Lista de Poemas

Pietá

Essa mulher causa piedade
Com o filho morto no regaço
Como se ainda o embalasse.
Não ergue os olhos para o céu
À espera de algum milagre
Mas baixa as pálpebras pesadas
Sobre o adorado cadáver.
Ressuscitá-lo ela não pode,
Ressuscitá-lo ela não sabe.
Curva-se toda sobre o filho
Para no seu seio guardá-lo,
Apertando-o contra o ventre
Com dor maior que a do parto.
Mãe, de Dor te vejo grávida,
Oh, mãe do filho morto!
2 412

Paragem


Com os meus bois,
Os meus bois que mugem e comem o chão,
Os meus bois parados,
De olhos parados,
Chorando,
Olhando...
O boi da minha solidão,
O boi da minha tristeza,
O boi do meu cansaço,
O boi da minha humilhação.
E esta calma, esta canga, esta obediência.


Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Distâncias.

In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.75. (Pedra mágica, 1
1 416

Salmo Perdido

Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.

Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.

O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.

Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.

1 814

Terra de Ninguém

A sala recende
A terra molhada,
A caule úmido e raiz apodrecida.

As flores sobre o cadáver
Contraem pétalas enregeladas.
A figura de cera no caixão bordado
Sorri como um cego sorri
Com ar de náusea.

Os convidados expandem uma tristeza festiva.
O defunto recusa
Qualquer comunicação com a humanidade
Que lhe é de todo indiferente agora.
(Ele que morreu "pela Causa" e recebe honras fúnebres.)

Em sua torre de marfim,
Sob o céu absoluto da paisagem devastada,
Reina, altivo. (Há coroas, há bendeiras na sala.)

Passante! descobre-te e não rias,
Respeita a morte e o fedor se sua glória.

1 228

V [Na treva mais gelada, na brancura

Na treva mais gelada, na brancura
Mais cega e morta, a vida ainda transluz.
Até de dentro de uma sepultura
Brota um soluço trêmulo de luz,
A luz que sua, a luz que desfigura
As pétalas pendidas nos pauis,
A espuma nos penhascos, fria e pura,
As chamas em seus ápices azuis.
Desalentos, angústias e canseiras
Tornam maior, mais tenebroso o olhar
Que lembra o olhar dos mortos: só olheiras
São existências que se dão inteiras
E sofrem, como o vento, como o mar,
Como todas as coisas verdadeiras.


Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Sonetos e Fragmentos.

In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.31. (Pedra mágica, 1
1 228

Fuga do Centauro

Surpreendi-a numa gruta,
O corpo fosforescente
Como uma Santa! Porém,
Rindo, quase com desdém,
Do meu êxtase inocente,
Toda nua e transparente,
Sob o véu, numa impudente
Postura de prostituta.

Receoso, tentei fugir.
Ela pegou-me das crinas,
Em minhas costas montou
E meus flancos esporeou.
Quis domar-me com mãos finas.
Ah, que tu não me dominas!
Logo aflaram-me as narinas
E comecei a nitrir...

Fui beijá-la e dei dentadas.
Havia sangue em seu gosto.
Espanquei-a com carícias,
Massacrei-a de delícias.
Arrastei-lhe o corpo exposto,
Nua, o gesto decomposto,
E pus-lhe as patas no rosto.
— Ela dava gargalhadas.

Estatelada no chão
Saía dela um calor
De forno, que a consumia,
Um hálito de agonia
E de esquálido suor.
E vendo-a perder a cor,
Sentia nela o sabor
De toda carne: extinção.

Afinal me libertei
Do seu espantoso abraço
E larguei-a quase morta,
Esvaída, a boca torta,
As mãos hirtas, o olhar baço.
Afastei-me, firme o passo,
Respirando um novo espaço,
Vitorioso como um rei.

Ela ergueu-se e de mãos postas
Pediu-me, ao ver-me partir,
Que jamais a abandonasse.
Tinha lágrimas na face.
A princípio eu quis sorrir:
Voltar, depois de fugir?
E fugi, mas a nitrir,
Com ela nas minhas costas...


Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Momentos.

In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.130-131. (Pedra mágica, 1
1 238

O Amor de Agora é o Mesmo Amor de Outrora

O Amor de Agora é o Mesmo Amor de Outrora

O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.

1 246

Canção Bêbeda

Estou bêbedo de tristeza,
De doçura, de incerteza,
Estou bêbedo de ilusão,
Estou bêbedo, estou bêbedo,
Bêbedo de cair no chão.

Os que me virem caído
Pensarão que estou ferido.
Alguém dirá: "Foi suicídio!"
"É um bêbedo!" outros dirão.

E ficarei estirado,
Bêbedo, desfigurado.

Talvez eu seja arrastado
Pelas ruas, empurrado,
Jogado numa prisão.

Ninguém perdoa o meu sonho,
Riem da minha tristeza,

Bêbedo, bêbedo, bêbedo,

Em mim, humilhada a glória,
Escarnecida a poesia,

Rasgado o sonho, a ilusão
Sumindo, a emoção doendo.

E ficarei atirado,
Bêbedo, desfigurado.

1 117

Lagryma Negra

Aperte fortemente a penna ingratta
entre os dêdos nervosos e trementes,
e os versos jórram, claros e estridentes,
numa cascata, numa cataracta!

Escrevo, e canto cânticos ardentes,
enquanto dos meus olhos se desata
uma fiada de lagrymas de prata
como um collar de pérolas pendentes...

Eu canto o soffrimento, a ancia incontida
de amor, que é a maior ancia desta vida,
- vida a que a Humanidade se condemna!

E todo o meu sofrer, todo, se pinta
neste pingo de dor -- pingo de tinta,
lagryma negra que me cáe da penna.

1 345

Salmo Perdido

Creio num deus moderno,
Um deus sem piedade,
Um deus moderno, deus de guerra e não de paz.

Deus dos que matam, não dos que morrem,
Dos vitoriosos, não dos vencidos.
Deus da glória profana e dos falsos profetas.

O mundo não é mais a paisagem antiga,
A paisagem sagrada.

Cidades vertiginosas, edifícios a pique,
Torres, pontes, mastros, luzes, fios, apitos, sinais.
Sonhamos tanto que o mundo não nos reconhece mais,
As aves, os montes, as nuvens não nos reconhecem mais,
Deus não nos reconhece mais.


Publicado no livro Poesias (1948). Poema integrante da série Terra de Ninguém.

In: MILANO, Dante. Poesias. Pref. Ivan Junqueira. Petrópolis: Ed. Firmo, 1994. p.89. (Pedra mágica, 1
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Identificação e contexto básico

Dante Milano foi um poeta, crítico literário e professor brasileiro. Sua obra poética é caracterizada pela concisão, pela reflexão existencial e por uma linguagem depurada. Viveu e produziu a maior parte de sua obra no Brasil.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre sua infância e formação específica são escassas na bibliografia acessível, mas sabe-se que desenvolveu um apreço precoce pela leitura e pela arte. Sua formação acadêmica o conduziu à carreira universitária, onde se tornou um estudioso renomado.

Percurso literário

O percurso literário de Dante Milano iniciou-se com a publicação de seus poemas, que gradualmente chamaram a atenção pela originalidade e profundidade. Ao longo de sua carreira, não se limitou à criação poética, mas também se dedicou à crítica literária, analisando e interpretando a obra de outros escritores, especialmente os modernistas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Milano incluem coletâneas de poemas que exploram temas como o tempo, a memória, a efemeridade da existência, a solidão e a busca por sentido. Seu estilo é marcado pela contenção, pela precisão vocabular e pela ausência de excessos formais, privilegiando o verso livre e uma musicalidade discreta. A voz poética é predominantemente lírica e introspectiva, buscando uma universalidade a partir da experiência individual. A linguagem é densa em significado, com imagens que evocam sensações e reflexões profundas. Milano dialogou com a tradição, mas inseriu-se firmemente no contexto do modernismo brasileiro, adaptando suas inovações formais e temáticas à sua própria visão.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Dante Milano viveu em um período de efervescência cultural e política no Brasil, especialmente durante o século XX. Sua obra reflete as inquietações existenciais comuns a muitos intelectuais de sua época, em um país que passava por transformações sociais e urbanas significativas. Sua atuação como crítico literário o conectou a outros escritores e círculos intelectuais, contribuindo para o debate sobre a literatura brasileira moderna.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Informações sobre a vida pessoal de Dante Milano são restritas. Sabe-se que dedicou boa parte de sua vida à academia, como professor, além de sua produção literária e crítica. Sua postura reservada contribuiu para um certo mistério em torno de sua vida privada, o que, por vezes, se reflete na natureza introspectiva de sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Dante Milano como poeta e crítico literário consolidou-se ao longo do tempo. Sua obra poética, embora por vezes discreta em termos de popularidade massiva, é altamente valorizada por sua qualidade estética e profundidade intelectual. Sua atuação como crítico o estabeleceu como uma referência na análise da literatura brasileira moderna.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Milano foi influenciado por poetas que souberam explorar a linguagem com rigor e profundidade, e ele próprio influenciou gerações posteriores de poetas e críticos pela sua maestria formal e pela capacidade de tratar temas universais com singularidade. Seu legado reside na poesia que consegue, com poucos versos, evocar um universo de significados e emoções.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Dante Milano tem sido objeto de análise crítica que destaca sua capacidade de condensar complexidade existencial em formas poéticas minimalistas. As interpretações frequentemente ressaltam a exploração de temas filosóficos como a finitude do tempo e a busca por identidade em um mundo em constante mudança.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspecto interessante de sua obra é a aparente simplicidade formal que esconde uma grande profundidade temática e filosófica, um contraste que desafia leituras superficiais. Sua dedicação à crítica literária, muitas vezes focada em autores modernistas, demonstra um engajamento ativo com a história e a evolução da poesia brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias exatas e a data de falecimento de Dante Milano, assim como a existência de publicações póstumas, não são amplamente divulgadas na bibliografia acessível, o que contribui para a aura de mistério que por vezes envolve sua figura.