Lista de Poemas

Sê Feliz

Se queres ser feliz, afasta-te, querida!
Da minha alma! E, a sorrir, nem mais procure vê-la!
Uma estrela — Que é luz, deve unir-se à vida
Não à treva — o que sou. Mas à lua, a outra estrela!

Tão formosa e tão moça, afeita à brisa mansa
Das manhãs de sorriso e tardes de ventura,
Não calculas a dor do amar sem esperança;
Do ratear, como um cego, a noite da amargura...

A alma, que conheceste, alegre e calma, outrora
Como um trecho de sol, embebido de canto,
Recordas como vive, erma e calada, agora
Em pedaço de abismo encharcado de pranto.

A ti tudo sorri! Nem pensas no futuro
E o pensar no futuro envenena o presente!
Se és tão nova e tão bela, e o teu ser é tão puro
Há de te ser a vida um sonho alvinitente!

A minha alma, querida, é um sítio abandonado
Onde, em antigo tempo, houve trabalho e festa:
Um sitio claro e verde, harmônico e dourado
Como um sonho de flora a uma canção de vesta...
...............................................................................
Só o que vive a sofrer sabe o que é castigo!
Só o que vive de amor sabe o que o amor nos diz.
Tu me amas, talvez... mas atende ao que digo:
Afasta-te de mim, se queres ser feliz!...

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Hamlet

Não sei que estranha dor meu peito dilacera,
Que esquisito negror meu espírito ensombra!
Tenho sorrisos de anjo e arreganhes de fera,
Sinto chamas de inferno e frescuras de alfombra!

Sou malvado e sou bom! Minhalma ora é sincera,
ora de ser traidora ela própria se assombra!
Que clamores de inverno e paz de primavera!...
Escarneço da morte e temo a minha sombra!

Nervo a nervo, a vibrar, misteriosa e vaga,
Anda-me o corpo todo a nevrose de um tédio,
Que dos pés à cabeça atrozmente me alaga...

Onde um recurso ao mal que me banha e transborda?
Minha dor é sem fim! Eu só tenho um remédio:
o suicídio — uma bala... um punhal... uma corda!...

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O Bambu

Exposto ao dia, à noite, à beira da lagoa,
Onde se miram, rindo, as boninas do prado,
Vive um velho bambu, velho, curvo e delgado,
A escutar a canção que o triste vento entoa...

Jamais os leves pés de um trovador alado,
Desses que pela mata andam cantando à toa,
Pousara-lhe num ramo! Apenas o povoa
Alta noite, agourento, um corujão rajado...

E vive, — arcaico monge a gemer solitário, —
A sua dor sem fim, o seu viver mortuário,
Tristonho a refletir no fundo azul das águas...

Como o bambu da mata, exposto ao sol e ao vento,
Do deserto sem fim de meu padecimento,
Triste nos olhos teus reflito as minhas mágoas!...

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Identificação e contexto básico

Alcides Freitas foi um poeta angolano, cuja obra se destaca no panorama da literatura de expressão portuguesa, particularmente no contexto da luta pela independência de Angola. A sua produção poética, embora não vasta, é representativa do espírito de resistência e afirmação nacionalista que caracterizou muitos escritores angolanos do seu tempo.

Infância e formação

As informações sobre a infância e formação de Alcides Freitas são escassas nos registos literários disponíveis. Sabe-se que a sua geração de escritores foi formada sob o jugo do colonialismo português, o que inevitavelmente influenciou a sua visão de mundo e a sua produção literária. A educação formal, para muitos angolanos, era limitada e frequentemente moldada pela ideologia colonial, o que pode ter incentivado o desenvolvimento de uma consciência crítica e a busca por outras formas de expressão e conhecimento.

Percurso literário

Alcides Freitas emergiu como poeta numa época em que a literatura angolana começava a ganhar voz como instrumento de denúncia social e política. A sua obra insere-se, em grande medida, na corrente da "poesia de protesto" ou "poesia engajada", que floresceu nas décadas de 1940, 1950 e 1960 em Angola. Este período foi crucial para a formação de uma consciência nacional e para a mobilização cultural contra a dominação portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de Alcides Freitas é marcada por um tom de denúncia veemente contra a opressão colonial, a exploração e a marginalização do povo angolano. Os seus versos frequentemente exaltam a terra natal, a dignidade do povo africano e o desejo inabalável de liberdade e autodeterminação. O estilo é direto e incisivo, utilizando uma linguagem forte e emotiva para transmitir a sua mensagem. A forma poética pode variar, mas o foco principal reside no conteúdo político e social. Temas como a injustiça, a saudade da terra, a esperança num futuro livre e a unidade nacional são centrais na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Freitas escreveu num período em que Angola se encontrava sob domínio colonial português, um regime caracterizado pela segregação racial, pela exploração económica e pela repressão política. A literatura tornou-se um dos poucos meios de expressão e de resistência para os intelectuais angolanos, muitos dos quais foram forçados ao exílio ou enfrentaram perseguições. Ele fez parte de uma geração de escritores que pavimentou o caminho para a emergência de movimentos de libertação e para a eventual independência de Angola.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Alcides Freitas são limitados. No entanto, é razoável inferir que a sua experiência de vida, como a de muitos angolanos na época, foi marcada pelas dificuldades impostas pelo sistema colonial, pela discriminação e pela forte consciência da necessidade de mudança.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora o reconhecimento de Alcides Freitas possa não ter atingido a amplitude de outros poetas angolanos mais proeminentes, o seu trabalho é valorizado no contexto da história literária de Angola. A sua poesia representa um importante testemunho do espírito de luta e da formação da identidade nacional.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A sua obra dialoga com o contexto da literatura de protesto africana e antilhana. O seu legado reside na contribuição para a construção de uma voz literária angolana que expressou as aspirações de liberdade e dignidade do seu povo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Freitas pode ser interpretada como um grito de liberdade e um chamado à ação, refletindo as tensões sociais e políticas da sua época. A sua obra é crucial para entender as raízes da literatura angolana moderna.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Devido à escassez de informações detalhadas, muitos aspetos da sua vida e obra permanecem menos conhecidos pelo grande público, o que sublinha a importância de investigações mais aprofundadas sobre a sua figura.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há informações disponíveis sobre as circunstâncias da morte de Alcides Freitas ou sobre publicações póstumas significativas que se destaquem.