Lista de Poemas

Escrevo hoje um artigo sobre quase nada

O poeta Manoel de Barros lançou um novo livro: "Livro sobre Nada" é o nome. Esse surrealista-minimalista- pantaneiro, poeta das insignificâncias, dos detritos, descobre dramas na vida dos caramujos e nos ovos de formiga e faz os sapos do lodo denunciar nossa fragilidade. Leia este seu poema antigo, onde a morte de uma lacraia furada de espinho tem a pungência da morte de Isolda: "Chega de escombros, centopeia antúria!
Estrepe enterrada no corpo, a lacraia se engrola rabeja rebola suja-se na areia floresce como louca.
Gerânios recolhem seus anelos.
Está longe o horizonte para ela!"
Pois esse poema extraordinário lembrou-me um crime que eu tenho de confessar. Eu o cometi há um ano. É o seguinte: eu matei uma lesma no muro de meu jardim. Isso não é nada, dirá você.
Pois, se não é nada, eu hoje escrevo sobre nada, porque essa ocorrência banal que parece a culpa ridícula de um "eco-chato" ainda não me saiu da cabeça. Volta e meia eu penso na lesma, minha vítima.
Vamos aos fatos. As chuvas trouxeram muita umidade ao meu quintal, feito de bananeiras e buxos, onde uma estátua de Ceres se recobre aos poucos de limo. Essas súbitas águas devem ter irrigado a "ínfima sociedade" dos bichos ocultos nas gretas do jardim, pois deram para aparecer grandes lesmas que se puseram a traçar riscos de madrepérola no muro do quintal.
Sempre tive um certo horror das lesmas, com sua lentidão inútil, seu ritmo obstinado que nos lembra os outros bichos que nos comerão, que imitam os movimentos sem rumo de nossa vida absurda.
Essa lesma não era um bicho nojento, mas uma grande e negra com estrias amarelas nas costas e dois chifrinhos orgulhosos, como uma lesma de desenho animado. Mas, me provocou um horror inesperado. Será que meu asco saía da infância profunda, vinha de um nojo sexual qualquer? Eu me lembro de um analista que disse que só temos nojo do que queremos comer. Meu horror da lesma viria de uma antiguíssima fome de 1 bilhão de anos atrás, quando moluscos e vermes nos alimentavam?
O que sei é que a lesma me irritava muito, uma intrusa em meu muro. Para onde ela ia, afinal? Por que não me incomodavam as formigas, os sabiás gordos e egoístas a quem eu até atirava arroz e bananas? A presença daquele lento "vaginulídeo" era insuportável. Ela não podia ficar ali, quebrando meu mundo de harmonia, meu quintal planejado: arbustos, passarinho, bananeiras, estátua.
A lesma me jogava na pré-história, no período cambriano, quando os bichos escrotos nasceram; ela questionava que o jardim fosse minha propriedade privada, mostrava como era vago meu direito a esta vida correta, esta arrogância de humano, esta gravata, estas roupas, enquanto ela, toda nua, negra, estriada de amarelo, subia no meu muro.
Eu conheço bem a agitação das lagartixas nos banheiros, nas frinchas da casa. As vejo até com simpatia. A lagartixa te respeita, percebe elétrica tua presença, foge, te teme. A lesma, não. Ela te ignora, desatenta, em outro mundo denso e remoto. Ela te exclui.
A lesma é "snob". A lesma era meu perigo, minha morte, a prova de minha fragilidade; o ritmo da lesma traía minha ansiedade, meus projetos, meu nascimento do nada.
De onde surgira aquele monstro sem infância, sem ovo, sem pai nem mãe? De onde, aquela auto-suficiência? De onde, aquela certeza de rumo? Que bússola ela usava? De onde, aquela convivência tão íntima com meu muro, como se os dois fossem feitos um para o outro? Como ela ousava me ignorar tanto? Por que meus sabiás não a atacavam a bicadas? Por que minhas formigas não a carregavam em funeral para o buraco? Por que ninguém fazia nada?
(Você já vê que minha loucura vai adiantada. Que vou fazer?
Tenho de contar meu crime.)
Pois bem: entenda que eu não era apenas um pequeno burguês em crise pela invasão da lesma. Eu estava angustiado com aquele ser sem história, ali diante de mim. Devo dizer que eu tinha sofrido naqueles dias pequenas humilhações, o que seria uma atenuante para meu gesto. Mas, em nome na verdade, eu tenho de confessar sem vacilos que o que eu queria mesmo era matar a lesma, sem motivo, só para vê-la morrer ali na minha frente, para curtir o prazer desse ato violento.
Deu-me um intenso desejo de exterminar aquela forma de vida, tirá-la de minha parede como se eu fosse o deus da lesma, o seu destino, sua "moira". Eu queria era pronunciar o "fatwa" da lesma, eu, tão civilizado, tão castrado de instintos, com minha violência escondida. O quintal ficou mais silencioso, enquanto eu me decidia. Os sabiás não cantavam; estariam me observando?
Então, com o coração batendo forte, eu fui até a cozinha.
Disfarçadamente, querendo ocultar meu gesto da empregada, peguei rapidamente no armário um grande punhado de sal grosso (me disseram uma vez que o sal dissolve as lesmas num ferver venenoso, que o grande inimigo dos rastejantes é o sal).
Em seguida, levando o punhado de sal, voltei ao quintal, excitado como para um encontro de amor. Fui devagar até o muro, onde a lesma fazia seu trajeto paciente e esforçado. Ela já ia alta, como uma operária, como um atleta, um alpinista sério, concentrado em seu destino. Eu também me concentrava, na tocaia, e tremia de emoção.
E então atirei-lhe o punhado de sal no dorso. Por um instante, ela ficou coberta do pó branco; em seguida, eu vi tudo acontecer. Ela parou por um instante. Depois, (eu juro que é verdade, na medida em que alguma verdade posso conhecer, se é que minha verdade serve para interpretar a dela) a lesma virou o corpo para trás, despegando-se do muro na parte superior de sua engrenagem, e se estirou mais ainda como uma luneta mole me procurando.
Então, por um breve segundo, ela me achou. Fixou os dois chifrinhos em cima de mim e me "olhou". A lesma me "olhou", sem raiva, sem dor, ela me olhou com a imensa surpresa de saber de onde viera aquela praga de Deus. E por um "angstrom" de um segundo, como um raio frio, como um bater de cílios, houve um contato entre mim e minha vítima. Só nós dois e, entre nós, um tremor de 1 bilhão de anos.
Mas, foi só por um instante, quase nada, pois o sal começou a ferver seu corpo e ela se desprendeu do muro, caiu pesada e sumiu entre as plantas rasteiras, morrendo, certamente.
No muro, só ficou a madrepérola do seu rastro: azul-pavão, cintilações rosas, um visgo ocre, marcando sua passagem pela vida. Como escreveu Manoel de Barros, "estava longe o horizonte para ela!" Até hoje, está lá no muro a marca do meu crime.
Espero que as chuvas a apaguem, mas já faz muito tempo e nada sumiu.
Para mim também está mais longe o horizonte.

leia obra Poética de Manoel de Barros

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Identificação e contexto básico

Arnaldo Jabor (nome completo Arnaldo Jabor) foi um proeminente cineasta, roteirista, produtor, jornalista e escritor brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro, Brasil, em 1940. Sua obra cinematográfica e literária abordou frequentemente as complexidades da sociedade brasileira, a sexualidade, a política e as relações humanas com um olhar crítico e muitas vezes provocador. Sua nacionalidade era brasileira e sua língua de escrita era o português.

Infância e formação

Nascido no seio de uma família de classe média alta, Jabor demonstrou desde cedo interesse pelas artes. Sua formação incluiu estudos em cinema, o que seria a base para sua carreira, mas também absorveu influências culturais e políticas de seu tempo, moldando sua visão de mundo e sua abordagem artística.

Percurso literário

Embora mais conhecido por sua vasta obra cinematográfica, Arnaldo Jabor também trilhou um percurso literário notável. Começou a escrever ainda jovem, e sua produção literária, composta principalmente por crônicas e artigos, foi publicada em diversos jornais e revistas. Sua escrita era caracterizada pela agudeza de observação e pela capacidade de traduzir em palavras a complexidade do cotidiano e da política brasileira. Sua evolução como escritor acompanhou sua maturidade como cineasta, mantendo sempre um tom irónico e reflexivo.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra literária de Jabor, embora secundária em relação ao seu cinema, é marcada pela perspicácia e pelo humor ácido. Suas crônicas abordam temas como o comportamento humano, a política brasileira, a cultura e o cotidiano com uma linguagem acessível, mas repleta de ironia e crítica social. O tom confessional e o olhar pessoal sobre os fatos são características marcantes. Sua linguagem é direta, por vezes coloquial, mas sempre precisa e carregada de significado. Jabor não introduziu grandes inovações formais na literatura, mas seu estilo de escrita contribuiu para a renovação da crônica brasileira, aproximando-a de um debate público mais amplo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Arnaldo Jabor viveu e produziu durante um período crucial da história brasileira, marcado por transformações políticas e sociais significativas, incluindo a ditadura militar e a redemocratização. Sua obra cinematográfica e literária frequentemente dialogava com esses eventos, refletindo as tensões e os dilemas da sociedade brasileira. Ele era parte de uma geração de artistas que buscavam analisar e criticar o país através de suas produções, posicionando-se de forma independente e muitas vezes desafiadora.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Jabor, embora mantida com certa reserva, transparecia em sua obra. Suas relações e experiências certamente influenciaram sua visão de mundo e, consequentemente, sua arte. Como figura pública, ele se posicionava abertamente em debates políticos e culturais, demonstrando engajamento cívico.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Arnaldo Jabor foi amplamente reconhecido por sua contribuição ao cinema brasileiro, recebendo diversos prémios e distinções ao longo de sua carreira. Sua obra cinematográfica consolidou-o como um dos grandes nomes da sétima arte no Brasil. Na literatura, suas crônicas foram admiradas por sua qualidade e pertinência, consolidando sua imagem como um intelectual multifacetado.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Jabor foi influenciado por diversos cineastas e escritores, e, por sua vez, deixou um legado significativo para o cinema e a literatura brasileira. Sua obra continua a ser estudada e apreciada, inspirando novas gerações de artistas e pensadores.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Jabor é frequentemente analisada sob a ótica da crítica social e política. Seus filmes e escritos convidam a reflexões sobre a identidade brasileira, os costumes e as contradições da sociedade. As interpretações de sua obra exploram a complexidade de seus personagens e a agudeza de suas observações sobre o comportamento humano.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Jabor era conhecido por sua personalidade forte e por suas opiniões contundentes. Sua capacidade de transitar entre diferentes formas de expressão artística, do cinema à crônica, revela um espírito inquieto e uma profunda dedicação à arte e ao pensamento.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Arnaldo Jabor faleceu em 2022, deixando um legado artístico e intelectual imensurável. Sua obra continua a ser revisitada e a inspirar discussões sobre o Brasil.