Os Sapos
Saem da penumbra,
Aos pulos, os sapos.
A luz os deslumbra.
Em ronco que aterra,
Berra o sapo-boi:
— “Meu pai foi à guerra!”
— “Não foi!” — “Foi!” — “Não foil!?.
O sapo-tanoeiro,
Parnasiano aguado,
Diz: — “Meu cancioneiro
É bem martelado.
Vede como primo
Em comer os hiatos!
Que arte! E nunca rimo
Os termos cognatos.
O meu verso é bom
Frumento sem joio.
Faço rimas com
Consoantes de apoio.
Vai por cinquenta anos
Que lhes dei a norma:
Reduzi sem danos
A formas a forma.
Clame a saparia
Em críticas céticas:
Não há mais poesia
Mas há artes poéticas...”
Urra o sapo-boi:
— “Meu pai foi rei” — “Foi!”
— “Não foi!” — “Foi” —*“Não foi!”.
Brada em um assomo
O sapo-tanoeiro:
— “A grande arte é como
Lavor de joalheiro.
Ou bem de estatuário.
Tudo quanto é belo,
Tudo quanto é vário,
Canta no martelo.”
Outros, sapos-pipas
(Um mal em si cabe),
Falam pelas tripas:
— “Sei!” — “Não sabe!” — “Sabel”.
Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Verte a sombra imensa;
Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é
Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo cururu
Da beira do rio...
1918
Comentários (5)
eu diria que o caba que comentou abaixo é muito esperto, até que eu me lembrei que eu to aqui só resenhando em um site de poemas populares brasileiros, então eu não preciso de informação inteligente pra deixar de rir enquanto eu leio o "não foi foi não foi" :risosgulosos: :risosgulosos:
O poema é interessante, como toda a obra de Bandeira. Contudo, a forma como os modernistas, incluindo Bandeira, tratavam os parnasianos era muito agressiva e desrespeitosa. Para que um movimento literário tenha valor e admiração não é necessário desvalorizar os movimentos anteriores. O que é bom só é bom se for comparado com o que também o é.
Eu acho incrível a forma como os modernistas conseguiam, ao mesmo tempo que satirizavam, retratar a sociedade brasileira.
Isso é uma crítica ao academicismo e a forma como os escritores parnasianistas retratavam a realidade. Pode-se dizer também que era uma crítica à sociedade - de maneira mais ampla - que era hipócrita. A primeira fase do Modernismo era o momento de ruptura e quebra de tabus, por isso que se trata de uma crítica mais geral, @prih
Bastante interessante