Ruy Belo

Ruy Belo

Ruy Belo foi um dos mais importantes poetas portugueses do século XX. Sua obra é marcada por uma profunda reflexão sobre a existência, a fé, a solidão e o tempo, com uma linguagem ao mesmo tempo coloquial e erudita. Ele transitava entre o sagrado e o profano, o cotidiano e o transcendental, explorando as contradições da condição humana com humor, melancolia e uma ironia subtil. Sua poesia, acessível e ao mesmo tempo complexa, continua a tocar leitores pela sua honestidade e pela beleza das suas imagens.

1933-02-27 Freguesia de São João da Ribeira
1978-08-08 Queluz
620327
11
587

Quasi Flos

A morte é a verdade e a verdade é a morte

Tão contente de vento, ó folha que nomeio
como quem à passagem te colhesse,
palavra de que tu, ó árvore, dispões para vir até mim
do alto da tua inatingível condição

De muito longe vinda, inviável lembrança
indecisa nas mãos ou consentida
por alguma impossível infância
E a alegria é uma casa recém-construída

Face melhor de todos nós, ó folha
dos álamos nocturnos e antigos visitados pelo vento,
no calmo outono, o dos primeiros frios, sais
do ângulo dos olhos, acolhes-te ao poema
como no alto mês de maio a flor imóvel do jacarandá

Não há outro lugar para habitar
além dessa, talvez nem essa, época do ano
e uma casa é a coisa mais séria da vida



Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 73 | Editorial Presença Lda., 1984
1502
0

Mathsuz
Muito bom
21/abril/2026

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