Lista de Poemas

Há palavras que nos beijam

Há palavras que nos beijam
Como se tivessem boca,
Palavras de amor, de esperança,
De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas
Quando a noite perde o rosto,
Palavras que se recusam
Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas
Entre palavras sem cor,
Esperadas, inesperadas
Como a poesia ou o amor.

(O nome de quem se ama
Letra a letra revelado
No mármore distraído,
No papel abandonado)

Palavras que nos transportam
Aonde a noite é mais forte,
Ao silêncio dos amantes
Abraçados contra a morte.
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Amigo

Mal nos conhecemos
Inauguramos a palavra amigo!

Amigo é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo

Uma casa, mesmo modesta, que se oferece.
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

Amigo (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
Amigo é o contrário de inimigo!

Amigo é o erro corrigido,
Não o erro perseguido, explorado.
É a verdade partilhada, praticada.

Amigo é a solidão derrotada!

Amigo é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
Amigo vai ser, é já uma grande festa!
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Sei os teus seios

Sei os teus seios.
Sei-os de cor.

Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.

Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.

Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!

Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!

Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p'la manhã?

Quantas vezes
Interrogaste, ao espelho, os seios?

Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!

Quantos seios ficaram por amar?

Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!

Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!

Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas, quarentonas lágrimas...

Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.

Seios que vão à escola p'ra de lá saírem
Direitinhos p'ra casa...

Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!

Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...

O amor excessivo dum poeta:
"E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio"
(Gomes Leal)

Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!

Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.

Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!

Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!

"Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos"
(Abade de Jazente)

Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejaste, que perseguiste
Até entrares, a cavalo, p'la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
("É isto que amas?")
De repente a podridão do seio.

Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...

Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...

Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...

Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!

Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.

Vejo os teus seios, absortos
Sobre um pequeno ser
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A meu favor

A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.
19 001

Nesta curva tão terna e lancinante

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.
18 493

Mesa dos sonhos

Ao lado do homem vou crescendo

Defendo-me da morte quando dou
Meu corpo ao seu desejo violento
E lhe devoro o corpo lentamente

Mesa dos sonhos no meu corpo vivem
Todas as formas e começam
Todas as vidas

Ao lado do homem vou crescendo

E defendo-me da morte povoando
de novos sonhos a vida.
16 060

Gaivota

Se uma gaivota viesse
trazer-me o céu de Lisboa
no desenho que fizesse,
nesse céu onde o olhar
é uma asa que não voa,
esmorece e cai no mar.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se um português marinheiro,
dos sete mares andarilho,
fosse quem sabe o primeiro
a contar-me o que inventasse,
se um olhar de novo brilho
no meu olhar se enlaçasse.

Que perfeito coração
no meu peito bateria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde cabia
perfeito o meu coração.

Se ao dizer adeus à vida
as aves todas do céu,
me dessem na despedida
o teu olhar derradeiro,
esse olhar que era só teu,
amor que foste o primeiro.

Que perfeito coração
morreria no meu peito morreria,
meu amor na tua mão,
nessa mão onde perfeito
bateu o meu coração.

20 845

O amor

é o amor
O amor é o amor -e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar,a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar,cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino,sem medo,sem pudor,
e trocamos -somos um? somos dois?-
espírito e calor!

O amor é o amor -e depois?!

in:Abandono Vigiado(1960)
8 182

O teu nome

Flor de acaso ou ave deslumbrante,
Palavra tremendo nas redes da poesia,
O teu nome,como o destino,chega,
O teu nome,meu amor,o teu nome nascendo
De todas as cores do dia!

8 541

Flor em livro dormida

(J.C.de Melo Neto)

Fechado,espalmado num missal é que eu me vejo,
como peça de herbário dum comércio amoroso
que há um século se travou entre Dom Brotoejo
e Dona Amélia Joana Cisneiros Monterroso.

Antepassados meus?Qual quê!Antepassados nossos,
que ao santo sacrifício levavam floretas,
trocavam os missais(Deus meu!,hoje são ossos...)
olhos nos olhos(...ossos nos ossos das comuns valetas?)

Mais que a letra,é o espírito que no livro procuro,
mesmo que seja só o levante da carne
duns pobres queridos que transformavam tudo
-missa,missal,flor-em mensagem e secreto alarde!

Consumidores de livros,se quiserdes salvar
vossas almas-lombadas de bárbaros prosaicos,
tereis que ,furtivos,procurar,folhear
uns quantos alfarrábios e,neles,encontrar
o herbário-mensagem dos amantes heróicos!

in:Dezanove Poemas(1983)

8 000

Comentários (6)

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Sinceramente este foi um dos poemas mais eloquentes que já li sobre amizades ... é de uma delicadeza surrealista grandiosa.

mgenthbjpafa21

Ok, apagaram hoje vou escrever sobre o grande OºNEILL

Zéca
Zéca

Muito Romântico :--

Pedro
Pedro

Gostei muito, os poemas são bonitos

Ivo
Ivo

Obrigado pela informação!

Identificação e contexto básico

Alexandre Meneses de Macedo O'Neill foi um poeta português. Nasceu em Lisboa em 1924 e faleceu na mesma cidade em 1986. É um dos nomes mais importantes do surrealismo em Portugal, embora sua obra transcenda rótulos.

Infância e formação

Teve uma infância marcada por viagens devido à profissão do pai, que era militar. Frequentou o Colégio Militar e, posteriormente, a Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, curso que abandonou. Sua formação cultural foi ampla e autodidata.

Percurso literário

A sua atividade literária começou nos anos 40, integrando-se no movimento surrealista português. Colaborou em diversas publicações, como as revistas "Sinal" e "Os Surrealistas". A sua obra poética, apesar de concisa em volume, é de enorme impacto.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A poesia de O'Neill é caracterizada pela irreverência, pelo humor negro, pela subversão da linguagem e pela exploração do inconsciente. Utiliza o verso livre e a imagem onírica para criar uma crítica mordaz à sociedade burguesa, aos costumes e à própria condição humana. Temas como o amor, a morte, a incomunicabilidade e a crítica social são recorrentes. Sua linguagem é precisa, inventiva e surpreendente, capaz de criar efeitos de estranhamento e encantamento.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Viveu a maior parte da sua vida sob a ditadura do Estado Novo, um período de repressão e censura. O movimento surrealista em Portugal, apesar de perseguido, representou uma importante forma de contestação e de busca por liberdade criativa. O'Neill manteve relações com outros artistas e intelectuais da época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Alexandre O'Neill teve uma vida pessoal marcada por um certo isolamento e por dificuldades financeiras. Teve uma carreira discreta como publicitário e tradutor, vivendo muitas vezes de forma boémia. A sua personalidade era complexa, alternando entre o humor e uma profunda melancolia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra poética seja de culto e reconhecida pela sua originalidade e qualidade, O'Neill não teve um reconhecimento público e institucional proporcional à sua importância durante a vida. A sua obra ganhou maior visibilidade e prestígio após a sua morte.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Alexandre O'Neill é uma figura incontornável do surrealismo português e da poesia do século XX. Influenciou gerações de poetas com a sua liberdade criativa, a sua audácia verbal e a sua visão crítica do mundo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de O'Neill tem sido objeto de múltiplos estudos críticos que exploram as suas conexões com o surrealismo internacional, a sua crítica social e a sua originalidade linguística. A dualidade entre lirismo e ironia é um ponto central de análise.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Foi um dos fundadores da revista "Sinal", um dos principais órgãos do surrealismo em Portugal. A sua poesia é conhecida pela sua capacidade de captar o absurdo do quotidiano e transformá-lo em arte.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 1986, deixando um legado poético que continua a fascinar e a inspirar. A sua obra é publicada e estudada, consolidando o seu lugar na história da literatura portuguesa.