

Jaime Rocha
Jaime Rocha é um poeta português cuja obra se distingue pela sua forte ligação à terra, ao quotidiano e a uma linguagem que evoca a oralidade e a simplicidade. A sua poesia, muitas vezes ancorada em paisagens rurais e em memórias afetivas, aborda temas como a identidade, a passagem do tempo, a natureza e as relações humanas com uma sensibilidade particular. É uma voz que celebra o que é concreto, o que é vivido, com um tom por vezes melancólico, mas sempre autêntico e profundamente humano.
1949-04-17 Nazaré
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13 Toda aquela assombração
Toda aquela assombração está gravada
na tinta como se pertencesse a um livro
queimado, roído pelo sol. O homem sabe
que se trata de uma morta, mas não
entende que é a cicatriz do seu peito que
lhe ocupa o sono e o cativa para um ritual
demoníaco. Conhece os seus cabelos, os
lábios a descerem pelas amoras, pela cera.
E toda a sua pele sobressai, pintada na
parede, nos pregos, nas mãos que descansam
em cima de uma toalha. Um navio incendeia-se
contra um recife. É ela ou os seus vestidos a
desaparecerem no horizonte, no fim de tudo.
na tinta como se pertencesse a um livro
queimado, roído pelo sol. O homem sabe
que se trata de uma morta, mas não
entende que é a cicatriz do seu peito que
lhe ocupa o sono e o cativa para um ritual
demoníaco. Conhece os seus cabelos, os
lábios a descerem pelas amoras, pela cera.
E toda a sua pele sobressai, pintada na
parede, nos pregos, nas mãos que descansam
em cima de uma toalha. Um navio incendeia-se
contra um recife. É ela ou os seus vestidos a
desaparecerem no horizonte, no fim de tudo.
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