Lista de Poemas

Obrigada à vida

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me dois olhos
que quando os abro
perfeito distingo
o preto do branco
no alto céu seu fundo estrelado
e nas multidões o homem que eu amo.

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me o ouvido
que em toda sua extensão
grava noite e dia
grilos e canários
martelos, turbinas, latidos, chuvaradas
e a voz tão terna do meu bem amado

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me o som
e o abecedário
com ele as palavras
que penso e declaro
"mãe, amigo, irmão"
e a luz, iluminando
o rumo da alma do que estou amando

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me a marcha
dos meus pés cansados
com eles andei
cidades e charcos
praias e desertos, montanhas e planos
tua casa, tua rua e teu pátio.

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me o coração
que agita seu marco
quando olho o fruto
do cérebro humano
quando olho o bom tão longe do mal
quando olho o fundo de teus olhos claros

Obrigada à vida
que me deu tanto
Deu-me a risada
e deu-me o pranto
assim distingo
felicidade de fraqueza
os dois materiais que formam meu canto
o canto de todos que é mesmo canto
o canto de todos que é meu próprio canto
Obrigada à vida!

2 687

A carta

Me mandaram uma carta
Pelo correio cedo
Nessa carta me dizem
Que caiu preso meu irmão
E sem compaixão com grilhões
Pelas ruas o arrastaram.
Sim...

A carta disse o motivo
Que há cometido Roberto:
Haver apoiado a greve
Que já se havia resolvido
Se acaso isso é um motivo
Preso vou também sargento.
Sim...

Eu que me encontro tão longe,
Esperando uma notícia,
Me vem a dizer na carta
Que em minha pátria não há justiça.
Os famintos pedem pão,
Os molesta a polícia.

Haverá se visto insolência,
Ignorância e traição.
De apresentar o trabuco
E matar a sangue frio.
Há quem defesa não tem
Com as duas mãos vazias.
Sim...

A carta que me mandaram
Me pede contestação:
Eu peço que se divulgue
Por toda população
Que o leão é um sanguinário
Em toda geração
Sim...

Por sorte tenho guitarra
E também tenho minha voz,
Também tenho sete irmãos
Fora do que se algemou,
Todos revolucionários
Com o favor de meu Deus.
Sim...

1 803

Amaldiçoo no alto céu

Amaldiçoo no alto céu
a estrela e seu fogaréu,
eu amaldiçoo o corcel
e a sua crina no breu,
amaldiçoo no subsolo
a pedra e seu contorno,
amaldiçoo fogo e forno,
pois minh’alma está de luto,
amaldiçoo os estatutos
do tempo e seu modorro,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo Pico da Bandeira
e Mata Atlântica na costa,
amaldiçoo, senhor, a estreita
como a larga faixa de terra,
também a paz e a guerra,
o franco e o caprichoso,
eu amaldiçoo o cheiroso,
pois morreram meus anseios,
amaldiçoo todo o certeiro
e o falso com o duvidoso,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo a primavera
com seus jardins em flor
e do outono a sua cor,
eu o amaldiçoo deveras;
a nuvem passageira,
a amaldiçoo tanto, tanto,
pois me ajuda um quebranto.
Amaldiçoo o inverno inteiro
como o verão embusteiro,
amaldiçoo profano e santo,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo o peito varonil
e o berço esplêndido,
amaldiçoo todo emblema,
o Olimpo e o pau-brasil,
o mico-leão e o azul anil,
o Universo e seus planetas,
a terra e as suas cavernas,
pois me descorçoa uma tristeza,
amaldiçoo mar e correnteza,
seus portos e caravelas,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo lua e paisagem,
as praias e os desertos,
amaldiçoo morto por morto
e os vivos, do rei ao pagem,
a ave com sua plumagem,
os amaldiçoo como artífice,
os professores e pontífices,
pois me flagela uma dor,
amaldiçoo a palavra amor
com toda a sua porquice,
quanto durará minha dor.
Amaldiçoo enfim o branco,
o preto e o amarelo,
os bispos e os ateus,
hospitais e ministérios,
os amaldiçoo chorando;
o livre e o prisioneiro,
ao manso e ao brigão
eu jogo minha maldição,
em grego e em palavrão
por culpa de um traidor,
quanto durará minha dor.
tradução de Ricardo Domeneck,
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Identificação e contexto básico

Violeta del Carmen Parra Sandoval foi uma compositora, cantora, artista plástica, poetisa e folclorista chilena, amplamente reconhecida como uma das figuras mais importantes da música popular latino-americana e a mãe da Nueva Canción Chilena. Nasceu em 1917 e faleceu em 1967. Sua obra, escrita em espanhol, é um reflexo vibrante da cultura e das aspirações do povo chileno e latino-americano. Originária de uma família de músicos e artistas, cresceu num ambiente de pobreza, mas rico em tradições culturais.

Infância e formação

Violeta Parra nasceu numa família humilde no sul do Chile, onde a música e a arte eram parte integrante do quotidiano. Seu pai era professor e músico amador, e sua mãe, costureira, cantava canções tradicionais. Desde muito cedo, demonstrou um talento precoce para a música e a poesia, aprendendo a tocar guitarra com seu irmão, o também músico e compositor Nicanor Parra. Sua formação foi marcada pela vivência direta das tradições folclóricas chilenas, pela observação das realidades sociais e pelas experiências de vida.

Percurso literário

O percurso literário de Violeta Parra, embora intrinsecamente ligado à sua música, revela uma poderosa veia poética. Suas letras de canções são verdadeiros poemas, carregados de imagens, emoções e reflexões sociais. A sua obra escrita, incluindo o livro "Violeta Sola" (publicado postumamente), explora os seus sentimentos mais profundos, suas dores, amores e a sua visão crítica do mundo. A sua poesia é direta, crua e profundamente emotiva, refletindo a sua própria vida e as lutas do povo.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Violeta Parra é vasta e multifacetada, abrangendo canções, poemas, tapeçarias, cerâmicas e pinturas. Sua música e poesia são marcadas pela autenticidade e pela profunda conexão com o folclore latino-americano. Temas como o amor (muitas vezes doloroso e conflituoso), a injustiça social, a opressão, a identidade cultural, a morte e a espiritualidade são centrais em sua obra. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, metafórica e carregada de emoção, utilizando frequentemente a forma da canção para expressar suas ideias. A voz poética de Violeta é forte, confessional e universal, capaz de expressar tanto a dor individual quanto o sofrimento coletivo. Sua arte rompeu barreiras, influenciando gerações de artistas e movimentos musicais e culturais em toda a América Latina.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Violeta Parra viveu e produziu sua obra num período de grande efervescência social e política no Chile e na América Latina. Sua música e poesia tornaram-se um símbolo de resistência e identidade para muitos, especialmente durante os anos 60, quando o movimento da Nueva Canción ganhava força. Ela foi uma pioneira ao resgatar e reinterpretar o folclore tradicional chileno, dando-lhe uma nova roupagem e um conteúdo socialmente engajado. Sua obra dialogou com os anseios por justiça social e soberania cultural que marcavam a época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Violeta Parra foi marcada por uma intensidade de paixões, dores e lutas. Suas relações amorosas foram frequentemente turbulentas e trouxeram-lhe sofrimento, mas também inspiração para muitas de suas canções mais emblemáticas. Enfrentou dificuldades econômicas e problemas de saúde ao longo da vida. Sua dedicação à arte e à divulgação da cultura popular chilena foi uma constante, mesmo diante das adversidades.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora em vida tenha tido reconhecimento, o verdadeiro alcance de sua obra e a dimensão de seu legado foram plenamente compreendidos após sua morte. Violeta Parra é hoje uma figura icônica da cultura latino-americana, celebrada em todo o mundo. Sua música é constantemente reinterpretada e sua poesia continua a inspirar. Ela é vista como uma voz autêntica e poderosa que deu visibilidade e dignidade a muitas realidades sociais e sentimentos humanos.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Violeta Parra influenciou profundamente a música e a poesia de toda a América Latina, sendo considerada uma precursora da Nueva Canción. Artistas como Mercedes Sosa, Victor Jara, Joan Baez e muitos outros foram diretamente tocados por sua obra. Seu legado reside na sua capacidade de unir arte, política e vida de forma inseparável, dando voz aos marginalizados e expressando as mais profundas emoções humanas através de uma linguagem universal e acessível.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Violeta Parra é rica em simbolismo e abre espaço para diversas interpretações. Suas canções, como "Gracias a la Vida" ou "Volver a los Diecisiete", são hinos que transcendem o tempo e a cultura, abordando temas existenciais de forma profunda e tocante. A sua arte pode ser analisada sob a ótica da antropologia cultural, da sociologia e da psicologia, dada a sua conexão com as raízes populares e a expressão de sentimentos universais.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Além de sua música e poesia, Violeta Parra dedicou-se intensamente às artes plásticas, criando tapeçarias, esculturas e pinturas que complementam sua obra. Sua casa em La Reina, que se tornou o Centro de Documentação Violeta Parra, era um ponto de encontro de artistas e intelectuais. A história de sua última canção, "Gracias a la Vida", composta pouco antes de sua morte, é um testemunho de sua resiliência e gratidão, apesar de todo o sofrimento.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Violeta Parra faleceu em 1967, em circunstâncias trágicas, tirando a própria vida. Sua morte prematura chocou o Chile e a América Latina, mas sua memória e sua obra continuam vivas e inspiradoras. Publicações póstumas de suas letras e escritos, bem como inúmeras gravações de suas canções por outros artistas, mantêm seu legado vivo e relevante.