Alex Polari

Alex Polari

Alex Polari é um poeta brasileiro conhecido por sua obra que explora as complexidades da existência humana, a efemeridade do tempo e a busca por sentido. Sua poesia se caracteriza por uma linguagem densa e imagética, que transita entre o lírico e o filosófico, muitas vezes com um tom confessional e introspectivo. A obra de Polari reflete sobre a condição humana em sua vulnerabilidade e resiliência, utilizando uma estética que dialoga com a modernidade e a tradição poética.

1950-01-01 João Pessoa, Paraíba
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Canção para 'Paulo' (À Stuart Angel)

Eles costuraram tua boca
com o silêncio
e trespassaram teu corpo
com uma corrente.
Eles te arrastaram em um carro
e te encheram de gases,
eles cobriram teus gritos
com chacotas.

Um vento gelado soprava lá fora
e os gemidos tinham a cadência
dos passos dos sentinelas no pátio.
Nele, os sentimentos não tinham eco
nele, as baionetas eram de aço
nele, os sentimentos e as baionetas
se calaram.

Um sentido totalmente diferente de existir
se descobre ali,
naquela sala.
Um sentido totalmente diferente de morrer
se morre ali,
naquela vala.

Eles queimaram nossa carne com os fios
e ligarm nosso destino à mesma eletricidade.
Igualmente vimos nossos rostos invertidos
e eu testemunhei quando levaram teu corpo
envolto em um tapete.

Então houve o percurso sem volta
houve a chuva que não molhou
a noite que não era escura
o tempo que não era tempo
o amor que não era mais amor
a coisa que não era mais coisa nenhuma.

Entregue a perplexidades como estas,
meus cabelos foram se embranquecendo
e os dias foram se passando.


In: ALVERGA, Alex Polari de. Inventário de cicatrizes. Apres. Carlos Henrique de Escobar. 3.ed. São Paulo: Teatro Ruth Escobar; Rio de Janeiro: Comitê Brasileiro pela Anistia, s.d
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