João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto

João Cabral de Melo Neto foi um dos mais importantes poetas brasileiros do século XX. Sua obra é marcada pela objetividade, pelo rigor formal e pela exploração da linguagem como matéria-prima. Abordou temas como a paisagem nordestina, a condição humana e a própria poesia, com um estilo frequentemente descrito como concreto e arquitetônico. Sua poesia busca a precisão, a clareza e a economia de meios, afastando-se de sentimentalismos e excessos retóricos.

1920-01-09 Recife
1999-10-09 Rio de Janeiro
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O ferrageiro de Carmona

Um ferrageiro de Carmona,
que me informava de um balcão:
Aquilo? É de ferro fundido,
foi a forma que fez, não a mão.

Só trabalho em ferro forjado
que é quando se trabalha ferro
então, corpo a corpo com ele,
domo-o, dobro-o, até o onde quero.

O ferro fundido é sem luta
é só derramá-lo na forma.
Não há nele a queda de braço
e o cara a cara de uma forja.

Existe a grande diferença
do ferro forjado ao fundido:
é uma distância tão enorme
que não pode medir-se a gritos.

Conhece a Giralda, em Sevilha?
De certo subiu lá em cima.
Reparou nas flores de ferro
dos quatro jarros das esquinas?

Pois aquilo é ferro forjado.
Flores criadas numa outra língua.
Nada têm das flores de forma,
moldadas pelas das campinas.

Dou-lhe aqui humilde receita,
Ao senhor que dizem ser poeta:
O ferro não deve fundir-se
nem deve a voz ter diarréia.

Forjar: domar o ferro à força,
Não até uma flor já sabida,
Mas ao que pode até ser flor
Se flor parece a quem o diga.
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