Jorge de Sena

Jorge de Sena

Jorge de Sena foi um poeta, tradutor, ensaísta e professor universitário de grande relevância na literatura de língua portuguesa. A sua obra poética é marcada pela erudição, pela reflexão existencial e pela experimentação formal, abordando temas como o amor, a morte, o tempo, a história e a condição humana com uma linguagem intensa e complexa. Distinguido pela sua inteligência crítica e pela vasta cultura, Jorge de Sena deixou um legado significativo, não só na poesia, mas também nos seus estudos literários e na sua atuação cívica, sendo uma figura incontornável do panorama intelectual do século XX.

1919-11-02 Lisboa
1978-06-04 Santa Bárbara
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Camões dirige-se aos seus contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

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