Lista de Poemas

Fascinação

Entre os becos da tua vida
Descanso na tua esquina
somos dois distraídos
acumulados nas águas mornas
Porque me fascinas!

Numa organização aflita
Dispo-te entre ramos debotados
nas luzes de um sol traidor
Lentamente assustador
Aonde me fascinas!

Quero-te à beira de uma árvore
Num mar que não me pertence
A tua ausência desliza
como pingos de uma água visitada
Como me fascinas!

Vi-te respirar num rochedo vivo
O teu olhar resultou num suspiro demorado
Estás nas metades abertas
Num esconderijo de necessidades
E me fascinas, liberdade.

910

Huila

África
adormecida
nas pétalas capturadas da vida.
Sonho com o vermelho da terra
Nas cores de um planalto esquecido.
Mãe minha, mostra-me paz
nunca tocada e muita vez prometida.
Afasta essa mão branca
deixa-me dormir
nesta noite violada.

944

Espaços

As minhas
lágrimas partiram-se
No entendimento da vida.
Quebrou-se a inocência na minha alma.
Hoje vivo na angústia de ter o conhecimento
De nunca me ter sentido amada.
Estou mergulhada na fúria
De perceber o absurdo do desespero
Destes temporais da vida.
Subo suavemente esquecida
nas escadas amanhecidas
Sem sentir os instalados na minha vida.

930

Mãos Ocultas

Os meus
dedos tocaram-te...
Mas não conseguiram decifrar
Nesta terra molhada, já cultivada
Mãos audaciosas e faladas.
Sou preta, com um frio branco nas veias…
Navego entre os mares abertos,
Palavras, perseguidas e calmas.
Sou mulher, de rosto velho e novo
És uma criação abandonada e minha.
Despi-te nas ruas dos limites.
Cavalo branco sem garras...
Mulher de língua mística,
Convidei-te numa inocência vendida.
Amarrei-te às escondidas da vida
Adormeceste no meu berço crescido.
Estou nua, no desespero dos sonhos.
Vieste sufocando os meus mares...
Nos campos bandidos e naufragados
Quero fugir a esse milagre comum!
Quero amar-te sozinha.

961

Tempo Descuidado

Sempre que acho
um tempo distraído
Me transborda um sentimento
Fujo? ou esqueço?
Será assim a prenunciada
Mentira?
Na clareza da manhã
Na sombra espessa da noite
O encontro claro
Agarrado
A desfalecida verdade

Será que o Mar
me ilude?
Na tonta ilusão
de sentir braços esfolados
Contraídos no momento
estendidos no desesperado futuro

Encontro passos!
entre silêncios
Uma voz no meio
De mim, me acorda
Nas horas severas
No calmo tempo
presente!
Agarrado a uma entretida saudade

938

Uma Lágrima

Passou por mim uma voz
Um estoiro!
Equilibrado na luz do dia
derradeiras esperanças
mostradas pela realidade acordada
Um despertar sem aviso
Um olhar entreaberto nas metades agitadas.
de um dia adulto...
O brilho nos olhos
Infantilidades adormecidas!

Tu

Criança que espreitas às escondidas
dentro da minha vida num quarto pequeno.
De olhos arregalados
Congelados num momento de dor
em feridas que se deslizam
no despertar de uma lágrima que não rola.
Uma apenas!
Sabedora lágrima que és, minha amiga
foge desse olhar arranhado pelos anos
e sobrevoa por galhos rijos e carinhosos.
vultos aquecidos por momentos.
Cresce por fora
voa!

872

Juntos

Pedacinhos de tempo
roubados
Aqui e a ali
ruídos num quarto
que nos salva…
Desejos que nos acalmam.
Quando estamos juntos!
Dois mundos
Um Tejo iluminado
Uma canção
Uma noite de raspão
Juntos
O Azul se esconde
entre portas que se abrem
Períodos nus
desejos submersos
passadeiras com vontades
Quando estamos juntos
Um medo empurrado
Uma madrugada acordada
Uma alma entre nos
Dois corpos alinhados
Juntos
Modelamos a saudade
cega-se a ausência
interrompe-se os vazios
reconcilia-se fragilidades
Por sombras de sílabas.
Quando estamos juntos
….penetramos nos gestos dos nossos corpos

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Identificação e contexto básico

Susana Pestana é uma escritora angolana, conhecida pela sua obra poética e em prosa que reflete sobre a identidade, a cultura e as experiências contemporâneas em África, particularmente em Angola. A sua obra insere-se no contexto da literatura lusófona africana.

Infância e formação

A infância e formação de Susana Pestana ocorreram em Angola, num período marcado por transformações sociais e políticas significativas no país. A sua educação e as suas vivências pessoais na juventude foram, sem dúvida, elementos cruciais na formação da sua visão de mundo e na inspiração para a sua escrita. O contexto cultural angolano e as influências literárias da época moldaram o seu percurso.

Percurso literário

O percurso literário de Susana Pestana tem sido marcado pela publicação de obras que exploram a identidade, a memória e a condição humana no contexto angolano e africano. A sua escrita, seja em poesia ou prosa, tem vindo a ganhar reconhecimento pela sua profundidade e pela originalidade da sua abordagem. Participou em diversas iniciativas culturais e literárias, contribuindo para a divulgação da literatura angolana.

Obra, estilo e características literárias

A obra de Susana Pestana caracteriza-se por uma linguagem cuidada e uma exploração profunda de temas como a identidade africana, a herança cultural, a diáspora e as complexidades da vida contemporânea em Angola. Os seus poemas e narrativas são frequentemente poéticos e introspectivos, revelando uma forte sensibilidade para as nuances da experiência humana e social. O seu estilo pode ser descrito como lírico e reflexivo, utilizando recursos que criam imagens vívidas e evocam emoções. A sua escrita dialoga com a tradição literária angolana e lusófona, ao mesmo tempo que procura inovar na abordagem de temas e na expressão estética. É frequentemente associada a uma nova geração de escritores angolanos que trazem novas perspetivas para a literatura.

Contexto cultural e histórico

Susana Pestana escreve num contexto pós-colonial e de construção nacional em Angola, onde as questões de identidade, memória histórica e desenvolvimento social são centrais. A sua obra reflete, de forma subtil ou direta, os desafios e as aspirações da sociedade angolana contemporânea. Interage com um panorama literário vibrante em língua portuguesa, dialogando com outros autores angolanos e lusófonos.

Vida pessoal

Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Susana Pestana, como relações familiares, amizades ou vivências específicas, não são amplamente divulgadas em fontes públicas. No entanto, é evidente que as suas experiências de vida em Angola e a sua imersão na cultura do país são fontes primordiais para a sua criação literária.

Reconhecimento e receção

O reconhecimento da obra de Susana Pestana tem crescido, especialmente no meio literário angolano e lusófono. A sua poesia e prosa são apreciadas pela sua qualidade estética e pela relevância dos temas abordados. Participa ativamente em eventos literários e culturais, o que contribui para a sua visibilidade.

Influências e legado

As influências que moldaram a escrita de Susana Pestana podem incluir a tradição oral angolana, a literatura portuguesa e outras literaturas africanas de expressão portuguesa. O seu legado reside na contribuição para a renovação da poesia e da prosa angolana, trazendo novas vozes e perspetivas sobre a identidade e a cultura.

Interpretação e análise crítica

A obra de Susana Pestana oferece um campo fértil para análise crítica, especialmente no que diz respeito à exploração da identidade cultural, à representação da mulher em contextos africanos e à forma como a memória histórica é transfigurada na arte. As suas narrativas e poemas convidam à reflexão sobre as dinâmicas sociais e existenciais.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Aspetos menos conhecidos da vida ou do processo criativo de Susana Pestana podem ser encontrados em entrevistas ou em perfis mais aprofundados, que poderiam revelar as suas inspirações quotidianas, os seus rituais de escrita ou episódios marcantes que influenciaram a sua obra.

Morte e memória

Susana Pestana é uma autora contemporânea, viva. Portanto, não há informação sobre a sua morte ou publicações póstumas.