António Botto

António Botto

1897–1959 · viveu 61 anos PT PT

António Botto foi um poeta português que marcou a sua época pela ousadia temática e pela abordagem direta da sensualidade e do amor, incluindo o amor homossexual, num período conservador. A sua poesia, embora por vezes controversa, revelou uma sensibilidade lírica apurada e um desejo de liberdade de expressão. Botto é uma figura importante na história da literatura portuguesa pela sua coragem em abordar temas tabu e pela sua contribuição para a modernização da poesia.

n. 1897-08-17, Concavada · m. 1959-03-04, Rio de Janeiro

68 299 Visualizações

As Canções de Antônio Botto

1.

Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda -
Para outro momento.
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me - sou outro. . .

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos, - És lindo!

A morte
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: - não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos, apenas!,
- Que mais precisamos nós?

2.

Quem é que abraça o meu corpo
Na penumbra do meu leito?
Quem é que beija o meu rosto,
Quem é que morde o meu peito?
Quem é que fala da morte
Docemente ao meu ouvido?
- És tu, senhor dos meus olhos,
E sempre no meu sentido.

3.

Tenho a certeza
De que entre nós tudo acabou.
- Não há bem que sempre dure,
E o meu, bem pouco durou.

Não levantes os teus braços
Para de novo cingir
A minha carne de seda;
- Vou deixar-te, vou partir!

E se um dia te lembrares
Dos meus olhos cor de bronze
E do meu corpo franzino,
Acalma
A tua sensualidade
Bebendo vinho e cantando
Os versos que te mandei
Naquela tarde cinzenta!

Adeus!
Quem fica sofre, bem sei;
Mas sofre mais quem se ausenta!

4.

Pelos que andaram no amor
Amarrados ao desejo
De conquistar a verdade
Nos movimentos de um beijo;
Pelos que arderam na chama
Da ilusão de vencer
E ficaram nas ruínas
Do seu falhado heroísmo
Tentando ainda viver!,
Pela ambição que perturba
E arrasta os homens à Guerra
De resultados fatais!,
Pelas lágrimas serenas
Dos que não podem sorrir
E resignados, suicidam
Seus humaníssimos ais!
Pelo mistério subtil,
Imponderável, divino,
De um silêncio, de uma flor!,
Pela beleza que eu amo
E o meu olhar adivinha,
Por tudo que a vida encerra
E a morte sabe guardar,
- Bendito seja o destino
Que Deus tem para nos dar!

5.

Meu amor na despedida
Nem uma fala me deu;
Deitou os olhos ao chão
Ficou a chorar mais eu.
Demos as mãos na certeza
De que as dávamos amando;
Mas, ai!, aquela tristeza
Que há sempre neste "Até quando?,"
- Numa lágrima surgiu
E pela face correu. . .
Nada pudemos dizer,
Ficou a chorar mais eu.

6.

Se passares pelo adro
No dia do meu enterro,
Dize à terra que não coma
Os anéis do meu cabelo.
Já não digo que viesses
Cobrir de rosas meu rosto,
Ou que num choro dissesses
A qualquer do teu desgosto;
Nem te lembro que beijasses
Meu corpo delgado e belo,
Mas que sempre me guardasses
Os anéis do meu cabelo.
Não me peças mais canções
Porque a cantar vou sofrendo;
Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.
Se a minha voz conseguisse
Dissuadir essa frieza
E a tua boca sorrisse !
Mas sóbria por natureza
Não a posso renovar
E o brilho vai-se perdendo...
- Sou como as velas do altar
Que dão luz e vão morrendo.

Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

António Botto, nascido António Tiago de Oliveira Botto, foi um poeta português. Destacou-se na primeira metade do século XX pela sua obra poética inovadora e, por vezes, controversa. Nasceu no Seixal e viveu grande parte da sua vida em Lisboa. A sua nacionalidade é portuguesa e a língua de escrita é o português.

Infância e formação

Pouco se detalha sobre a sua infância e formação inicial, mas é sabido que Botto desenvolveu desde cedo uma sensibilidade particular para a arte e a literatura. A sua formação parece ter sido mais autodidata e ligada aos círculos literários que frequentou.

Percurso literário

António Botto iniciou a sua carreira literária nas primeiras décadas do século XX. A sua obra começou a ganhar notoriedade com a publicação de "Noite de Lenda" (1921), que já anunciava a sua inclinação para temas mais ousados. A sua evolução literária esteve ligada a uma crescente liberdade expressiva e a uma busca por novas formas de abordar o lirismo amoroso. Colaborou em diversas publicações da época, nomeadamente em revistas ligadas ao modernismo e à vanguarda.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de António Botto é reconhecida pela sua exploração de temas como o amor, a sensualidade, a beleza e, de forma pioneira na literatura portuguesa, a homossexualidade. O seu estilo é marcado por um lirismo intenso, uma linguagem direta e por vezes coloquial, mas também pela capacidade de criar imagens vívidas e sugestivas. Utilizou formas poéticas variadas, adaptando-as à sua expressão pessoal. O tom da sua poesia pode variar entre o idílico, o erótico e o confessional. A sua linguagem é muitas vezes crua e apaixonada, desprovida de pudores. Botto é considerado um precursor do modernismo em Portugal, abrindo caminho para temas e abordagens que antes eram tabu.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico António Botto viveu num período de grandes transformações em Portugal, nomeadamente o advento da I República e a instabilidade política que se seguiu. A sua obra surgiu num contexto cultural ainda fortemente marcado por valores conservadores, o que gerou reações de reprovação por parte de alguns setores da sociedade e da crítica. A sua ligação ao movimento modernista português, embora não total, é inegável, partilhando com outros autores da época um espírito de renovação e de rutura com a tradição. A sua ousadia temática colocou-o em tensão com a norma social e literária da sua época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de António Botto foi marcada pela sua orientação sexual, que o levou a ser uma figura controversa e, por vezes, marginalizada. Manteve relações significativas que, de alguma forma, se refletiram na sua poesia. A sua dedicação à poesia foi uma constante, e o seu círculo de amigos incluía outras figuras do meio literário.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Na sua época, a obra de António Botto gerou reações divididas. Enquanto alguns o aclamavam pela sua coragem e originalidade, outros o criticavam pela temática considerada imoral. Com o tempo, a sua obra tem vindo a ser reavaliada e reconhecida pelo seu valor literário e pela sua importância histórica como transgressor de tabus. Hoje, Botto é visto como um poeta de relevo na literatura portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado António Botto foi influenciado por poetas que exploraram o lirismo amoroso e a sensualidade. O seu legado reside na coragem de abordar temas que eram silenciados, abrindo portas para uma maior liberdade de expressão na literatura portuguesa, especialmente no que toca à representação da sexualidade e da diversidade amorosa. Influenciou gerações posteriores de poetas que valorizam a autenticidade e a transgressão.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de António Botto pode ser interpretada como uma celebração do amor em todas as suas formas e uma afirmação da liberdade individual. A sua obra desafia as convenções sociais e morais, convidando à reflexão sobre a natureza do desejo e da identidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre António Botto é a forte ligação que manteve com o poeta e crítico Fernando Pessoa, que elogiou a sua obra em público, num gesto de apoio à sua liberdade criativa. Essa amizade e o apoio de Pessoa foram cruciais num momento em que Botto enfrentava forte oposição.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória António Botto faleceu em Lisboa. A sua obra continuou a ser publicada e estudada, garantindo a sua memória e o seu lugar na história da literatura portuguesa.

Poemas

12

Andava a lua nos céus

Andava a lua nos céus
Com o seu bando de estrelas

Na minha alcova
Ardiam velas
Em candelabros de bronza

Pelo chão em desalinho
Os veludos pareciam
Ondas de sangue e ondas de vinho

Ele, olhava-me cismando;
E eu,
Plácidamente, fumava,
Vendo a lua branca e nua
Que pelos céus caminhava.

Aproximou-se; e em delírio
Procurou avidamente
E avidamente beijou
A minha boca de cravo
Que a beijar se recusou.

Arrastou-me para ele,
E encostado ao meu hombro
Falou-me de um pagem loiro
Que morrera de saudade
À beira-mar, a cantar...

Olhei o céu!

Agora, a lua, fugia,
Entre nuvens que tornavam
A inda noite sombria.

Deram-se as bocas num beijo,
Um beijo nervoso e lento...
O homem cede ao desejo
Como a nuvem cede ao vento

Vinha longe a madrugada.

Por fim,
Largando esse corpo
Que adormecera cansado
E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Bebia vinho, perdidamente
Bebia vinha..., até cair.

3 332

Anda vem

Anda vem..., porque te negas,
Carne morena, toda perfume?
Porque te calas,
Porque esmoreces,
Boca vermelha --- rosa de lume?

Se a luz do dia
Te cobre de pejo,
Esperemos a noite presos num beijo.

Dá-me o infinito gozo
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
O aroma e o calor
Da tua carne, meu amor!

E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
--- Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!... Dá-me o teu corpo
Em troca dos meus desejos...
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!

3 471

Videos

50

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
anonimo
anonimo

gosto muito