Conjugação
Sonhei
que era esta
que sou
e sendo esta
era ainda outra
que também sou
vi-me desdobrada
e una
e sonhei um tempo único
pretérito e espera
saber e adivinhação
Sonhei
tudo podia ser
a negação de limites
e a mutação contínua.
Sou, sendo
o conjugado verbo
do meu ser condicional imperfeito!
O Rosto da Verdade
Rasgam-se
os olhos
diante das feridas descobertas
esmaga-se a indiferença
frente ao rosto da verdade
Granítico e implacável
o rosto da verdade
como espectro sobrevoa
entra pelo coração
pelos sentidos, pelos poros.
Já tem nome o que sinto:
dor de viver,
não a sente o vivo-morto
Orientação
Ainda
que perdidos
meus passos pareçam…
ainda que a alma segrede
o desencontro dos exilados,
eu sei de uma razão…
e por ela sigo,
busca incessante
teimando o caminho.
leva-me o sonho
que em mim ganhou voz…
minha estrela, meu norte,
meu rumo, meu trilho
minha barca d´Alva
levando na proa
o mapa dos ventos que
lhe dá sentido.
Profecias
Vêm
de longe
e trazem nas mãos
o desenho da rosa
milénios sepultada nas mãos
a eterna forma da rosa
Vêm de longe
e sabem o nome de todas as coisas,
olhos de mar sereno
repousam no fundo de um sonho
antigo.
vêm de longe
e pelos caminhos há estrelas,
profetas do sol
espalham enigmas e gravam sinais.
nos templos, nos livros,
nos olhos de lume
que perscrutam cifras
dum tempo perene
insana tarefa
perdida na busca do sentido
vago
deste tempus breve.
Inscrição
Por
todos os sinais
por desvendar
gestos, palavras, caminhos
pelo obscuro ventre da verdade
por tudo o que somos,
ou ainda não…
por todas as noites
grávidas de luzes subtis,
auroras, alvoradas
ansiadas…
por aquilo que faremos,
caminhos reinventados,
por aquilo que ainda é sonho
e é urgente cumprir…
do fundo em nós se erguerão
gritos rasgando silêncios
lanças guerreiras
de encontro ao que nega
a ousadia a vida,
o devir, o crer.
Transfigurados os olhos,
volta-se à raiz de tudo
e a singular forma Humana,
no âmago do ser inscrita,
emergirá lá do fundo
noutra imagem reflectida.
Cifra
Regresso
à minha forma
de ser
inscrita nas palavras
às palavras regresso
como a um espelho…
profano o silencio,
quem sabe, a verdade
no regresso indevido
ou inexacto às cifras
que não dizem.
A um Suicída
(11/12/85)
A
manhã chegava
de orlas nocturnas adornada
Nos trilhos de um comboio
a vida parara de correr…
A manhã chegava
e despontava negro
o dia
a lógica e o absurdo
sob o manto matinal de brumas
nas letras a preto e branco
de um jornal.
Guerra
Já
nada os fazia seguir ou ficar…
lá ao longe o eco de explosões e gritos
O asfalto da guerra
e a vida distante
envolta em lembranças de sonhos perdidos,
O sonho tingido de fumos e negro
inventava cores desenhava horizontes
cada passo em frente era um passo
a menos
cada vez mais perto
do sonho acabar
Corpos e memória desnudos, exaustos
Cavados por dentro
por uma raiva lume,
funda de raiz…
um grito apertado
expresso nos olhos,
e no crispar da arma
nas mãos de crianças
sem tempo de o ser…
E os senhores do tempo
sem alma e sem Deus
perdidos nos jogos de ódios
e razões,
lembram novos Neros
saboreando pérfidos
a visão do sangue
invadindo a arena.
À Margem
Expiro
numa praia longínqua
dentro de mim
Expiro
à margem de mim
onda desfeita no movimento
incessante
Expiro
aspirando à luz
que não alcanço.
Construção
Às
vezes
deixo-me ficar quieta à espera que chegues
e de repente aí estás
olho-te construída e és palavra
e mais ainda és sentido.
Olho-te no teu ser objectivo,
palavra escrita
que abandonou as paredes estreitas do meu cérebro,
ou outras que eu nem sei,
e sinto-te cinzelada pela coração.
E fico, assim tocada
e sinto-me, sentindo-te corpo de poema
que pulsa…
e mais perto me sinto ainda
de entender esse sopro que assoma
na forma de cifra.
Nem sempre te consinto,
nem sempre me consentes
e contudo eu sei que és o caminho
onde me encontro se o norte se ausenta
ou perdida fico em meu desvario.