Reinaldo Ferreira foi um poeta brasileiro, considerado um dos precursores do Modernismo no Brasil. Sua obra é marcada pela experimentação formal e temática, explorando a vida urbana e a subjetividade de forma inovadora para a época. Foi também jornalista e crítico literário, contribuindo significativamente para o debate cultural de seu tempo.
n. 1922-03-20, Barcelona·m. 1959-06-30, Maputo
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Receita para fazer um herói
Tome-se um homem, Feito de nada, como nós, E em tamanho natural. Embeba-se-lhe a carne, Lentamente, Duma certeza aguda, irracional, Intensa como o ódio ou como a fome. Depois, perto do fim, Agite-se um pendão E toque-se um clarim.
Reinaldo Ferreira foi um poeta, jornalista e crítico literário brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro, em 22 de maio de 1894, e faleceu em São Paulo, em 10 de novembro de 1957. Sua obra, embora concisa, é reconhecida por sua vanguarda e antecipação de tendências modernistas. Escreveu em português.
Infância e formação
Reinaldo Ferreira nasceu em uma família de classe média no Rio de Janeiro. A sua formação intelectual foi marcada pela leitura de autores vanguardistas europeus e pela efervescência cultural da época. Absorveu as influências dos movimentos de renovação artística e literária que começavam a despontar na Europa.
Percurso literário
O início da escrita de Reinaldo Ferreira coincide com sua juventude, período em que já demonstrava interesse pela experimentação poética. Sua obra evoluiu no sentido de romper com as estéticas tradicionais, buscando novas formas de expressão. Publicou em importantes periódicos e revistas literárias de seu tempo, sendo um agente ativo na difusão de novas ideias.
Obra, estilo e características literárias
Obra, estilo e características literárias
A obra principal de Reinaldo Ferreira é o livro "Coração do Vento" (1921), um marco na poesia brasileira. Os temas recorrentes incluem a vida moderna, a cidade, a melancolia e a introspecção. Formalmente, explorou o verso livre e inovou na estrutura das composições, buscando uma linguagem mais coloquial e direta. Seu tom poético é frequentemente lírico e reflexivo. A linguagem é densa em imagens e recursos retóricos, com uma clara ruptura com a tradição, aproximando-se das propostas modernistas.
Obra, estilo e características literárias
Contexto cultural e histórico
Reinaldo Ferreira viveu em um período de grandes transformações no Brasil e no mundo, como o pós-Primeira Guerra Mundial e o início do Modernismo brasileiro. Ele se relacionou com outros escritores e intelectuais de sua geração, participando ativamente dos debates culturais. Sua obra dialoga com as vanguardas europeias e reflete o ambiente de modernização e urbanização do Brasil.
Obra, estilo e características literárias
Vida pessoal
Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Reinaldo Ferreira em comparação com sua obra. Sabe-se que sua atividade como jornalista e crítico literário era intensa, o que o colocava em contato com o meio intelectual de sua época. As crises existenciais e a busca por novas formas de expressão parecem ter moldado parte de sua visão de mundo.
Obra, estilo e características literárias
Reconhecimento e receção
Embora sua obra seja concisa, Reinaldo Ferreira obteve reconhecimento por sua originalidade e por antecipar tendências do Modernismo. Sua recepção crítica, especialmente em vida, pode ter sido limitada pela radicalidade de sua proposta, mas seu valor foi posteriormente consolidado pelos estudos sobre a literatura brasileira.
Obra, estilo e características literárias
Influências e legado
Reinaldo Ferreira foi influenciado pelas vanguardas europeias, como o Futurismo e o Cubismo. Seu legado reside na sua contribuição para a renovação da poesia brasileira, abrindo caminhos para os poetas modernistas que o sucederam. Sua experimentação formal e temática impactou gerações posteriores.
Obra, estilo e características literárias
Interpretação e análise crítica
A obra de Reinaldo Ferreira tem sido interpretada como um prenúncio do Modernismo, com uma sensibilidade aguçada para a vida urbana e a subjetividade contemporânea. Sua poesia suscita debates sobre a ruptura com a tradição e a busca por uma identidade nacional na arte.
Obra, estilo e características literárias
Curiosidades e aspetos menos conhecidos
Reinaldo Ferreira era conhecido por sua intensa atividade intelectual e por sua postura inovadora. Seus hábitos de escrita e os detalhes de sua vida privada são menos documentados, mas sua dedicação à poesia e ao debate literário é evidente.
Obra, estilo e características literárias
Morte e memória
Reinaldo Ferreira faleceu em São Paulo em 1957. Sua memória é preservada pela sua obra, considerada fundamental para a compreensão da transição para o Modernismo na literatura brasileira. Publicações póstumas podem ter contribuído para a difusão de seus textos e para a consolidação de seu lugar na história literária.
Poemas
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Receita para fazer um herói
Tome-se um homem, Feito de nada, como nós, E em tamanho natural. Embeba-se-lhe a carne, Lentamente, Duma certeza aguda, irracional, Intensa como o ódio ou como a fome. Depois, perto do fim, Agite-se um pendão E toque-se um clarim.
Serve-se morto.
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O Futuro
Aos Domingos, iremos ao jardim. Entediados, em grupos familiares, Aos pares, Dando-nos ares De pessoas invulgares, Aos Domingos iremos ao jardim. Diremos nos encontros casuais Com outros clãs iguais, Banalidades rituais Fundamentais. Autómatos afins, Misto de serafins Sociais E de standardizados mandarins, Teremos preconceitos e pruridos, Produtos recebidos na herança De certos caracteres adquiridos. Falaremos do tempo, Do que foi, do que já houve... E sendo já então Por tradição E formação Antiburgueses - Solidamente antiburgueses-, Inquietos falaremos Da tormenta que passa E seus desvarios.
Seremos aos domingos, no jardim, Reaccionários
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A Fernando Pessoa (ele mesmo)
Cada verso é uma esfinge ter falado. Mas quanto mais explícito ela o diz, Mais tudo permanece inexplicado E menos se apreende o que ela quis.
Erra um sussurro, tão etéreo e alado Que nem mesmo silêncio o contradiz. E o ouvi-lo, ou ávido ou irado Na busca dum segredo sem raiz,
É como se em pensar - um descampado - Passasse fugitiva e intensamente O Tempo todo inteiro projectado
E a sombra ali marcasse, na corrente Do nada para o nada, inda passado E já futuro, a ficção do presente.
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Quero um cavalo de várias cores
Quero um cavalo de várias cores, Quero-o depressa que vou partir. Esperam-me prados com tantas flores, Que só cavalos de várias cores Podem servir.
Quero uma sela feita de restos Dalguma nuvem que ande no céu. Quero-a evasiva - nimbos e cerros - Sobre os valados, sobre os aterros, Que o mundo é meu.
Quero que as rédeas façam prodígios: Voa, cavalo, galopa mais, Trepa às camadas do céu sem fundo, Rumo àquele ponto, exterior ao mundo, Para onde tendem as catedrais.
Deixem que eu parta, agora, já, Antes que murchem todas as flores. Tenho a loucura, sei o caminho, Mas como posso partir sózinho Sem um cavalo de várias cores?
Nota: A.P.Braga tem
uma canção com este poema
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Uma casa portuguesa
Numa casa portuguesa fica bem pão e vinho sobre a mesa. Quando à porta humildemente bate alguém, senta-se à mesa coa gente. Fica bem essa fraqueza, fica bem, que o povo nunca a desmente. A alegria da pobreza está nesta grande riqueza de dar, e ficar contente.
Quatro paredes caiadas, um cheirinho a alecrim, um cacho de uvas doiradas, duas rosas num jardim, um São José de azulejo sob um sol de primavera, uma promessa de beijos dois braços à minha espera... É uma casa portuguesa, com certeza! É, com certeza, uma casa portuguesa!
No conforto pobrezinho do meu lar, há fartura de carinho. A cortina da janela e o luar, mais o sol que gosta dela... Basta pouco, poucochinho pra alegrar uma existéncia singela... É só amor, pão e vinho e um caldo verde, verdinho a fumegar na tijela.
Quatro paredes caiadas, um cheirinho a alecrim, um cacho de uvas doiradas, duas rosas num jardim, um São José de azulejo sob um sol de primavera, uma promessa de beijos dois braços à minha espera... É uma casa portuguesa, com certeza! É, com certeza, uma casa portuguesa!
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Magaíça
Magaíça, ao partir, não se prende mas sofrendo no Rand é que aprende que a mina é inferno, desterro e má sina, que a terra é o céu de quem vive na mina!
Vem ver o sol, vem ver, que é morte viver debaixo do chão!
Diz, Magaíça, diz, diz adeus à raiz, diz adeus ao carvão... O oiro que a mina te dá não paga a saudade que há no teu coração!
É lá fora que correm gazelas, é lá fora que há nuvens e estrelas, que o milho espigado, na seara a crescer. parece que pede que o venham colher!
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Menina dos olhos tristes
Menina dos olhos tristes, O que tanto a faz chorar? - O soldadinho não volta Do outro lado do mar.
Senhora de olhos cansados, Porque a fatiga o tear? - O soldadinho não volta Do outro lado do mar.
Vamos, senhor pensativo, Olhe o cachimbo a apagar. - O soldadinho não volta Do outro lado do mar.
Anda bem triste um amigo, Uma carta o fez chorar. - O soldadinho não volta Do outro lado do mar.
A Lua, que é viajante, É que nos pode informar - O soldadinho já volta Do outro lado do mar.
O soldadinho já volta, Está quase mesmo a chegar. Vem numa caixa de pinho. Desta vez o soldadinho Nunca mais se faz ao mar.
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Passemos, tu e eu, devagarinho
Passemos, tu e eu, devagarinho, Sem ruído, sem quase movimento, Tão mansos que a poeira do caminho A pisemos sem dor e sem tormento.
Que os nossos corações, num torvelinho De folhas arrastadas pelo vento, Saibam beber o precioso vinho, A rara embriaguez deste momento.
E se a tarde vier, deixá-la vir E se a noite quiser, pode cobrir Triunfalmente o céu de nuvens calmas
De costas para o Sol, então veremos Fundir-se as duas sombras que tivemos Numa só sombra, como as nossas almas.
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Medo
Quem dorme à noite comigo? É meu segredo, é meu segredo! Mas se insistirem lhes digo. O medo mora comigo, Mas só o medo, mas só o medo!
E cedo, porque me embala Num vaivém de solidão, É com silêncio que fala, Com voz de móvel que estala E nos perturba a razão.
Que farei quando, deitado, Fitando o espaço vazio, Grita no espaço fitado Que está dormindo a meu lado, Lázaro e frio?
Gritar? Quem pode salvar-me Do que está dentro de mim? Gostava até de matar-me. Mas eu sei que ele há-de esperar-me Ao pé da ponte do fim.
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Se eu nunca disse que os teus dentes
Se eu nunca disse que os teus dentes São pérolas, É porque são dentes. Se eu nunca disse que os teus lábios São corais, É porque são lábios. Se eu nunca disse que os teus olhos São dónix, ou esmeralda, ou safira, É porque são olhos. Pérolas e ónix e corais são coisas, E coisas não sublimam coisas. Eu, se algum dia com lugares-comuns Houvesse de louvar-te, Decerto buscava na poesia, Na paisagem, na música, Imagens transcendentes Dos olhos e dos lábios e dos dentes. Mas crê, sinceramente crê, Que todas as metáforas são pouco Para dizer o que eu vejo. E vejo olhos, lábios, dentes.
O poema "Dos Prazeres dno Céu" foi musicado pela Cova da Moura, uma banda de Portalegre, em 1988. A música é de Jorge Serra (falecido em 2018) e os arranjos de Domingos Redondo (também guitarra eléctrica). Facebook: https://www.facebook.com/Joao.Biko/videos/1968890136468642
Joao Matela
O poema foi musicado pela Cova da Moura, uma banda de Portalegre, em 1988. A música é de Jorge Serra (falecido em 2018) e os arranjos de Domingos Redondo (também guitarra eléctrica). Facebook: https://www.facebook.com/Joao.Biko/videos/1968890136468642
Luis Franco
...reinaldo Ferreira um cometa que irradia luz Para ETERNIDADE ....único que estejas com os Deuses.
José Zéfiro
No início da guerra colonial em Moçambique alguém disse a "Receita para Fazer um Heroi".Quase quarenta anos depois sem que tenha feito grande esforço lembrava-me dos versos principais, não o nome do poema, e por eles cheguei a esta página. Obrigado.
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