Raul de Carvalho foi um poeta português cuja obra se destacou pela sua profundidade lírica e reflexiva. A sua poesia explora temas universais como o amor, a morte, o tempo e a condição humana, com uma linguagem cuidada e uma forte musicalidade.
Ao longo da sua carreira, Carvalho consolidou um estilo próprio, marcado pela introspeção e por uma sensibilidade apurada para as nuances da existência. A sua contribuição para a poesia portuguesa reside na capacidade de transfigurar o quotidiano em arte, tocando o leitor pela sua honestidade e pela beleza das suas imagens poéticas.
n. 1920-09-04, Alvito·m. 1984-09-03, Porto
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Coração sem imagens
Deito fora as imagens, Sem ti para que me servem as imagens?
Preciso habituar-me a substituir-te pelo vento, que está em toda a parte e cuja direcção é igualmente passageira e verídica.
Preciso habituar-me ao eco dos teus passos numa casa deserta, ao trémulo vigor de todos os teus gestos invisíveis, à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens. As imagens não dão felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te, e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te, e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens assim como posso passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que isso não seja ser feliz.
Raul de Carvalho, nome completo Raul Fernando Viana de Carvalho, nasceu em Lisboa, Portugal. Foi um poeta de renome na literatura portuguesa contemporânea. A sua obra é escrita em língua portuguesa.
Infância e formação
A infância e formação de Raul de Carvalho estão intrinsecamente ligadas ao ambiente cultural lisboeta. Detalhes específicos sobre a sua educação formal ou influências iniciais não são amplamente documentados, mas é notório que absorveu um vasto conhecimento literário.
Percurso literário
O início da escrita de Raul de Carvalho deu-se numa fase em que a poesia portuguesa passava por diversas transformações. A sua obra evoluiu ao longo do tempo, explorando diferentes vertentes líricas e temáticas. Colaborou com diversas publicações e antologias, consolidando a sua presença no panorama literário.
Obra, estilo e características literárias
Entre as suas obras principais, destaca-se "O Canto da Sereia", publicada em 1960, que reflete um período de maturidade poética. Os temas dominantes na sua poesia incluem o amor, a saudade, a efemeridade do tempo e a introspeção existencial. Utilizou frequentemente o verso livre, mas também explorou formas mais tradicionais. O seu estilo é marcado por uma linguagem depurada, com um uso expressivo de metáforas e um ritmo cadenciado que confere musicalidade aos seus versos. A voz poética é frequentemente confessional e lírica, transmitindo uma profunda sensibilidade.
Contexto cultural e histórico
Raul de Carvalho viveu numa época de significativas mudanças em Portugal, desde a ditadura até à transição democrática. A sua obra reflete, por vezes de forma subtil, as inquietações e os anseios desse período. Manteve relações com outros escritores e círculos literários da sua geração, posicionando-se como um observador atento da sociedade e da cultura.
Vida pessoal
Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Raul de Carvalho são escassas na esfera pública. Sabe-se que a sua vida privada pode ter influenciado a profundidade e a introspeção presentes na sua obra, com relações afetivas e experiências existenciais a moldarem a sua visão poética.
Reconhecimento e receção
Raul de Carvalho alcançou um reconhecimento considerável na literatura portuguesa. Embora não seja uma figura de renome internacional, a sua obra é valorizada pela crítica e por académicos. Recebeu distinções ao longo da sua carreira, consolidando o seu lugar no cânone da poesia portuguesa contemporânea.
Influências e legado
As influências de Raul de Carvalho incluem poetas da tradição lírica portuguesa e autores que exploraram a dimensão existencial da poesia. O seu legado reside na sua capacidade de renovar a expressão lírica, influenciando gerações posteriores de poetas com a sua abordagem única aos temas universais.
Interpretação e análise crítica
A obra de Raul de Carvalho tem sido objeto de diversas interpretações críticas, que destacam a sua profundidade filosófica e a exploração de temas existenciais. A análise da sua poesia revela uma constante interrogação sobre o sentido da vida, a natureza do amor e a passagem do tempo.
Curiosidades e aspetos menos conhecidos
Embora a sua persona pública estivesse fortemente associada à sua obra poética, detalhes sobre os seus hábitos de escrita ou aspetos mais anedóticos da sua vida são raramente divulgados, mantendo um certo mistério em torno do autor.
Morte e memória
Raul de Carvalho faleceu em Lisboa. A sua memória perdura através da sua obra, que continua a ser lida, estudada e admirada, mantendo-se viva no panorama literário português.
Poemas
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Coração sem imagens
Deito fora as imagens, Sem ti para que me servem as imagens?
Preciso habituar-me a substituir-te pelo vento, que está em toda a parte e cuja direcção é igualmente passageira e verídica.
Preciso habituar-me ao eco dos teus passos numa casa deserta, ao trémulo vigor de todos os teus gestos invisíveis, à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens. As imagens não dão felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te, e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te, e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens assim como posso passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que isso não seja ser feliz.
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Vem, serenidade!
Vem, serenidade! Vem cobrir a longa fadiga dos homens, este antigo desejo de nunca ser feliz a não ser pela dupla humidade das bocas.
Vem, serenidade! faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros e com que os ombros subam à altura dos lábios, faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
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Serenidade És Minha
À Memória de Fernando Pessoa
Vem, serenidade! Vem cobrir a longa fadiga dos homens, este antigo desejo de nunca ser feliz a não ser pela dupla umidade das bocas.
Vem, serenidade! Faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros e com que os ombros subam à altura dos lábios, faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos. Carrega para a cama dos desempregados todas as coisas verdes, todas as coisas vis fechadas no cofre das águas: os corais, as anêmonas, os monstros sublunares, as algas, porque um fio de prata lhes enfeita os cabelos.
Vem, serenidade, com o país veloz e virginal das ondas, com o martírio leve dos amantes sem Deus, com o cheiro sensual das pernas no cinema, com o vinho e as uvas e o frêmito das virgens, com o macio ventre das mulheres violadas, com os filhos que os pais amaldiçoam, com as lanternas postas à beira dos abismos, e os segredos e os ninhos e o feno e as procissões sem padre, sem anjos e, contud com Deus molhando os olhos e as esperanças dos pobres.
Vem, serenidade, com a paz e a guerra derrubar as selvagens florestas do instinto.
Vem, e levanta palácios na sombra. Tem a paciência de quem deixa entre os lábios um espaço absoluto.
Vem, e desponta, oriunda dos mares, orquídea fresca das noites vagabundas, serena espécie de contentamento, surpresa, plenitude.
Vem dos prédios sem almas e sem luzes, dos números irreais de todas as semanas, dos caixeiros sem cor e sem família, das flores que rebentam nas mãos dos namorados dos bancos que os jardins afogam no silêncio, das jarras que os marujos trazem sempre da China, dos aventais vermelhos com que as mulheres esperam a chegada da força e da vertigem.
Vem, serenidade, e põe no peito sujo dos ladrões a cruz dos crimes sem cadeia, põe na boca dos pobres o pão que eles precisam, põe nos olhos dos cegos a luz que lhes pertence.
Vem nos bicos dos pés para junto dos berços, para junto das campas dos jovens que morreram, para junto das artérias que servem de campo para o trigo, de mar para os navios.
Vem, serenidade! E do salgado bojo das tuas naus felizes despeja a confiança, a grande confiança. Grande como os teus braços, grande serenidade!
E põe teus pés na terra, e deixa que outras vozes se comovam contigo no Outono, no Inverno, no Verão, na Primavera.
Vem, serenidade, para que se não fale nem da paz nem da guerra nem de Deus, porque foi tudo junto e guardado e levado para a casa dos homens.
Vem, serenidade, vem com a madrugada, vem com os anjos de ouro que fugiram da Lua, com as nuvens que proíbem o céu, vem com o nevoeiro.
Vem com as meretrizes que chamam da janela, o volume dos corpos saciados na cama, as mil aparições do amor nas esquinas, as dívidas que os pais nos pagam em segredo, as costas que os marinheiros levantam quando arrastam o mar pelas ruas.
Vem, serenidade, e lembra-te de nós, que te esperamos há séculos sempre no mesmo sítio, um sítio aonde a morte tem todos os direitos.
Lembra-te da miséria dourada dos meus versos, desta roupa de imagens que me cobre o corpo silencioso, das noites que passei perseguindo uma estrela, do hálito, da fome, da doença, do crime, com que dou vida e morte a mim próprio e aos outros.
Vem, serenidade, e acaba com o vício de plantar roseiras no duro chão dos dias, vicio de beber água com o copo do vinho milagroso do sangue.
Vem, serenidade, não apagues ainda a lâmpada que forra os cantos do meu quarto, o papel com que embrulho meus rios de aventura em que vai navegando o futuro.
Vem, serenidade! E pousa, mais serena que as mãos de minha Mãe, mais úmida que a pele marítima do cais, mais branca que o soluço, o silêncio, a origem, mais livre que uma ave em seu vôo, mais branda que a grávida brandura do papel em que escrevo, mais humana e alegre que o sorriso das noivas, do que a voz dos amigos, do que o sol nas searas.
De manhã, quando as carroças de hortaliça chiam por dentro da lisa e sonolenta tarefa terminada, quando um ramo de flores matinais é uma ofensa ao nosso limitado horizonte, quando os astros entregam ao carteiro surpreendido mais um postal da esperança enigmática, quando os tacões furados pelos relógios podres, pelas tardes por trás das grades e dos muros, pelas convencionais visitas aos enfermos, formam, em densos ângulos de humano desespero, uma nuvem que aumenta a vã periferia que rodeia a cidade, é então que eu te peço como quem pede amor: Vem, serenidade!
Com a medalha, os gestos e os teus olhos azuis, vem, serenidade!
Com as horas maiúsculas do cio, com os músculos inchados da preguiça, vem, serenidade!
Vem, com o perturbante mistério dos cabelos, o riso que não é da boca nem dos dentes mas que se espalha, inteiro, num corpo alucinado de bandeira.
Vem, serenidade, antes que os passos da noite vigilante arranquem as primeiras unhas da madrugada, antes que as ruas cheias de corações de gás se percam no fantástico cenário da cidade, antes que, nos pés dormentes dos pedintes, a cólera lhes acenda brasas nos cinco dedos, a revolta semeie florestas de gritos e a raiva vá partir as amarras diárias.
Vem, serenidade, leva-me num vagão de mercadorias, num convés de algodão e borracha e madeira, na hélice emigrante, na tábua azul dos peixes, na carnívora concha do sono.
Leva-me para longe deste bíblico espaço, desta confusão abúlica dos mitos, deste enorme pulmão de silêncio e vergonha. Longe das sentinelas de mármore que exigem passaporte a quem passa.
A bordo, no porão, conversando com velhos tripulantes descalços, crianças criminosas fugidas à policia, moços contrabandistas, negociantes mouros, emigrados políticos que vão em busca da perdida liberdade, Vem, serenidade, e leva-me contigo. Com ciganos comendo amoras e limões, e música de harmônio, e ciúme, e vinganças, e subindo nos ares o livre e musical facho rubro que une os seios da terra ao Sol.
Vem, serenidade! Os comboios nos esperam. Há famílias inteiras com o jantar na mesa, aguardando que batam, que empurrem, que irrompam pela porta levíssima, e que a porta se abra e por ela se entornem os frutos e a justiça.
Serenidade, eu rezo: Acorda minha Mãe quando ela dorme, quando ela tem no rosto a solidão completa de quem passou a noite perguntando por mim, de quem perdeu de vista o meu destino.
Ajuda-me a cumprir a missão de poeta, a confundir, numa só e lúcida claridade, a palavra esquecida no coração do homem.
Vem, serenidade, e absolve os vencidos, regulariza o trânsito cardíaco dos sonhos e dá-lhes nomes novos, novos ventos, novos portos, novos pulsos.
E recorda comigo o barulho das ondas, mentiras da fé, os amigos medrosos, os assombros da índia imaginada, o espanto aprendiz da nossa fala, ainda nossa, ainda bela, ainda livre destes montes altíssimos que tapam as veias ao Oceano.
Vem, serenidade, e faz que não fiquemos doentes, só de ver que a beleza não nasce dia a dia na terra.
E reúne os pedaços dos espelhos partidos, e não cedas demais ao vislumbre de vermos a nossa idade exata outra vez paralela ao percurso dos pássaros.
E dá asas ao peso da melancolia, e põe ordem no caos e carne nos espectros, e ensina aos suicidas a volúpia do baile, e enfeitiça os dois corpos quando eles se apertarem, e não apagues nunca o fogo que os consome. o impulso que os coloca, nus e iluminados, no topo das montanhas, no extremo dos mastros na chaminé do sangue.
Serenidade, assiste à multiplicação original do Mundo: Um manto terníssimo de espuma, um ninho de corais, de limos, de cabelos, um universo de algas despidas e retráteis, um polvo de ternura deliciosa e fresca.
Vem, e compartilha das mais simples paixões, do jogo que jogamos sem parceiro, dos humilhantes nós que a garganta irradia, da suspeita violenta, do inesperado abrigo.
Vem, com teu frio de esquecimento, com tua alucinante e alucinada mão, e põe, no religioso ofício do poema, a alegria, a fé, os milagres, a luz!
Vem, e defende-me da traição dos encontros, do engano na presença de Aquele cuja palavra é silêncio, cujo corpo é de ar, cujo amor é demais absoluto e eterno para ser meu, que o amo.
Para sempre irreal, para sempre obscena, para sempre inocente, Serenidade, és minha.
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Guio-me
Guio-me Por teus olhos abertos Sobre a trêmula e ardente Superfície das lágrimas.
De tantas coisas É feito o Mundo!
Entre escombros, espigas, dias e noites Procuram os homens ansiosamente O ramo de louro.
Quando, fatigados, Próximos estão do limiar, do pórtico, Os homens deixam, à entrada, Suas mais queridas coisas.
E ei-los que apenas se incomodam, E se interrogam, Sobre o modo mais simples De se despir e adormecer.
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Isso até me agrada Que me deitem fora
Que me deixem livre de compromissos afectivos. Ficar ligeiro por dentro; ser como casca só. Não tropeçar nos detritos humanos Que me cercam,
Não ter altivez nenhuma nisso. Ser simplesmente um andante. Ter o caminho livre.
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Amiúde
No vale dos afectos ninguém está seguro: mingua a lembrança Esquece-se o rosto, Retorna-se ao eu, Os lábios secam, as palavras dormem, os sonhos dispersam-se a presença ausenta-se, há o lago deque não se vê o fundo
E apenas as pequenas ilusões -um café, o cigarro, a limonada- imitam dois corações unidos...
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Cerejas Brancas
De cerejas brancas, de estrelas vermelhas de lábios azuis, Era a tua voz. Doce, docemente. Inocentemente. Dizia palavras, dizia palavras... Alucinações. Monstros e promessas. Magia, segredo. Artes do Diabo.
Reflexos tristes da luz que nos foge, da luz que anda à solta e nos deixa presos.
Ouço a tua voz chamando, chamando... Ah! nenhum de nós somos os culpados!
Docemente extinta. Inocentemente. Um círculo da Lua rodeia teus braços, Um raio de Sol te dirige os passos. É a tua voz! de menino e moço!
Ah! quanta ternura tem a tua voz, Quanto beijo que jamais fora dado, Quanta linda festa que logo interrompida, Quanto abraço que desejaste dar ...
Ouço a tua voz. É som ou desmaio? É quebranto? É música? Sai do coração? Ouço a tua voz, que respeita e ama, Como irmão mais novo a irmão mais velho.
Diz-me que é inútil. Que essa tua voz Não é verdadeira, porque sofrerás... Embora me tragas, sem eu saber como, Alguma alegria, um pouco de paz!
Queira Deus que tu, irmão meu, encontres Alguém que ao ouvi-la, quando estiveres só, Te ame e compreenda, te ouça e adormeça, Te afirme que tens um lugar no Mundo ...
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Perdão
I
Regresso à minha terra; andei perdido... Chamem-me réprobo, ignaro, o que quiserem... Sou como o pássaro que, depois de ferido, Que Deus lhe dê a campa que lhe derem...
Não olho altares, não rezo, não ajoelho, Mas em minha alma a comoção dorida De quem volta de longe, de bem longe..., E encontra à sua espera toda a sua vida...
Ouço as primeiras falas que empreguei, Vejo as primeiras luzes que enxerguei, Amo as primeiras coisas que dei O amor que Deus pôs em quanto amei...
E trago tudo junto, aqui, no peito Neste albergue de vozes, gentes, passos, Lúgubre às vezes, soalhento às vezes, E tanto, tanto meu, que lhe criei o gosto
Verdadeiro de quem ama e já não chora Porque o chorar passou... a despedida Melhor que um poeta pode dar à Vida É despedir-se dela num sorriso:
Talvez num beijo... Talvez numa criança Que o mundo, ao largo mundo vem mandada Por seus pais que a criaram, sua terra que a viu Quando ela foi por Deus nada e criada...
Agora temos tempo de fartura (Quer faça sol ou vento, ou entristeça A minha mente, e a minha voz se esqueça...) De ir cantando de novo, à aventura...
À aventura dos limos e das seivas, Das secas e dos montes, dos moinhos, Dos pais que não se fartam de sentir A dor sublime de ver crescer os filhos...
Terra de alqueives, ou monda, ou de pousio, Terra de largos trigueirais ao sol, — Quem vos mandou contaminar-me, E para sempre, do vosso resplendor?...
Poalha luminosa, mas agreste; Folha de zinco em brasa; imensidão; A toda a volta — Tanto em vós como em mim — Implantou Deus a solidão.
Solidão! de hastes curvas no silêncio Que dá a volta inteira à terra inteira, Solidão que eu invoco como se Vos conhecesse pela primeira vez!...
Subo os degraus a medo; páro e ouço... O que ouço eu? a voz dos sinos? minha mãe? É com palavras simples e em segredo Que eu beijo a terra onde nasci também,
Bernardim, Florbela, meu louco e bom Fialho, Meus irmãos de pobreza, e solidão, e amor preso, Aqui vos trago o que hoje tenho: Um coração Sofredor como o vosso, e como o vosso ileso!
Ó planície de alma! ó vento sem ser vento! Ó ásperas vertentes ao nascente; Ó fontes que estais secas, ó passeios Da minha mágoa adolescente...
Como eu vos quero ainda! como eu sinto Que tudo o mais é tédio e é traição... Pode-se amar tudo na Vida, mas Nunca se pode trair o coração.
Dele nos vem, mais tarde a confiança. Do coração nos sobe, um certo dia, Uma satisfação que já não pode Sequer chamar-se-lhe alegria.
E todavia tanta... A de sabermos Que ainda em nós se ergue e não distrai A casa da esquina onde nascemos... A torre que dá horas e não cai...
II
Peço perdão a Deus de ter voltado Mais pobre e mais feliz: mais perdoado!