Anna Akhmatova

Anna Akhmatova

1889–1966 · viveu 76 anos UA UA

Anna Akhmatova foi uma das mais importantes poetisas russas do século XX, figura central do movimento acmeísta. A sua obra, profundamente lírica e pessoal, aborda temas como o amor, a memória, a solidão, a dor e a tragédia do povo russo sob o regime soviético. Akhmatova viveu as convulsões do seu tempo, a Revolução Russa, as perseguições stalinistas e a Segunda Guerra Mundial, experiências que marcaram indelevelmente a sua poesia, conferindo-lhe uma força e uma resiliência notáveis. É reconhecida pela sua voz autêntica e pela sua capacidade de expressar as emoções humanas mais profundas em versos de grande beleza e rigor formal.

n. 1889-06-11, Odessa · m. 1966-03-05, Domodedovo

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A porta entreaberta,

como cheiram as tílias.
O pingalim,a luva
na mesa esquecidos.
A luz,rodela
triste...
A noite a restolhar.
E por que te partiste?
Para mim não é claro...
Amanhã
será alegre
e clara a madrugada.
Como esta vida é bela,
ó meu coração ,calma.
Cansado,e
te senti
tão surdas pancadas.
Mas ouve o que eu li:
Nunca morrem as almas.

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Biografia

Identificação e contexto básico

Anna Andreevna Gorenko, mais conhecida pelo pseudónimo Anna Akhmatova, foi uma poeta russa, considerada uma das figuras mais proeminentes da literatura russa do século XX. Nascida perto de Odessa, passou a maior parte da sua vida em São Petersburgo (então Petrogrado e Leningrado). Foi uma das fundadoras do movimento literário acmeísta.

Infância e formação

Akhmatova nasceu numa família da nobreza russa. Passou a sua infância e adolescência em Tsarskoe Selo (atual Pushkin), um refúgio frequentado pela intelligentsia russa. Estudou no Instituto Smolny para Meninas Nobres e, posteriormente, frequentou cursos de direito e filologia na Universidade de Kiev e na Universidade de São Petersburgo, embora não tenha concluído os seus estudos formais. Foi influenciada pela poesia simbolista russa e pela cultura europeia, mas rapidamente desenvolveu um estilo próprio.

Percurso literário

O seu primeiro livro de poemas, "O Rosário" (1912), obteve um sucesso imediato e estabeleceu-a como uma voz importante na cena literária russa. Akhmatova tornou-se uma figura central do Acmeísmo, um movimento que se opunha ao misticismo e à obscuridade do Simbolismo, defendendo a clareza, a precisão e a objetividade na linguagem poética. Ao longo da sua vida, a sua obra evoluiu, tornando-se mais sombria e engajada com as tragédias históricas que testemunhou.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Akhmatova é caracterizada por um lirismo intenso e introspectivo, explorando as profundezas do amor, da perda, da memória e da condição humana. Os seus poemas são frequentemente curtos, mas carregados de emoção e significado. Temas como o amor não correspondido, a ausência, a beleza efêmera e a resistência espiritual perante o sofrimento são recorrentes. O seu estilo é marcado pela precisão vocabular, pela musicalidade dos versos e por uma impressionante capacidade de evocar imagens vívidas. "Requiem" (escrito entre 1935-1940, publicado postumamente), um ciclo de poemas que relata o terror das perseguições stalinistas, é uma das suas obras mais poderosas e emblemáticas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Akhmatova viveu e escreveu durante um dos períodos mais turbulentos da história russa: a Primeira Guerra Mundial, a Revolução de Outubro, a Guerra Civil Russa, as repressões stalinistas e a Segunda Guerra Mundial. O seu círculo literário incluía poetas como Osip Mandelstam e Nikolai Gumilev (seu primeiro marido). Foi expulsa da União de Escritores Soviéticos em 1946 e voltou a ser perseguida nos anos seguintes. A sua vida e obra estão intrinsecamente ligadas ao sofrimento e à resistência do povo russo.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Akhmatova foi marcada por perdas pessoais e pela perseguição política. O seu primeiro marido, Nikolai Gumilev, foi executado em 1921. O seu filho, Lev Gumilev, foi preso e enviado para campos de trabalho forçado por várias vezes. Akhmatova viveu sob constante ameaça, mas recusou-se a deixar a Rússia e a renegar a sua arte. As suas relações amorosas, como o seu amor por Nikolai Punin, também deixaram marcas profundas na sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Akhmatova foi amplamente reconhecida na Rússia e no estrangeiro, apesar das dificuldades impostas pelo regime soviético. Recebeu o Prémio Literário Internacional de Poesia em 1965. Após a sua morte, a sua obra continuou a ganhar reconhecimento e a ser traduzida para inúmeras línguas, consolidando o seu estatuto como um dos maiores poetas do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Akhmatova foi influenciada por poetas como Alexander Blok e pelas tradições líricas russas. Por sua vez, influenciou gerações de poetas russos e de outras nacionalidades pela sua coragem, pela sua força expressiva e pela sua capacidade de aliar a arte à denúncia da injustiça. O seu legado é o de uma poeta que soube transformar o sofrimento individual e coletivo em arte imortal.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Akhmatova é frequentemente analisada sob a ótica da sua experiência pessoal e histórica, mas também como uma exploração universal da condição humana. A sua poesia é vista como um testemunho da resiliência do espírito humano perante a opressão e a adversidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Akhmatova era conhecida pela sua elegância e pelo seu porte aristocrático, mesmo nos tempos mais difíceis. Tinha uma memória fotográfica e uma capacidade ímpar para o improviso poético. A sua figura tornou-se um símbolo de resistência cultural na Rússia.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Anna Akhmatova faleceu em Koltushi, perto de Leningrado. A publicação póstuma de grande parte da sua obra, especialmente "Requiem", permitiu que a sua voz ressoasse plenamente, consagrando-a como um ícone da literatura e da resistência.

Poemas

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A porta entreaberta,

como cheiram as tílias.
O pingalim,a luva
na mesa esquecidos.
A luz,rodela
triste...
A noite a restolhar.
E por que te partiste?
Para mim não é claro...
Amanhã
será alegre
e clara a madrugada.
Como esta vida é bela,
ó meu coração ,calma.
Cansado,e
te senti
tão surdas pancadas.
Mas ouve o que eu li:
Nunca morrem as almas.

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Música

Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.

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Dedicatória

Diante dessa dor curvam-se os montes,
O Grande rio já não corre,
Mas são fortes as trancas das prisões,
E atrás delas os "covis de forçados"
E uma angústia mortal.
Para quem sopra a brisa leve,
A quem enternece o pôr-do-sol -
Não sabemos, por toda parte iguais,
Ouvimos só o hediondo estridor das chaves
E os passos pesados dos soldados.
Levantávamos como para a missa da manhã,
Íamos pela cidade embrutecida,
Nos víamos lá, mais exânimes que os mortos,
O sol mais baixo e mais nublado o Nieva,
Mas a esperança ainda cantando ao longe.
A sentença... E as lágrimas irrompem,
De todos já afastada,
A vida arrancada do coração aos gritos.
Derrubada de costas, brutalmente,
Mas ela anda... Cambaleia... Só...
Onde estão as amigas prisioneiras
Dos meus dois anos de inferno?
O que elas vêem na tormenta siberiana,
O que tremeluz no halo da lua?
A elas, meu adeus de despedida.

(Março 1940.)

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A sentença

A sentença
A palavra
caiu pétrea
no meu seio ainda vivo.
Não importa, eu já esperava,
de certo modo eu sabia.
Tenho muito
a fazer hoje:
matar memórias de vez,
para a alma ser de pedra
a viver mais aprender.
Ou ... o estralejar
do ardente Estio
como, além da janela, um feriado.
Há muito tempo já que vinham vindo
o luminoso dia e a vazia casa.
E não
me consentirá
que leve nada comigo
(por mais que eu peça e suplique,
por mais que a moa a rezar):
não
os olhos do meu filho,
sofrimento como pedra,
o dia de tempestade,
nem a hora da visita,
o suave frio
das mãos,
o rugir de sombras de árvore,
nem o distante som leve -
consolação das últimas palavras.

2 689

Sombra

Que sabe
certa mulher
Sobre a hora a morte?
O.Mandelstam
Sempre mais
elegante, mais rosada, mais alta que todas,
Para que vens ao de cima do fundo dos anos tombados
E a memória rapace diante de mim faz tremular
O teu perfil transparente por trás dos vidros do coche?
Como se discutia nessa altura - tu, anjo ou pássaro!
Uma pequena palha te chamou o poeta.
Para todos por igual através das negras pestanas
Dos olhos em abismo fluía a terna luz.
Oh sombra! Perdoa-me mas o tempo claro,
Flaubert, a insónia e os lilases tardios
De ti - bela de 1913 -
E do teu dia indiferente e sem nuvens
Me fizeram lembrar... Mas tais recordações
A mim não me ficam bem. Oh sombra!
9 de Agosto de 1940. De noite.

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