Orientação
Ainda
que perdidos
meus passos pareçam…
ainda que a alma segrede
o desencontro dos exilados,
eu sei de uma razão…
e por ela sigo,
busca incessante
teimando o caminho.
leva-me o sonho
que em mim ganhou voz…
minha estrela, meu norte,
meu rumo, meu trilho
minha barca d´Alva
levando na proa
o mapa dos ventos que
lhe dá sentido.
Eco-Lógica
Antes
que anunciem
que o último raio de luz
se propaga,
despindo os olhos de cores
que iluminam,
colhe e perpétua
nos olhos e no coração
uma centelha de sol matinal.
Os deuses deste tempo
prometem cavernas
e longas invernias.
Dúvida
Já
não sei se vivo
se minha alma se agita
e leva o que de mim resta
a passear por aí…
Não sei se a alma vive
e vivendo anima o corpo,
ou quem sabe…
se o corpo em seu simples movimento
é que chama a alma
à Vida.
Vidraça
A
menina olhava a vida
por detrás da vidraça
e estremecia a um bater de asa
suspirando pelo beijo que à noite
trocam os namorados
A menina guardava-se
religiosamente
vaidosa do seu sexo sacralizado
e venerava a pureza
do nada.
A menina ardia no incêndio
que a noite
insuspeitadamente
acende na memória adormecida.
Vozes
Dos
confins se ergue a voz
ouvidos e mente
cerrei ao apelo
Ergue –se um grito
no fundo de mim…
que verdade fala,
onde está o tempo
que a vai cumprir?
Impasse
Tão
longe e aqui mesmo
te sinto,
tão longo o abraço
que não dou
tão gélido o toque
das palavras
de encontro ao peito
aberto, indefeso…
tão estreito o caminho,
tão fundo o abismo
diante dos olhos exaustos
à procura de abrigo…
Asas
Do
cimo de uma falésia
olhou com olhos despidos de mágoa
dentro do sonho suspenso no tempo
e fez dos gestos um grito
de encontro ao silencio
dos que o olhavam.
Olhos abertos ao devir
e ao sonho,
esfinge resistindo ao tempo
afrontando o vago de almas
e o olhar sem deslumbre,
ao chão da evidência preso.
O Rosto da Verdade
Rasgam-se
os olhos
diante das feridas descobertas
esmaga-se a indiferença
frente ao rosto da verdade
Granítico e implacável
o rosto da verdade
como espectro sobrevoa
entra pelo coração
pelos sentidos, pelos poros.
Já tem nome o que sinto:
dor de viver,
não a sente o vivo-morto
Existencialismo
Cerra
os ouvidos
às palavras dos profetas
segura nos olhos o horizonte
o tempo renova-se
e tu és senhor de ti
Esquece a promessa
nosso sonho perdido
a vida é irmã da morte
da angústia e desta sede
sem nome…
E contaram tantas lendas
pra amainar o desespero,
gritaram aos sete ventos
espalharam pelas cinco partidas
o milenar sonho perdido,
sonhado ser infinito..
Simples sopro é a vida…
e pode deixar de o ser!
Do Poeta
A
palavra do Poeta é um canto
arrancado à raiz do ser,
cifra encontrada
na opaca fundura do tempo
contínuo e sem medida…
Chão secreto é o ser do Poeta
onde o sentido germina
tempestade de clarões
que atravessa e torna prenhe
a palavra solta .. sibilina
Uma dor de punhais cresce
quando o silencio é rasgado
mas a alma do Poeta,
renascida a cada golpe fundo,
transfigurada revela
a própria dimensão
do mundo!