Mário Faustino

Mário Faustino

Mário Faustino foi um poeta, crítico e tradutor brasileiro, figura proeminente da Geração de 45. A sua obra poética, embora concisa, é marcada pela experimentação formal, pela ironia e pela profunda reflexão sobre a linguagem e a condição humana. Como crítico, destacou-se pela sua agudeza e pela sua visão inovadora, contribuindo significativamente para a renovação da crítica literária no Brasil. A sua atuação como tradutor também foi relevante, introduzindo importantes obras da literatura estrangeira no país.

1930-10-22 Teresina
1962-11-27 Lima
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Sinto que o Mês Presente Me Assassina

Sinto que o mês presente me assassina,
As aves atuais nasceram mudas
E o tempo na verdade tem domínio
sobre homens nus ao sul das luas curvas.
Sinto que o mês presente me assassina,
Corro despido atrás de um cristo preso,
Cavalheiro gentil que me abomina
E atrai-me ao despudor da luz esquerda
Ao beco de agonia onde me espreita
A morte espacial que me ilumina.
Sinto que o mês presente me assassina
E o temporal ladrão rouba-me as fêmeas
De apóstolos marujos que me arrastam
Ao longo da corrente onde blasfemas
Gaivotas provam peixes de milagre.
Sinto que o mês presente me assassina,
Há luto nas rosáceas desta aurora,
Há sinos de ironia em cada hora
(Na libra escorpiões pesam-me a sina)
Há panos de imprimir a dura face
À força de suor, de sangue e chaga.
Sinto que o mês presente me assassina,
Os derradeiros astros nascem tortos
E o tempo na verdade tem domínio
Sobre o morto que enterra os próprios mortos.
O tempo na verdade tem domínio
Amen, amen vos digo, tem domínio
E ri do que desfere verbos, dardos
De falso eterno que retornam para
Assassinar-nos num mês assassino.

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