Stéphane Mallarmé

Stéphane Mallarmé

1842–1898 · viveu 56 anos FR FR

Stéphane Mallarmé foi um poeta e crítico francês, figura central do simbolismo literário. A sua obra é conhecida pela complexidade, musicalidade e pela busca de uma linguagem poética que transcendesse a realidade quotidiana, visando criar um "livro" absoluto. A sua influência estende-se por toda a poesia moderna, impactando movimentos como o surrealismo e a poesia concreta.

n. 1842-03-18, Paris · m. 1898-09-09, Fontainebleau

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Angústia

Não vim domar teu corpo esta noite, ó cadela
Que encerras os pecados de um povo, ou cavar
Em teus cabelos torpes a triste procela
No incurável fastio em meu beijo a vazar:

Busco em teu leito o sono atroz sem devaneios
Pairando sob ignotas telas do remorso,
E que possas gozar após negros enleios,
Tu que acima do nada sabes mais que os mortos:

Pois o Vício, a roer minha nata nobreza,
Tal como a ti marcou-me de esterilidade,
Mas enquanto teu seio de pedra é cidade.

De um coração que crime algum fere com presas,
Pálido, fujo, nulo, envolto em meu sudário,
Com medo de morrer pois durmo solitário.


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Biografia

Identificação e contexto básico

Stéphane Mallarmé (nome completo: Étienne Mallarmé) nasceu em França. Foi um poeta e crítico literário francês, considerado uma das figuras mais importantes do simbolismo. A sua obra é marcada pela experimentação linguística e pela busca de uma expressão poética pura e autónoma, influenciando profundamente a poesia moderna.

Infância e formação

Mallarmé nasceu numa família de funcionários públicos. A sua infância foi marcada pela perda precoce da mãe. Teve uma formação académica regular, mas foi através da leitura autodidata e do contacto com o círculo literário parisiense que desenvolveu o seu estilo e pensamento poético.

Percurso literário

O início da sua atividade literária deu-se na juventude, com a publicação dos seus primeiros poemas e críticas. Ao longo da sua carreira, evoluiu para uma poesia cada vez mais hermética e musical, procurando desvendar os mistérios da existência através da linguagem. Colaborou em diversas revistas literárias, sendo um crítico respeitado.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As suas obras mais conhecidas incluem "L'Après-midi d'un faune" (A Tarde de um Fauno) e "Un coup de dés jamais n'abolira le hasard" (Um Lance de Dados Jamais Abolirá o Acaso). Os temas centrais da sua poesia exploram a natureza da linguagem, a relação entre o real e o ideal, a solidão e o mistério da criação. O seu estilo é caracterizado pela densidade simbólica, pela musicalidade, pelo uso de metáforas complexas e pela experimentação formal, incluindo o verso livre e a disposição gráfica dos versos. Mallarmé procurou criar uma "poesia pura", separada da mera comunicação ou da expressão pessoal direta, influenciando diretamente o simbolismo e abrindo caminho para o modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Mallarmé viveu num período de grandes transformações sociais e culturais em França, incluindo o desenvolvimento do simbolismo como reação ao realismo e ao parnasianismo. Foi uma figura central nos salões literários parisienses, onde recebia e debatia com artistas e escritores de várias gerações, como Verlaine, Rimbaud e Verlaine.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Foi professor de inglês, o que lhe garantiu estabilidade financeira para se dedicar à poesia. Casou-se e teve filhos. A sua vida pessoal, embora marcada por uma certa reclusão intelectual, foi também um espaço de intensa reflexão sobre a arte e a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora em vida não tenha alcançado uma popularidade massiva, o seu reconhecimento entre os círculos literários foi imenso. A sua obra foi vista como a culminação do simbolismo e como um ponto de partida para novas explorações poéticas, sendo estudada e admirada por gerações posteriores de poetas e críticos.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Mallarmé foi influenciado por poetas como Baudelaire e Edgar Allan Poe. O seu legado é imenso, tendo influenciado poetas como Paul Valéry, Rainer Maria Rilke, T.S. Eliot e os surrealistas. É considerado um dos pais da poesia moderna, com a sua ênfase na autonomia da linguagem poética e na exploração das suas potencialidades.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Mallarmé é objeto de constante debate crítico devido à sua complexidade e hermetismo. As interpretações variam desde leituras filosóficas sobre a linguagem e o ser até análises formais das suas inovações métricas e gráficas.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Mallarmé era conhecido pelos seus "mardis" (terças-feiras), reuniões em sua casa onde se debatia literatura e arte. A sua busca pela perfeição poética levou-o a rever e a reescrever os seus poemas repetidamente.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Morreu em França. A sua obra continuou a ser publicada e a ser objeto de estudo e admiração, consolidando o seu lugar como um dos maiores poetas da língua francesa.

Poemas

16

Angústia

Não vim domar teu corpo esta noite, ó cadela
Que encerras os pecados de um povo, ou cavar
Em teus cabelos torpes a triste procela
No incurável fastio em meu beijo a vazar:

Busco em teu leito o sono atroz sem devaneios
Pairando sob ignotas telas do remorso,
E que possas gozar após negros enleios,
Tu que acima do nada sabes mais que os mortos:

Pois o Vício, a roer minha nata nobreza,
Tal como a ti marcou-me de esterilidade,
Mas enquanto teu seio de pedra é cidade.

De um coração que crime algum fere com presas,
Pálido, fujo, nulo, envolto em meu sudário,
Com medo de morrer pois durmo solitário.


7 530

O Acaso

Cai
a pluma
rítmico suspense do sinistro
nas espumas primordiais
de onde há pouco sobressaltara seu delírio a um cimo fenescido
pela neutralidade idêntica do abismo


8 200

Cansado do repouso amargo

Uma linha de azul fina e pálida traça
Um lago, sob o céu atrás da nuvem clara
Molha no vidro da água um dos cronos aduncos,
Junto a três grandes cílios de esmeralda, juncos.


4 372

PROSA

Hipérbole! desta memória
Triunfalmente não tens tido
Como erguer-te, hoje obscura história
Em livro de ferro vestido:

Pois instalo, pela ciência,
O hino de almas espirituais
Na obra de minha paciência,
Atlas, herbários e rituais.

Passeávamos nosso semblante
( Éramos dois, posso afirmar)
Nos encantos da cena adiante,
Ó irmã, para os teus reafirmar.

Turva-se a era de autoridade
Quando, sem motivo, se fala
Desse sul que a duplicidade
De nossa inconsciência assinala

Que, chão multíris, seu lugar,
Se existiu o deverão
Saber, não traz nome que ecoar
O ouro da trompa de Verão.

Sim, em uma ilha que o ar
Enche não de visões mas vista
Toda flor se abria invulgar
Sem em conversa ser revista.

Tais, imensas, que oportuna
Cada uma se preparou
Com lúcido entorno, lacuna
Que dos jardins a separou.

Idéias, glória do desejo,
Tudo em mim se exaltou de ver
As irídeas em cortejo
Surgir para o novo dever,

Mas seu olhar, terna e tranqüila,
Não o levou esta irmã
Além do sorriso e, a ouvi-la,
Cuido de meu antigo afã.

Oh! o Espírito de porfia
Saiba, quando estamos silentes,
Que a haste de mil lírios crescia
Por demais para nossas mentes

E não como a margem chora,
Se o jogo monótono mente
E quer a amplitude afora
Neste meu susto viridente

De ouvir todo o céu e a carta
Firmados em meus passos mil
Vezes, pela onda que se aparta,
Que esse país não existiu.

A criança do êxtase abdica
E douta já pelos caminhos
- Anastásio, é o que ela indica,
Criado p'ra eternos pergaminhos,

Antes de um túmulo rir em
Qualquer clima, seu antepassado,
Do nome - Pulquéria! - que tem,
Pelo alto gladíolo ocultado.


3 888

Brise Marine

Brise Marine

La chair est triste, hélas! et jai lu tous les livres.

Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres

Dêtre parmi lécume inconnue et les cieux!

Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux

Ne retiendra ce cœur qui dans la mer se trempe

O nuits! ni la clarté déserte de ma lampe

Sur le vide papier que la blancheur défend

Et ni la jeune femme allaitant son enfant.

Je partirai! Steamer balançant ta mâture,

Lève lancre pour une exotique nature!

Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,

Croit encore à ladieu suprême des mouchoirs!

Et, peut-être, les mâts, invitant les orages

Sont-ils de ceux quun vent penche sur les naufrages

Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...

Mais, ô mon cœur, entends le chant des matelots!

3 359

O TÚMULO DE EDGAR POE

(Tradução de Jorge de Sena)

Tal que em Si-mesmo enfim a Eternidade o apura
O Poeta suscita com seu gládio erguido
Seu século aterrado de não ter ouvido
Que a morte triunfava nessa voz obscura!

Eles, em sobressalto como de hidra impura
Audindo o anjo aos da tribo temos dar sentido
Puro mais, logo aclamam sortilégio haurido
Nas desonradas águas de uma atra mistura.

Opostos solo e nuvens, ó suprema dor!
Se a nossa ideia com não cria de escultor
De que a tumba de Poe se orne resplandecente,

Calmo tombado bloco de um desastre escuro,
Que este granito ao menos mostre o seu batente
Ao negro vôo blasfemo esparso no futuro.

7 395

Fosse

Seria
pior
não
mais nem menos
indiferentemente mas tanto quanto


3 480

As vendedoras de roupas

O olho vivo com que vês
Até o seu conteúdo
Me aparta de minhas vestes
E como um deus vou desnudo


3 221

BRINDE FÚNEBRE

Ó tu, fatal emblema de nossa alegria!

Saudação à demência e libação sombria,
Não creias que a fé mágica no corredor
Ergo a taça vazia com um monstro de ouro e dor!
Tua aparição não me será suficiente:
Pois em local de porfírio te pus jacente.
Pelo rito, que a tocha seja apagada
Contra o ferro espesso das portas de entrada
Da tumba - sabe-se, eleito à discreta
Celebração pela ausência do poeta,
Que o belo monumento o encerra inteiramente.
É apenas o ofício de glória ardente,
Até a hora das cinzas, a comum e vil,
No vitral em que clara, alta noite caiu,
Que retorna às flamas do puro sol mortal!
Magnífico, inteiro e solitário, tal
Treme o falso orgulho humano em assomos.
A multidão feroz anuncia: Nós somos
A triste opacidade de espectros futuros.
Mas, o brasão dos lutos nos inúteis muros,
O lúcido horror de uma lágrima esqueço
Quando, ao sagrado verso, surdo e avesso,
Um passante, hóspede de mortalha vazia,
Soberbo e cego e mudo eis se convertia
Em um virgem herói de póstuma espera.
Vendaval de palavras que ele não dissera
À densa bruma traz o vórtex desmedido,
O nada para este Homem ontem abolido:
"Lembranças de horizontes, dize, a Terra é o quê?"
Urra o sonho; e, voz cuja luz não se vê,
-"Não sei!" - é o grito com que brincam os espaços.
O Mestre, com um olho agudo, em seus passos,
Apaziguou do éden a surpresa inquieta
Cujo tremor final, em sua só voz, inquieta
Para a Rosa e o Lis o mistério de um nome.
Deste destino nada resta, tudo some?
Esquecei, todos vós, uma crença tão turva.
O esplêndido, eterno gênio, nada o turva.
Eu, a vosso desejo atento, quero ver,
A quem desmaia, ontem, no ideal dever
Pelos jardins deste astro assim a nós imposto,
Sobreviver em honra do desastre posto
Solene agitação de palavras pelo ar,
Ébria púrpura e claro cálice invulgar,
Que o diáfano olhar, chuva e diamante,
Preso a essas flores de viço constante,
Isola entre a hora e o brilho do dia!
É de nossos veros jardins toda a estadia,
Onde o poeta puro tem o gesto largo
De atar o sonho, inimigo do encargo:
Para que na manhã do repouso leal,
Quando, para Gautier, a morte imemorial
É os olhos sagrados fechar, e calar,
Surja, da alameda ornamento ancilar,
Sólida tumba onde jaz o que arrefeça,
E o avaro silêncio e a noite espessa.


5 009

Soupir

Mon âme vers ton front où rêve, ô calme soeur,
Un automne jonché de taches de rousseur,
Et vers le ciel errant de ton oeil angélique
Monte, comme dans un jardin mélancolique,
Fidèle, un blanc jet d'eau soupire vers l'Azur!
- Vers l'Azur attendri d'Octobre pâle et pur
Qui mire aux grands bassins sa langueur infinie
Et laisse, sur l'eau morte où la fauve agonie
Des feuilles erre au vent et creuse un froid sillon,
Se traîner le soleil jaune d'un long rayon.


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