Arthur Rimbaud

Arthur Rimbaud

1854–1891 · viveu 37 anos FR FR

Arthur Rimbaud foi um poeta francês visionário e rebelde, considerado um dos grandes expoentes do simbolismo e precursor de movimentos como o surrealismo. A sua obra, marcada por uma intensidade avassaladora e uma busca incessante por novas formas de expressão, revolucionou a poesia moderna. A sua vida curta e turbulenta, repleta de viagens e experiências marginais, reflete a sua recusa das convenções sociais e artísticas.

n. 1854-10-20, Charleville · m. 1891-11-10, Marselha

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CANÇÃO DA MAIS ALTA TORRE

Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah! que venha o instante
Que as almas encante.

Eu me digo: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
Do que quer que seja.
Não te impeça nada,
Excelsa morada.

De tanta paciência
Para sempre esqueço:
Temor e dolência
Aos céus ofereço,
E a sede sem peias
Me escurece as veias.

Assim esquecidas
Vão-se as Primaveras
Plenas e floridas
De incenso e de heras
Sob as notas foscas
De cem feias moscas

Ah! Mil viuvezas
Da alma que chora
E só tem tristezas
De Nossa Senhora!
Alguém oraria
À Virgem Maria?

Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.

Ah! que venha o instante
Que as almas encante!


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Biografia

Identificação e contexto básico

Arthur Rimbaud nasceu em Charleville, França. Foi um poeta extraordinário que, com uma obra relativamente curta, marcou profundamente a literatura do século XIX e influenciou a poesia moderna. A sua nacionalidade era francesa e escreveu em francês. O contexto histórico em que viveu foi o da França do Segundo Império e da Terceira República, um período de grandes transformações sociais e políticas.

Infância e formação

Cresceu numa família burguesa, mas a sua relação com o pai, militar, foi distante. A mãe, rígida e religiosa, exerceu uma forte influência na sua educação. Rimbaud demonstrou desde cedo uma inteligência precoce e um talento literário excecional, que o levaram a uma formação autodidata e a uma rebeldia contra o sistema educacional formal. Absorveu influências da literatura clássica e dos poetas parnasianos, mas rapidamente desenvolveu um estilo próprio.

Percurso literário

O início da sua escrita poética deu-se na adolescência. Em 1870, fugiu de casa e estabeleceu contacto com o círculo literário de Paris, onde conheceu Paul Verlaine, que se tornaria seu amante e figura central em sua vida tumultuada. A sua obra poética foi produzida num período muito curto, entre os 15 e os 20 anos. Colaborou em revistas literárias da época.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras mais conhecidas incluem "Uma Temporada no Inferno" (1873) e "Iluminações" (publicado postumamente em 1886). Os temas dominantes na sua obra são a busca por um novo linguajar, a revolta contra a burguesia e a religião, a exploração do onírico e do irracional, e a ânsia por transcender os limites da realidade. A sua forma poética é marcada pela experimentação, utilizando o verso livre e uma linguagem surpreendente, rica em imagens e metáforas audaciosas. O tom poético varia entre o lírico, o visionário e o revoltado. A sua linguagem é densa, inovadora e cheia de recursos retóricos. Rimbaud introduziu inovações formais e temáticas que quebraram com a tradição, antecipando o simbolismo e o surrealismo. A sua relação com a tradição é de ruptura e reinvenção.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Rimbaud viveu numa França em transição, marcada pela derrota na guerra Franco-Prussiana e pela Comuna de Paris. Ele próprio teve um envolvimento fugaz com a Comuna. O seu círculo literário incluía Verlaine e outros poetas simbolistas. A sua obra reflete a contestação social e a busca por novas formas de arte num mundo em mudança.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A sua vida pessoal foi marcada por uma relação intensa e destrutiva com Paul Verlaine, que culminou num episódio de violência e na prisão de Verlaine. Após o seu período de escrita, Rimbaud abandonou a literatura e dedicou-se a viagens e a atividades comerciais, incluindo o tráfico de armas na África.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra tenha sido publicada e reconhecida por alguns contemporâneos, o seu génio foi plenamente compreendido e aclamado postumamente. É hoje considerado um dos poetas mais influentes da literatura universal.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Rimbaud influenciou profundamente poetas como os surrealistas, e o seu estilo inovador e a sua vida boémia tornaram-se um arquétipo para muitos artistas. O seu legado reside na sua capacidade de expandir os limites da linguagem poética e da experiência humana, abrindo novos caminhos para a expressão artística.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Rimbaud tem sido alvo de inúmeras interpretações, focando-se na sua busca pela "verbo de seer", na sua crítica social e na sua exploração do inconsciente. As suas visões e a sua linguagem complexa continuam a desafiar os leitores e críticos.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Apesar da sua curta carreira literária, Rimbaud levou uma vida aventureira e cheia de peripécias, culminando no seu abandono da poesia para se dedicar a outras atividades. A sua capacidade de criar obras-primas em tão pouco tempo é um dos aspetos mais fascinantes.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Arthur Rimbaud faleceu em Marselha. A sua memória é celebrada através da sua obra imortal, que continua a inspirar e a desafiar leitores em todo o mundo.

Poemas

10

CANÇÃO DA MAIS ALTA TORRE

Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.
Ah! que venha o instante
Que as almas encante.

Eu me digo: cessa,
Que ninguém te veja:
E sem a promessa
Do que quer que seja.
Não te impeça nada,
Excelsa morada.

De tanta paciência
Para sempre esqueço:
Temor e dolência
Aos céus ofereço,
E a sede sem peias
Me escurece as veias.

Assim esquecidas
Vão-se as Primaveras
Plenas e floridas
De incenso e de heras
Sob as notas foscas
De cem feias moscas

Ah! Mil viuvezas
Da alma que chora
E só tem tristezas
De Nossa Senhora!
Alguém oraria
À Virgem Maria?

Inútil beleza
A tudo rendida,
Por delicadeza
Perdi minha vida.

Ah! que venha o instante
Que as almas encante!


23 208

A eternidade

De novo me invade.
Quem? - A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

Alma sentinela,
Ensina-me o jogo
Da noite que gela
E do dia em fogo.

Das lides humanas,
Das palmas e vaias,
Já te desenganas
E no ar te espraias.

De outra nenhuma,
Brasas de cetim,
O Dever se esfuma
Sem dizer: enfim.

Lá não há esperança
E não há futuro.
Ciência e paciência,
Suplício seguro.

De novo me invade.
Quem? - A Eternidade.
É o mar que se vai
Com o sol que cai.

Maio 1872
11 118

VOGAIS

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul, vogais,
Ainda desvendarei seus mistérios latentes:
A, velado voar de moscas reluzentes
Que zumbem ao redor dos acres lodaçais;

E, nívea candidez de tendas areais,
Lanças de gelo, reis brancos, flores trementes;
I, escarro carmim, rubis a rir nos dentes
Da ira ou da ilusão em tristes bacanais;

U, curvas, vibrações verdes dos oceanos,
Paz de verduras, pas dos pastos, paz dos anos
Que as rugas vão urdindo entre brumas e escolhos;

O, supremo Clamor cheio de estranhos versos,
Silêncio assombrados de anjos e universos;
- Ó! Ômega, o sol violeta dos Seus olhos!


12 033

VÊNUS ANADIÔMENE

Como de um verde túmulo em latão o vulto
De uma mulher, cabelos brunos empastados,
De uma velha banheira emerge, lento e estulto,
Com déficits bastante mal dissimulados;

Do colo graxo e gris saltam as omoplatas
Amplas, o dorso curto que entra e sai no ar;
Sob a pele a gordura cai em folhas chatas,
E o redondo dos rins como a querer voar...

O dorso é avermelhado e em tudo há um sabor
Estranhamente horrível; notam-se, a rigor,
Particularidades que demandam lupa...

Nos rins dois nomes só gravados: CLARA VENUS;
- E todo o corpo move e estende a ampla garupa
Bela horrorosamente, uma úlcera no ânus.

27 de julho de 1870


6 653

A ESTRELA CHOROU ROSA

A estrela chorou rosa ao céu de tua orelha.
O infinito rolou branco, da nuca aos rins.
O mar perolou ruivo em tua teta vermelha.
E o Homem sangrou negro o altar dos teus quadris.


5 644

NO CABARÉ VERDE - às cinco da tarde

Oito dias de estrada, as botas esfoladas
De tanto caminhar. Em Charleroi, desvio:
- Entro no Cabaré Verde: peço torradas
Na manteiga e presunto; que não seja frio.

Despreocupado estiro as pernas sobre a mesa
Verde e me esqueço a olhar os temas primitivos
Sobre a tapeçaria. - Adorável surpresa,
A garota de enormes tetas, olhos vivos,

- Essa, não há de ser um beijo que a afugente! -
Rindo, vem me trazer meu pedido numa
Bandeja multicor: pão com presunto quente,

Presunto rosa e branco aromado de um dente
De alho, e o chope bem gelado, boa espuma,
Que uma réstea de sol doura tardiamente.

Outubro de 1870


2 927

OS CORVOS

Senhor, quando os campos são frios
E nos povoados desnudos
Os longos ângelus são mudos...
Sobre os arvoredos vazios
Fazei descer dos céus preciosos
Os caros corvos deliciosos.

Hoste estranha de gritos secos
Ventos frios varrem nossos ninhos!
Vós, ao longo dos rios maninhos,
Sobre os calvários e seus becos,
Sobre as fossas, sobre os canais,
Dispersai-vos e ali restais.

Aos milhares, nos campos ermos,
Onde há mortos recém-sepultos,
Girai, no inverno, vossos vultos
Para cada um de nós vos vermos,
Sede a consciência que nos leva,
Ó funerais aves das trevas!

Mas, anjos do ar, no alto da fronde,
Mastros sem fim que os céus encantam,
Deixai os pássaros que cantam
Aos que no breu do bosque esconde,
Lá, onde o escuro é mais escuro,
Uma derrota sem futuro.


3 889

FOME

Meu gosto, agora se encerra
Em comer pedras e terra.
Só me alimento de ar,
de rochas, de carvão, de ferro.

Pastai o prado de feno,
Ó fomes minhas.
Chamai o gaio veneno
Das campainhas.

Comei o cascalho que seja
Das velhas pedras de igreja;
Seixos de antigos dilúvios,
Pão semeado em vales turvos.


Uiva o lobo na folhagem,
Cuspindo a bela plumagem
Das aves de seu repasto :
É assim que me desgasto.

As hortalicas, as frutas
Esperam só a colheita.
Mas o aranhão da hera
Não come senão violetas.

Que eu adormeca, que eu arda
Nas aras de Salomão.
Na ferrugem escorre a calda
E se mistura ao Cedrão.

Enfim, ó ventura, ó razão, afastei do céu o azul,
que é negro, e vivi, centelha de ouro, dessa
luz natureza. De alegria, adotava a expres-
são mais ridícula e desvairada possível :

Achada, é verdade ?!
Quem ? A eternidade.
É o mar que o sol
Invade

Observa, minh´alma
Eterna, o teu voto
Seja noite só,
Torre o dia em chama.

Que então te avantajes
A humanos sufrágios,
A impulsos comuns !
Tu voas como os...

- Esperanca ausente,
Nada de oriétur
Ciência paciência,
Só o suplício é certo.

O amanhã não vem,
Brasas de cetim.
Deves o ardor
Ao dever doar.

Achada, é verdade ?!
- Quem ? - A Eternidade.
É o amor que o sol
Invade.


4 208

CASTELOS, ESTAÇÕES

Castelos, estações,
Que almas é sem senões?

Castelos, estações.

Eu fiz o mágico estudo
Da Felicidade, eis tudo.

Que eu possa ouvir outra vez
Cantar seu galo gaulês.

Desejos? Dores? Olvida.
Ela é a luz da minha vida.

O Encanto entrou em minha alma.
Doravante tudo é calma.

O que esperar do meu verso?
Que voe pelo universo.

Castelos, estações!

E se me arrastar o mal,
Seu fel me será fatal.

Que a morte com seu desprezo
Me liberte desse peso!

- Castelos, estações!


3 752

AS CATADORAS DE PIOLHOS

Quando a fronte do infante, vermelha das tormentas,
Só implora o enxame branco dos sonhos sem perfil,
Se acercam de sua cama duas grandes irmãs atentas
Trazendo dedos frágeis, com unhas de ar gentil.

Fazem sentar o infante ao pé de uma janela
Aberta (onde o ar azul banha uma confusão de flores)
E em seus cabelos densos que o orvalho gela
Passeiam os dedos finos, terríveis e encantadores.

Ele escuta cantar o hálito dessas divas
Temerosas, que rescende a longos méis vegetais,
Às vezes sincopado de um silvar: salivas
Chupadas para os lábios - ou vontades de beijar?

Ouve o bater de suas negras pestanas, sob silêncios
Perfumados; e aqueles dedos elétricos, mansinhos,
A fazer crepitar em meio a cinzas indolências,
Sob suas régias unhas, a morte dos piolhinhos.

Eis que sobe por ele o vinho da Preguiça,
Suspiro de acordeão capaz de delirar;
E nasce nele, conforme a lentidão das carícias,
Um exato querer-e-não-querer chorar.

(Tradução
de Rubens Torres Filho)

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Luis
Luis

Autor maravilhoso