Paciência

Poemas neste tema

Eugénio de Andrade

Eugénio de Andrade

Sê paciente; espera

Sê paciente; espera
que a palavra amadureça
e se desprenda como um fruto
ao passar o vento que a mereça.
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Desconhecido

Desconhecido

A fortaleza do espirito

Às vezes, parece que a vida não é mais do que um teste para nossa paciência e resistência.

Há dias em que a alegria já acorda em nossa companhia; e há dias em que levantamos sem ânimo, sem mesmo saber para quê, pois até a esperança de felicidade parece extinguir-se.

O cansaço e a desesperança atacam a todos, sem excepção; e há os que sucumbem e se rendem à vida, abandonando a luta e aceitando a derrota.

Que tu não sejas um destes e acordes, hoje, como um bravo; alguém a quem a vida, muitas vezes, não oferece nada, nem mesmo a esperança - mas que, mesmo assim, cerra os dentes, levanta, reage e luta!

Que acordes como um valente, de quem o destino pode tirar os sentidos e a respiração, mas não pode tirar a coragem.

Pois, se a vida nos testa, mostremos a ela que nosso corpo pode ser frágil, mas que nossa alma é de aço.

E que a espinha de um bravo verga, mas não quebra!
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Luís de Camões

Luís de Camões

Sete anos de pastor Jacob servia

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando se com vê la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo:-Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.

82 049 56
Olavo Bilac

Olavo Bilac

A um Poeta

Longe do estéril turbilhão da rua,
Beneditino, escreve! No aconchego
Do claustro, na paciência e no sossego,
Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego
Do esforço; e a trama viva se construa
De tal modo, que a imagem fique nua,
Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício
Do mestre. E, natural, o efeito agrade,
Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,
Arte pura, inimiga do artifício,
É a força e a graça na simplicidade.


Publicado no livro Tarde (1919).

In: BILAC, Olavo. Poesias. Posfácio R. Magalhães Júnior. Rio de Janeiro: Ediouro, 197
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Mário Cesariny

Mário Cesariny

Estação

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te vou perdendo a noção desta subtileza. Aqui chegado até eu venho ver se me apareço e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho
Muita vez
vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça
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João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

Pescadores Pernambucanos

A Rubem Braga


Onde o Goitá vai mais parado
e onde nunca passa nada;
onde o Goitá vai tão parado
que nem mesmo ele rio passa,

um pescador, numa redoma
dessas em que sempre se instalam,
espera um peixe: e tão parado
que nem sequer roça a vidraça.

Mas não está parado
por estar na emboscada:
não é ele quem pesca,
a despeito da vara:

mais bem, é ele a pesca,
e a pose represada
é para não fugir
de algum peixe em que caia.

----------

No mangue lama ou lama mangue,
difícil dizer-se o que é,
entre a espessura nada casta
que se entreabre morna, mulher,

pé ante pé, persegue um peixe
um pescador de jereré,
mergulhando o jereré, sempre,
quando já o que era não é.

Contudo, continua
sem se deter sequer:
fazer e refazer
fazem um só mister;

e ele se refaz, sempre,
a perseguir, até
que tudo haja fugido
ao passo de seu pé.

----------

Qualquer pescador de tarrafa
arremessando a rede langue
dá a sensação que vai pescar
o mundo inteiro nesse lance;

e o vôo espalmado da rede,
planando lento sobre o mangue,
senão o mundo, os alagados,
dá a sensação mesmo que abrange.

Depois, pouco se vê:
como, ao chumbo tirante,
se transforma em profundo
o que era extenso, antes;

vê-se é como o profundo
dá pouco, de relance:
se muito, uma traíra
do imenso circunstante.

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Aproveitando-se da noite
(não é bem um pescador, este)
coloca o covo e vai embora:
que sozinho se pesque o peixe;

coloca o covo na gamboa
e se vai, enxuto e terrestre:
mais tarde virá levantá-lo,
quando o bacurau o desperte.

Não é um pescador
aquele que não preze
o fino instante exato
em que o peixe se pesque;

este abandona o covo
e vai, sem interesse:
nem de fazer a pesca
nem de vê-la fazer-se.

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Publicado no livro Terceira feira (1961). Poema integrante da série Serial.

In: MELO NETO, João Cabral de. Obra completa: volume único. Org. Marly de Oliveira. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p.312-314. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira
4 607 6
Mutimati

Mutimati

O Burro

Vejam o burro, Camaradas
Esta zebra pequena vestida de lama bonita fofa
Tem quatro pernas de andar aos saltinhos
Duas orelhas ouvidouras de ouvir tudo bem
Dois olhos espertos cheios até às lágrimas de paciência
O nariz do focinho muito fresco e macio.

O burro é burro, Camaradas?
Quem diz que é burro e despreza este companheiro?
Quem quiser ofender-me não me chame de burro
Quem quiser ofender-me não seja tão amável!
Quem quiser ofender-me inventa outra palavra
Porque chamar-me de burro lembra-me burro mesmo
E não posso magoar-me com simpatia.

Não estou a defender o amigo útil somente
Não estou a pensar bem deste que faz o meu esforço e puxa
Não penso que ele me ouve tudo e puxa mais forte assim.
Há coisas deste companheiro para pensar melhor e espalhar.
Falo agora somente só de simpatia.

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Adélia Prado

Adélia Prado

Meditação À Beira de Um Poema

Podei a roseira no momento certo
e viajei muitos dias,
aprendendo de vez
que se deve esperar biblicamente
pela hora das coisas.
Quando abri a janela, vi-a,
como nunca a vira,
constelada,
os botões,
alguns já com o rosa-pálido
espiando entre as sépalas,
joias vivas em pencas.
Minha dor nas costas,
meu desaponto com os limites do tempo,
o grande esforço para que me entendam
pulverizaram-se
diante do recorrente milagre.
Maravilhosas faziam-se
as cíclicas, perecíveis rosas.
Ninguém me demoverá
do que de repente soube
à margem dos edifícios da razão:
a misericórdia está intacta,
vagalhões de cobiça,
punhos fechados,
altissonantes iras,
nada impede ouro de corolas
e acreditai: perfumes.
Só porque é setembro.
6 604 4
Reinaldo Ferreira

Reinaldo Ferreira

Vivo na esperança de um gesto

Vivo na esperança de um gesto
Que hás-de fazer.
Gesto, claro, é maneira de dizer,
Pois o que importa é o resto
Que esse gesto tem de ter.
Tem que ter sinceridade
Sem parecer premeditado;
E tem que ser convincente,
Mas de maneira diferente
Do discurso preparado.
Sem me alargar, não resisto
À tentação de dizer
Que o gesto não é só isto...
Quando tu, em confusão,
Sabendo que estou à espera,
Me mostras que só hesitas
Por não saber começar,
Que tentações de falar!
Porque enfim, como adivinhas,
Esse gesto eu sei qual é,
Mas se o disser, já não é...

2 541 3
Cassiano Ricardo

Cassiano Ricardo

A Rua

Bem sei que, muitas vezes,
o único remédio
é adiar tudo. É adiar a sede, a fome, a viagem,
a dívida, o divertimento,
o pedido de emprego, ou a própria alegria.
A esperança é também uma forma
de contínuo adiamento.
Sei que é preciso prestigiar a esperança,
numa sala de espera.
Mas sei também que espera significa luta e não,
[apenas,
esperança sentada.
Não abdicação diante da vida.

A esperança
nunca é a forma burguesa, sentada e tranquila da
[espera.

Nunca é a figura de mulher
do quadro antigo.
Sentada, dando milho aos pombos.


Publicado no livro Um dia depois do outro, 1944/1946 (1947).

In: RICARDO, Cassiano. Poesias completas. Pref. Tristão de Athayde. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1957. p.26
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Paulo Leminski

Paulo Leminski

Sossegue coração

sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa

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Castro Menezes

Castro Menezes

Calipso

Pela doce paciência de enfermeira
com que procuras encantar-me a vida,
renovando em minha alma a fé perdida
depois de morta a crença derradeira;

Pelo sorriso bom de companheira
que a novas esperanças me convida,
quando vejo, na estrada percorrida
dos meus sonhos a extinta sementeira;

Pela graça de irmã de Caridade
com que teu meigo afeto me persuade
de que lutar confiante é o meu dever;

Bendita sejas Flor de mansuetude,
em cujo seio, finalmente, pude
descansar a cabeça e adormecer...

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Adélia Prado

Adélia Prado

O Ajudante de Deus

Invoquei o Santo Espírito,
Ele me disse: sofre,
come na paciência
esta amargura,
porque tens boca
e eu não.
Toma o pequeno cálice,
massa de cinza e fel
não transmutados.
É pão de mirra,
come.
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Adélia Prado

Adélia Prado

Shopsi

Hoje completa um ano
que estou fazendo terapia.
— E o que você conta ao doutor?
— Que tenho medo panifóbico
de ver minha mãe morrer.
— Só isso?
— Só. Coisa à toa,
feito não comer três dias
porque vi formiga de asas,
isso eu não conto mesmo,
só converso coisa séria.
— E ele?
— É muito paciencioso,
diz que meu caso é difícil
mas tem cura com o tempo
e qualquer dia me convida
para uma sessão no sítio.
— Você topa?
— Tou pensando,
vai que aparece lá
uma formiga de asas
e apronto aquele escândalo,
me diz com que cara eu volto
no consultório do homem!
— Mas ele está lá pra isso.
— Isso o quê?
— Tchauzinho, Catarina, tchau.
1 931 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Há mais de meia-hora

Há mais de meia hora
Que estou sentado à secretária
Com o único intuito
De olhar para ela.
(Estes versos estão fora do meu ritmo.
Eu também estou fora do meu ritmo.)
Tinteiro grande à frente.
Canetas com aparos novos à frente.
Mais para cá papel muito limpo.
Ao lado esquerdo um volume da "Enciclopédia Britânica".
Ao lado direito –
Ah, ao lado direito!
A faca de papel com que ontem
Não tive paciência para abrir completamente
O livro que me interessava e não lerei.

Quem pudesse sintonizar tudo isto!


03/01/1935
2 939 1
Luiz de Miranda

Luiz de Miranda

Resistência

Cavamos a tarde
o tumulto o túmulo
Cavamos até o fundo
a felicidade
desde um fim de mundo
começando pelas artérias da casa
de minha mãe
já velha
de Uruguaiana
um terreno de lembranças
de uma mulher que há anos
se anuncia
e que se adia
por intempéries

Cavamos sem cessar
o doce emprego da poesia
a pesar o meio-dia
o segredo da meia-noite
a vida triste dos relógios
sob a poeira da espera

Cavamos a rigor
uma nova espera
dentro da esfera rubra do espanto
Dentro e fora
em qualquer latitude
cavamos o pão nosso de cada hora


Publicado no livro Solidão provisória (1978).

In: MIRANDA, Luiz de. Poesia reunida, 1967/1992. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Porto Alegre: IEL, 1992. p.33
1 674 1
Eudoro Augusto

Eudoro Augusto

Talvez em Outro Cinema

A Luciana

Subitamente no último verão,
bem no avesso do verão passado,
eu quis você. Estar em você. Amar você sobre todas
as coisas, sobre as cascas e os ossos
de um solitário momento,
belo e maldito como o último verão.
Depois todo aquele fogo cai no sono.
Faço passeios anestésicos pela região dos lagos,
pratico os mais orientais exercícios de paciência,
pela serra, pelo cerrado, mas é a mesma bruma.
a mesma espuma, névoa, nebulosa estação.
Sempre esperando a deixa pra entrar em cena
acendendo clift um ar de enigma cool,
entre bogart e brando,
ao riscar o fósforo e abrir teus olhos mansos
à beleza sem rastro de um novo cometa azul.


In: AUGUSTO, Eudoro. O desejo e o deserto. São Paulo: Massao Ohno, 1989. Poema integrante da série Ventura
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Daniel Faria

Daniel Faria

Houvesse um sinal a conduzir-nos

Houvesse um sinal a conduzir-nos

E unicamente ao movimento de crescer nos guiasse. Termos das árvores

A incomparável paciência de procurar o alto

A verde bondade de permanecer

E orientar os pássaros

de Explicação das Árvores e de Outros Animais(1998)
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Soares Bulcão

Soares Bulcão

Parêmias

Quem muito quer do futuro
vê tudo através do verde;
Mais vale o pouco seguro:
— Quem muito quer, tudo perde.

A desgraça no mais forte
Mais robustece a esperança;
Nunca descreias da sorte;
—Quem espera sempre alcança.

Nunca motejes do pobre
Nem dos defeitos que vês;
Por igual o céu nos cobre:
— Cada qual como Deus fez.

Como a boca, a pena explica
Reservas do pensamento;
A letra da pena fica,
—Palavras, leva-as o vento.

Quem o bem fez bem espere,
E o mal também, se é devido:
Porque — Quem com ferro fere
Com o ferro será ferido.

Vai com jeito e paciência,
Se do melhor queres tu;
Bem nos mostra a experiência:
— Quem se vexa come cru.

Muita coisa que vidrilha
Parece ser um tesouro...
Não te iludas com o que brilha:
—Nem tudo que brilha é ouro...

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Edmir Domingues

Edmir Domingues

Canção perplexa, diante de Bob assassinado.

Há um país onde a bondade
é um passaporte (para a morte).
Onde se fala de igualdade
e se pratica a distinção.
Seu filho diz que ê irmão dos povos.
Nem mesmo é irmão do próprio irmão.
Foi Abe há tempo, após foi John,
E King, e Bob, e tantos são.
Há um país onde a bondade
só tem um prêmio • punição.

Por quê? Pergunta a voz do espanto.
Seu povo é bom, os povos são
como as crianças na pureza.
A culpa cabe à direção.
E quem dirige na verdade
essa potência de nação,
não é um homem, não são homens,
que esses estão na escravidão.
Pois são cérebros eletrônicos
hoje os heróis da usurpação,
terríveis máquinas sem alma,
sem o calor do coração,
sem a grandeza da fraqueza,
do erro e de sua redenção,
que encaram sempre a humanidade
medida em termos de equação.

Qual a esperança que nos resta
ante o poder dessa nação,
diante da Máquina insensível?
Que Deus nos guarde. . . Não sei, não.

E há um país de negros pobres
um pouco ao sul, a escuridão
fica na pele, não penetra
de sua gente o coração.
De grandes padres que hoje pregam
a verdadeira religião,
a que se encontra no Evangelho
que foi do Cristo a ensinação.
De um povo inculto e desnutrido
mas professor dessa lição:
de crença viva em liberdade,
de paciência na opressão,
da tolerância que se espalha
de litoral até sertão,
dessa igualdade só possível
depois da miscigenação,
que em voz de samba explica ao mundo
entre o compasso do violão,
que toda noite que prospera
é na verdade a anunciação
da grande aurora que, na sombra,
já vive a plena gestação.
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Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Duas horas te esperei/Dois anos te esperaria

Duas horas te esperei
Dois anos te esperaria.
Dize: devo esperar mais?
Ou não vens porque inda é dia?
1 831 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

XIX - Prazer, mas devagar,

Prazer, mas devagar,
2 369 1
António Carlos Cortez

António Carlos Cortez

Poesia

Quando não esperas nada
não esperas nada

Quando não esperas nada
tudo acontece

Quando não esperas nada
o nada é certo

Quando não esperas nada
das leis do verso

Quando não esperas nada
porque esperavas?

Quando não esperas nada
lembras fantasmas

Quando não esperas nada
o som concreto

do poema cresce e tu recebes
lição de um nada em tudo

e recomeças
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Francesca Angiolillo

Francesca Angiolillo

A última boa ação

A última boa ação do ano
foi para o escaravelho.
Gordo, preto e luzidio, mas nada
o descrevia melhor do que desajeitado
— assim costumam ser.
Tenazmente desajeitado pois
recusava-se a entender a oferta
que ali se lhe fazia, a ponta
suave do dedo, a pinça natural
do galho que por sorte estava
à mão para reassentar no lugar certo
sua carapaça rebolando de revés
no meio da estrada — a morte
era certa, era questão de tempo, atropelado ou num pisão.
Foi preciso paciência.
Quantos de nós em determinado tempo não
nos agarramos ao não, a negar
a ajuda, a mão aberta,
a ponte improvisada.
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