Gestação
De
silêncio
também se faz o canto
gestação da palavra nunca dita
que à obscuridade a luz traz
e o esquecimento transfigura
em que lugar
o prenhe ventre gera
o milagre da palavra?
Formas
Às
vezes eu penso
um quadro que inventasse
na orgia dos sentidos
na bebedeira de cores
e na forma instante
que o revelasse
Às vezes eu sinto
O inaudível choro de um instrumento
no sentido abraço que toca e arranca
a humana voz presa
a um violoncelo
Às vezes eu vejo
a forma incrustada numa pedra tosca
e desprender-se dela a estátua talhada
a forma acabada ..a mão e o cinzel.
Inércia
Como
onda que se tivesse desfeito
sem mais regressar à maré
olho-me…
estendida na praia em que me desfiz
Nem um desejo macula a limpidez
do vazio
sinto-me movimento mecânico
que algo anima,
mas será que vibra ?
Não sei porque se desfaz a gente
e se cansa em nós a vida
quando o sol está a pino
e é pleno Verão ainda.
Invés
Diante
do espelho
não damos conta de nada:
os sulcos, a ausência do sorriso
a face petrificada…
o espelho devolve o rosto
sem denunciar a máscara
Diante dos outros
erguemos muralhas
e a hipocrisia faz
bem ou mal o seu papel
simulados jogos
onde o vazio é senhor.
Longitudinal
Olhamos
os seres da gestação
espaço de chegada e de onde partimos,
viscosos restos de vidas vagas
desprendem-se da memória
lâmina
Nostálgicos retratos
do futuro adiante,
um adeus expresso em nossas vidas
longitudinal e sem remédio
roem interiores
os vermes da ausência
esse tanto que quisemos
esse pouco que logramos
esse nada que soubemos
da inexplicável presença.
Signos
Emergem
em sobressalto do fundo,
onde quedos e adormecidos permanecem
subterrâneos seres
desnudos revelam-se à plena luz da poesia,
signos interpelando mudos
a chave nas palavras contida
olhos que em segredo incitam
ao gesto de abrir comportas à torrente do sentido
que se adivinha no rosto
sereno e impassível
das palavras que nos fitam.
Além
E
disse o coração ao Homem:
que te não canse o olhar
que te não canse o sentir
que te não canse o andar
é sempre mais além
que te vais descobrir.
Ímpeto
Espraiam-se
os olhos
lonjura de mar que acerca
o infinito
Pendentes no ondear
os sentidos adormecem
a saudade de azul e sal
abrem-se os mastros
ao sol
a nave inteira reflectida
funde-se no movimento das marés,
nas velas e na proa
o ímpeto que a viagem anuncia.
Gasto o momento
de permanências ancoradas
os remos ensaiam o gesto
de asas
rasgando o espaço e o tempo
da demora.
Poiésis
Vinhas
e eu não sei donde
nem porque vinhas
mas à tua chegada
alguma coisa se iluminava
e crescia
Revelação,
interminável afã de quem se busca
na imensidão dos estilhaços
que de si dispersos
vogam por aí
Vinhas e trazias
dores de punhais e mel
e cada sílaba carregava
o gosto a verdade
Silenciada a fonte,
de quando em vez se sente ainda,
hoje
menos cismo e mais corrente.
Só por vires
abençoada sejas
Mundo
Tudo
me lembra o imundo
e de beleza é a sede
dos meus olhos
de cada fibra do meu corpo
de cada nervo que me percorre
Tudo me lembra o imundo
e cada gesto, cada rosto
cada palavra
renova a lembrança da náusea
Sacode o meu corpo um leve estertor
e numa sonata de luz
lavo os resquícios
da sujidade humana que trago em mim.