Lista de Poemas

Para Conhecer Sua Sereia

Não há limites para o meu amor:
o que dela conheço está no fundo do mar,
fechado com as chaves do meu desejo.

Diziam os gregos antigos
que cada homem tem uma sereia no
fundo do mar. Para conhecer a sua,
coloque dentro de uma garrafa uma
folha de papel com seu nome escrito,
fechando-a em seguida com uma rolha.
Amarre a garrafa numa pedra pesada
e, quando o sol nascer, atire-a ao
mar dizendo as seguintes palavras:

— SEREIA, SEREIA MINHA!
A HORA É CHEGADA, EU JÁ
SEI.
QUERO TE CONHECER,
Ó RAINHA,
COM A PERMISSÃO DE TEU
REI!

Não é necessário entrar
num escafandro ou vestir-se de
homem-rã para esperar por ela no fundo
das águas. Os hipocampos cuidarão
de avisá-la: eles são os carteiros do
mar.
À tardinha, procure na praia um
caracol e deite-se na areia para ouvi-lo.
Quando acordar-se para dentro,
num sonho súbito, você a verá linda
como nunca tivera imaginado,
pronunciando seu nome docemente.

Mas não tente pegá-la. Dizem
que Netuno, o Rei dos Mares,
tem ciúmes horríveis dos homens que
delas tentam se aproximar. As sereias
existem apenas para serem ouvidas e
admiradas.
Logo você descobrirá, todavia,
que o que existe de mais belo em sua
sereia é que ela não tem recordações.
E, como os anjos-da-guarda, só nos
aparecem nos sonhos.
Sua sereia simplesmente sabe
que é sua, eternamente, e mais nada.


In: BARRETO, Antônio. Livro das simpatias. Il. Márcia Franco. Belo Horizonte: Ed. RHJ, 1990. p.36-39. (Premiados, 3
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Por Motivo de Mudança

Oferece-se
em liquidação
e por necessária deposição de armas
o cheiro absurdo das máquinas
nenhuma fonte
nenhum vôo
de ave livre sobre as cidades
Oferece-se
a preços módicos
e absoluta falta de outros motivos
o carbono das noites
que foram escritas no peito
onde alguém se esqueceu
de ficar
O abandono de velhas músicas
um álbum de fotografias
um dicionário insonte
e uma folha em branco
Por não ter mais o que malhar
oferece-se
apenas o carvão das oficinas
e um coração que já não molda
o aço
nem mais rebate
nas bigornas

Oferece-se, enfim, por motivo de mudança,
a gaiola das metáforas
o poleiro das imagens
e a porta das palavras
(a chave escondida no fundo do espelho)

E por último, por falta de endereço,
— o poeta mudou de ramo —
oferece-se
dez musas mal cantadas
o pistilo dos deuses
o alçapão dos demônios
e o alpiste dos anjos.


In: BARRETO, Antônio. Vastafala: poesia. São Paulo: Scipione: Fundação Nestlé de Cultura, 1988. p.33-34. Poema integrante da série Revelações do Abismo
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Comentários (2)

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Antônio bareto
Antônio bareto

Boa tudo

Ninguem sabe
Ninguem sabe

:}

Identificação e contexto básico

Antônio Barreto, conforme identificado pelo Wikidata Q137116461, é um poeta brasileiro. Sua obra se insere no panorama da literatura contemporânea em língua portuguesa, com uma produção notável pela profundidade lírica e reflexiva.

Infância e formação

Informações específicas sobre a infância e formação de Antônio Barreto não são amplamente detalhadas nas fontes disponíveis. No entanto, a sua poesia sugere uma formação cultural e literária que lhe permitiu desenvolver uma sensibilidade aguçada para as nuances da experiência humana e da expressão poética.

Percurso literário

O percurso literário de Antônio Barreto é marcado pela sua contribuição para a poesia, onde explora temas recorrentes como o amor, a efemeridade da vida, a memória e a busca por significado. Sua obra, embora talvez não tão extensivamente divulgada quanto a de outros autores, demonstra uma consistência e uma profundidade que lhe garantem um lugar no cenário literário.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Antônio Barreto caracteriza-se por um lirismo introspectivo e por uma linguagem cuidadosamente elaborada. Os temas centrais incluem o amor em suas diversas manifestações, a melancolia da passagem do tempo, a reflexão sobre a existência e a valorização de momentos fugazes. Seu estilo poético tende a ser melódico e imagético, com uma escolha vocabular precisa que evoca sentimentos e sensações de forma vívida. A sua poesia dialoga com a tradição lírica, mas apresenta uma voz autoral distintiva.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Antônio Barreto escreve no contexto da poesia brasileira contemporânea, um período diversificado onde temas existenciais e sociais continuam a ser explorados. Sua obra pode ser vista como um reflexo das inquietudes e das buscas por sentido características do nosso tempo, dialogando com outras vozes poéticas que abordam a complexidade do mundo atual.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Antônio Barreto não são amplamente divulgados nas fontes públicas. Contudo, a sua obra poética revela uma sensibilidade aguçada para as emoções e experiências humanas, o que sugere um indivíduo com uma rica vida interior.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Antônio Barreto advém da qualidade e da autenticidade de sua produção poética. Sua obra tem sido apreciada por leitores que buscam uma poesia que toque o coração e a mente, oferecendo reflexões profundas sobre a vida e o amor.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora influências diretas não sejam explicitadas, a poesia de Antônio Barreto demonstra uma conexão com a tradição lírica e reflexiva da literatura em língua portuguesa. Seu legado se encontra na sua contribuição para a poesia contemporânea, oferecendo uma perspectiva única sobre os sentimentos e as experiências humanas.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Antônio Barreto convida à reflexão sobre temas universais como a natureza do amor, a fugacidade da existência e a busca por um sentido maior. Suas obras podem ser interpretadas como um convite à contemplação e à autoconsciência.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Como a sua obra é mais conhecida do que a sua figura pública, aspectos menos conhecidos da vida de Antônio Barreto podem residir nos bastidores da sua criação poética, deixando a sua poesia falar por si.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Não há informações sobre a morte de Antônio Barreto em fontes públicas.