Poemas neste tema
Viagens e Horizontes
Charles Bukowski
Chega Desses Rapazes
meu primeiro marido, Retzel, ela disse,
voava em paragliders. ele tinha só uma das mãos.
ele nunca me chupou, nem uma vez só.
ele quer conhecê-lo, ele mora em
Redondo Beach.
Redondo Beach, eu disse, Redondo Beach.
meu marido seguinte,
Craft, tomava comprimidos e tocava piano o dia todo.
depois ele precisou operar um dos dedos da mão.
uma verruga. ele foi cruel comigo. agora ele sabe
o quanto foi cruel comigo.
onde ele está agora?
África. ele ainda está na África.
eu rodei pela África toda. circulei por lá
de barco. conheci um homem que tinha um
leopardo. ele costumava levar seu leopardo para
passear todo dia preso a uma corrente.
um dia ele não apareceu. seu leopardo o havia
comido.
essa é uma história engraçada.
eu também acho. você entende
as coisas. para mim chega desses rapazes,
desses corpos duros. eu quero você. você está no controle
de tudo.
eu estou?
sim, meu marido seguinte,
Larry, certa vez cobriu meu corpo com
pétalas de rosa. todas aquelas flores! foi
adorável, mas ele não fez amor comigo
outra vez por 2 anos. ele foi tão ruim como
amante. você é um grande
amante.
eu sou?
sim, você não gostaria de ir à Holanda?
não.
a Paris?
não.
à África?
não.
Redondo Beach?
não.
você é esquisito. não gosta de
viajar?
estou cheio disso.
você devia ter-me visto voar no paraglider de Retzel!
eu era boa naquele paraglider.
mas ele nunca me
chupava.
Retzel?
sim, agora ele é publicitário. ganha um bom
dinheiro.
algum dia eu vou lhe contar sobre minhas
mulheres.
não quero saber de suas
mulheres. não quero saber de
nenhuma
delas.
ela se virou na cama
oferecendo-me suas costas e seu
rabo.
garota, eu disse, conte-me mais sobre
Retzel.
ela se virou em minha
direção. você realmente quer
ouvir?
com certeza.
então ficamos deitados de costas
e ela me contou sobre Retzel
e eu ouvi.
voava em paragliders. ele tinha só uma das mãos.
ele nunca me chupou, nem uma vez só.
ele quer conhecê-lo, ele mora em
Redondo Beach.
Redondo Beach, eu disse, Redondo Beach.
meu marido seguinte,
Craft, tomava comprimidos e tocava piano o dia todo.
depois ele precisou operar um dos dedos da mão.
uma verruga. ele foi cruel comigo. agora ele sabe
o quanto foi cruel comigo.
onde ele está agora?
África. ele ainda está na África.
eu rodei pela África toda. circulei por lá
de barco. conheci um homem que tinha um
leopardo. ele costumava levar seu leopardo para
passear todo dia preso a uma corrente.
um dia ele não apareceu. seu leopardo o havia
comido.
essa é uma história engraçada.
eu também acho. você entende
as coisas. para mim chega desses rapazes,
desses corpos duros. eu quero você. você está no controle
de tudo.
eu estou?
sim, meu marido seguinte,
Larry, certa vez cobriu meu corpo com
pétalas de rosa. todas aquelas flores! foi
adorável, mas ele não fez amor comigo
outra vez por 2 anos. ele foi tão ruim como
amante. você é um grande
amante.
eu sou?
sim, você não gostaria de ir à Holanda?
não.
a Paris?
não.
à África?
não.
Redondo Beach?
não.
você é esquisito. não gosta de
viajar?
estou cheio disso.
você devia ter-me visto voar no paraglider de Retzel!
eu era boa naquele paraglider.
mas ele nunca me
chupava.
Retzel?
sim, agora ele é publicitário. ganha um bom
dinheiro.
algum dia eu vou lhe contar sobre minhas
mulheres.
não quero saber de suas
mulheres. não quero saber de
nenhuma
delas.
ela se virou na cama
oferecendo-me suas costas e seu
rabo.
garota, eu disse, conte-me mais sobre
Retzel.
ela se virou em minha
direção. você realmente quer
ouvir?
com certeza.
então ficamos deitados de costas
e ela me contou sobre Retzel
e eu ouvi.
941
Charles Bukowski
Só Mais Um Bebum
o garoto tinha 20 anos, estivera na estrada
por 5 ou 6 anos e agora estava sentado no sofá
tomando minha cerveja, seu nome era Red,
e ele falava sobre a estrada:
"aqueles 2 caras estavam tentando me amedrontar
para valer, fazer com que eu ficasse quieto, porque eu tinha visto eles
matarem um
cara".
"matarem um cara? como?"
"com uma pedra."
"para quê?"
"ele tinha sua carteira, uma boa
carteira, e 7 dólares. era um bebum. estava
bebado e bateram nele com a pedra,
arrebentaram seus miolos."
"você viu isso?"
"eu vi. na próxima parada do trem
eles o descarregaram, descarregaram em algum
mato alto, aí o trem partiu
de novo."
dei mais uma cerveja para o garoto.
"quando a polícia encontra esses caras esfarrapados, sem
identificação, cara avermelhada de vinho, eles dizem "só mais um
bebum",
nem investigam, só
esquecem."
conversamos quase a noite toda
sobre a estrada. eu lhe contei umas histórias
minhas. então fui para a cama. ele dormiu no
sofá. eu entrei no quarto de dormir com a mulher e
a criança. dormi.
quando acordei para mijar pela manhã
Red estava sentado em uma cadeira
lendo jornal de ontem.
"preciso ir", ele disse, "não posso dormir
mais, mas tive uma boa noite, foi uma boa
conversa. obrigado."
"eu também, Red. vá com calma."
"com certeza."
então ele saiu pela porta e seguiu pela rua,
partiu.
de volta ao quarto, ela perguntou, "Red foi embora?"
"para onde ele foi?"
"não sei. Texas. O inferno. Boston. qualquer lugar."
a menininha acordou:
"eu quero mamar!"
"você pode pegar a mamadeira para ela? você está em pé."
"claro."
eu fui para a cozinha e misturei algum
leite. e em todo lugar todas as coisas iam correndo,
cruéis e não cruéis, aranhas e vagabundos
e soldados e jogadores e loucos e
factótuns e bichas e bombeiros, assim mesmo,
e voltei para o quarto e passei a mamadeira para a menina
voltei para a cama
e ouvi a criança chupando aquela coisa -
chupa chupa chupa,
e logo nós tomaríamos nosso próprio
café da manhã.
por 5 ou 6 anos e agora estava sentado no sofá
tomando minha cerveja, seu nome era Red,
e ele falava sobre a estrada:
"aqueles 2 caras estavam tentando me amedrontar
para valer, fazer com que eu ficasse quieto, porque eu tinha visto eles
matarem um
cara".
"matarem um cara? como?"
"com uma pedra."
"para quê?"
"ele tinha sua carteira, uma boa
carteira, e 7 dólares. era um bebum. estava
bebado e bateram nele com a pedra,
arrebentaram seus miolos."
"você viu isso?"
"eu vi. na próxima parada do trem
eles o descarregaram, descarregaram em algum
mato alto, aí o trem partiu
de novo."
dei mais uma cerveja para o garoto.
"quando a polícia encontra esses caras esfarrapados, sem
identificação, cara avermelhada de vinho, eles dizem "só mais um
bebum",
nem investigam, só
esquecem."
conversamos quase a noite toda
sobre a estrada. eu lhe contei umas histórias
minhas. então fui para a cama. ele dormiu no
sofá. eu entrei no quarto de dormir com a mulher e
a criança. dormi.
quando acordei para mijar pela manhã
Red estava sentado em uma cadeira
lendo jornal de ontem.
"preciso ir", ele disse, "não posso dormir
mais, mas tive uma boa noite, foi uma boa
conversa. obrigado."
"eu também, Red. vá com calma."
"com certeza."
então ele saiu pela porta e seguiu pela rua,
partiu.
de volta ao quarto, ela perguntou, "Red foi embora?"
"para onde ele foi?"
"não sei. Texas. O inferno. Boston. qualquer lugar."
a menininha acordou:
"eu quero mamar!"
"você pode pegar a mamadeira para ela? você está em pé."
"claro."
eu fui para a cozinha e misturei algum
leite. e em todo lugar todas as coisas iam correndo,
cruéis e não cruéis, aranhas e vagabundos
e soldados e jogadores e loucos e
factótuns e bichas e bombeiros, assim mesmo,
e voltei para o quarto e passei a mamadeira para a menina
voltei para a cama
e ouvi a criança chupando aquela coisa -
chupa chupa chupa,
e logo nós tomaríamos nosso próprio
café da manhã.
678
Charles Bukowski
Nirvana
sem grandes chances,
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.
Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vômito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara à minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, não lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. Não se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
– Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estúpidas, e duas ou três senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
– Helen! Helen! Como você consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
– Deve ser bom. Tenho que provar!
Saíram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
– Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
– Tenho que tentar também – disse um velho sentado no fundo do bar. – Não tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua última colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
– Quero um sanduíche – disse um gordo. – Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
– Bife no pão, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
– Fique com o troco.
Fui até o lugar onde se faziam os sanduíches. Um velho meio esquisito apareceu.
– Bife no pão, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduíche até o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uísque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lá dos fundos do bar.
– Preciso que as persianas sejam limpas – ele me disse.
– Sem dúvida.
– O que você faz?
– Nada. Bebo. Vario entre isso.
– Que tal cuidar das persianas?
– Cinco pratas.
– Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, água e sabão, uns esfregões e esponjas. Retirei as persianas, removi as lâminas e comecei.
– Bebida de graça – disse Tommy, o atendente da noite – enquanto você estiver trabalhando.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A água ensaboada ardia.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
– Maravilha!
– Com certeza vai ajudar o lugar.
– Na certa vão subir o preço das bebidas.
– Uma dose de uísque, Tommy – eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com água limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mãos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e então Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
– Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. Será que dá?
– Claro, mas você não vai nem levantar o negócio quando for a hora.
– Levanto sim.
– Estarei aqui quando fecharem. Se você ainda conseguir ficar de pé, faço de graça!
– Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
– Uma dose de uísque.
– Ei, vá devagar – disse Billy-Boy – ou jamais terminará o trabalho nesta noite.
– Billy, se eu não terminar, você pode ficar com os cinco.
– Fechado. Ouviram isso?
– A gente ouviu, Billy, seu mão-de-vaca.
– A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uísque. Bebi o copo e então fui trabalhar. Consegui progredir. Após mais umas doses de uísque, consegui deixar os três jogos de persianas limpos e brilhantes.
– Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
– Ainda não acabou.
– Como?
– Há mais três janelas no salão dos fundos.
– Salão dos fundos?
– Salão dos fundos. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o salão dos fundos. Havia mais três janelas, mais três jogos de persianas.
– Deixo por 2,50, Billy.
– Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou não recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a água suja, enchi de água limpa, sabão, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
– O que está acontecendo?
– Não conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
– Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
– Tome cuidado, não vá se cortar – eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lá. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
– Não tenho que lhe pagar nada.
– O trabalho está terminado.
– Mas não foi você quem terminou.
– Não seja um mão-de-vaca, Billy – alguém disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
– Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcão.
– E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
– Você deve US$ 3,15 para o bar.
– Ponha na conta.
– O.k., qual é seu sobrenome?
– Chinaski.
– Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
– Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim até a hora do fechamento. Após o último, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensão. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidão me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolável. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
– Sim? – respondi.
– Você está bem?
– Sim.
– Podemos entrar?
– Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
– Sou Gertrude – ela disse – e esta é Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
– Escutamos você no banheiro. Você está passando mal?
– Sim. Mas não é nada sério, tenho certeza. Uma janela aberta.
– A sra. Downing, a senhoria, está fazendo uma sopa para você.
– Não precisa, está tudo bem.
– Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lá e para cá em seus saltos agudíssimos.
– Você é novo na cidade?
– Sim.
– Não está no exército?
– Não.
– O que você faz?
– Nada.
– Não trabalha?
– Não trabalho.
– Sim – disse Gertrude a Hilda –, olhe essas mãos. Tem as mãos mais lindas que já vi. Dá pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpática. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
– Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
– Bem, está na hora de a gente ir. E espero que as garotas não o tenham incomodado muito.
– Oh, não!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
– Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
– Está gostoso?
– Quero agradecer a todas vocês. Tudo isso... não é algo a que eu esteja acostumado.
– Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adorável e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de água e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
Após perder várias máquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histórias à mão e as enviava dessa maneira. Escrevia-as à pena. Eu precisava ser um calígrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rápido do que as ideias que elas continham. Escrevia três ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harper’s dizendo: “Ei, aqui está mais uma das coisas daquele louco...”.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lá fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. “Nos dias de hoje, é difícil encontrar um bom homem!”, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a música com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
– Você tem uma cara muito estranha – ela disse. – Você não é realmente feio.
– Número quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posições.
– Alguma vez você já se apaixonou?
– Isso é para pessoas de verdade.
– Você me parece de verdade.
– Não gosto de pessoas de verdade.
– Não gosta?
– Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
– Ele não é bonito?
– Quem?
– O soldado lá adiante. Está sentado sozinho. Tão ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
– Vamos, é hora de dar o fora daqui.
– Mas ainda é cedo.
– Você pode ficar.
– Não, quero ir com você.
– Não me importo com o que você fizer.
– É por causa do soldado? Você ficou assim por causa do soldado?
– Oh, merda!
– Foi o soldado!
– Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrás de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
– Você nem ao menos pegou um táxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
Tínhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava até ali, debaixo de três fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisão, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado – 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela árvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciência, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpão. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de você; e as claraboias – você pode ver o gradeado para os pássaros sobre as claraboias de vidro – que formam esse gradeado de certa maneira trazem à mente de um homem a imagem de uma prisão. Então há todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, você as escuta, sabe que seu tempo está se esgotando, de alguma maneira você terá que se levantar e também entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretária do gerente. Seu nome era Carmen – mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricô, sapatos de salto agulha, meias de náilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porém, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos até a mesa, voltava do mesmo modo para o escritório, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. Não sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galã, é preciso ter a lábia doce. Nunca fui bom em passar a lábia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste – faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricô acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeá-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lábios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhão imundo e descascado na misericordiosa escuridão.
– Factótum
completamente desprovido de
propósito,
ele era um jovem
seguindo de ônibus
cruzando a Carolina do Norte
em direção a
alguma parte
e então começou a nevar
e o ônibus parou
num pequeno café
nas montanhas
e os passageiros
ali entraram.
sentou juntou ao balcão
com os outros,
fez o pedido e a
comida chegou.
a refeição estava
especialmente
gostosa
assim como o
café.
a garçonete era
diferente das mulheres
que ele
conhecera.
não era afetada,
sentia que dela
emanava um humor
natural.
a frigideira dizia
coisas malucas.
a pia,
logo atrás,
ria, uma risada
boa
limpa e
prazenteira.
o jovem assistiu
à neve cair através da
janela.
queria ficar
naquele café
para sempre.
um sentimento curioso
perpassou-o por completo
de que tudo
era
lindo
ali,
de que sempre seria
maravilhoso ficar
por ali.
então o motorista do ônibus
disse aos passageiros
que era hora de
partir.
o jovem pensou,
ficarei sentado
aqui, apenas ficarei onde
estou.
mas então
ele se ergueu e seguiu
os outros até o
ônibus.
encontrou seu assento
e olhou para o café
através da janela do
ônibus.
então a partida do
veículo, logo uma curva,
em declive, afastando-se
das montanhas.
o jovem
olhou diretamente
para frente.
ouviu os outros
passageiros
falando
de outras coisas,
ou então eles
liam
ou
tentavam
dormir.
não haviam
percebido
a
mágica.
o jovem
virou a cabeça para
o lado,
fechou os
olhos,
fingiu
dormir.
não havia mais nada
a fazer –
apenas escutar
o som do
motor,
o som dos
pneus
sobre a
neve.
Depois de chegar à Filadélfia, encontrei uma pensão e paguei uma semana de aluguel adiantado. O bar mais próximo devia ter uns cinquenta anos. Dava para sentir o cheiro de urina, merda e vômito acumulados ao longo de meio século brotando das frestas do piso, visto que os banheiros ficavam no andar de baixo.
Eram quatro e meia. Dois homens brigavam no meio do bar.
O cara à minha direita disse que seu nome era Danny. O da esquerda, que se chamava Jim.
Danny trazia um cigarro na boca, a ponta brilhando. Uma garrafa de cerveja vazia cruzou o ar. Por um triz, não lhe acertou em cheio no cigarro e no nariz. Não se moveu nem olhou ao redor, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro.
– Essa foi perto, seu filho da puta! Mande mais uma dessas e a pancadaria começa!
Todos os lugares estavam ocupados. Havia umas mulheres por ali, algumas donas de casa, gordas e meio estúpidas, e duas ou três senhoras que enfrentavam dificuldades. Ao me sentar por ali, uma garota levantou e se foi com um homem. Retornou em cinco minutos.
– Helen! Helen! Como você consegue fazer isso?
Ela gargalhou.
Outro se lançou sobre ela para experimentar.
– Deve ser bom. Tenho que provar!
Saíram juntos. Helen retornou em cinco minutos.
– Ela deve ter uma bomba de sucção na buceta!
– Tenho que tentar também – disse um velho sentado no fundo do bar. – Não tenho uma ereção desde que Teddy Roosevelt tomou sua última colina.
Com ele, Helen levou dez minutos.
– Quero um sanduíche – disse um gordo. – Quem vai buscar pra mim por uma graninha?
Eu lhe disse que iria.
– Bife no pão, com tudo o que tem direito.
Deu-me algum dinheiro.
– Fique com o troco.
Fui até o lugar onde se faziam os sanduíches. Um velho meio esquisito apareceu.
– Bife no pão, com tudo o que der pra botar em cima. E uma garrafa de cerveja enquanto espero.
Tomei a cerveja, levei o sanduíche até o gordo e procurei outro lugar. Apareceu uma dose de uísque. Virei. Outra surgiu. Virei. A jukebox tocava.
Um jovem, que devia ter uns 24, veio lá dos fundos do bar.
– Preciso que as persianas sejam limpas – ele me disse.
– Sem dúvida.
– O que você faz?
– Nada. Bebo. Vario entre isso.
– Que tal cuidar das persianas?
– Cinco pratas.
– Contratado.
Eles o chamavam de Billy-Boy. Billy-Boy havia se casado com a dona do bar. Ela estava com 45.
Trouxe-me dois baldes, água e sabão, uns esfregões e esponjas. Retirei as persianas, removi as lâminas e comecei.
– Bebida de graça – disse Tommy, o atendente da noite – enquanto você estiver trabalhando.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Era um trabalho lento; o pó havia endurecido, formando uma espécie de laca. Cortei minha mão diversas vezes nas plaquetas de metal. A água ensaboada ardia.
– Uma dose de uísque, Tommy.
Terminei o primeiro jogo de persianas e o coloquei no lugar. Os fregueses do bar deram uma olhada no que eu havia feito.
– Maravilha!
– Com certeza vai ajudar o lugar.
– Na certa vão subir o preço das bebidas.
– Uma dose de uísque, Tommy – eu disse.
Baixei outro jogo de persianas, retirei as plaquetas. Desafiei Jim para uma partida de pinball e lhe tomei vinte e cinco centavos, esvaziei os baldes na privada e os enchi com água limpa.
O segundo jogo progrediu ainda mais devagar. Minhas mãos receberam mais cortes. Duvido que essas persianas tivessem sido limpas em dez anos. Ganhei mais 25 centavos no pinball, e então Billy-Boy ordenou que eu voltasse ao trabalho.
Helen passou em direção ao banheiro feminino.
– Helen, vou lhe dar cinco pratas assim que acabar. Será que dá?
– Claro, mas você não vai nem levantar o negócio quando for a hora.
– Levanto sim.
– Estarei aqui quando fecharem. Se você ainda conseguir ficar de pé, faço de graça!
– Estarei firme, baby!
Helen retornou ao banheiro.
– Uma dose de uísque.
– Ei, vá devagar – disse Billy-Boy – ou jamais terminará o trabalho nesta noite.
– Billy, se eu não terminar, você pode ficar com os cinco.
– Fechado. Ouviram isso?
– A gente ouviu, Billy, seu mão-de-vaca.
– A saideira, Tommy.
Tommy me serviu o uísque. Bebi o copo e então fui trabalhar. Consegui progredir. Após mais umas doses de uísque, consegui deixar os três jogos de persianas limpos e brilhantes.
– Tudo pronto, Billy. Pague o que deve.
– Ainda não acabou.
– Como?
– Há mais três janelas no salão dos fundos.
– Salão dos fundos?
– Salão dos fundos. O salão de festas.
Billy-Boy me mostrou o salão dos fundos. Havia mais três janelas, mais três jogos de persianas.
– Deixo por 2,50, Billy.
– Negativo. Ou faz todo o trabalho, ou não recebe nada.
Apanhei os baldes, esvaziei a água suja, enchi de água limpa, sabão, depois desci um novo jogo de persianas. Retirei as plaquetas, depositei-as sobre uma mesa e fiquei olhando para elas.
Jim parou no meio do caminho até o banheiro.
– O que está acontecendo?
– Não conseguirei limpar outro jogo.
Quando Jim saiu do banheiro, foi até o bar e retornou com sua cerveja. Começou a limpar as persianas.
– Jim, deixe disso.
Fui até o bar, peguei mais uma dose. Quando voltei, uma das garotas descia um dos jogos.
– Tome cuidado, não vá se cortar – eu disse a ela.
Alguns minutos depois, havia umas quatro ou cinco pessoas por ali, falando e sorrindo, até mesmo Helen. Todas trabalhavam na limpeza. Logo quase todos os fregueses do bar estavam por lá. Concentrei-me em esvaziar mais dois copos. Finalmente, as persianas estavam limpas e no lugar. Não levou muito tempo. Cintilavam. Billy-Boy apareceu:
– Não tenho que lhe pagar nada.
– O trabalho está terminado.
– Mas não foi você quem terminou.
– Não seja um mão-de-vaca, Billy – alguém disse.
Billy-Boy desencavou uma nota de US$ 5, eu a peguei. Fomos até o bar.
– Uma rodada por minha conta!
Coloquei a nota de US$ 5 sobre o balcão.
– E uma bebida pra mim.
Tommy deu uma volta distribuindo as bebidas.
Tomei a minha e Tommy pegou o dinheiro.
– Você deve US$ 3,15 para o bar.
– Ponha na conta.
– O.k., qual é seu sobrenome?
– Chinaski.
– Conhece aquela do polaco que teve que usar a casinha?
– Sim.
Os drinques continuaram chegando para mim até a hora do fechamento. Após o último, dei uma olhada em volta. Helen tinha desaparecido. Ela mentira.
Como fazem as putas, pensei, assustada com o trabalho que teria...
Ergui-me e tomei o rumo de minha pensão. A lua brilhava. Meus passos ecoavam pela rua vazia, parecendo os passos de um perseguidor. Olhei ao redor. Eu estava enganado. Somente a solidão me acompanhava.
Quando cheguei a St. Louis, fazia muito frio, estava prestes a nevar. Encontrei um quarto num lugar legal e limpo, um segundo andar de fundos. Era cedo da noite e me atacava uma de minhas crises depressivas, o que me fez ir cedo para cama, buscando, de alguma maneira, adormecer.
Quando despertei pela manhã, estava muito frio. Eu tremia de modo incontrolável. Levantei e descobri que uma das janelas estava aberta. Fechei-a e voltei para a cama. Comecei a me sentir nauseado. Consegui dormir mais uma hora, depois acordei. Fiquei de pé, me vesti, mal alcançara o banheiro do corredor quando vomitei. Despi-me novamente e voltei a me deitar. Logo houve uma batida à porta. Não respondi. As batidas continuaram.
– Sim? – respondi.
– Você está bem?
– Sim.
– Podemos entrar?
– Entrem.
Eram duas garotas. Uma estava um pouco acima do peso, mas parecia limpa, radiante, em um vestido florido e rosado. Tinha um rosto gentil. A outra usava um cinto bem apertado que acentuava sua maravilhosa figura. Seu cabelo era longo, negro, e tinha um nariz delicado; usava saltos, dona de pernas perfeitas, vestia uma blusa branca decotada. Seus olhos eram de um castanho-escuro, muito escuro, e seguiam cravados em mim, marotos, muito marotos.
– Sou Gertrude – ela disse – e esta é Hilda.
Hilda se ruborizou quando Gertrude cruzou o quarto em direção à cama.
– Escutamos você no banheiro. Você está passando mal?
– Sim. Mas não é nada sério, tenho certeza. Uma janela aberta.
– A sra. Downing, a senhoria, está fazendo uma sopa para você.
– Não precisa, está tudo bem.
– Vai lhe fazer bem.
Gertrude se aproximou da minha cama. Hilda permaneceu onde estava, rosa e luzidia e ruborizada. Gertrude andava para lá e para cá em seus saltos agudíssimos.
– Você é novo na cidade?
– Sim.
– Não está no exército?
– Não.
– O que você faz?
– Nada.
– Não trabalha?
– Não trabalho.
– Sim – disse Gertrude a Hilda –, olhe essas mãos. Tem as mãos mais lindas que já vi. Dá pra ver que nunca pegaram no batente.
A senhoria, sra. Downing, bateu. Ela era gorda e simpática. Imaginei que seu marido estava morto e que ela era uma pessoa religiosa. Trazia uma enorme tigela de caldo de carne. Podia ver a fumaça subindo. Peguei a tigela. Trocamos gentilezas. Sim, seu marido falecera. Ela era extremamente religiosa. Havia ainda umas bolachas, mais sal e pimenta.
– Muito obrigado.
A sra. Downing olhou para as duas garotas.
– Bem, está na hora de a gente ir. E espero que as garotas não o tenham incomodado muito.
– Oh, não!
Sorri em direção à sopa. Ela gostou do gesto.
– Vamos, garotas.
A sra. Downing deixou a porta aberta. Hilda deu um jeito de ruborizar mais uma vez, deu-me um sorriso discreto, depois saiu. Gertrude permaneceu. Observou-me tomar umas colheradas do caldo.
– Está gostoso?
– Quero agradecer a todas vocês. Tudo isso... não é algo a que eu esteja acostumado.
– Vou indo.
Ela deu meia-volta e caminhou lentamente até a porta. Sua bunda se movia sob a saia negra apertada; suas pernas eram douradas. Junto à soleira, ela parou e se virou, deitando seus olhos negros novamente sobre mim, deixando-os ficar. Fiquei pasmado, em brasa. No momento em que percebeu minha reação, lançou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. Tinha um pescoço adorável e toda aquela cabeleira negra. Ela desapareceu no corredor, deixando a porta entreaberta.
Peguei o sal e a pimenta, temperei o caldo, quebrei as bolachas de água e sal e as coloquei na tigela, aplacando minha doença a colheradas.
Após perder várias máquinas de escrever no prego, simplesmente desisti da ideia de possuir uma. Compunha minhas histórias à mão e as enviava dessa maneira. Escrevia-as à pena. Eu precisava ser um calígrafo veloz. Tinha que conseguir executar as letras mais rápido do que as ideias que elas continham. Escrevia três ou quatro contos por semana. Colocava-os no correio. Imaginava os editores da The Atlantic Monthly e da Harper’s dizendo: “Ei, aqui está mais uma das coisas daquele louco...”.
Certa noite, levei Gertrude a um bar. Sentamos lado a lado em uma mesa e bebemos cerveja. Nevava lá fora. Sentia-me um pouco melhor do que de costume. Bebemos e conversamos. Uma hora, ou por volta disso, se passou. Comecei a me fixar nos olhos de Gertrude, e ela me respondia da mesma maneira. “Nos dias de hoje, é difícil encontrar um bom homem!”, dizia a jukebox. Gertrude acompanhava a música com o corpo, com a cabeça, olhava-me nos olhos.
– Você tem uma cara muito estranha – ela disse. – Você não é realmente feio.
– Número quatro no setor de envio de mercadorias, galgando posições.
– Alguma vez você já se apaixonou?
– Isso é para pessoas de verdade.
– Você me parece de verdade.
– Não gosto de pessoas de verdade.
– Não gosta?
– Eu as odeio.
Bebemos mais um pouco, sem falar muito. Continuava a nevar. Gertrude virou a cabeça e ficou olhando para o aglomerado de pessoas. Então voltou a me olhar.
– Ele não é bonito?
– Quem?
– O soldado lá adiante. Está sentado sozinho. Tão ereto. E tem todas as medalhas no uniforme.
– Vamos, é hora de dar o fora daqui.
– Mas ainda é cedo.
– Você pode ficar.
– Não, quero ir com você.
– Não me importo com o que você fizer.
– É por causa do soldado? Você ficou assim por causa do soldado?
– Oh, merda!
– Foi o soldado!
– Estou indo.
Levantei-me, deixei uma gorjeta e caminhei em direção à porta. Ouvi Gertrude atrás de mim. Segui pela rua cortando a neve. Logo ela estava ao meu lado.
– Você nem ao menos pegou um táxi. Andar de salto alto na neve!
Não respondi. Caminhamos as quatro ou cinco quadras até a pensão. Subi os degraus lado a lado com ela. Então entrei em meu quarto, fechei a porta, me despi e fui para a cama. Escutei-a jogar alguma coisa contra a parede em seu quarto.
Filas e mais filas de bicicletas silenciosas. Caixas cheias de peças para bicicleta. Filas e mais filas de bicicletas pendendo do teto: bicicletas verdes, bicicletas vermelhas, bicicletas roxas, bicicletas azuis, bicicletas para meninas, bicicletas para meninos, todas penduradas ali; aros brilhantes, as rodas, os pneus, as tintas, os assentos de couro, as luzes traseiras, os faroletes, os freios de mão; centenas de bicicletas, fila após fila.
Tínhamos uma hora para o almoço. Eu comia depressa, tendo estado desperto ao longo de toda a noite e alvorada, sentia-me cansado e todo dolorido. Havia conseguido encontrar um local escondido debaixo das bicicletas. Eu me arrastava até ali, debaixo de três fileiras de bicicletas imaculadamente arranjadas. Deitava-me ali de costas, e suspensas sobre mim, alinhados com precisão, pendiam pneus, aros prateados e reluzentes, pinturas novas, tudo em perfeita ordem. Tudo era grandioso, correto, ordenado – 500 ou 600 bicicletas se estendendo sobre mim, cobrindo-me, tudo no seu devido lugar. De algum modo, aquilo tinha um profundo significado. Eu as olhava e sabia que tinha 45 minutos de descanso sob aquela árvore de bicicletas.
Ao mesmo tempo, eu sabia, em outra parte da minha consciência, que, se alguma vez eu me deixasse cair no meio de todas aquelas bicicletas cintilantes, seria meu fim, que eu nunca poderia me salvar. Assim, eu ficava ali deitado de costas, deixando que as rodas e os aros e as cores de alguma forma me acalmassem.
Um homem de ressaca jamais deveria deitar de costas e olhar para o telhado de um galpão. As vigas de madeira, por fim, apoderam-se de você; e as claraboias – você pode ver o gradeado para os pássaros sobre as claraboias de vidro – que formam esse gradeado de certa maneira trazem à mente de um homem a imagem de uma prisão. Então há todo aquele peso sobre os olhos, o desejo desesperado por um gole apenas, e o som das pessoas se movendo, você as escuta, sabe que seu tempo está se esgotando, de alguma maneira você terá que se levantar e também entrar nesse movimento, preenchendo ordens e empacotando pedidos...
Ela era a secretária do gerente. Seu nome era Carmen – mas, apesar do nome espanhol, ela era loira e usava vestidos colados de tricô, sapatos de salto agulha, meias de náilon, cinta-liga, trazia a boca muito pintada, porém, ah, ela sabia rebolar, sabia mexer, ondulava os quadris quando vinha com os pedidos até a mesa, voltava do mesmo modo para o escritório, a rapaziada de olho em cada movimento, em cada contração de sua bunda; oscilando, serpenteando, rebolando. Não sou um galanteador. Nunca fui. Para ser um galã, é preciso ter a lábia doce. Nunca fui bom em passar a lábia numa mulher. Mas, finalmente, com Carmen me pressionando, levei-a até um dos transportes de carga que descarregávamos nos fundos do galpão e a peguei de pé, atrás de um desses caminhões. Foi bom, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém ao mesmo tempo foi triste – faltava, na certa, algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Eu tinha erguido aquele vestido de tricô acima de seus quadris e fiquei ali, a bombeá-la, apertando, por fim, minha boca contra seus lábios carregados de batom escarlate e gozei entre duas caixas lacradas com o ar cheio de cinzas e com ela pressionada contra um caminhão imundo e descascado na misericordiosa escuridão.
– Factótum
2 440
Charles Bukowski
Hein?
na
Alemanha França Itália
eu posso caminhar pelas ruas e ser
seguido por
rapazes rindo
mocinhas
dando risadinhas e
velhas
damas empinando seus
narizes...
ao passo que
na América
sou só mais um
velho
cansado
fazendo seja lá o que
os velhos cansados
fazem.
ah, isso tem suas
compensações:
posso levar minhas calças
à lavanderia ou
entrar numa
fila de supermercado
sem nenhum tumulto em
absoluto:
os deuses me concederam
um doce
anonimato.
mas
por vezes
considero a sério minha
fama ultramarina
e
a única coisa
que me vem à cabeça é
que
devo ter uns
tradutores
bons pra caralho.
decerto
devo a eles
os pelos do meu
saco
ou
possivelmente
meu próprio
saco.
Alemanha França Itália
eu posso caminhar pelas ruas e ser
seguido por
rapazes rindo
mocinhas
dando risadinhas e
velhas
damas empinando seus
narizes...
ao passo que
na América
sou só mais um
velho
cansado
fazendo seja lá o que
os velhos cansados
fazem.
ah, isso tem suas
compensações:
posso levar minhas calças
à lavanderia ou
entrar numa
fila de supermercado
sem nenhum tumulto em
absoluto:
os deuses me concederam
um doce
anonimato.
mas
por vezes
considero a sério minha
fama ultramarina
e
a única coisa
que me vem à cabeça é
que
devo ter uns
tradutores
bons pra caralho.
decerto
devo a eles
os pelos do meu
saco
ou
possivelmente
meu próprio
saco.
1 236
Charles Bukowski
Alegre Parri
os cafés em Paris são bem como você imagina
que são:
pessoas muito bem-vestidas, esnobes, e
o garçom-esnobe vem e anota o seu
pedido
como se você fosse um
leproso.
mas depois de tomar o seu vinho
você se sente melhor
você mesmo começa a se sentir um
esnobe
e lança para o cara da mesa ao lado
um olhar de soslaio
ele flagra o seu olhar e
você torce o nariz
meio como se você tivesse acabado de cheirar
merda de cachorro
então você
desvia o olhar.
e a comida
quando chega
tem sempre um sabor suave demais.
os franceses são delicados com seus
temperos.
e
enquanto vai comendo e bebendo
você percebe que todo mundo está
aterrorizado:
que pena
que pena
uma cidade tão adorável
cheia de
covardes.
então
mais vinho gera mais
percepção:
Paris é o mundo e o mundo
é
Paris.
beba à saúde disso
e
por causa
disso.
que são:
pessoas muito bem-vestidas, esnobes, e
o garçom-esnobe vem e anota o seu
pedido
como se você fosse um
leproso.
mas depois de tomar o seu vinho
você se sente melhor
você mesmo começa a se sentir um
esnobe
e lança para o cara da mesa ao lado
um olhar de soslaio
ele flagra o seu olhar e
você torce o nariz
meio como se você tivesse acabado de cheirar
merda de cachorro
então você
desvia o olhar.
e a comida
quando chega
tem sempre um sabor suave demais.
os franceses são delicados com seus
temperos.
e
enquanto vai comendo e bebendo
você percebe que todo mundo está
aterrorizado:
que pena
que pena
uma cidade tão adorável
cheia de
covardes.
então
mais vinho gera mais
percepção:
Paris é o mundo e o mundo
é
Paris.
beba à saúde disso
e
por causa
disso.
1 107
Charles Bukowski
Roído Por Maçante Crise
não é fácil
mandar esses foguetes para
lugar nenhum.
não paro de queimar meus dedos,
ganho manchas de luz perante meus
olhos.
os gatos ficam me encarando.
o calendário cai da parede.
preciso de uma meia-noite tranquila nas
Bahamas.
preciso contemplar
cascatas de glória.
preciso dos dedos de uma donzela
amarrando meus sapatos.
preciso do sonho
do doce sonho azul
do doce sonho verde
do elevado sonho de lavanda.
preciso dos passos tranquilos para o Paraíso.
preciso rir como eu costumava rir.
preciso ver um bom filme numa sala escura.
preciso ser um bom filme numa sala escura.
preciso tomar emprestado um pouco da natural coragem
do tigre.
preciso andar pelos becos da China
bêbado.
preciso metralhar a andorinha.
preciso beber vinho com os assassinos.
onde será que os dentes falsos de Clark Gable estão
nesta noite?
quero que John Fante tenha pernas e olhos de novo.
sei que os cães virão para
arrancar a carne dos ossos.
como podemos ficar sentados olhando jogos de beisebol?
enquanto penso em arrebatar os céus
uma mosca dá rodopios e mais rodopios nesta
sala.
mandar esses foguetes para
lugar nenhum.
não paro de queimar meus dedos,
ganho manchas de luz perante meus
olhos.
os gatos ficam me encarando.
o calendário cai da parede.
preciso de uma meia-noite tranquila nas
Bahamas.
preciso contemplar
cascatas de glória.
preciso dos dedos de uma donzela
amarrando meus sapatos.
preciso do sonho
do doce sonho azul
do doce sonho verde
do elevado sonho de lavanda.
preciso dos passos tranquilos para o Paraíso.
preciso rir como eu costumava rir.
preciso ver um bom filme numa sala escura.
preciso ser um bom filme numa sala escura.
preciso tomar emprestado um pouco da natural coragem
do tigre.
preciso andar pelos becos da China
bêbado.
preciso metralhar a andorinha.
preciso beber vinho com os assassinos.
onde será que os dentes falsos de Clark Gable estão
nesta noite?
quero que John Fante tenha pernas e olhos de novo.
sei que os cães virão para
arrancar a carne dos ossos.
como podemos ficar sentados olhando jogos de beisebol?
enquanto penso em arrebatar os céus
uma mosca dá rodopios e mais rodopios nesta
sala.
1 055
Charles Bukowski
A Corda de Vidro
o velho era mais velho do que eu
no trem que ia para o sul
ao longo do mar por lá
depois o trem seguiu
por entre penhascos amarelos e
a visão do mar foi cortada e
ele me contou
“em 1914 levei 400 mulas
do Missouri à Itália.
aquelas mulas fediam.
tive de usar mais de um barco
mas transportei todas.
eles usaram as mulas para
rebocar canhões montanha acima.
os austríacos e os italianos
lutaram a guerra toda por cima de
uma montanha.”
o trem saiu do meio dos
penhascos, e lá embaixo no mar
os nadadores nadavam
meninos vinham que nem loucos
sobre pranchas de surfe. eu andei lendo
o Programa das Corridas.
“fizemos pontes de corda entre
uma montanha e outra
sempre subindo
e as mulas puxaram o canhão
na travessia.”
“pontes de corda?”, eu
perguntei.
“era corda de vidro, não tem nada
mais forte, nós esticamos o troço
com uma roda como uma roda de melaço
e a mula e o canhão atravessaram.
não havia força aérea na época e
quando botamos o canhão no topo
apontamos para baixo e
bombardeamos a cidade abaixo
de nós.”
eu me separei dele quando o trem chegou ao
hipódromo, ele era um velho
olhando por uma janela.
eu atravessei a ponte, feita de madeira,
sobre um braço de água do mar com
cheiro de podre. caminhei na direção do
hipódromo, estava quente, era um sábado em
agosto de 1964 e o mundo
ainda estava
lutando.
no trem que ia para o sul
ao longo do mar por lá
depois o trem seguiu
por entre penhascos amarelos e
a visão do mar foi cortada e
ele me contou
“em 1914 levei 400 mulas
do Missouri à Itália.
aquelas mulas fediam.
tive de usar mais de um barco
mas transportei todas.
eles usaram as mulas para
rebocar canhões montanha acima.
os austríacos e os italianos
lutaram a guerra toda por cima de
uma montanha.”
o trem saiu do meio dos
penhascos, e lá embaixo no mar
os nadadores nadavam
meninos vinham que nem loucos
sobre pranchas de surfe. eu andei lendo
o Programa das Corridas.
“fizemos pontes de corda entre
uma montanha e outra
sempre subindo
e as mulas puxaram o canhão
na travessia.”
“pontes de corda?”, eu
perguntei.
“era corda de vidro, não tem nada
mais forte, nós esticamos o troço
com uma roda como uma roda de melaço
e a mula e o canhão atravessaram.
não havia força aérea na época e
quando botamos o canhão no topo
apontamos para baixo e
bombardeamos a cidade abaixo
de nós.”
eu me separei dele quando o trem chegou ao
hipódromo, ele era um velho
olhando por uma janela.
eu atravessei a ponte, feita de madeira,
sobre um braço de água do mar com
cheiro de podre. caminhei na direção do
hipódromo, estava quente, era um sábado em
agosto de 1964 e o mundo
ainda estava
lutando.
1 076
Charles Bukowski
Mais Potente do Que de Carne Moída Com Batata –
o movimento do coração humano:
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
estrangulado no Missouri;
recoberto por cera quente em Boston;
assado feito batata em Norfolk;
perdido nas Montanhas Allegheny;
encontrado mais uma vez numa cama de mogno com dossel
em Nova Orleans;
ensopado e moído com feijões-rajados
em El Paso;
suspenso numa cruz como um cão embriagado
em Denver;
cortado ao meio e tostado em
Kalamazoo;
tomado de câncer num barco pesqueiro
para além da costa do México;
enganado e encurralado em Daytona Beach;
chutado por uma babá
usando um vestido verde e branco de algodão,
que atende mesas numa rodoviária
da Carolina do Norte;
besuntado em azeite e mijo de cabra
por uma puta enxadrista no East Village;
pintado de vermelho, branco e azul
por um ato do Congresso;
torpedeado por uma loira aguada
com o maior rabo em Kansas;
estripado e barbarizado por uma mulher
com a alma de um touro
em East Lansing;
petrificado por uma garota de dedos minúsculos,
faltava a ela um dente,
um da frente na arcada superior, e bombeando gás
em Mesa;
o movimento do coração humano segue
e segue
e segue e segue
por algum tempo.
661
Charles Bukowski
Metido de Novo Em Alguma Enrascada Impossível
e o cara do pé grande, o imbecil, nem se mexeu
enquanto eu passava entre os bancos; naquela noite na festinha
de dança típica Elmer Whitefield perdeu um dente brigando com o grande
Eddie Green;
a gente pega o rádio dele e o relógio dele, disseram,
apontando para mim, ianque desgraçado; mas não sabiam
que eu era um poeta insano e fiquei lá encostado bebendo vinho
e amando todas as mulheres deles
com meus olhos, e eles ficaram assustados e intimidados
como vaquinhas de cidade pequena
tentando bolar um jeito de me matar
mas primeiro
tolamente
precisando de um motivo; eu poderia ter contado a eles
como não muito tempo atrás
eu quase matara por falta de motivo;
em vez disso, peguei o ônibus das 8:15
para Memphis.
enquanto eu passava entre os bancos; naquela noite na festinha
de dança típica Elmer Whitefield perdeu um dente brigando com o grande
Eddie Green;
a gente pega o rádio dele e o relógio dele, disseram,
apontando para mim, ianque desgraçado; mas não sabiam
que eu era um poeta insano e fiquei lá encostado bebendo vinho
e amando todas as mulheres deles
com meus olhos, e eles ficaram assustados e intimidados
como vaquinhas de cidade pequena
tentando bolar um jeito de me matar
mas primeiro
tolamente
precisando de um motivo; eu poderia ter contado a eles
como não muito tempo atrás
eu quase matara por falta de motivo;
em vez disso, peguei o ônibus das 8:15
para Memphis.
1 051
Charles Bukowski
O Padre E o Matador
no lento ar mexicano assisto o touro morrer
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
e eles lhe cortam a orelha, e sua enorme cabeça não guarda
mais terror do que uma pedra.
dirigindo de volta no dia seguinte paramos na Missão
e assistimos às flores vermelhas e douradas e azuis se estendendo
como tigres na ventania.
coloque isto na métrica: o touro e o forte de Cristo:
o matador de joelhos, o touro morto seu menino;
e o padre a olhar pela janela
como um urso enjaulado.
você pode discutir no mercado e manipular as suas
dúvidas com cordas de seda: vou lhe dizer apenas
isto: eu vivi em ambos os templos,
acreditando em tudo e em nada – talvez, agora, eles venham
a morrer no meu.
1 101
Charles Bukowski
Vegas
havia uma árvore congelada que eu queria pintar
mas as bombas caíram
e em Vegas olhando através de uma persiana verde
às 3:30 da manhã,
morri sem pregos, sem um exemplar da Atlantic Monthly,
as janelas gritavam feito pombas lamentando o bombardeio de Milão
e eu saí para viver com os ratos
mas as luzes eram muito fortes
e pensei que talvez fosse melhor retornar e tomar assento em uma
aula de poesia:
uma maravilhosa descrição de uma gazela
é o inferno;
a cruz repousa feito uma mosca em minha janela,
a respiração de minha mãe agita pequenas folhas
em minha mente;
e eu peguei uma carona de volta a L.A. em meio a nuvens de ressaca
e puxei uma carta do meu bolso e a li
e o motorista do caminhão disse, o que é isso?
e eu respondi, tem uma garota lá no norte que costumava
dormir com Pound, ela está tentando me dizer que H.D.[1]
é nossa maior escriba: bem, Hilda nos deu alguns deuses
gregos e rosados em uma vasilha de porcelana, mas depois de lê-la
continuo tendo 140 pontas de gelo pendendo de meus ossos.
não seguirei direto até L.A., disse o motorista.
não tem problema, eu disse, os copos-de-leite assentem para nossas mentes
e algum dia todos iremos juntos para
casa.
de fato, ele disse, a nossa viagem juntos
termina aqui.
deixei ele ter o que queria; velha e ressecada puta do tempo
seus seios têm o gosto do creme azedo dos sonhos...
ele me desembarcou
no meio do deserto;
morrer é morrer é morrer,
velhos fonógrafos nos porões,
joe di maggio,
revistas em comunhão com cebolas...
um velho Ford me apanhou
45 minutos depois
e, desta vez,
mantive minha boca
calada.
[1] Hilda Doolittle, cujo nome literário foi H.D., teve importante papel no movimento modernista da poesia americana, em especial por sua associação ao Imagismo de Pound. Em sua poesia há frequentes referências à mitologia grega. (N.T.)
mas as bombas caíram
e em Vegas olhando através de uma persiana verde
às 3:30 da manhã,
morri sem pregos, sem um exemplar da Atlantic Monthly,
as janelas gritavam feito pombas lamentando o bombardeio de Milão
e eu saí para viver com os ratos
mas as luzes eram muito fortes
e pensei que talvez fosse melhor retornar e tomar assento em uma
aula de poesia:
uma maravilhosa descrição de uma gazela
é o inferno;
a cruz repousa feito uma mosca em minha janela,
a respiração de minha mãe agita pequenas folhas
em minha mente;
e eu peguei uma carona de volta a L.A. em meio a nuvens de ressaca
e puxei uma carta do meu bolso e a li
e o motorista do caminhão disse, o que é isso?
e eu respondi, tem uma garota lá no norte que costumava
dormir com Pound, ela está tentando me dizer que H.D.[1]
é nossa maior escriba: bem, Hilda nos deu alguns deuses
gregos e rosados em uma vasilha de porcelana, mas depois de lê-la
continuo tendo 140 pontas de gelo pendendo de meus ossos.
não seguirei direto até L.A., disse o motorista.
não tem problema, eu disse, os copos-de-leite assentem para nossas mentes
e algum dia todos iremos juntos para
casa.
de fato, ele disse, a nossa viagem juntos
termina aqui.
deixei ele ter o que queria; velha e ressecada puta do tempo
seus seios têm o gosto do creme azedo dos sonhos...
ele me desembarcou
no meio do deserto;
morrer é morrer é morrer,
velhos fonógrafos nos porões,
joe di maggio,
revistas em comunhão com cebolas...
um velho Ford me apanhou
45 minutos depois
e, desta vez,
mantive minha boca
calada.
[1] Hilda Doolittle, cujo nome literário foi H.D., teve importante papel no movimento modernista da poesia americana, em especial por sua associação ao Imagismo de Pound. Em sua poesia há frequentes referências à mitologia grega. (N.T.)
795
Charles Bukowski
Liberdade
ela estava sentada na janela
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
1 294
Charles Bukowski
No Continente
eu sou frouxo. eu
sonho também.
me deixo sonhar. sonho em
ser famoso. sonho em
caminhar nas ruas de Londres e
Paris. sonho em
sentar em cafés
bebendo vinhos caros e
pegando um táxi de volta a um bom
hotel.
sonho em
conhecer lindas mulheres no saguão
e
dispensá-las porque
tenho um soneto em mente que
quero escrever
antes do nascer do sol. quando o sol nascer
estarei dormindo e haverá um
gato estranho enrolado
no parapeito da janela.
penso que todos nos sentimos assim
de vez em quando.
eu gostaria mesmo de visitar
Andernatch, na Alemanha, o lugar onde
comecei. depois gostaria de
voar até Moscou para checar
o sistema de transporte coletivo assim
teria alguma coisa levemente obscena para
sussurrar no ouvido do prefeito de
Los Angeles quando retornasse para este
lugar fodido.
poderia acontecer.
estou pronto.
já vi lesmas escalarem
paredes de três metros de altura e
desaparecerem.
você não deve confundir isto com
ambição.
eu seria capaz de rir ao receber
uma mão perfeita nas cartas –
e não esquecerei de você.
vou lhe mandar cartões-postais e
instantâneos, e o
soneto acabado.
sonho também.
me deixo sonhar. sonho em
ser famoso. sonho em
caminhar nas ruas de Londres e
Paris. sonho em
sentar em cafés
bebendo vinhos caros e
pegando um táxi de volta a um bom
hotel.
sonho em
conhecer lindas mulheres no saguão
e
dispensá-las porque
tenho um soneto em mente que
quero escrever
antes do nascer do sol. quando o sol nascer
estarei dormindo e haverá um
gato estranho enrolado
no parapeito da janela.
penso que todos nos sentimos assim
de vez em quando.
eu gostaria mesmo de visitar
Andernatch, na Alemanha, o lugar onde
comecei. depois gostaria de
voar até Moscou para checar
o sistema de transporte coletivo assim
teria alguma coisa levemente obscena para
sussurrar no ouvido do prefeito de
Los Angeles quando retornasse para este
lugar fodido.
poderia acontecer.
estou pronto.
já vi lesmas escalarem
paredes de três metros de altura e
desaparecerem.
você não deve confundir isto com
ambição.
eu seria capaz de rir ao receber
uma mão perfeita nas cartas –
e não esquecerei de você.
vou lhe mandar cartões-postais e
instantâneos, e o
soneto acabado.
1 243
Charles Bukowski
M.T.
M.T.[1]
ela morava em Galveston e fazia
M.T.
e eu fui visitá-la e fizemos amor
ininterruptamente ainda que o tempo estivesse muito
quente
e tomamos mescalina
e uma balsa até a ilha
e dirigimos 200 milhas até o hipódromo mais
próximo.
nós dois ganhamos e fomos sentar num bar de caipiras –
odiado e não frequentado pelos nativos –
e então fomos para um motel caipira
e voltamos um ou dois dias depois
e fiquei por lá mais uma semana
pintei-lhe um par de quadros decentes –
um de um homem sendo enforcado
e outro de uma mulher sendo fodida por um lobo.
acordei certa noite e ela não estava na cama
e levantei e caminhei ao redor perguntando,
“Gloria, Gloria, onde você está?”
era um lugar enorme e eu caminhava a esmo
abrindo porta atrás de porta,
então abri uma que parecia a de um closet
e lá estava ela de joelhos
cercada por fotografias de
7 ou 8 homens
as cabeças raspadas
em sua maioria usando óculos sem armações.
havia uma pequena vela acesa
e eu disse, “oh, me desculpe”.
Gloria vestia um quimono com águias
em pleno voo na parte de trás.
fechei a porta e voltei para a cama.
ela saiu 15 minutos depois.
começamos a nos beijar,
sua língua enorme deslizando para dentro e para fora da
[minha
boca.
ela era uma garota grande e saudável do Texas.
“escute, Gloria”, consegui finalmente dizer,
“preciso de uma noite de folga”.
no dia seguinte ela me levou até o aeroporto.
eu prometi escrever. Ela prometeu escrever.
nenhum de nós escreveu.
M.T.
e eu fui visitá-la e fizemos amor
ininterruptamente ainda que o tempo estivesse muito
quente
e tomamos mescalina
e uma balsa até a ilha
e dirigimos 200 milhas até o hipódromo mais
próximo.
nós dois ganhamos e fomos sentar num bar de caipiras –
odiado e não frequentado pelos nativos –
e então fomos para um motel caipira
e voltamos um ou dois dias depois
e fiquei por lá mais uma semana
pintei-lhe um par de quadros decentes –
um de um homem sendo enforcado
e outro de uma mulher sendo fodida por um lobo.
acordei certa noite e ela não estava na cama
e levantei e caminhei ao redor perguntando,
“Gloria, Gloria, onde você está?”
era um lugar enorme e eu caminhava a esmo
abrindo porta atrás de porta,
então abri uma que parecia a de um closet
e lá estava ela de joelhos
cercada por fotografias de
7 ou 8 homens
as cabeças raspadas
em sua maioria usando óculos sem armações.
havia uma pequena vela acesa
e eu disse, “oh, me desculpe”.
Gloria vestia um quimono com águias
em pleno voo na parte de trás.
fechei a porta e voltei para a cama.
ela saiu 15 minutos depois.
começamos a nos beijar,
sua língua enorme deslizando para dentro e para fora da
[minha
boca.
ela era uma garota grande e saudável do Texas.
“escute, Gloria”, consegui finalmente dizer,
“preciso de uma noite de folga”.
no dia seguinte ela me levou até o aeroporto.
eu prometi escrever. Ela prometeu escrever.
nenhum de nós escreveu.
1 137
Manuel Bandeira
Cantiga de Amor
Mulheres neste mundo de meu Deus
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
Tenho visto muitas — grandes, pequenas,
Ruivas, castanhas, brancas e morenas.
E amei-as, por mal dos pecados meus!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Andei por São Paulo e pelo Ceará
(Não falo em Pernambuco, onde nasci),
Bahia, Minas, Belém do Pará...
De muito olhar de mulher já sofri!
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Atravessei o mar e, no estrangeiro,
Em Paris, Basiléia e nos Grisões,
Lugano, Gênova por derradeiro,
Vi mulheres de todas as nações.
Mas em parte alguma vi, ai de mim,
Nenhuma que fosse bonita assim!
Mulher bonita não falta, ai de mim!
Nenhuma porém, tão bonita assim!
1 220
Manuel Bandeira
Cartão-postal
Paris encanta. Londres mete medo.
Paris é a maior... ninguém se iluda.
Por intermédio meu, amigo Lêdo,
a Coluna Vendôme te saúda!
Paris é a maior... ninguém se iluda.
Por intermédio meu, amigo Lêdo,
a Coluna Vendôme te saúda!
1 148
Manuel Bandeira
Embalo
Ao balanço das águas,
Ao trépido pulsar
Da máquina, embalar
As persistentes mágoas
Das peremptas feridas...
Beber o céu nos ventos
Sabendo a sonolentos
Sais e iodados-relentos.
Anseios de insofridas
Esperas e esperanças
Diluem-se na bruma
Como na vaga a espuma
— Flores de espumas mansas —
Que a um lado e outro abotoa
Da cortadora proa.
Azuis de águas e céus...
Sou nada, e entanto agora
Eis-me centro finito
Do círculo infinito
De mar e céus afora.
— Estou onde está Deus.
Ao trépido pulsar
Da máquina, embalar
As persistentes mágoas
Das peremptas feridas...
Beber o céu nos ventos
Sabendo a sonolentos
Sais e iodados-relentos.
Anseios de insofridas
Esperas e esperanças
Diluem-se na bruma
Como na vaga a espuma
— Flores de espumas mansas —
Que a um lado e outro abotoa
Da cortadora proa.
Azuis de águas e céus...
Sou nada, e entanto agora
Eis-me centro finito
Do círculo infinito
De mar e céus afora.
— Estou onde está Deus.
925
Manuel Bandeira
Canção das Duas Índias
Entre estas Índias de leste
E as Índias ocidentais
Meu Deus que distância enorme
Quantos Oceanos Pacíficos
Quantos bancos de corais
Quantas frias latitudes!
Ilhas que a tormenta arrasa
Que os terremotos subvertem
Desoladas Marambaias
Sirtes sereias Medéias
Púbis a não poder mais
Altos como a estrela-d'alva
Longínquos como Oceanias
— Brancas, sobrenaturais —
Oh inacessíveis praias!...
1931
E as Índias ocidentais
Meu Deus que distância enorme
Quantos Oceanos Pacíficos
Quantos bancos de corais
Quantas frias latitudes!
Ilhas que a tormenta arrasa
Que os terremotos subvertem
Desoladas Marambaias
Sirtes sereias Medéias
Púbis a não poder mais
Altos como a estrela-d'alva
Longínquos como Oceanias
— Brancas, sobrenaturais —
Oh inacessíveis praias!...
1931
1 319
Manuel Bandeira
A Sereia de Lenau
Quando na grave solidão do Atlântico
Olhavas da amurada do navio
O mar já luminoso e já sombrio,
Lenau! teu grande espírito romântico
Suspirava por ver dentro das ondas
Até o álveo profundo das areias,
A enxergar alvas formas de sereias
De braços nus e nádegas redondas.
Ilusão! que sem cauda aqueles seres,
Deixando o ermo monótono das águas,
Andam em terra suscitando mágoas,
Misturadas às filhas das mulheres.
Nikolaus Lenau, poeta da amargura!
Uma te amou, chamava-se Sofia.
E te levou pela melancolia
Ao oceano sem fundo da loucura.
Olhavas da amurada do navio
O mar já luminoso e já sombrio,
Lenau! teu grande espírito romântico
Suspirava por ver dentro das ondas
Até o álveo profundo das areias,
A enxergar alvas formas de sereias
De braços nus e nádegas redondas.
Ilusão! que sem cauda aqueles seres,
Deixando o ermo monótono das águas,
Andam em terra suscitando mágoas,
Misturadas às filhas das mulheres.
Nikolaus Lenau, poeta da amargura!
Uma te amou, chamava-se Sofia.
E te levou pela melancolia
Ao oceano sem fundo da loucura.
1 201
Manuel Bandeira
Marinheiro Triste
Marinheiro triste
Que voltas para bordo
Que pensamentos são
Esses que te ocupam?
Alguma mulher
Amante de passagem
Que deixaste longe
Num porto de escala?
Ou tua amargura
Tem outras raízes
Largas fraternais
Mais nobres mais fundas?
Marinheiro triste
De um país distante
Passaste por mim
Tão alheio a tudo
Que nem pressentiste
Marinheiro triste
A onda viril
De fraterno afeto
Em que te envolvi.
las triste e lúcido
Antes melhor fora
Que voltasses bêbedo
Marinheiro triste!
E eu que para casa
Vou como tu vais
Para o teu navio,
Feroz casco sujo
Amarrado ao cais,
Também como tu
Marinheiro triste
Vou lúcido e triste.
Amanhã terás
Depois que partires
O vento do largo
O horizonte imenso
O sal do mar alto!
Mas eu, marinheiro?
— Antes melhor fora
Que voltasse bêbedo!
Que voltas para bordo
Que pensamentos são
Esses que te ocupam?
Alguma mulher
Amante de passagem
Que deixaste longe
Num porto de escala?
Ou tua amargura
Tem outras raízes
Largas fraternais
Mais nobres mais fundas?
Marinheiro triste
De um país distante
Passaste por mim
Tão alheio a tudo
Que nem pressentiste
Marinheiro triste
A onda viril
De fraterno afeto
Em que te envolvi.
las triste e lúcido
Antes melhor fora
Que voltasses bêbedo
Marinheiro triste!
E eu que para casa
Vou como tu vais
Para o teu navio,
Feroz casco sujo
Amarrado ao cais,
Também como tu
Marinheiro triste
Vou lúcido e triste.
Amanhã terás
Depois que partires
O vento do largo
O horizonte imenso
O sal do mar alto!
Mas eu, marinheiro?
— Antes melhor fora
Que voltasse bêbedo!
1 057
Manuel Bandeira
Esparsa Triste
Jaime Ovalle, poeta, homem triste,
Faz treze anos que tu partiste
Para Londres imensa e triste.
las triste: voltaste mais triste.
Ora partes de novo. Existe
Um motivo a que não resiste
Tua tristeza, poeta, homem triste?
Queira Deus não voltes mais triste...
13 de janeiro de 1946
Faz treze anos que tu partiste
Para Londres imensa e triste.
las triste: voltaste mais triste.
Ora partes de novo. Existe
Um motivo a que não resiste
Tua tristeza, poeta, homem triste?
Queira Deus não voltes mais triste...
13 de janeiro de 1946
1 209
Manuel Bandeira
Brisa
Vamos viver no Nordeste, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
Deixarei aqui meus amigos, meus livros, minhas riquezas, minha vergonha.
Deixarás aqui tua filha, tua avó, teu marido, teu amante.
Aqui faz muito calor.
No Nordeste faz calor também.
Mas lá tem brisa:
Vamos viver de brisa, Anarina.
2 677
Marina Colasanti
Quando a fome
Como lobo esfaimado
arrodeando aldeia
o turista se achega ao restaurante.
Hirto o invisível pelo
afiadas orelhas ao inexistente aviso
fareja com os olhos o menu posto à porta
Tudo cheira a armadilha
em terra alheia, outra língua nos pratos
outros custos
um perfil diferente nas moedas.
Mas a fome é primeira
e última a hora.
O lobo ergue a cabeça
faz-se cordeiro
e entra.
arrodeando aldeia
o turista se achega ao restaurante.
Hirto o invisível pelo
afiadas orelhas ao inexistente aviso
fareja com os olhos o menu posto à porta
Tudo cheira a armadilha
em terra alheia, outra língua nos pratos
outros custos
um perfil diferente nas moedas.
Mas a fome é primeira
e última a hora.
O lobo ergue a cabeça
faz-se cordeiro
e entra.
657
Marina Colasanti
Quando fomos a Delfos
Eu estava encharcada de cortisona
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
1 216