

Carlos Drummond de Andrade
Carlos Drummond de Andrade foi um dos mais importantes poetas brasileiros, considerado um dos maiores nomes da literatura em língua portuguesa. A sua obra, marcada pela ironia, pela reflexão sobre a condição humana, pelo lirismo e pela crítica social, abordou temas universais como o amor, a morte, o tempo, a memória e a relação do indivíduo com a sociedade. Drummond deixou um legado poético riquíssimo, caracterizado pela sua linguagem acessível, mas profunda, e pela sua capacidade de captar a essência da vida quotidiana.
1902-10-31 Itabira
1987-08-17 Rio de Janeiro
3567735
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Redator de Plantão
Opereta no caminho do jornal.
Se vou à Clara Weiss não faço artigo
de fundo, bem ventrudo, como quer
o recado do Palácio do Governo.
Se faço o artigo da gazeta oficial,
perderei Clara Weiss e as mulheronas
que em seu redor alçam pernas cantatórias.
Tudo na mesma rua: teatro, redação,
dever, emprego, música ligeira.
Nem todo dia Strauss espalha em Minas
os eflúvios da valsa vienense,
e eu aqui, nesta mesa redatora,
a proclamar que sem Minas altiva
a República não acha salvação.
É sempre assim: perdi Leopoldo Fróes
por causa da campanha eleitoral.
Chaby não ouvi nem vi; Guiomar Novais
lembrança não deixou em meus ouvidos
de Chopin e Mompou, pois me tocou
fazer na mesma hora o necrológio
do senador Pimpim, glória mineira.
De madrugada, findo o meu trabalho,
eis dorme Clara Weiss no Grande Hotel,
dorme Franz Lehar na lembrança musical
de muitos, dormem lustres, mármores, sanefas
do infrequentável Teatro Municipal,
e eu transporto para casa esse remorso
de ser escriba, inconvicto escriba oficial.
Se vou à Clara Weiss não faço artigo
de fundo, bem ventrudo, como quer
o recado do Palácio do Governo.
Se faço o artigo da gazeta oficial,
perderei Clara Weiss e as mulheronas
que em seu redor alçam pernas cantatórias.
Tudo na mesma rua: teatro, redação,
dever, emprego, música ligeira.
Nem todo dia Strauss espalha em Minas
os eflúvios da valsa vienense,
e eu aqui, nesta mesa redatora,
a proclamar que sem Minas altiva
a República não acha salvação.
É sempre assim: perdi Leopoldo Fróes
por causa da campanha eleitoral.
Chaby não ouvi nem vi; Guiomar Novais
lembrança não deixou em meus ouvidos
de Chopin e Mompou, pois me tocou
fazer na mesma hora o necrológio
do senador Pimpim, glória mineira.
De madrugada, findo o meu trabalho,
eis dorme Clara Weiss no Grande Hotel,
dorme Franz Lehar na lembrança musical
de muitos, dormem lustres, mármores, sanefas
do infrequentável Teatro Municipal,
e eu transporto para casa esse remorso
de ser escriba, inconvicto escriba oficial.
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