Raul Pompéia

Raul Pompéia

Raul Pompéia foi um escritor, jornalista e professor brasileiro, figura proeminente do Realismo/Naturalismo no Brasil. Sua obra mais célebre, "O Ateneu", é um retrato mordaz e inovador do ambiente escolar, abordando temas como a hipocrisia social, a corrupção de costumes e a formação do indivíduo em um ambiente opressor. Sua escrita é marcada por um estilo vigoroso, irónico e por uma profunda análise psicológica. Além de "O Ateneu", Pompéia produziu crónicas, contos e poesia, demonstrando versatilidade. Sua atuação como jornalista e crítico social foi igualmente importante, refletindo seu engajamento com os debates de seu tempo. A vida e a obra de Raul Pompéia, embora marcadas por uma carreira relativamente curta, deixaram um legado significativo na literatura brasileira pela sua originalidade e pela crítica social contundente.

1863-04-12 Jacuacanga [Angra dos Reis] RJ
1895-12-25 Rio de Janeiro RJ
30913
0
0

A Noite

... le ciel
Se ferme lentement comme une grande alcôve,
Et l'homme impatient se change en bête fauve.

C. BAUDELAIRE

Chamamos treva à noite. A noite vem do Oriente como a luz.
Adiante, voam-lhe os gênios da sombra, distribuindo estrelas e
pirilampos. A noite, soberana, desce. Por estranha magia revelam-se
os fantasmas de súbito.
Saem as paixões más e obscenas; a hipocrisia descasca-se e
aparece; levantam-se no escuro as vesgas traições, crispando
os punhos ao cabo dos punhais; à sombra do bosque e nas ruas ermas,
a alma perversa e a alma bestial encontram-se como amantes
apalavrados; tresanda o miasma da orgia e da maldade — suja o
ambiente; cada nova lâmpada que se acende, cada lâmpada que expira
é um olhar torvo ou um olhar lúbrico; familiares e insolentes,
dão-se as mãos o vício e o crime — dois bêbedos.
Longe daí a gemedora maternidade elabora a certeza das orgias
vindouras.
E a escuridão, de pudor, cerra-se, mais intensa e mais negra.
Chamamos treva à noite — a noite que nos revela a
subnatureza dos homens e o espetáculo incomparável das estrelas.


Publicado no livro Canções sem Metro (1900). Poema integrante da série III - O Ventre.

In: POMPÉIA, Raul. Obras: canções sem metro. Org. Afrânio Coutinho. Assistência Eduardo de Faria Coutinho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Oficina Literária Afrânio Coutinho: Fename, 1982. v.4, p.72. (Vera Cruz, 324c
4073
3


Quem Gosta

Quem Gosta

Seguidores