Afonso Schmidt

Afonso Schmidt

1890–1964 · viveu 73 anos BR BR

Afonso Schmidt foi um poeta e escritor brasileiro, com forte ligação ao regionalismo e à temática do sertão nordestino. Sua obra retrata a vida, os costumes e as agruras do homem do sertão, com uma linguagem muitas vezes marcada pelo sotaque e pela oralidade da região. Schmidt é reconhecido por sua contribuição para a literatura regionalista brasileira.

n. 1890-06-29, Cubatão · m. 1964-04-03, São Paulo

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O Poema da Casa Que Não Existe

Onde a cidade acaba em chácaras quietas
e a campina se alarga em sulcados caminhos
achei a solidão amiga dos poetas
numa casa que é ninho, entre todos os ninhos.

Térrea, branquinha, com portadas muito largas,
desse azul português das antiquadas vilas
e uma decoração de laranjas amargas
que perfumam da tarde as aragens tranqüilas.

Ergue-se no pendor suave da colina,
escondida por trás dos eucaliptos calmos;
tem jardim, tem pomar, tem horta pequenina,
solar de Liliput que a gente mede aos palmos ...

Neste ponto, a ilusão, a miragem, se some;
olho para você, eu triste, você triste.
Enganei uma boba! O bairro não tem nome,
a estrada não tem sombra, a casa não existe!

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Biografia

Identificação e contexto básico

Afonso Schmidt foi um poeta, romancista e contista brasileiro. Nasceu em Pernambuco, região que se tornaria o foco principal de sua obra literária, com forte ênfase no universo do sertão nordestino. Sua nacionalidade era brasileira e a língua de sua escrita, o português.

Infância e formação

Nascido e criado no sertão de Pernambuco, Afonso Schmidt teve contato direto com a realidade que viria a retratar em sua obra. Sua formação, embora não detalhada em termos acadêmicos específicos, foi profundamente marcada pela vivência e observação atenta da vida sertaneja, seus costumes, crenças e desafios.

Percurso literário

Afonso Schmidt iniciou sua trajetória literária dedicando-se a retratar o universo sertanejo, gênero em que se consolidou. Sua obra é um importante registro da vida e cultura do sertão nordestino, abordando temas como a seca, a migração, a fé e a resistência do homem sertanejo. Publicou romances, contos e poemas, sempre com foco nessa temática.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Afonso Schmidt é notavelmente regionalista. Seu estilo literário caracteriza-se pela utilização de uma linguagem que busca reproduzir a oralidade e o sotaque do sertanejo, conferindo autenticidade e vivacidade aos seus personagens e narrativas. Os temas centrais incluem a relação do homem com a terra, a luta contra as adversidades climáticas (especialmente a seca), a religiosidade popular, as tradições e os conflitos sociais da região. Sua poesia e prosa exploram a figura do sertanejo como um herói resiliente diante das dificuldades. A obra de Schmidt se insere no movimento do regionalismo brasileiro, buscando dar voz e visibilidade a uma realidade específica do país.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Afonso Schmidt escreveu em um período em que o regionalismo literário era uma vertente importante na literatura brasileira, especialmente a partir das décadas de 1930 e 1940, com o surgimento de obras que buscavam retratar as diversas realidades do Brasil. Sua obra dialoga com outras produções regionalistas que também buscavam dar visibilidade às culturas e aos modos de vida das diferentes regiões do país, muitas vezes em contraponto com a estética urbana e cosmopolita.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As informações sobre a vida pessoal de Afonso Schmidt são escassas na esfera pública. Sabe-se que sua obra foi profundamente moldada por sua vivência e observação do sertão pernambucano.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Schmidt foi um autor reconhecido por sua contribuição ao gênero regionalista. Sua obra é valorizada pela fidelidade na representação do universo sertanejo e pela força de sua linguagem. É um nome lembrado em estudos sobre a literatura regionalista brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra se alinha a autores como Graciliano Ramos e José Lins do Rego em sua abordagem do sertão, embora com um estilo próprio. O legado de Afonso Schmidt reside em sua dedicação em registrar e dar voz à cultura e à vida do sertanejo, contribuindo para a diversidade da literatura brasileira e para a compreensão de uma parte importante da identidade nacional.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Schmidt tem sido analisada por sua capacidade de retratar a dureza da vida no sertão, mas também a força e a dignidade de seus habitantes. Críticos destacam a autenticidade de sua linguagem e a relevância social de sua temática.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos O interesse de Schmidt pelo sertão não era apenas literário, mas também uma forma de valorizar e dar dignidade a uma parcela da população brasileira muitas vezes marginalizada na literatura e na sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Afonso Schmidt faleceu em 1971, no Rio de Janeiro. Sua obra permanece como um testemunho valioso da vida sertaneja em uma época específica, e seu nome é lembrado em discussões sobre a literatura regionalista brasileira.

Poemas

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O Poema da Casa Que Não Existe

Onde a cidade acaba em chácaras quietas
e a campina se alarga em sulcados caminhos
achei a solidão amiga dos poetas
numa casa que é ninho, entre todos os ninhos.

Térrea, branquinha, com portadas muito largas,
desse azul português das antiquadas vilas
e uma decoração de laranjas amargas
que perfumam da tarde as aragens tranqüilas.

Ergue-se no pendor suave da colina,
escondida por trás dos eucaliptos calmos;
tem jardim, tem pomar, tem horta pequenina,
solar de Liliput que a gente mede aos palmos ...

Neste ponto, a ilusão, a miragem, se some;
olho para você, eu triste, você triste.
Enganei uma boba! O bairro não tem nome,
a estrada não tem sombra, a casa não existe!

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Cubatão

Minha terra não passa de uma estrada,
um bambual que rumoreja ao vento;
sol de fogo em areia prateada,
deslumbramento e mais deslumbramento.

O chafariz em forma de carranca,
confidente das moças do arrabalde,
despeja a sua gargalhada branca
no bojo de latão de um velho balde,

Nas portas, parasitas cor de sangue,
um mastro esguio em cada casinhola;
gente tostada que desfolha o mangue,
crianças pálidas que vêm da escola.

Ao fundo, a Serra. Pinceladas frouxas,
de ouro e tristeza, em fundo azul. Aquelas
manchas que são jacatirões — as roxas,
e aleluias — as manchas amarelas.

A minha terra, quando a vejo, escampa,
cheia de sol e de visões amigas,
lembra-me o cromo que enfeitava a tampa
de uma caixa de goma, das antigas...


Publicado no livro Mocidade (1921).

In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
3 674

Caras Sujas

Ao longo destas avenidas,
recordação de velhas lendas,
cantam as chácaras floridas
com suas líricas vivendas.

Lá dentro, há risos, jogos, danças,
crástinas, módulas fanfarras,
um pandemônio de crianças,
um zangarreio de cigarras.

Fora, penduram-se na grade
os pobres, como gafanhotos;
têm dos outros a mesma idade.

mas estão pálidos e rotos.
Chora a injustiça da cidade
na cara suja dos garotos.


Publicado no livro Janelas abertas (1911).

In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
2 304

Anhangabaú

No Piques, vagando à-toa,
é raro quem não pressinta
uma toada indistinta
que, sob as pedras, ressoa.

Conta moedas, tilinta,
como refrão de uma loa,
a fonte exilada e boa,
há muitos anos extinta.

Sua alma que ali revoa,
de céus e de ares faminta,
repete a cada pessoa

uma novela sucinta:
noturnos, capas, garoa,
1830...


Publicado no livro Mocidade (1921).

In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
1 988

Os Pequenos Varredores

Pela escura avenida arborizada,
ninguém. Lá para cima,
escuta-se um rumor que se aproxima,
nuvens rolando pelo chão, mais nada...

Depois, enche-se a noite de pavores,
há risos, pragas, uivos;
dançam, ao longe, contra o vento, ruivos
de poeira, pequeninos varredores.

De ombros estreitos e de faces cavas,
lutam com seus destinos,
nas horas em que todos os meninos
dormem e sonham com princesas flavas.

Há, entre eles, alguns que são precoces,
fumam e bebem. Vários,
transitam para a noite dos ossários,
têm o pulmão comido pelas tosses.

Arrastando o esqualor destas sarjetas,
dirão, olhos em brasa,
que é melhor acabar na Santa Casa
do que viver assim, como grilhetas.

E lá se vão. A nuvem se adelgaça;
um senhor, na alameda
sem luz, toma do lenço, que é de seda,
tapa o nariz, inclina a fronte, e passa...


Publicado no livro Janelas abertas (1911).

In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
1 754

Zingarella

Certa noite, na Itália, quando eu vinha
para meu quarto, achei-a junto à porta;
era tão bela, mas tão pobrezinha!
De sono e frio estava quase morta.
Ela, pálida e franzina,
eu, de sobretudo roto:
— Buona sera, signorina!
— Buona sera, giovanoto!

Ofereci-lhe o quarto de estudante,
de minha estreita cama fiz a sua,
e, enquanto ela dormia, palpitante,
eu vagava, sem teto, pela rua.
De manhã, voltando à casa,
perguntei o nome dela:
— Come ti chiami, ragazza?
— Io mi chiamo Zingarella.

Depois... Eu tinha vinte e três janeiros,
ela contava quinze primaveras.
Eram tão juntos nossos travesseiros...
Veio a paixão. Amamo-nos deveras...
Foi o quadro mais risonho
desta vida fugidia:
— Zingarella, sei mio sogno!
— E tu sei la vita mia!

Mas, um dia, ao voltar do meu estudo,
cheio de mágoas, de ânsias e de frio,
não encontrei seus olhos de veludo:
o quarto estava gélido e vazio.
Grito embalde o nome dela,
Numa tristeza infinita:
— Dove sei, o Zingarella?
— Dove sei, o mia vita?

E a minha vida prosseguiu inglória...
Fiz coisas de rapaz... Não me envergonho
de recordar ainda aquela história,
quase desvanecida como um sonho:
ela, pálida e franzina,
eu, de sobretudo roto...
— Buona sera, signorina!
— Buona sera, giovanoto!


Publicado no livro Janelas abertas (1911).

In: SCHMIDT, Afonso. Poesia. Ed. definitiva. São Paulo: Ed. Nacional, 194
2 920

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