Relações Tóxicas

Poemas neste tema

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Destruição

Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada. Ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
deixaram de existir, mas o existido
continua a doer eternamente.
39 943 126
Stela do Patrocínio

Stela do Patrocínio

você está me comendo tanto pelos olhos

você está me comendo tanto pelos olhos
que eu já não tenho de onde tirar força
pra te alimentar
2 197
Manuel Bandeira

Manuel Bandeira

Tragédia Brasileira

Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade,
Conheceu Maria Elvira na Lapa — prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada.
Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.

1933
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José Luís Peixoto

José Luís Peixoto

A Metáfora

No ano passado
escrevi um poema
que começava assim:
"sinto a lâmina do teu ciúme no meu peito"
- era uma metáfora, claro.
E não suspeitei.

Agora,
que me espetaste a faca de descascar batatas entre as costelas,
único desfecho lógico para o nosso amor;
agora, que sinto a lâmina
e o sangue morno a alastrar-me na camisa,
sei, finalmente e tarde demais,
a fraca expressividade das metáforas.

Por isso,
se ainda gostares um bocado de mim,
pede para, na segunda edição,
alterarem o verso para:
"sinto o teu ciúme como uma lâmina no meu peito".
5 930 26
Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Tapas os caminhos

Tapas os caminhos que vão dar a casa
Cobres os vidros das janelas
Recolhes os cães para a cozinha
Soltas os lobos que saltam as cancelas

Pões guardas atentos espiando no jardim
Madrastas nas histórias inventadas
Anjos do mal voando sem ter fim
Destróis todas as pistas que nos salvam

Depois secas a água e deitas fora o pão
Tiras a esperança
Rejeitas a matriz
E quando já só restam os sinais
Convocas devagar os vendavais

Se tanto me dói que as coisas passem
É porque cada instante em mim foi vivo
Na busca de um bem definitivo
Em que as coisas de Amor se eternizassem
8 531 13
Gil Vicente

Gil Vicente

Senhora, eu me contento

Senhora, eu me contento
Receber vos como estais:
Se vós vos não contentais,
O vosso contentamento
Pode falecer no mais.

LATÃO (Como fala!
VIDAL E ela como se cala!
Tem atento o ouvido...
Este há-de ser seu marido,
Segundo a coisa s'abala.)
ESCUDEIRO Eu não tenho mais de meu,
Somente ser comprador
Do Marichal meu senhor
E são escudeiro seu.
Sei bem ler
E muito bem escrever
E bom jogador de bola,
E quanto a tanger viola,
Logo me vereis tanger
Moço, que estais lá olhando?
MOÇO Que manda Vossa Mercê?
ESCUDEIRO Que venhais cá.
MOÇO Pera quê?
ESCUDEIRO Por que faças o que eu mando!
MOÇO Logo vou.
(O Diabo me tomou:
Sair me de João Montês
Por servir um tavanês
Mor doudo que Deus criou!)
ESCUDEIRO Fui despedir um rapaz
Que valia Perpinhão,
Por tomar este ladrão.
Moço!

MOÇO Que vos praz?
ESCUDEIRO A viola.
MOÇO (Oh! como ficará tola
Se não fosse casar ante
Co mais sáfio bargante
Que coma pão e cebola!).
Ei-la aqui bem temperada,
Não tendes que temperar
ESCUDEIRO Faria bem de ta quebrar
Na cabeça bem migada!
MOÇO E se ela é emprestada,
Quem na havia de pagar?
Meu amo, eu quero m'ir.
ESCUDEIRO E quando queres partir?
MOÇO Ante que venha o Inverno,
Porque vós não dais governo
Pera vos ninguém servir

ESCUDEIRO Não dormes tu que te farte?
MOÇO No chão, e o telhado por manta...
E çarra-se m'a garganta
Com fome.
ESCUDEIRO Isso tem arte...
MOÇO Vós sempre zombais assi.
ESCUDEIRO Oh que boas vozes tem
Esta viola aqui!
Leixa-me casar a mi,
Depois eu te farei bem.

MÃE Agora vos digo eu
Que Inês está no Paraíso!
INÊS Que tendes de ver co isso?
Todo o mal há-de ser meu.
MÃE Quanta doudice!
INÊS Oh! como é seca a velhice!
Leixai-me ouvir e folgar,
Que não me hei-de contentar
De casar com parvoíce.
Pode ser maior riqueza
Que um homem avisado?
MÃE Muitas vezes, mal pecado,
é milhor boa simpreza.
LATÃO Ora oivi, e oivireis.
Escudeiro, cantareis
Alguma boa cantadela.
Namorai esta donzela
E esta cantiga direis:

Canta o Judeu

«Canas do amor, canas,
canas do amor
Polo longo dum rio
Canaval vi florido,
Canas do amo.»

Canta o Escudeiro o romance «Mal me quieren en Castilla» e diz Vidal:

VIDAL Latão, já o sono é comigo
Como oivo cantar guaiado,
Que não vai esfandegado...

LATÃO Esse é o Demo que eu digo!
Viste cantar Dona Sol:
Pelo mar voy a vela,
Vela vay pelo mar?

VIDAL Filha Inês, assi vivais
Que tomeis esse senhor
Escudeiro cantador
E caçador de pardais,
Sabedor revolvedor
Falador gracejador
Afoitado pela mão,
E sabe de gavião...
Tomai-o por meu amor.

Podeis topar um rabugento,
Desmazelado, baboso,
Descancarado, brigoso,
Medroso, carapatento.
Este escudeiro, aosadas,
Onde se derem pancadas,
Ele as há-de levar
Boas, senão apanhar..
Nele tendes boas fadas.
MÃE Quero rir com toda a mágoa
Destes teus casamenteiros!
Nunca vi Judeus ferreiros
Aturar tão bem a frágoa.
Não te é milhor mal por mal,
Inês, um bom oficial,
Que te ganhe nessa praça,
Que é um escravo de graça,
E mais casas com teu igual?

LATÃO Senhora, perdei cuidado:
O que há-de ser há-de ser;
E ninguém pode tolher
O que está determinado.
VIDAL Assi diz Rabi#Zarão.
MÃE Inês, guar'-te de rascão!
Escudeiro queres tu?
INÊS Jesu, nome de Jesu!
Quão fora sois de feição!

Já minha mãe adivinha...
Folgastes vós na verdade
Casar à vossa vontade?
Eu quero casar à minha.
MÃE Casa, filha, muit'embora.
ESCUDEIRO Dai-me essa mão, senhora.
INÊS Senhor de mui boa mente.
ESCUDEIRO Per palavras de presente
Vos recebo desd'agora.

Nome de Deus, assi seja!
Eu, Brás da Mata, Escudeiro,
Recebo a vós, Inês Pereira
Por mulher e por parceira
Como manda a Santa Igreja.
INÊS Eu, aqui diante Deus,
Inês Pereira, recebo a vós,
Brás da Mata, sem demanda,
Como a Santa Igreja manda.

LATÃO Juro al Deu! Aí somos nós!

Os Judeus ambos

Alça manim, ó dona, ha!
Arreia espeçulá.
Bento o Deu de Jacob,
Bento o Deu que a Faraó
MÃE Espantou e espantará.
Bento o Deu de Abraão,
Benta a terra de Canão.
Para bem sejais casados!
Dai-nos cá senhos ducados.
MÃE Amenhã vo-los darão.

Pois assi é, bem será
Que não passe isto assi.
Eu quero chegar ali
Chamar meus amigos cá,
E cantarão de terreiro.
ESCUDEIRO Oh! quem me fora solteiro!
INÊS Já vós vos arrependeis?
ESCUDEIRO Ó esposa, não faleis,
Que casar é cativeiro.

Aqui vem a Mãe com certas moças e mancebos pera fazerem a festa, e diz uma delas, per nome Luzia:

Luz. Inês, por teu bem te seja!
Oh! que esposo e que alegria!
INÊS Venhas embora, Luzia,
E cedo t'eu assi veja.

MÃE Ora vae tu ali, Inês,
E bailareis três por três.
FERNANDO Tu connosco, Luzia, aqui,
E a desposada ali,
Ora vede qual direis.

Cantam todos a cantiga que se segue:

«Mal herida va la garça
Enamorada,
Sola va y gritos dava.
A las orillas de um rio
La garça tenia el nido;
Ballestero la ha herido
En el alma;
Sola va y gritos dava.»

E, acabando de cantar e bailar diz Fernando:

FERNANDO Ora, senhores honrados,
Ficai com vossa mercê,
E nosso Senhor vos dê
Com que vivais descansados.
Isto foi assi agora,
Mas melhor será outr'hora.
Perdoai pelo presente:
Foi pouco e de boa mente.
Com vossa mercê, Senhora...

Luz. Ficai com Deus, desposados,
Com prazer e com saúde,
E sempre Ele vos ajude
Com que sejais bem logrados.
MÃE Ficai com Deus, filha minha,
Não virei cá tão asinha.
A minha bênção hajais.
Esta casa em que ficais
Vos dou, e vou-me à casinha.

Senhor filho e senhor meu,
Pois que já Inês é vossa,
Vossa mulher e esposa,
Encomendo-vo-la eu.
E, pois que des que naceu
A outrem não conheceu,
Senão a vós, por senhor
Que lhe tenhais muito amor
Que amado sejais no céu.

Ida a Mãe, fica Inês Pereira e o Escudeiro. E senta-se Inês Pereira a lavrar e canta esta cantiga:

INÊS Si no os huviera mirado
No penara,
Pero tampoco os mirara.

O Escudeiro, vendo cantar Inês Pereira, mui agastado lhe diz:

ESCUDEIRO Vós can
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Charles Baudelaire

Charles Baudelaire

O VAMPIRO

Tu que, como uma punhalada,
Em meu coração penetraste,
Tu que, qual furiosa manada
De demônios, ardente, ousaste,

De meu espírito humilhado,
Fazer teu leito e possessão
- Infame à qual estou atado
Como o galé ao seu grilhão,

Como ao baralho o jogador,
Como à carniça ao parasita,
Como à garrafa ao bebedor
- Maldita sejas tu, maldita!

Supliquei ao gládio veloz
Que a liberdade me alcançasse,
E ao veneno, pérfido algoz,
Que a covardia me amparasse.

Ai de mim! Com mofa e desdém,
Ambos me disseram então:
"Digno não és de que ninguém
Jamais te arranque a escravidão,

Imbecil! - se de teu retiro
Te libertássemos um dia,
Teu beijo ressuscitaria
O cadáver de teu vampiro!"

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Alexandre O'Neill

Alexandre O'Neill

A história da moral

Você tem-me cavalgado
seu safado!
Você tem-me cavalgado,
mas nem por isso me pôs
a pensar como você.

Que uma coisa pensa o cavalo;
outra quem está a montá--lo.

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Walmir Ayala

Walmir Ayala

XII [O que É o Ciúme?

Afiadas as unhas, não baixarás amor.
Te sangro, amor. Te incito e te assassino,
amor. E te assassino.
E me assassino, amor. E sou silêncio
corroído de inveja
de amor.


Publicado no livro Questionário (1967).

In: AYALA, Walmir. Poesia revisada. Rio de Janeiro: Olímpica; Brasília: INL, 1972. p.28
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Chacal

Chacal

Fogo-Fátuo

ela é uma mina versátil
o seu mal é ser muito volúvel
apesar do seu jeito volátil
nosso caso anda meio insolúvel

se ela veste seu manto diáfano
sai de noite e só volta de dia
eu escuto os cantores de ébano
e espero ela chegar da orgia

ela pensa que eu sou fogo-fátuo
que me esquenta em banho-maria
se estouro sou pior que o átomo
ainda afogo essa nega na pia.


Publicado no livro Nariz aniz (1979).

In: CHACAL. Drops de abril. São Paulo: Brasiliense, 1983. p.71. (Cantadas literárias, 16
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Gostosa E Sexy

“sabe”, ela disse, “você estava no bar
e por isso não pôde ver
mas eu dancei com aquele cara.
nós dançamos juntos
sem parar.
mas não fui para casa com ele
porque ele sabia que eu estava
com você.”

“valeu mesmo,” eu
disse.

ela estava sempre pensando em sexo.
levava isso sempre consigo
como algo embrulhado num saco de papel.
quanta energia.
ela começava por qualquer homem disponível
nos cafés da manhã
entre ovos e bacon
ou mais tarde
entre um sanduíche no almoço ou
um bife no jantar.

“moldei meu modo de ser inspirada em Marilyn Monroe,”
[ela
me
disse.

“ela está sempre fugindo
para alguma discoteca local para dançar
com algum otário,” um amigo certa vez
me contou, “estou surpreso que você
continue com ela depois de tudo o que já aconteceu.”
ela desaparecia nas corridas
para depois surgir e dizer
“três caras se ofereceram para me pagar
um drinque”.

ou então eu a perdia no estacionamento
e a procurava e ela
estava caminhando com um estranho.
“bem, ele veio desta direção
eu vim daquela e nós
meio que caminhamos juntos. não
queria ferir os sentimentos dele.”

ela disse que eu era um homem
muito ciumento.

um dia ela apenas
submergiu
em seus órgãos sexuais
e desapareceu.

era como um despertador
caindo dentro do Grand Canyon.
bateu e chocalhou e
tocou e tocou
mas eu não pude mais
vê-la nem ouvi-la.

me sinto bem melhor
agora.
dediquei-me ao sapateado
e agora visto um chapéu de feltro
preto levemente inclinado
sobre o olho
direito.
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Társis Schwald

Társis Schwald

Puta suja

Queimo minhas mãos que sentiram teu corpo
Mas o gosto é eterno
Pode queimar minhas roupas
Lamber minhas botas
Beber meu leite
Queimaria minhas mãos que te tocaram?
Que amarram teu corpo e surram tua pele negra e doce
Quero sentir o horror disso e algumas vezes não tenho lágrimas
Preciso voltar para meu pai
Sentir o arrependimento
Subir me arrastando,
Mas tua pele não me deixa – é uma sede que não se mede
Tua dor foi acordada
Tua boca negra é minha
Tuas pernas me sugam
Me devoram e me findam

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Reconheci-Te

I

Reconheci-te logo destruída
Sem te poder olhar porque tu eras
O próprio coração da minha vida
E eu esperei-te em todas as esperas.
II

Conheci-te e vivi-te em cada deus
E do teu peso em mim é que eu fui triste
Sempre. Tu depois só me destruíste
Com os teus passos mais reais que os meus.
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Liz Christine

Liz Christine

Lilith

Ah, delírio que me erotiza...
Você me despreza, você me pisa...
Me xinga e me avisa...
Que posso fazer?
Eu quero você e gosto de sofrer.
Não é doentio,
É doce esse martírio...
Você é meu desafio.
Quero ser amarrada,
Quero ser queimada...
Pelo fogo da paixão,
Me morde com tesão.
Me morde e me usa...
Depois você me acusa...
De louca e confusa.
Vai, usa, abusa,
Xinga, morde, pisa.
Quero ser espancada,
Quero ficar marcada...
Pela dor dessa paixão...
Quero a marca da sua mão...
Em meu corpo, olhos e coração.
Te amar é morrer...
Me afogar no prazer.

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Sophia de Mello Breyner Andresen

Sophia de Mello Breyner Andresen

Em Minha Frente Caminhas

Em minha frente caminhas
Pesado do teu desejo,
Pesado da tua graça,
E as tuas mãos tocam as coisas que hão-de vir
E a sua sombra cobre a tua face.

E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda apaga
Os meus frágeis gestos de alegria.
E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda quebra
A minha vida.

Às vezes todo o dia o teu sorriso
Está presente em cada coisa:
No fundo dos espelhos e nos vidros,
No vermelho das rosas e nos astros.
E através dessa presença caminho em delírio
Para o grande cintilar dos teus desastres
Onde me quero destruir.
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Sergio Hartenberg

Sergio Hartenberg

Gazela

O que desejo
quando entro em tua carne,
é te rasgar TODA
(pra acalmar
a imensa ANGÚSTIA
de você não ser minha).
Gemer de excitação,
com essas caras, línguas e bocas,
apenas aguça minha RAIVA.
INFINITA
desse gozo
tão efêmero...

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Chacal

Chacal

Vamp

a rua escura deserta
acelera o desejo
eu piso fundo no mundo
com o farol aceso

uma sirene: polícia
no retrovisor
não sei se é paranóia
ou se sou infrator

em cada curva fechada
espero pelo pior
estranho cheiro de sangue
ninguém ao redor

no carro, o rádio anuncia
mais um assassinato
vejo seu corpo na esquina
paro o carro e salto

como vou te esquecer
seu beijo é mesmo assim
marcas no pescoço dizem
que o tempo todo só
queria assistir a meu fim

um dia seu nome é Ana
no outro dia Janette
o tempo todo na cama
afiando a gilete

só sai na rua se for
em busca de uma brisa
e quando o dia começa
você corre da polícia

a vida inteira agitou
e hoje vive no vício
um vai e vem, entra e sai
na porta do edifício

seu veneno é cruel
seu olhar, assassina
me queimo no seu calor
seu coração de heroína

como vou te esquecer
seu beijo é mesmo assim
marcas no pescoço dizem
que o tempo todo só
queria assistir a meu fim

você só quer aplicar
você não quer nem saber
você só sabe iludir
você espalha o terror


In: CHACAL. Comício de tudo: poesia e prosa. São Paulo: Brasiliense, 1986. p.85-86. (Cantadas literárias, 48
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Afrânio Peixoto

Afrânio Peixoto

Herança

Ele pó, modesto,
Ela neve, pura: deram
Um pouco de lama.


In: PEIXOTO, Afrânio. Miçangas: poesia e folclore. São Paulo: Ed. Nacional, 1931. p. 24
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Golgona Anghel

Golgona Anghel

Quando sair daqui

Quando sair daqui,
arranco-te com os meus próprios dentes
as unhas dos pés, essas manias
e as chaves do carro, 
sua ordinária, pensei, sua mentirosa, pensei, 
sua puta, pensei, 
mas pensei baixinho e com pouco entusiasmo:
era difícil sujar a minha mulher
sem rebaixar-me ainda mais. 
Tens sorte, pensei. 
Podia imaginar o teu futuro liso e bem esticado
como a pele de um leopardo
à entrada de uma loja de antiguidades. 
Admito até provar o teu amargo sangue,
para lembrar-me que antes fui um escravo,
mas não consigo fazer de ti, 
assim obesa e malcheirosa como andas, 
o móbil de um crime passional.
1 236 1
Fernando Pessoa

Fernando Pessoa

Olhos de veludo falso

Olhos de veludo falso
E que fitam a entender,
Vós sois o meu cadafalso
A que subo com prazer.
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Almeida Garrett

Almeida Garrett

Víbora

Como a víbora gerado,
No coração se formou
Este amor amaldiçoado
Que à nascença o espedaçou.

Para ele nascer morri;
E em meu cadáver nutrido,
Foi a vida que eu perdi
A vida que tem vivido.
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Olga Savary

Olga Savary

Amor

O que será:
este labirinto de perguntas
e resposta alguma,
este insistente rugir
de pássaros, este abrir
as jaulas, soltar o bicho
novelo que há em nós,
delicado/feroz morder
(deixa sangrar)
o outro bicho (deixa, deixa)
e toda esta parafernália
a parecer truque enquanto
obsidiante você mente
embora acreditando nas mentiras
e eu use os piores estratagemas
para cobrir-me a retirada
desse vicioso campo de batalha.

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Chico Buarque

Chico Buarque

Sem açúcar

Todo dia ele faz diferente
Não sei se ele volta da rua
Não sei se me traz um presente
Não sei se ele fica na sua
Talvez ele chegue sentido
Quem sabe me cobre de beijos
Ou nem me desmancha o vestido
Ou nem me adivinha os desejos

Dia ímpar tem chocolate
Dia par eu vivo de brisa
Dia útil ele me bate
Dia santo ele me alisa
Longe dele eu tremo de amor
na presença dele me calo
Eu de dia sou sua flor
Eu de noite sou seu cavalo

A cerveja dele é sagrada
A vontade dele é a mais justa
A minha paixão é piada
A sua risada me assusta
Sua boca é um cadeado
E meu corpo é uma fogueira
Enquanto ele dorme pesado
Eu rolo sozinha na esteira

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Colombina

Colombina

Rusga

"Vai-te! Não quero mais saber de ti; maldito
e cínico traidor!" — exclamo, revoltada.
"Não mais te quero ver" — furiosa, repito.
"Acabou-se. Entre nós não pode haver mais nada."

E a cada instante mais me enraiveço, e me excito:
digo-lhe algo pior do que uma bofetada...
Ele reage e entre nós vai-se armando um conflito,
desenrolado atrás de uma porta fechada...

E, louca, em meu furor, continuo a insultá-lo.
Porém, não sei porque, de repente, me calo,
nos seus braços viris sentindo-me espremida.

A briga terminou sobre o leito macio:
E nunca foi tão louco o nosso desvario
e nem houve jamais gozo maior na vida.


Publicado no livro Rapsódia rubra: poemas à carne (1961).

In: CAVALHEIRO, Maria Thereza. Colombina e sua poesia romântica e erótica: esboço biográfico e seleção de poemas. São Paulo: J. Scortecci, 1987. p.33-10
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