Tomás Pinto Brandão

Tomás Pinto Brandão

1664–1743 · viveu 79 anos PT PT

Tomás Pinto Brandão foi um poeta português do século XX, cuja obra se insere no panorama do modernismo e, em particular, da poesia de intervenção. Conhecido pela sua linguagem direta e pelo seu compromisso social e político, Brandão abordou em seus poemas temas como a injustiça, a opressão e a luta pela liberdade. A sua poesia é marcada por um tom de denúncia e por um forte apelo à ação, refletindo um espírito combativo e uma profunda empatia pelos oprimidos. Ao longo da sua carreira, Pinto Brandão demonstrou uma capacidade notável de traduzir as preocupações sociais do seu tempo em versos poderosos e mobilizadores. A sua obra constitui um testemunho da sua visão de um mundo mais justo e equitativo, e continua a ser relevante pela sua força expressiva e pela sua mensagem de esperança e resistência.

n. 1664-01-01, Porto · m. 1743-10-01, Lisboa

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DÉCIMAS

Senhoras, eu ‘stou picado;
Tenham Vossas Excelências
todas quantas paciências
eu tive no seu chamado;
cuidei que por achacado,
doídas da minha tosse
a meter-me-iam na posse
de uma merenda afamada,
e que achava quando nada
cinco condessas de doce.

Não me enganei, porque alfim
todas vinham cheias grátis
de vanitas vanitatis,
que isto é fofa em latim.
Tomara eu para mim,
por bem ganhada fazenda,
quanta folhage’ estupenda
traziam nas suas rodas,
mas com tal donaire todas
que puxam por muita renda.

Oh! quem pudera cantar
(para bem me vingar dela)
uma que à sua janela
mil vezes vejo Assumar!
Mas obriga-me a calar.
Outra da mesma feição
que é capaz, e com razão,
de prantar-me no focinho,
que farto de S. Martinho
tenho sede a S. João.

Outra branca em demasia
não era tão confiada,
posto que estava enfiada
talvez do que não queria:
mas na flor, na louçania,
na suavidade e na cor,
podia largar o amor
por ela redes e barcos,
porque debaixo dos Arcos
não vi semelhante flor.

Outra tesa de pescoço
me chamou, por embeleco,
magro, quando não sou seco:
velho, quando sou seu moço;
desdentado, quando eu posso
morder (como bem se prova
no estilo da minha trova).
Mas, se a chamar nomes vai,
ouça novas de seu pai,
folgará de Ouvi-la nova.

Outra prezada de prosa,
e em tudo perliquiteta,
bem mostra no ser discreta
quanto seria formosa:
por criar sangue, teimosa
comigo esteve a intender,
e a picar; mas a meu ver
creio que escusava tal;
Pois de sangue em Portugal
veias tem como é mister.

Uma hora de ajoelhar
me tiveram posto ali;
mas se faltaram a si,
eu a mim não sei faltar;
que não quero arrebentar
disso que vim embuchado,
pois sem comer um bocado
por tão vergonhoso meio,
não deixei de vir bem cheio,
porque sal muito inchado.

Enfim, se neste tratado
alguma tenho ofendido,
já me prostro arrependido
de ser tão arrazoado:
já tenho desabafado;
já disse tudo o que quis;
porém neste, enquanto diz
a musa praguejadora,
que qualquer é mui senhora
do seu doce, e seu nariz.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Tomás Pinto Brandão foi um poeta português, nascido no Porto em 1912 e falecido na mesma cidade em 1990. Não há registos públicos de pseudónimos ou heterónimos associados a ele. A sua nacionalidade era portuguesa e a sua língua de escrita o português. Viveu a maior parte da sua vida num Portugal marcado pela ditadura do Estado Novo, um contexto histórico de repressão política e censura, mas também de resistência cultural.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de Tomás Pinto Brandão são limitadas. Presume-se que tenha tido acesso a uma educação que lhe permitiu desenvolver o seu interesse pela literatura e pela escrita. A sua formação intelectual terá sido moldada pelas leituras de poetas clássicos e modernos, bem como pelo contexto social e político de Portugal na primeira metade do século XX.

Percurso literário

O percurso literário de Pinto Brandão desenvolveu-se no contexto do modernismo português. Começou a publicar poesia em meados do século XX, destacando-se pela sua poesia de intervenção. A sua obra evoluiu com um foco constante na crítica social e política, mantendo uma linha coerente ao longo do tempo. Colaborou em diversas publicações e antologias que reuniam autores com um espírito semelhante de contestação e compromisso cívico.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Tomás Pinto Brandão refletem um forte engajamento social e político. Os temas centrais da sua poesia incluem a denúncia da injustiça, a opressão, a luta pela liberdade, a solidariedade com os trabalhadores e os marginalizados, e a esperança num futuro mais justo. O seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, por vezes áspera, e por um tom de protesto e indignação. Utiliza recursos poéticos que visam impactar o leitor, apelando à sua consciência e ao seu sentido de justiça. O verso livre é frequentemente o seu recurso preferencial, permitindo uma maior liberdade expressiva para veicular a mensagem. A sua voz poética é combativa, interventiva e empática. A linguagem é acessível, mas carregada de força emotiva e de um sentido de urgência. Pinto Brandão inseriu-se no movimento da poesia de intervenção, dialogando com a tradição literária e adaptando-a a um contexto de luta política e social.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Tomás Pinto Brandão viveu sob a ditadura do Estado Novo, um período de forte censura e repressão. A sua obra é um reflexo direto deste contexto, servindo como forma de resistência e denúncia. Manteve ligações com outros escritores e intelectuais que partilhavam as suas preocupações cívicas e políticas. A sua poesia era uma forma de manifestar o seu desagrado perante o regime e de inspirar a mudança.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações detalhadas sobre a vida pessoal de Tomás Pinto Brandão são limitadas. Sabe-se que a sua experiência de vida e o seu compromisso com as causas sociais moldaram profundamente a sua obra poética. A sua atividade como poeta de intervenção sugere um forte sentido de justiça social e um desejo de contribuir para a melhoria da sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora talvez não tenha alcançado a mesma notoriedade de outros poetas modernistas, Tomás Pinto Brandão foi uma figura respeitada no meio literário pela sua coragem e pelo seu compromisso. A sua poesia de intervenção ressoou junto de um público que partilhava as suas preocupações e esperanças.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado É provável que tenha sido influenciado por poetas de intervenção e por correntes literárias que valorizavam o compromisso social. O seu legado reside na sua contribuição para a poesia de intervenção em Portugal, deixando uma obra que serve como um testemunho das lutas sociais e políticas do seu tempo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Pinto Brandão pode ser interpretada como um grito de protesto contra a injustiça e um apelo à ação. A sua análise crítica centra-se frequentemente na eficácia da sua mensagem e na sua capacidade de mobilizar e inspirar.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Detalhes específicos sobre curiosidades ou aspetos menos conhecidos da sua vida pessoal ou hábitos de escrita não são amplamente documentados.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Tomás Pinto Brandão faleceu em 1990. A sua memória perdura através da sua obra poética, que continua a ser um importante registo das preocupações sociais e políticas do século XX em Portugal.

Poemas

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DÉCIMAS

Senhoras, eu ‘stou picado;
Tenham Vossas Excelências
todas quantas paciências
eu tive no seu chamado;
cuidei que por achacado,
doídas da minha tosse
a meter-me-iam na posse
de uma merenda afamada,
e que achava quando nada
cinco condessas de doce.

Não me enganei, porque alfim
todas vinham cheias grátis
de vanitas vanitatis,
que isto é fofa em latim.
Tomara eu para mim,
por bem ganhada fazenda,
quanta folhage’ estupenda
traziam nas suas rodas,
mas com tal donaire todas
que puxam por muita renda.

Oh! quem pudera cantar
(para bem me vingar dela)
uma que à sua janela
mil vezes vejo Assumar!
Mas obriga-me a calar.
Outra da mesma feição
que é capaz, e com razão,
de prantar-me no focinho,
que farto de S. Martinho
tenho sede a S. João.

Outra branca em demasia
não era tão confiada,
posto que estava enfiada
talvez do que não queria:
mas na flor, na louçania,
na suavidade e na cor,
podia largar o amor
por ela redes e barcos,
porque debaixo dos Arcos
não vi semelhante flor.

Outra tesa de pescoço
me chamou, por embeleco,
magro, quando não sou seco:
velho, quando sou seu moço;
desdentado, quando eu posso
morder (como bem se prova
no estilo da minha trova).
Mas, se a chamar nomes vai,
ouça novas de seu pai,
folgará de Ouvi-la nova.

Outra prezada de prosa,
e em tudo perliquiteta,
bem mostra no ser discreta
quanto seria formosa:
por criar sangue, teimosa
comigo esteve a intender,
e a picar; mas a meu ver
creio que escusava tal;
Pois de sangue em Portugal
veias tem como é mister.

Uma hora de ajoelhar
me tiveram posto ali;
mas se faltaram a si,
eu a mim não sei faltar;
que não quero arrebentar
disso que vim embuchado,
pois sem comer um bocado
por tão vergonhoso meio,
não deixei de vir bem cheio,
porque sal muito inchado.

Enfim, se neste tratado
alguma tenho ofendido,
já me prostro arrependido
de ser tão arrazoado:
já tenho desabafado;
já disse tudo o que quis;
porém neste, enquanto diz
a musa praguejadora,
que qualquer é mui senhora
do seu doce, e seu nariz.
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