.
A jogatina é a única saída, você precisa ficar lançando
novos dados.
Quanto às mulheres, elas são superestimadas porque nós as
superestimamos.
Você realmente não pode esperar de mim que eu continue escrevendo sobre as
bundas grandes de certas mulheres.
Mas tive de fato alguns problemas, algumas dúvidas sobre
abandonar essa vasta e lucrativa área – pois eu estava ganhando
mais do que o aluguel fazendo aquilo e então por que correr o risco
de escrever sobre, digamos, um azulão de uma só asa se debatendo
num montinho de folhas podres?
Eu precisava, é por isso, e se tirarem o aluguel e mais
ainda vou precisar.
Não invento pretextos para o meu assunto e ele não
inventa pretextos para mim.
Por exemplo, certa vez conheci um popular compositor que tinha um
problema – ele tinha ficado famoso escrevendo canções
sobre a vida dura nos motéis de Hollywood e ele morava
num e ficou rico e famoso e continuava
morando lá, temendo que caso se mudasse
perderia sua imagem pública e sua popularidade.
Na verdade, porém, não faz nenhum sentido um homem rico ficar
morando num motel barato hollywoodiano porque simplesmente
não é a mesma coisa que um homem pobre morando ali.
Para sorte dele o lugar foi fechado e ele
não precisou fingir mais.
Assim como as minhas histórias sobre pensões baratas eram
escritas porque eu morava nelas.
Nós tocamos a vida em frente e se tivermos sorte encontramos material
novo.
O assombro, a novidade e o inferno estão por toda parte.
Frank Sinatra canta suas mesmas velhas canções sem jamais
parar.
É porque está preso àquilo que o tornou
famoso.
A fama não tem nada a ver com nada.
Tocar a vida em frente tem.
Vou morrer em breve, não há nada de extraordinário nisso
mas não serei capaz de escrever a respeito
e ficarei contente por não ter continuado escrevendo sobre
aquilo que você considera interessante e eu
não.
Cara, meu Deus, não quero assumir um tom sagrado
nisso tudo, não tem nada de sagrado no ato de escrever
mas é a maior encenação bêbada de que eu
tenho conhecimento.
Foi no passado e é agora.
As bundas das mulheres e tudo mais.
Estou rindo da escuridão que nem você.
Da próxima vez que vocês tomarem umas, botem um
Sibelius.
claro,
Henry Chinaski
Ainda gosto da sua escrita mas gostava
mais nos bons tempos, quero dizer, quando você
escrevia coisas como ‘quando ela se curvou eu
vi aquela bunda toda’. Ou
você escrevia sobre as detenções de bêbados e os ratos
e as baratas e os camundongos.
Eu gostava de todos os seus problemas com mulheres, eu tenho
problemas com mulheres também e realmente curtia o que
você estava nos passando.
Eu gostava da loucura toda, das brigas no
beco, das batidas da polícia.
Seria bom se houvesse mais disso, me dá energia.
Sei que você vai cagar pra isso mas vou
lhe contar mesmo assim.
Temos um grupo, a gente toma umas,
bota uns discos do Frank Sinatra e lê os seus textos
em voz alta.
Queira nos dar mais daquilo de
antigamente.
é isso aí!”
Caro Leitor:
Sobre o sr. Sinatra vamos esquecer, mas
devo lhe dizer que tenho hoje 70 anos de idade e é
uma surpresa para mim também mas se eu continuasse escrevendo sobre
espiar as bundas das mulheres eu não teria tempo de
escrever sobre como meu gato atravessa a sala enquanto
transmite os segredos da Eternidade para o meu cérebro, quero dizer,
olha, dá pra escrever sobre algo até a morte, a maioria faz isso ao
descobrir que faz vender livros mas não escrevo para vender
livros eu escrevo para impedir que as entranhas da minha psique se afoguem
nas águas cheias de bosta desta assim chamada Existência.
Pegue Hemingway, ele foi escrevendo cada vez mais pra dentro do mesmo
círculo apertado que afinal se fechou e o espremeu até a
morte.
Pegue J.D. Salinger, ele escreveu histórias vívidas e
envolventes da juventude etílica mas quando ficou mais velho não
havia mais nada parecido para escrever.
A especialização é a morte, um doce ruim apodrecido.
A jogatina é a única saída, você precisa ficar lançando
novos dados.
Quanto às mulheres, elas são superestimadas porque nós as
superestimamos.
Você realmente não pode esperar de mim que eu continue escrevendo sobre as
bundas grandes de certas mulheres.
Mas tive de fato alguns problemas, algumas dúvidas sobre
abandonar essa vasta e lucrativa área – pois eu estava ganhando
mais do que o aluguel fazendo aquilo e então por que correr o risco
de escrever sobre, digamos, um azulão de uma só asa se debatendo
num montinho de folhas podres?
Eu precisava, é por isso, e se tirarem o aluguel e mais
ainda vou precisar.
Não invento pretextos para o meu assunto e ele não
inventa pretextos para mim.
Por exemplo, certa vez conheci um popular compositor que tinha um
problema – ele tinha ficado famoso escrevendo canções
sobre a vida dura nos motéis de Hollywood e ele morava
num e ficou rico e famoso e continuava
morando lá, temendo que caso se mudasse
perderia sua imagem pública e sua popularidade.
Na verdade, porém, não faz nenhum sentido um homem rico ficar
morando num motel barato hollywoodiano porque simplesmente
não é a mesma coisa que um homem pobre morando ali.
Para sorte dele o lugar foi fechado e ele
não precisou fingir mais.
Assim como as minhas histórias sobre pensões baratas eram
escritas porque eu morava nelas.
Nós tocamos a vida em frente e se tivermos sorte encontramos material
novo.
O assombro, a novidade e o inferno estão por toda parte.
Frank Sinatra canta suas mesmas velhas canções sem jamais
parar.
É porque está preso àquilo que o tornou
famoso.
A fama não tem nada a ver com nada.
Tocar a vida em frente tem.
Vou morrer em breve, não há nada de extraordinário nisso
mas não serei capaz de escrever a respeito
e ficarei contente por não ter continuado escrevendo sobre
aquilo que você considera interessante e eu
não.
Cara, meu Deus, não quero assumir um tom sagrado
nisso tudo, não tem nada de sagrado no ato de escrever
mas é a maior encenação bêbada de que eu
tenho conhecimento.
Foi no passado e é agora.
As bundas das mulheres e tudo mais.
Estou rindo da escuridão que nem você.
Da próxima vez que vocês tomarem umas, botem um
Sibelius.
claro,
Henry Chinaski
632
Charles Bukowski
Agora
abundante; arranque o rótulo;
as grandes armas foram
baixadas.
nada a fazer agora senão
sentar no sol
e refletir sobre como você veio
do passado para o
presente.
agora você sabe... o quê? que
não havia nada de tão especial
em você
afinal de contas.
você ficava se metendo em brigas
que não lhe diziam
respeito, você dava um passo
maior do que a perna.
você deveria ter relaxado
mais.
você absorveu demais e te
queimaram –
bebida demais, mulheres demais,
livros demais.
não tinha tanta importância assim.
agora você vê os minutos que te sobem correndo
pelos braços.
você ouve os cães latindo.
você está cansado o bastante para ouvir
agora.
você é um velho numa cadeira
num pátio
no mundo.
uma folha cai na sua barriga branca
e isso é tudo que
existe.
as grandes armas foram
baixadas.
nada a fazer agora senão
sentar no sol
e refletir sobre como você veio
do passado para o
presente.
agora você sabe... o quê? que
não havia nada de tão especial
em você
afinal de contas.
você ficava se metendo em brigas
que não lhe diziam
respeito, você dava um passo
maior do que a perna.
você deveria ter relaxado
mais.
você absorveu demais e te
queimaram –
bebida demais, mulheres demais,
livros demais.
não tinha tanta importância assim.
agora você vê os minutos que te sobem correndo
pelos braços.
você ouve os cães latindo.
você está cansado o bastante para ouvir
agora.
você é um velho numa cadeira
num pátio
no mundo.
uma folha cai na sua barriga branca
e isso é tudo que
existe.
1 119