Sérgio Godinho

Sérgio Godinho

n. 1945 PT PT

Sérgio Godinho é um aclamado cantor, compositor e escritor português, conhecido pela sua vasta obra que transita entre a música e a literatura. Ao longo de décadas, tem vindo a construir um universo poético e musical singular, marcado pela inteligência lírica, pela crítica social subtil e por uma profunda ligação à identidade cultural portuguesa. A sua escrita, quer em canções quer em textos literários, reflete uma observação atenta do quotidiano, das paixões humanas e das transformações sociais, sempre com um toque de melancolia e ironia.

n. 1945-08-31, Porto

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Cantiga da velha mãe e dos seus dois filhos

Ai o meu pobre filho, que rico que é
ai o meu rico filho, que pobre que é
Nascidos do mesmo ventre
Um vive de joelhos pró outro passar à frente
E esta velha mãe para aqui já no sol poente

Um dia há muito tempo, vi-os partir
levando cada um do outro o porvir
Seguiram pela estrada fora
Um voltou-se para trás, disse adeus que me vou embora
Voltaremos trazendo connosco a vitória

De que vitória falas, disse eu então
Da que faz um escravo do teu irmão?
Ou duma outra que rebenta
como um rio de fúria no peito feito tormenta
quando não há nada a perder no que se tenta?

Passaram muitos anos sem mais saber
nem por onde passavam, nem se por ter
criado os dois no mesmo chão
eram ainda irmãos, partilhavam ainda o pão
E o silêncio enchia de morte o meu coração

Depois vieram novas que o que vivia
da miséria do outro, se enriquecia
Não foi para isto que andei
dias que foram longos e noites que não contei
a lutar pra ter a justiça como lei

Às vezes rogo pragas de os ver assim
Sinto assim uma faca dentro de mim
Sei que estou velha e doente
Mas para ver o mundo girar de modo diferente
Ainda sei gritar, e arreganhar o dente

Estou quase a ir embora, mas deixo aqui
duas palavras pra um filho que perdi
Não quero dar-te conselhos
Mas se é teu próprio irmão que te faz viver de joelhos
Doa a quem doer, faz o que tens a fazer

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Biografia

Identificação e contexto básico

Sérgio Godinho é um nome incontornável na música e literatura portuguesas. Nascido em Lisboa, Portugal, em 23 de agosto de 1942, é cantor, compositor, escritor e ator. Filho de pais ligados à produção de discos, o seu percurso foi desde cedo influenciado pelo mundo artístico. A sua nacionalidade é portuguesa e a língua de escrita e expressão é o português.

Infância e formação

Desde cedo exposto ao universo musical e discográfico, Sérgio Godinho desenvolveu um gosto precoce pela arte. Frequentou o liceu, mas a sua formação mais significativa ocorreu fora dos moldes tradicionais, através da observação, da leitura e da vivência cultural. A sua juventude foi marcada pela efervescência cultural e social dos anos 60, um período de transição e contestação que viria a moldar a sua visão do mundo e da arte.

Percurso literário

Embora mais conhecido como músico, Sérgio Godinho tem uma obra literária consistente, que inclui poesia, prosa e livros infantis. O seu percurso literário acompanha, de certa forma, a sua carreira musical, explorando temas e linguagens semelhantes. Publicou diversos livros, incluindo coletâneas de poesia e contos, demonstrando uma versatilidade que vai além da canção.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Sérgio Godinho é caracterizada por uma linguagem rica e expressiva, com forte apelo lírico e uma capacidade ímpar para a construção de imagens poéticas. Os temas abordados são diversos, incluindo o amor, a efemeridade do tempo, a identidade portuguesa, a crítica social e a reflexão sobre a condição humana. O seu estilo é marcado pela inteligência, pela ironia subtil e por uma musicalidade intrínseca, mesmo na prosa. As suas inovações residem, sobretudo, na forma como une a palavra à melodia nas suas canções e na forma como transporta essa sensibilidade para os seus textos literários. É frequentemente associado ao movimento da canção de intervenção e ao pop-rock português.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sérgio Godinho emergiu num Portugal sob ditadura, onde a música e a literatura serviam muitas vezes como veículos de contestação e de expressão de anseios por liberdade. A sua obra dialoga com os grandes acontecimentos históricos do país, desde a revolução de 25 de Abril de 1974 até às transformações sociais posteriores. É um artista que se insere no movimento da "música popular portuguesa" e na "canção de intervenção", dialogando com outros artistas da sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Casado com a atriz e cantora Teresa Villas-Boas, tem filhos que também seguiram caminhos artísticos. A sua vida pessoal, embora discreta, tem sido marcada por uma dedicação intensa à sua arte. As suas experiências e reflexões sobre a vida e as relações humanas transparecem frequentemente na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Sérgio Godinho é um dos artistas mais respeitados e populares em Portugal, com uma carreira de décadas marcada por grande sucesso. Recebeu inúmeros prémios e distinções ao longo da sua carreira, tanto pela sua obra musical como literária. A sua obra é amplamente estudada e reconhecida tanto a nível académico como pelo público em geral.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Influenciado por grandes nomes da música e da literatura portuguesa e internacional, Sérgio Godinho, por sua vez, tornou-se uma profunda influência para várias gerações de músicos, compositores e escritores em Portugal e nos países de língua portuguesa. O seu legado reside na forma como soube inovar e manter uma voz autêntica e relevante ao longo do tempo, explorando a fusão entre diferentes formas de expressão artística.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Sérgio Godinho tem sido objeto de diversas interpretações críticas, que destacam a sua complexidade lírica, a pertinência da sua crítica social e a profundidade das suas reflexões existenciais. A sua capacidade de abordar temas universais com uma linguagem acessível, mas sofisticada, é um dos pontos centrais da análise.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além de músico e escritor, Sérgio Godinho também se aventurou no cinema e no teatro. É conhecido pelo seu humor subtil e pela sua capacidade de observação aguçada do comportamento humano. A sua paixão por Portugal e pela sua cultura é um tema recorrente e visível na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Sérgio Godinho continua ativo e a sua obra permanece viva e em constante divulgação e celebração. Não há registos de morte, pelo que se encontra em plena produção artística.

Poemas

4

Cantiga da velha mãe e dos seus dois filhos

Ai o meu pobre filho, que rico que é
ai o meu rico filho, que pobre que é
Nascidos do mesmo ventre
Um vive de joelhos pró outro passar à frente
E esta velha mãe para aqui já no sol poente

Um dia há muito tempo, vi-os partir
levando cada um do outro o porvir
Seguiram pela estrada fora
Um voltou-se para trás, disse adeus que me vou embora
Voltaremos trazendo connosco a vitória

De que vitória falas, disse eu então
Da que faz um escravo do teu irmão?
Ou duma outra que rebenta
como um rio de fúria no peito feito tormenta
quando não há nada a perder no que se tenta?

Passaram muitos anos sem mais saber
nem por onde passavam, nem se por ter
criado os dois no mesmo chão
eram ainda irmãos, partilhavam ainda o pão
E o silêncio enchia de morte o meu coração

Depois vieram novas que o que vivia
da miséria do outro, se enriquecia
Não foi para isto que andei
dias que foram longos e noites que não contei
a lutar pra ter a justiça como lei

Às vezes rogo pragas de os ver assim
Sinto assim uma faca dentro de mim
Sei que estou velha e doente
Mas para ver o mundo girar de modo diferente
Ainda sei gritar, e arreganhar o dente

Estou quase a ir embora, mas deixo aqui
duas palavras pra um filho que perdi
Não quero dar-te conselhos
Mas se é teu próprio irmão que te faz viver de joelhos
Doa a quem doer, faz o que tens a fazer

1 315

Farto de voar

Farto de voar
Pouso as palavras no chão
Entro no mar
Sinto o sal de mão em mão
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arpão
no arpão

Levo a dormir
Sonhos que andei para trás
Ergo o porvir
Trago nos bolsos a paz
Tenho um corpo na morte espetado
Só suspenso por balas de um lado
E do outro a escapar
a escapar
de raspão
de raspão

Ponho a girar
Cantos que ninguém encerra
De par em par
Abro as janelas para a terra
Tenho um quarto na fome espetado
Só suspenso por água de um lado
E de outro a cair
a cair
no alçapão
no alçapão

Farto de voar
Pouso as palavras no chão
Entro no mar
Sinto o sal de mão em mão
Tenho um barco na vida espetado
Só suspenso por fios dum lado
E do outro a cair
a cair
no arpão
no arpão

1 414

Aos amores!

Aos amores!

A vida que tudo arrasta os amores também
uns dão à costa, exaustos, outros vao mais além
navegadores só solitários dois a dois
heróis sem nome e até por isso heróis

Desde que o John partiu a Rosinha passa mal
vive na Loneley Street, Heartbreak Hotel, Portugal
ainda em si mora a doce mentira do amor
tomou-lhe o gosto ao provar-lhe o sabor

Os amores são facas de dois gumes
têem de um lado a paixão, do outro os ciúmes
são desencantos que vivem encantados
como velas que ardem por dois lados

Aos amores!

No convento as noviças cantam as madrugadas
e a bela monja escreve cartas arrebatadas
"é por virtude tua que tu és o meu vício
por ti eu lanço os ventos ao precipício"

O Rui da Casa Pia sabe que sabe amar
sopra na franja, maneira de se pentear
vai à posta restante para ver quem lhe escreveu
foi uma bela monja que nunca conheceu

Aos amores!
(desordeiros irresistíveis deleituosos entranhantes
verdadeiros evitáveis buliçosos como dantes
bicolores transgressores impostores cantadores)

A Marta, quinze anos, vê na televisão
um beijo igual ao que ontem deu junto do vulcão
faz baby-sitting à espera de parecer mulher
quando é que o amor lhe explica o que dela quer?

Depois da dor, como conservar a inocência?
leia um bom livro, legue as lágrimas à ciência
e parta o vidro em caso de necessidade
deixe o seu coração ir em liberdade

Aos amores!

1 313

Emboscadas

Foste como quem me armasse uma emboscada
ao sentir-me desatento
dando aquilo em que me dei
foste como quem me urdisse uma cilada
vi-me com tão pouca coisa
depois do que tanto amei

Rasguei o teu sorriso
quatro vezes foi preciso
por não precisares de mim
e depois, quando dormias
fiuz de conta que fugias
e que eu não ficava assim
nesta dor em que me vejo
do nos ver quase no fim

Foste como quem lançasse as armadilhas
que se lançam aos amantes
quando amar foi coisa em vão
foste como quem vestisse as mascarilhas
dos embustes que se tramam
ao cair da escuridão

Resgatei o teu carinho
quatro vezes fiz o ninho
num beiral do teu jardim
e depois, já em cuidado
vi no teu espelho do passado
a tua imagem de mim
e esta dor em que me vejo
de nos ver quase no fim

Foste como quem cumprisse uma vingança
que guardavas às escuras
esperando a sua vez
foste como quem me desse uma bonança
fraquejando à tempestade
de tão frágil que se fez

Resgatei o teu ciúme
quatro vezes deitei lume
ao teu corpo de marfim
e depois, como uma espada
pousie na terra queimada
o meu ramo de alecrim
e esta dor em que me vejo
de nos ver perto do fim.

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