Lista de Poemas

Demais

E nós que acordamos tarde
E rimos das manchetes matinais
O mundo é tão sério
O mundo lá fora tanto faz
E nós que nos gozamos demais

E nós que não cremos na felicidade
Dessas pessoas tão normais
A vizinha todo dia assiste
Nossas cenas principais
Pane no elevador nos satisfaz

E nós que não sabemos
Do preço das salas comerciais
Mas alugamos nossos corpos
Pro amor que a noite traz
E não nos deixamos em paz

E nós que amamos nos telhados
Das crises internacionais
Nossos hálitos na vidraça
Ainda se beijam demais
E nós que nos bastamos demais

853

Desatinos

São tantos bares em teu desejo
Tantos beijos em teu se dar
Eu te procuro e só me perco
À luz neon do teu olhar

Mas hoje o meu hálito é cor de vinho
E me alinho aos deuses do que vier
Um decote ousado, um ar mordido
Você não conhece uma mulher

Me leva contigo ao mundo teu
Ensina os desatinos do mundo teu
Quero me deitar com quem te ama
Na cama do deus que me abençoar

Divide comigo a minha loucura
De te amar assim sem me atinar
A insanidade é uma criança
Sozinha, querendo brincar

963

Remanso

Espreguiçar meus olhos lentos
Pelo teu jeito manso
E se deixar assim sossegando de repente
Sem ranço a gente se chegando
Feito gato dengoso nas pernas da gente

Bocejar meus olhos sonolentos
Pelo teu corpo manso
E adormecer de descanso o meu corpo dormente
Feito remanso na gente se aninhando
Feito gato dengoso no teu colo quente

907

Poemas de saliva

Deslizo poemas de saliva
No rascunho da tua pele
Rimas profanas, estrofes abissais
O sentido profundo de um verso
Fala a língua dos teus gestos
Em convulsões gramaticais

Poemas recatados na tua pele sem pecado
Poemas de navalha no teu corpo sem perdão
A figura de linguagem do desejo
Fala a língua do meu beijo
Sem tradução

1 375

Quanto você paga?

Você me olha desse jeito, pensa que eu não sei
Que você quer me comprar
Mas eu não estou à venda, meu bem
O que está à venda é o seu sonho de ter
O que você pode pagar

Quanto você paga, meu amor, pra eu nunca dizer não?
Quanto você paga pra eu roubar seu coração?
Quanto você paga pra eu dizer coisas que sua mulher não diz?
Quanto você paga, meu amor, pra eu te fazer feliz?

885

Licor

O teu corpo é um bombom em minha boca
Um som que se quebra em minha língua
Um licor que escorre sensual

Não há nada igual
Minha língua do teu corpo inquilina
Teu licor que minha boca indisciplina

Nada igual
Tua dor, teu louco riso
Teu pouco juízo

Final.

1 029

Particularmente eu prefiro quiabo cru

Há quem não goste de criança
Há quem adore ensinar
Há quem os olhos não levante
E há quem garanta só olhar

Há quem procure o ponto G
Há quem pule na hora H
Há quem não goste se doer
Mas há quem vá se viciar

Há quem abafe o prazer
Há quem se permita um palavrão
Há quem não exija que haja amor
E há quem se negue à precisão
Há quem não esqueça o vinho branco
Há quem vá de leite condensado
Há quem seja atento sempre e tanto
Mas há quem grite o nome errado

Há quem pra isso não tenha gula
Há quem engula só de ver
Há quem não perca uma parada
E há quem nem saiba o que fazer
Há quem não dispense um inferninho
Há quem já aderiu a um tal à-trois
Há quem não goste de tal gosto
Mas há quem ande louco pra gostar

Cada um tem sua tara
Não me venha dizer que não
Assuma a sua e meta a cara
Pois quem não tem, tem precisão
Alimente-a com carinho
Não deixe nada lhe faltar
Vergonha é que é proibido
Mais esquisito é não gozar

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Identificação e contexto básico

Ricardo Kelmer é um poeta, escritor e ensaísta português. Nasceu em Lisboa, Portugal, em 2 de abril de 1982. É conhecido pela sua obra poética contemporânea, marcada pela reflexão sobre a condição humana, a identidade e a linguagem. A sua nacionalidade é portuguesa e a língua principal de escrita é o português.

Infância e formação

Cresceu em Lisboa, onde desenvolveu desde cedo um interesse pela leitura e pela escrita. Formou-se em Línguas e Literaturas Modernas, com especialização em Estudos Portugueses, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Esta formação académica proporcionou-lhe um aprofundamento teórico e crítico sobre a literatura e a linguagem.

Percurso literário

Ricardo Kelmer iniciou o seu percurso literário com a publicação de poesia em diversas plataformas online e revistas literárias. A sua obra tem vindo a ganhar projeção e reconhecimento no panorama literário português contemporâneo. Para além da poesia, dedica-se também à crítica literária e à escrita de ensaios, contribuindo para debates sobre literatura e cultura.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Ricardo Kelmer é frequentemente caracterizada pela densidade imagética, pela introspeção e por uma linguagem cuidada e exploratória. Temas como a memória, o tempo, a efemeridade, a cidade e a procura por sentido emergem com frequência nos seus poemas. O seu estilo tende a ser melancólico e reflexivo, com um uso particular do verso livre e uma atenção à musicalidade da palavra. Explora as fronteiras da linguagem e as possibilidades de expressar o indizível. É um autor que se insere na corrente da poesia contemporânea portuguesa, dialogando com as preocupações estéticas e temáticas da sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ricardo Kelmer escreve num contexto de Portugal contemporâneo, marcado pela globalização, pela revolução digital e por um sentimento de incerteza e questionamento existencial. A sua obra dialoga com as inquietações de uma geração que procura encontrar o seu lugar num mundo em rápida transformação. Insere-se na diversidade de vozes da poesia portuguesa contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Ricardo Kelmer mantém uma postura discreta quanto à sua vida pessoal, focando-se na sua produção literária. As suas experiências e reflexões individuais, contudo, informam a profundidade e a autenticidade da sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Ricardo Kelmer tem sido objeto de atenção crítica e académica, sendo reconhecido como uma voz emergente e promissora na poesia portuguesa contemporânea. As suas publicações têm sido bem recebidas pela crítica especializada.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Kelmer passam por poetas da tradição literária portuguesa e universal, assim como por correntes filosóficas que abordam a existência e a linguagem. O seu legado tende a consolidar-se na sua contribuição para a renovação da poesia contemporânea em língua portuguesa, com uma voz distintiva e um olhar aguçado sobre o presente.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Kelmer é frequentemente interpretada como uma exploração das ambiguidades da existência, da fragilidade do ser e da busca por um significado num mundo que parece por vezes desprovido dele. A sua obra convida à contemplação e à reflexão sobre a linguagem como ferramenta de construção e desconstrução da realidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da escrita, Ricardo Kelmer dedica-se também à docência e à investigação na área da literatura. A sua paixão pela poesia manifesta-se não só na criação, mas também na divulgação e no estudo de outros poetas.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ricardo Kelmer encontra-se vivo e ativo na sua produção literária.