Lista de Poemas

VI

Trago-te os rios
umedecidos de infância.
Não digas que há esquivanças
neste gesto doado.
Venho com passos naturais,
com piedade, sacrifício,
entregar-te a colheita dos olhos,
o fardo dos claros fracassos.

A pluma capturada
nas realidades sem mistura,
o tenteio do vento
no corpo oferecido as notícias,
a flor presa na mão branca,
o espanto da esposa iniciada,
o passeio exato no jardim —
estão comigo, estas coisas,
nesta verdade do canto,
na quietude dos átrios acalmados.

Trago-te os beijos da criança,
a paisagem ao redor da fazenda,
os brinquedos de barro já com sangue,
os lençóis do justo nascimento.
a mão pousada na madeira,
o sorriso apenas formulado,
a aceitação do gosto recebido,
a alegria das brasas extintas.

Venho dar-te notícias das coisas
esparzidas nos campos lá fora,
entregar-te o resíduo das datas,
o sinal de uma face marcada
para o largo consumo do amor.
676

VII

Asa da humildade
no corpo desistido.
Era uma fimbria que me perseguia
no contato da pele desnudada,
talvez nuvem que baixasse muito,
memoria que o tempo não matasse.
Como entender a voz das águas brancas
no horizonte de gente derramada?

Harpa humilde
para as canções menores
no acolhimento da lembrança finda
e areia, e coisa, e vento
na exaltação da ultima palavra,
a de antes da fraqueza consentida,
a do silencio insubmisso.

Esta humildade
como inicio de aflito testemunho
de atos renascidos na paisagem.
Apenas carne conformada na figura
em braços, lábios, coxas e vazios,
tentativa de único semblante,
de marca firmada no chão
para construir com ternura
a coragem do afastamento.
576

Soneto de Natal

“Mudaria o Natal ou mudei eu?”
 Machado de Assis

Mudaria o Natal ou mudo iria
mudar sempre o menino o mundo em tudo?
Ou fui só quem mudei, e meu escudo
novidadeiro, múltiplo, daria

ao mudadiço mito da alegria
em noite tão mutável jeito mudo?
O homem é mudador, muda de estudo,
de mucama, de verso, pouso, dia,

porque a muda modula esse desnudo
renascimento em palha, e molda e afia
o instrumento da troca, o fim miúdo,

a noite amena erguendo-se em poesia.
Mudei eu sempre sem saber que mudo
ou somente o Natal me mudaria?
804

Teoria do Homem

O começo do homem é o fim do homem  
o começo é o fim
o começo é o homem
o homem é o fim
meço o homem pelo fim
o fim é a medida a medida é o começo
a medida é o meio o meio é o medo
o vulto é o vento
o vento bate na bandeira
parece passo na pressa
o passo é a pressa
a pressa é o modo
o modo é o mito
o mito é a meta
o fim é o mito
o mito é o começo
o começo do homem é o fim do homem
o fim do homem é o começo do homem.
686

Abertura

Noite é chuva, plano é longo.

Hora de abraçar a máquina
medianeira do olho e do objeto
disposta para o módulo dos ritos
através.

Ó câmara de sutis delicadezas,
brandura carda, mansa entrega,
me ensina a reta prontidão
no pegar cada coisa e seu contorno,
me concede a cordura decisiva
da lente caminhando para a imagem
diretamente.

Ferramenta e musa,
vem comigo às estacas do homem
chamado Sousa,
entra na macia resistência da pele
águas adentro
(sabes: somos em aquário,
nele andamos, consistimos,
amamos
refreados de presenças
além do líquido limite:
em aquário somos).
Mulher e fábula,
tira a transparência
das roupas silenciadas,
restaura os rituais
dos mitos cotidianos
passados de fêmea a fêmea,
mãe, irmã, amante,
câmera votiva.

Que importa sejas metal agora,
vidro, foco, olho de máquina,
para a justa visão da coisa vista?

Eia, câmera, comigo
ao plano largo, noite chuva.
613

Fala do Sousa

O desígnio das coisas
ferido de espera.
Nem poderia ser, como pensais,
de lastro diferente.
Sabeis e guardais remanso.
Vinde à frente do palco
no risco da luz firmada
que os olhos querem vossa fala.
caso inventado mas pende
da mais sólida nuvem.
As tábuas estão aí,
a mesa, o pão, a roupa
e as gentes.
Nas cadeiras que vos olham
a certeza de vossa força.
Traçai o desenho
do que está vindo,
erguei a mão em rito,
fazei objetos.
Agora vejo.
Esse traço é o caminho da moça?
Completai-o que desce um cântico,
não deve ser interrompido.
O desígnio da moça
repousa em nervos de flor.
Riscai outros.
Esse não conheço.
Da que foi mãe?
Parece mais linha sem ponta.
Aonde irá?
705

Infância

Num retrospecto
de que vale?
O menino soltava papagaio
no morro transformado em nova imagem
tão nítida que vai além retângulo,
termina no prelúdio de uma nuvem
e o grito batia longe
na tarde dos bambuais
de que vale?
Sousa já era mas sorria,
tinha o fascínio dos começos,
a fixidez dos olhos sendo
nada e flor.
A voz que subia aflita
(só podia ser da mãe)
talava da noite próxima
e de bichos escondidos
pelo pasto,
no regato,
no caminho,
pela sombra deslizada de repente
de que vale?
Na descida tudo vinha
em gesto nem sempre visto
de papagaio vermelho,
papel de seda rasgado
na maciez do paiol.
Súbito
era noite e um cão latia
alto.
576

IV

Faço-me palavra
Ave Palavra,
faço de meu corpo uma árvore em que pouses
faço-me palavra eu também
divido-me nas sílabas necessárias
com tímbales e cânticos
vestir-me-ei por inteiro de palavras
que só existo quando através de ti.
Ave Palavra.
744

O crime da máquina

A máquina rodou só
nos trilhos limpos,
foi matar a menina de vermelho.
Bastou um grito para o espanto
fixar-se na tarde.
Desceu gente de longe,
homens pisaram pedras,
mulheres jogaram noites na pressa,
os pais surgiram de súbito.
Um sangue ungia rodas e trilhos,
pedaço de vestido repousava em dormente.
Lanternas acesas na lida em vôo,
foram examinar a máquina,
o freio intacto,
as peças nuas,
a chaminé parada em pânico.
Rodara só
nos trilhos limpos.
Em desvio de falas,
colheram saudades da menina,
assistiram ao desfile das pausas,
contaram casos de nascimento.
A manhã parou na máquina,
os homens trouxeram cadeiras,
fizeram um círculo de vozes,
ergueram pedaços do crime.
Depois, tomaram café,
deram seus votos
e fitaram, em rápida apreensão,
a máquina condenada.
Levaram-na para um desvio,
destruíram os trilhos de um lado e de outro,
fundaram cerca de arame ao redor,
deixaram placa de madeira
com letras em quase cruz.
Quando as outras máquinas passam
nos trilhos mais longe
apitam avisos,
rodam mandadas,
contemplam a cela tênue,
plantas agora buscando as fendas
da quieta locomotiva.
542

V

A paisagem
Nesse ínterim
esvaziam-se as palavras
inúteis
vindas na enxurrada
em queda no vazio
de listas e sinais.

Sem elas
desaparece o pleno sentido
some ajusta aceitação
de morros e flores
de rios e mares
e ao longo da planície
as palavras renascem
para que delas saia de novo
a paisagem.
612

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Identificação e contexto básico

Antônio Olinto foi um multifacetado intelectual brasileiro, atuando como escritor, professor universitário e diplomata. Sua obra abrange tanto a ficção quanto ensaios sobre história, cultura e relações internacionais, refletindo uma vasta erudição e um profundo interesse pelas particularidades da identidade brasileira e sua inserção no contexto global. Foi um defensor ativo da cultura brasileira no exterior.

Infância e formação

Antônio Olinto teve uma formação acadêmica sólida, que o preparou para suas diversas atuações profissionais. Seus estudos e leituras, aliadas a suas experiências de vida, foram fundamentais para a construção de seu pensamento crítico e de sua obra literária e ensaística. A vivência em diferentes contextos culturais, proporcionada por sua carreira diplomática, certamente enriqueceu sua visão de mundo.

Percurso literário

O percurso literário de Antônio Olinto é marcado pela diversidade de sua produção. Publicou romances, contos e ensaios que exploram temas históricos, sociais e culturais do Brasil. Sua carreira diplomática, que o levou a viver em diversos países, também influenciou sua escrita, trazendo uma perspectiva comparativa e um olhar sobre as interconexões entre diferentes culturas. Atuou também como professor, compartilhando seu conhecimento e inspirando alunos.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Antônio Olinto exploram com profundidade a história, a cultura e a identidade brasileira, muitas vezes em diálogo com o contexto internacional. Seus romances e contos são conhecidos pelo estilo envolvente, pela pesquisa histórica apurada e pela capacidade de criar personagens complexos. Os ensaios de Olinto revelam uma mente analítica e uma erudição notável, abordando desde a literatura e a arte até as relações internacionais. Temas como a formação do Brasil, a influência de outras culturas, a diversidade e as contradições sociais são recorrentes em sua produção. Seu estilo é marcado pela clareza, pela elegância e por uma prosa rica em referências.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Antônio Olinto viveu e produziu em um período de significativas transformações políticas e culturais no Brasil e no mundo. Sua carreira diplomática o colocou em contato direto com diferentes realidades, e sua obra reflete essa perspectiva cosmopolita. Ele participou ativamente do debate intelectual e cultural de seu tempo, buscando sempre valorizar e compreender a cultura brasileira em suas múltiplas facetas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Antônio Olinto esteve intrinsecamente ligada à sua atividade profissional como diplomata e professor. As experiências vividas em diferentes países, os contatos com diversas culturas e as reflexões sobre o Brasil em um contexto global moldaram sua visão de mundo e, consequentemente, sua obra literária e ensaística. Sua dedicação à cultura brasileira foi uma constante em sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A obra de Antônio Olinto foi reconhecida por sua relevância intelectual e literária. Seu trabalho como escritor e diplomata contribuiu para a projeção da cultura brasileira no exterior, recebendo honrarias e distinguindo-se como um intelectual engajado com o país.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Antônio Olinto, com sua vasta erudição, certamente dialogou com diversos autores e correntes de pensamento, tanto brasileiros quanto estrangeiros. Seu legado reside na sua contribuição para a compreensão da história, da cultura e da identidade brasileira, através de uma obra que une rigor acadêmico e sensibilidade literária. Ele deixou um importante acervo de textos que continuam a ser referência para estudos sobre o Brasil e suas relações com o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Antônio Olinto oferece um fértil terreno para análise crítica, explorando as complexas teias da história e da cultura brasileira. Seus escritos convidam à reflexão sobre a identidade nacional, as influências externas e a diversidade do povo brasileiro. A forma como ele entrelaça diferentes saberes em seus textos possibilita diversas camadas de interpretação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspecto interessante da vida de Antônio Olinto é a sua capacidade de transitar com maestria entre diferentes campos do saber e da atuação profissional. Sua carreira diplomática, por exemplo, permitiu-lhe ter um contato privilegiado com outras culturas, enriquecendo sua perspectiva sobre o Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória A morte de Antônio Olinto deixou um legado intelectual e literário que continua a ser estudado e valorizado. Sua obra permanece como um testemunho importante da cultura brasileira e de sua inserção no cenário mundial.