Almeida Garrett

Almeida Garrett

1799–1854 · viveu 55 anos PT PT

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett foi um escritor, poeta, dramaturgo, político e jornalista português, uma das figuras centrais do Romantismo em Portugal. A sua obra abrange uma vasta gama de géneros, desde a poesia lírica e épica ao teatro e ao romance, sendo conhecido pela sua defesa da língua portuguesa, pela inovação formal e pela sua forte intervenção cívica e política.

n. 1799-02-04, Porto · m. 1854-12-09, Lisboa

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Barca Bela

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela,
Só de vê-la,
Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!

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Biografia

Identificação e contexto básico

João Baptista da Silva Leitão de Almeida Garrett, mais conhecido como Almeida Garrett, foi um influente escritor, poeta, dramaturgo, político, jornalista e estadista português. Nasceu a 4 de fevereiro de 1799, no Porto, e faleceu em Lisboa a 9 de dezembro de 1854. Era filho de uma família da pequena nobreza agrária do Minho. A sua nacionalidade era portuguesa e escrevia em português. Garrett viveu numa época de profundas transformações em Portugal, marcada pelas Guerras Napoleónicas, pela Invasão Francesa, pela Revolução Liberal de 1820, pela Guerra Civil entre absolutistas e liberais, e pela consolidação do Estado liberal.

Infância e formação

Almeida Garrett passou a sua infância e juventude no Porto e, posteriormente, em Inglaterra, para onde a família se refugiou durante as invasões francesas. A sua formação inicial foi assegurada por tutores e pela Universidade de Coimbra, onde estudou Direito. Foi em Inglaterra que teve contacto com a literatura romântica europeia, o que influenciou decisivamente a sua obra futura. A experiência do exílio e do contacto com outras culturas moldaram o seu pensamento liberal e a sua visão da identidade nacional portuguesa.

Percurso literário

O percurso literário de Garrett é notável pela sua diversidade e pela sua capacidade de inovação. Iniciou a sua carreira com poemas de inspiração neoclássica e romântica, como "O Gênio de Portugal" (1821). A sua obra evoluiu consideravelmente, explorando a poesia lírica, a epopeia ("D. João de Castro", 1839), o drama ("Frei Luís de Sousa", 1843) e o romance ("Viagens na Minha Terra", 1846). Garrett foi um fervoroso defensor da língua portuguesa e um dos impulsionadores do Romantismo em Portugal. Colaborou em diversas publicações e foi um dos fundadores da "Academia das Artes".

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Garrett é caracterizada pela sua diversidade temática e formal. Na poesia, explorou temas como o amor, a pátria, a religião e a história. No teatro, revolucionou o drama português com "Frei Luís de Sousa", que se tornou um marco do Romantismo pela sua intensidade dramática, pela profundidade psicológica das personagens e pela sua crítica à intolerância religiosa e política. Em "Viagens na Minha Terra", criou um novo modelo de romance português, combinando narrativa, digressões filosóficas e poesia, com uma linguagem viva e inovadora. O seu estilo é marcado pela paixão, pelo lirismo, pela expressividade e pela busca de uma linguagem que refletisse a alma portuguesa. Defendeu a renovação da métrica e da rima, e a incorporação de elementos da tradição popular na literatura.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Garrett foi uma figura central na vida cultural e política de Portugal no século XIX. Como liberal, participou ativamente nas lutas políticas do seu tempo, sendo exilado em duas ocasiões. A sua obra reflete as tensões entre o absolutismo e o liberalismo, a busca pela identidade nacional após as invasões francesas e a necessidade de modernização do país. Foi contemporâneo de figuras como Alexandre Herculano e Camilo Castelo Branco, com quem, no entanto, manteve relações por vezes tensas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Garrett foi intensa e multifacetada. Foi um homem de ação, envolvido em causas políticas, mas também um dedicado criador literário. As suas relações familiares foram marcadas por perdas e desafios. A sua carreira política incluiu cargos como deputado e ministro dos Negócios Estrangeiros. A sua dedicação à causa liberal e à renovação cultural de Portugal consumiram grande parte da sua energia e vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Almeida Garrett é hoje considerado um dos maiores vultos da literatura portuguesa e um dos fundadores do Romantismo em Portugal. Em vida, foi uma figura polémica, admirado pelos liberais e criticado pelos conservadores. A sua obra teatral, em particular "Frei Luís de Sousa", foi aclamada e o seu romance "Viagens na Minha Terra" tornou-se um clássico. Recebeu diversos encargos e honras, mas a sua vida foi também marcada por dificuldades e exílios.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Garrett foi influenciado por autores como Lord Byron, Victor Hugo e Schiller, bem como pela tradição literária portuguesa, incluindo Camões. A sua obra influenciou gerações posteriores de escritores portugueses, consolidando o Romantismo e abrindo caminhos para a renovação da literatura nacional. O seu legado reside na sua defesa da língua portuguesa, na sua capacidade de inovar nas formas literárias e na sua profunda ligação entre a literatura e a vida cívica. A sua figura é central na construção do cânone literário português.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Garrett tem sido analisada sob diversas perspetivas: a sua dimensão romântica, o seu nacionalismo, a sua crítica social e política, e a sua inovação formal. As análises focam-se na complexidade das suas personagens, na força dos seus diálogos e na forma como soube integrar elementos da tradição popular e da história portuguesa na sua criação. Debates críticos abordam a sua relação com o liberalismo e o seu papel na formação da identidade nacional.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Garrett foi um fervoroso opositor das "cartas de amor", consideradas por ele um género literário inferior e artificial. A sua conhecida obra "Viagens na Minha Terra" é frequentemente vista como um reflexo das suas próprias experiências e digressões pelo país. A sua paixão pelo teatro levou-o a fundar o "Teatro Nacional D. Maria II".

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Almeida Garrett faleceu em Lisboa, em 1854, vítima de uma doença pulmonar. A sua morte foi sentida como uma grande perda para a cultura portuguesa. A sua memória é a de um grande homem de letras e um patriota, cuja obra continua a ser lida, estudada e admirada, representando um pilar fundamental da literatura e do pensamento português.

Poemas

20

Gozo e dor

Se estou contente, querida,
Com esta imensa ternura
De que me enche o teu amor?
Não. Ai não; falta-me a vida;
Sucumbe-me a alma à ventura:
O excesso de gozo é dor.

Dói-me alma, sim; e a tristeza
Vaga, inerte e sem motivo,
No coração me poisou.
Absorto em tua beleza,
Não sei se morro ou se vivo,
Porque a vida me parou.

É que não há ser bastante
Para este gozar sem fim
Que me inunda o coração.
Tremo dele, e delirante
Sinto que se exaure em mim
Ou a vida ou a razão.

2 782

NÃO TE AMO

Não te amo, quero-te: o amar vem dalma.
E eu nalma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

3 142

DESTINO

Quem disse à estrela o caminho
Que ela há-de seguir no céu?
A fabricar o seu ninho
Como é que a ave aprendeu?
Quem diz à planta --- > ---
E ao mudo verme que tece
Sua mortalha de seda
Os fios quem lhos enreda?

Ensinou alguém à abelha
Que no prado anda a zumbir
Se à flor branca ou à vermelha
O seu mel há-de ir pedir?

Que eras tu meu ser, querida,
Teus olhos a minha vida,
Teu amor todo o meu bem...
Ai! não mo disse ninguém.
Como a abelha corre ao prado,
Como no céu gira a estrela,
Como a todo o ente o seu fado
Por instinto se revela,
Eu no teu seio divino
Vim cumprir o meu destino...
Vim, que em ti só sei viver,
Só por ti posso morrer.

2 927

Rosa e Lírio

A rosaÉ formosaPor que lhe chamam — florDamorNão sei.

A florBem de amorÉ o lírioTem mel no aroma, —dorNa corO lírio.

Se o cheiroÉ fagueiroNa rosa,Se é de beleza — morPrimorA rosa,

No lírioO martírioQue é meuPintado vejo: — cor E ardor É o meu.

A rosa É formosa,Bem sei...E será de outros florDamor ..Não sei.

3 853

Tronco Despido (1828)

Virgílio,
Sine nomine corpus
Qual tronco despido
De folha e de flores,
Dos ventos batido
No inverno gelado
De ardentes queimores
No estio abrasado,
De nada sentido,
Que nada ele sente...
Assim ao prazer,
À dor indifrente,
Vão-me as horas da vida
Comprida
Correndo,
Vivendo,
Se é vida
Tam triste viver.

3 110

A Tempestade (1828)

Virgílio,
Coeco carpitur igni
I

Sobre um rochedo
Que o mar batia,
Triste gemia
Um desgraçado,
Terno amador.
Já nem lhe caem
Dos olhos lágrimas,
Suspiros férvidos
Apenas contam
Seu triste amor.

II

Ondas, clamava o mísero,
Ondas que assim bramais,
Ouvi meus tristes ais!
Horrível tempestade,
Medonho furacão,
Não é mais agitado
Do que o meu coração,
O vosso despregado,
Horrisonoo bramar!
Ancia que atropela
Meu lânguido peito,
É mais violenta
Que o tempo desfeito,
Que a onda encapela,
Que a agita a tormenta
No seio do mar.

III

Mas, ah! se o negrume
O sol dissipara
Calmara
Seu nume,
O horror do tufão.
Assim à minha alma
A calma
Daria
De Armia
Um sorriso:
Um raio de esprança
Do paraíso
Traria
A bonança
Ao meu coração.

2 395

Não te amo

Não te amo, quero-te: o amor vem dalma.
E eu nalma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! Não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! Não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

3 265

Barca bela

Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela.
Que é tão bela,
Oh pescador?

Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Oh pescador!

Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Oh pescador!

Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Oh pescador.

Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela
Foge dela
Oh pescador!

2 487

Ignoto Deo

D.D.D.

Creio em ti, Deus: a fé viva
De minha alma a ti se eleva
És: - o que és não sei. Deriva
Meu ser do teu: luz... e treva,
Em que - indistintas! - se envolve
Este espírito agitado,
De ti vem, a ti devolve.
O nada, a que foi roubado
Pelo sopro ciador
Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive de eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio
Beleza és tu, luz és tu.
Verdade és tu só. Não creio
Senão em ti; o olho nu
Do homem não vê na terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência! a real beleza,
O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que inspirando se afasta,
Ignoto Deo, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vãs e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu consagrado
A teu altar, me prostro e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro - confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só spera.

2 263

Não te amo

Não te amo, quero-te: o amor vem dalma.
E eu nalma --- tenho a calma,
A calma --- do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida --- nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai! não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

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Comentários (2)

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Maria
Maria

lindos e enternecedores todos os seus versos

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Bonito