A psicanálise é mais uma paixão do que uma ciência: pois lhe falta a mão serena … — Karl Kraus
A psicanálise é mais uma paixão do que uma ciência: pois lhe falta a mão serena no exame, e essa falta constitui a única aptidão para a psicanálise. O psicanalista ama e odeia o seu objeto, inveja a sua liberdade ou a sua força e deriva-os dos seus próprios defeitos. Ele apenas analisa porque ele próprio é feito de partes que não resultam numa síntese. Ele acredita que o artista sublima uma enfermidade porque ele próprio ainda padece dela. A psicanálise é um ato de vingança por meio do qual a inferioridade adquire compostura, quando não superioridade, e procura equilibrar a desarmonia. Ser médico é mais do que ser paciente, e por isso todo imbecil procura hoje tratar todo génio. O que neste caso falta ao médico é a doença. Como quer que se comporte, nada mais conseguirá apresentar para explicar o génio do que a prova de que ele próprio não o possui. Porém, visto que o génio não precisa de uma explicação, e uma que defenda a mediocridade contra o génio é danosa, resta à psicanálise apenas uma única justificação para a sua existência: a muito custo, ela pode ser empregada para desmascarar a psicanálise.
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