Dante Milano

Dante Milano

1899–1991 · viveu 91 anos BR BR

Dante Milano foi um poeta, crítico literário e professor brasileiro, conhecido por sua poesia concisa e de profunda reflexão existencial. Sua obra é marcada pela exploração de temas como o tempo, a memória e a efemeridade da vida, com uma linguagem depurada e um estilo introspectivo. Milano também se destacou como um importante estudioso da literatura, especialmente da poesia modernista brasileira, deixando um legado significativo tanto como criador quanto como crítico.

n. 1899-06-16, Rio de Janeiro · m. 1991-04-15, Petrópolis

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Pietá

Essa mulher causa piedade
Com o filho morto no regaço
Como se ainda o embalasse.
Não ergue os olhos para o céu
À espera de algum milagre
Mas baixa as pálpebras pesadas
Sobre o adorado cadáver.
Ressuscitá-lo ela não pode,
Ressuscitá-lo ela não sabe.
Curva-se toda sobre o filho
Para no seu seio guardá-lo,
Apertando-o contra o ventre
Com dor maior que a do parto.
Mãe, de Dor te vejo grávida,
Oh, mãe do filho morto!
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Biografia

Identificação e contexto básico

Dante Milano foi um poeta, crítico literário e professor brasileiro. Sua obra poética é caracterizada pela concisão, pela reflexão existencial e por uma linguagem depurada. Viveu e produziu a maior parte de sua obra no Brasil.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre sua infância e formação específica são escassas na bibliografia acessível, mas sabe-se que desenvolveu um apreço precoce pela leitura e pela arte. Sua formação acadêmica o conduziu à carreira universitária, onde se tornou um estudioso renomado.

Percurso literário

O percurso literário de Dante Milano iniciou-se com a publicação de seus poemas, que gradualmente chamaram a atenção pela originalidade e profundidade. Ao longo de sua carreira, não se limitou à criação poética, mas também se dedicou à crítica literária, analisando e interpretando a obra de outros escritores, especialmente os modernistas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Milano incluem coletâneas de poemas que exploram temas como o tempo, a memória, a efemeridade da existência, a solidão e a busca por sentido. Seu estilo é marcado pela contenção, pela precisão vocabular e pela ausência de excessos formais, privilegiando o verso livre e uma musicalidade discreta. A voz poética é predominantemente lírica e introspectiva, buscando uma universalidade a partir da experiência individual. A linguagem é densa em significado, com imagens que evocam sensações e reflexões profundas. Milano dialogou com a tradição, mas inseriu-se firmemente no contexto do modernismo brasileiro, adaptando suas inovações formais e temáticas à sua própria visão.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Dante Milano viveu em um período de efervescência cultural e política no Brasil, especialmente durante o século XX. Sua obra reflete as inquietações existenciais comuns a muitos intelectuais de sua época, em um país que passava por transformações sociais e urbanas significativas. Sua atuação como crítico literário o conectou a outros escritores e círculos intelectuais, contribuindo para o debate sobre a literatura brasileira moderna.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações sobre a vida pessoal de Dante Milano são restritas. Sabe-se que dedicou boa parte de sua vida à academia, como professor, além de sua produção literária e crítica. Sua postura reservada contribuiu para um certo mistério em torno de sua vida privada, o que, por vezes, se reflete na natureza introspectiva de sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Dante Milano como poeta e crítico literário consolidou-se ao longo do tempo. Sua obra poética, embora por vezes discreta em termos de popularidade massiva, é altamente valorizada por sua qualidade estética e profundidade intelectual. Sua atuação como crítico o estabeleceu como uma referência na análise da literatura brasileira moderna.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Milano foi influenciado por poetas que souberam explorar a linguagem com rigor e profundidade, e ele próprio influenciou gerações posteriores de poetas e críticos pela sua maestria formal e pela capacidade de tratar temas universais com singularidade. Seu legado reside na poesia que consegue, com poucos versos, evocar um universo de significados e emoções.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Dante Milano tem sido objeto de análise crítica que destaca sua capacidade de condensar complexidade existencial em formas poéticas minimalistas. As interpretações frequentemente ressaltam a exploração de temas filosóficos como a finitude do tempo e a busca por identidade em um mundo em constante mudança.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspecto interessante de sua obra é a aparente simplicidade formal que esconde uma grande profundidade temática e filosófica, um contraste que desafia leituras superficiais. Sua dedicação à crítica literária, muitas vezes focada em autores modernistas, demonstra um engajamento ativo com a história e a evolução da poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias exatas e a data de falecimento de Dante Milano, assim como a existência de publicações póstumas, não são amplamente divulgadas na bibliografia acessível, o que contribui para a aura de mistério que por vezes envolve sua figura.

Poemas

15

Pietá

Essa mulher causa piedade
Com o filho morto no regaço
Como se ainda o embalasse.
Não ergue os olhos para o céu
À espera de algum milagre
Mas baixa as pálpebras pesadas
Sobre o adorado cadáver.
Ressuscitá-lo ela não pode,
Ressuscitá-lo ela não sabe.
Curva-se toda sobre o filho
Para no seu seio guardá-lo,
Apertando-o contra o ventre
Com dor maior que a do parto.
Mãe, de Dor te vejo grávida,
Oh, mãe do filho morto!
2 468

Paragem


Com os meus bois,
Os meus bois que mugem e comem o chão,
Os meus bois parados,
De olhos parados,
Chorando,
Olhando...
O boi da minha solidão,
O boi da minha tristeza,
O boi do meu cansaço,
O boi da minha humilhação.
E esta calma, esta canga, esta obediência.


Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Distâncias.

In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.75. (Pedra mágica, 1
1 454

V [Na treva mais gelada, na brancura

Na treva mais gelada, na brancura
Mais cega e morta, a vida ainda transluz.
Até de dentro de uma sepultura
Brota um soluço trêmulo de luz,
A luz que sua, a luz que desfigura
As pétalas pendidas nos pauis,
A espuma nos penhascos, fria e pura,
As chamas em seus ápices azuis.
Desalentos, angústias e canseiras
Tornam maior, mais tenebroso o olhar
Que lembra o olhar dos mortos: só olheiras
São existências que se dão inteiras
E sofrem, como o vento, como o mar,
Como todas as coisas verdadeiras.


Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Sonetos e Fragmentos.

In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.31. (Pedra mágica, 1
1 255

Terra de Ninguém

A sala recende
A terra molhada,
A caule úmido e raiz apodrecida.

As flores sobre o cadáver
Contraem pétalas enregeladas.
A figura de cera no caixão bordado
Sorri como um cego sorri
Com ar de náusea.

Os convidados expandem uma tristeza festiva.
O defunto recusa
Qualquer comunicação com a humanidade
Que lhe é de todo indiferente agora.
(Ele que morreu "pela Causa" e recebe honras fúnebres.)

Em sua torre de marfim,
Sob o céu absoluto da paisagem devastada,
Reina, altivo. (Há coroas, há bendeiras na sala.)

Passante! descobre-te e não rias,
Respeita a morte e o fedor se sua glória.

1 258

Salmo Perdido

Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.

Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.

O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.

Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.

1 862

Elegia a Lígia

Lígia, teu nome de elegia
Te dá ao corpo moço um ar antigo
E cria em meu ouvido lento ritmo
Que me arrasta o absorto espírito
Para o verso e sua inútil tortura.

Torso de ânfora esguia!
Só o que amou deveras um quadro, um vaso, um objeto precioso,
Pode sentir o relevo suave do teu ventre,
Corpo de mulher,
Forma antiga e novíssima.

Perdoa aos poetas que te desnudam, te divinizam, te prostituem.
Em meus versos inteira te possuo.
Que importa a fêmea que se nega?
Transformada em poema,
Amo-te ainda mais!
Ajoelho agarrado a teus joelhos,
Não com palavras de fé
Mas impudente e irreverente
Profanando mas adorando
A tua imagem desfigurada.


Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Paisagens Submersas.

In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.100. (Pedra mágica, 1
1 454

Ao Tempo

Tempo, vais para trás ou para diante?
O passado carrega a minha vida
Para trás e eu de mim fiquei distante,
Ou existir é uma contínua ida
E eu me persigo nunca me alcançando?
A hora da despedida é a da partida

A um tempo aproximando e distanciando...
Sem saber de onde vens e aonde irás,
Andando andando andando andando andando

Tempo, vais para diante ou para trás?


Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Sonetos e Fragmentos.

In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.41. (Pedra mágica, 1
1 623

Objeto de Arte

Corpo de ancas opulentas,
Mulher de Angkor,
Coxas e tetas pedrentas
De árduo lavor.

Pedra, lição de escultura,
Da verdadeira
Carnadura, carne dura
Mais que a madeira

Ou o bronze que posto ao forno
Se liquefaz.
A pedra não; seu contorno
Mantém-se em paz

À maneira do medonho
Ser que no Egito
Contém o esfíngico sonho
Do granito.

Já no mármore a figura
Parece menos
Tosca; é mais branca, mais pura,
Mais lisa; é Vênus

Que, mesmo nua, ao expor
Sua vaidade,
Tem do mármore o pudor,
A castidade.

Ou então pedra-sabão,
Pedra-profeta,
Que da fêmea a carnação
Não interpreta.

Mas és da beleza o exemplo,
Pedra qualquer,
Se a figura em ti contemplo
De uma mulher,

Aparição singular,
Sem que me farte
Jamais o prazer de a olhar,
Objeto de arte.


In: MILANO, Dante. Poesia e prosa. Org. e apres. Virgílio Costa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira: Núcleo Ed. da UERJ, 1979. p.177-178. (Coleção vária). Poema integrante da série Últimos Poemas
1 158

Salmo Perdido

Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.

Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.

O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.

Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.


Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Terra de Ninguém.

In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.89. (Pedra mágica, 1
851

VII [Na noite cor de sono, cor de sonho

Na noite cor de sono, cor de sonho,
Fulgurando na treva, um raio estronda,
Final do céu, divino mas medonho.
E uma mulher sem ter onde se esconda,
Os cabelos desfeitos, aparece
E em meus braços se atira. Então, absorto,
Vi que o corpo, quando ama, desfalece,
Vi que o rosto, ao beijar, parece morto.
Como se o beijo os lábios lhe torcesse,
A boca toma a forma de um sorriso
Que se contrai, como se o beijo doesse.
Visões do amor, possuídas mas incertas.
O corpo se entregou, mas indeciso,
E deixou-se cair de mãos abertas.


Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Sonetos e Fragmentos.

In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.33. (Pedra mágica, 1
1 120

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