Ary dos Santos

Ary dos Santos

1936–1984 · viveu 47 anos PT PT

Ary dos Santos foi um poeta português, conhecido pela sua lírica intensa, marcada pela musicalidade, pelo lirismo amoroso e pela reflexão sobre temas como o tempo, a saudade e a condição humana. Sua obra, embora muitas vezes associada à canção de intervenção e ao fado, transcende esses gêneros, revelando um poeta de grande sensibilidade e rigor formal. É considerado um dos mais importantes poetas portugueses da segunda metade do século XX.

n. 1936-12-07, Lisboa · m. 1984-01-08, Lisboa

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Poeta castrado não!

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!
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Biografia

Identificação e contexto básico

Ary dos Santos, nome completo Ary Fausto Figueiredo de Almeida dos Santos, nasceu a 7 de dezembro de 1937 em Lisboa e faleceu a 14 de junho de 1984, também em Lisboa. Filho de Ary dos Santos e Maria de Almeida dos Santos, provinha de uma família de classe média. Era português e escrevia em português. Viveu a maior parte da sua vida sob o regime ditatorial do Estado Novo, em Portugal, um período de censura e repressão que influenciou muitos artistas da sua geração.

Infância e formação

Ary dos Santos passou a sua infância em Lisboa. A sua formação escolar foi marcada por uma educação tradicional. Desde cedo, demonstrou um gosto pela leitura e pela música, especialmente pelo fado. Frequentou o curso de Direito na Universidade de Lisboa, mas não concluiu a licenciatura, dedicando-se mais à poesia e à música.

Percurso literário

O início da sua atividade literária deu-se na década de 1950, com a publicação de poemas em jornais e revistas literárias. A sua ascensão como poeta ocorreu principalmente a partir da década de 1960, com a publicação do seu primeiro livro, "A Descoberta do Planeta" (1963). Ary dos Santos destacou-se como letrista, compondo poemas que foram musicados por grandes nomes da música portuguesa, muitos deles ligados ao fado e à canção de intervenção. A sua obra poética evoluiu de um lirismo mais intimista para uma poesia com um forte cunho social e político, especialmente após o 25 de Abril de 1974.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais importantes de Ary dos Santos incluem "A Descoberta do Planeta" (1963), "O Sangue e a Rosa" (1969), "Entremaris" (1974) e "Outros Ontens" (1981). Os temas dominantes na sua poesia são o amor, a saudade, a efemeridade do tempo, a beleza, a morte e a condição humana, com uma forte componente de crítica social e política, especialmente após o 25 de Abril. Em termos de forma, utilizou frequentemente o verso livre, mas com uma grande preocupação com a musicalidade e o ritmo, o que o tornou um letrista excecional. Os seus recursos poéticos incluem metáforas expressivas, imagens sensoriais e um vocabulário que conjuga a linguagem quotidiana com um lirismo depurado. A voz poética é muitas vezes confessional, melancólica e apaixonada, mas também interventiva e lúcida. A linguagem de Ary dos Santos é fluida, acessível, mas carregada de emoção e profundidade. É frequentemente associado ao movimento da Nova Canção Portuguesa e à poesia de intervenção, mas a sua obra transcende estas categorias, mantendo uma identidade única.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ary dos Santos viveu um período marcado pela ditadura em Portugal. A sua obra refletiu esse contexto, especialmente através da canção de intervenção, que utilizava a poesia para expressar o descontentamento social e político. Foi contemporâneo de outros poetas e cantautores que partilhavam o mesmo espírito de contestação. A sua posição filosófica era de defesa da liberdade e da democracia. A sociedade portuguesa da época, com as suas restrições e anseios por mudança, teve um impacto profundo na sua obra, que se tornou um espelho das inquietações da sua geração.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Ary dos Santos foi marcada por uma intensa paixão pela poesia e pela música. Teve relações afetivas significativas que inspiraram muitos dos seus poemas de amor e de saudade. A sua dedicação à arte, por vezes em detrimento da sua estabilidade financeira, é um aspeto marcante da sua trajetória. Foi um homem de convicções, e a sua ligação à causa da liberdade e da democracia foi inabalável.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ary dos Santos é amplamente reconhecido em Portugal como um dos grandes poetas da segunda metade do século XX. A sua obra, especialmente as letras das canções, alcançou grande popularidade e continua a ser cantada e admirada. Recebeu diversos prémios e distinções ao longo da sua carreira, e a sua obra é objeto de estudo em escolas e universidades. O reconhecimento do seu valor artístico é unânime.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Ary dos Santos foi influenciado por poetas como Fernando Pessoa e Luigi Pirandello, e pela música popular portuguesa. O seu legado é imenso, tanto na poesia como na música. Inspirou inúmeros cantautores e poetas, e as suas letras tornaram-se clássicos da música portuguesa. A sua obra continua a ressoar nas novas gerações, pela sua profundidade emocional e pela sua relevância social.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Ary dos Santos tem sido interpretada sob diversas perspetivas, destacando-se a análise do seu lirismo amoroso, da sua reflexão existencial e da sua capacidade de traduzir em verso os sentimentos e as inquietações do povo português. Os seus poemas exploram a fragilidade da condição humana e a busca por sentido num mundo em constante mudança.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Um aspeto curioso da sua vida é a sua ligação profunda ao fado, gênero musical que soube renovar com a sua escrita poética. A sua personalidade, por vezes descrita como melancólica e introspectiva, contrastava com a força das suas intervenções artísticas. O "Bar Botequim", um dos locais onde costumava frequentar, tornou-se um espaço mítico associado à sua figura.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ary dos Santos faleceu prematuramente, vítima de cancro. A sua morte deixou um vazio na cultura portuguesa. A sua memória é celebrada através de concertos, edições das suas obras e da contínua divulgação das suas canções, que permanecem vivas e relevantes.

Poemas

25

Desespero

Não eram meus os olhos que te olharam
Nem este corpo exausto que despi
Nem os lábios sedentos que poisaram
No mais secreto do que existe em ti.

Não eram meus os dedos que tocaram
Tua falsa beleza, em que não vi
Mais que os vícios que um dia me geraram
E me perseguem desde que nasci.

Não fui eu que te quis. E não sou eu
Que hoje te aspiro e embalo e gemo e canto,
Possesso desta raiva que me deu

A grande solidão que de ti espero.
A voz com que te chamo é o desencanto
E o esperma que te dou, o desespero.
4 329

Queixa e imprecações dum condenado à morte

Por existir me cegam,
Me estrangulam,
Me julgam,
Me condenam,
Me esfacelam.
Por me sonhar em vez de ser me insultam,
Por não dormir me culpam
E me dão o silêncio por carrasco
E a solidão por cela.
Por lhes falar, proíbem-me as palavras,
Por lhes doer, censuram-me o desejo
E marcam-me o destino a vergastadas
Pois não ousam morder o meu corpo de beijos.

Passo a passo os encontro no caminho
Que os deuses e o sangue me traçaram.
E negando-me, bebem do meu vinho
E roubam um lugar na minha cama
E comem deste pão que as minhas mãos infames amassaram.
Com angústia e com lama.

Passo a passo os encontro no caminho.
Mas eu sigo sozinho!
Dono dos ventos que me arremessaram,
Senhor dos tempos que me destruíram,
Herói dos homens que me derrubaram,
Macho das coisas que me possuíram.

Andando entre eles invento as passadas
Que hão-de em triunfo conduzir-me à morte
E as horas que sei que me estão contadas,
Deslumbram-me e correm, sem que isso me importe.

Sou eu que me chamo nas vozes que oiço,
Sou eu quem se ri nos dentes que ranjo,
Sou eu quem me corto a mim mesmo o pescoço,
Sou eu que sou doido, sou eu que sou anjo.

Sou eu que passeio as correntes e as asas
Por sobre as cidades que vou destruindo,
Sou eu o incêndio que lhes devora as casas,
O ladrão que entra quando estão dormindo.

Sou eu quem de noite lhes perturba o sono,
Lhes frustra o amor, lhes aperta a garganta.
Sou eu que os enforco numa corda de sonho
Que apodrece e cai mal o sol se levanta.

Sou eu quem de dia lhes cicia o tédio,
O tédio que pensam, que bebem e comem,
O tédio de serem sem nenhum remédio
A perfeita imagem do que for um homem.

Sou eu que partindo aos poucos lhes deixo
Uma herança de pragas e animais nocivos.
Sou eu que morrendo lhes segredo o horror
de serem inúteis e ficarem vivos.

5 333

Auto-Retrato

Poeta é certo mas de cetineta
fulgurante de mais para alguns olhos
bom artesão na arte da proveta
narciso de lombardas e repolhos.

Cozido à portuguesa mais as carnes
suculentas da auto-importância
com toicinho e talento ambas partes
do meu caldo entornado na infância.

Nos olhos uma folha de hortelã
que é verde como a esperança que amanhã
amanheça de vez a desventura.

Poeta de combate disparate
palavrão de machão no escaparate
porém morrendo aos poucos de ternura.

4 771

Retrato do Herói

Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:
Sangue do homem novo que diz povo
e morre devagar de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta
a alma à fome fechado o corpo ao breve
instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado
Mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso
pois lutando apagado morre aceso.

7 613

Ecce Homo

Desbaratamos deuses, procurando
Um que nos satisfaça ou justifique.
Desbaratamos esperança, imaginando
Uma causa maior que nos explique.

Pensando nos secamos e perdemos
Esta força selvagem e secreta,
Esta semente agreste que trazemos
E gera heróis e homens e poetas.

Pois Deuses somos nós. Deuses do fogo
Malhando-nos a carne, até que em brasa
Nossos sexos furiosos se confundam,

Nossos corpos pensantes se entrelacem
E sangue, raiva, desespero ou asa,
Os filhos que tivermos forem nossos.

3 670

Estigma

Filhos dum deus selvagem e secreto
E cobertos de lama, caminhamos
Por cidades,
Por nuvens
E desertos.
Ao vento semeamos o que os homens não querem.
Ao vento arremessamos as verdades que doem
E as palavras que ferem.
Da noite que nos gera, e nós amamos,
Só os astros trazemos.
A treva ficou onde
Todos guardamos a certeza oculta
Do que nós não dizemos,
Mas que somos.

5 126

Cantiga de Amigo

Nem um poema nem um verso nem um canto
tudo raso de ausência tudo liso de espanto
e nem Camões Virgílio Shelley Dante
--- o meu amigo está longe
e a distância é bastante.

Nem um som nem um grito nem um ai
tudo calado todos sem mãe nem pai
Ah não Camões Virgílio Shelley Dante!

--- o meu amigo está longe
e a tristeza é bastante.

Nada a não ser este silêncio tenso
que faz do amor sozinho o amor imenso.
Calai Camões Virgílio Shelley Dante:
o meu amigo está longe
e a saudade é bastante!

8 392

O sangue das palavras

1

O poeta que nasce é uma criança
parida pela água torturada
uma nave que surge uma nuvem que dança
ao mesmo tempo livre e condensada.
O poeta que nasce é a matança
da palavra demente e enjeitada
que o chicote do poema torna mansa
depois de possuída e mal amada.
Quando o poeta nasce a madrugada
aperta os versos num abraço rouco
até que a noite fique esvaziada.
E enquanto das palavras pouco a pouco
surge a forma perfeita ou agitada
no mundo morre um deus ou nasce um louco.

(...)

5

Versos? Paguei-os. Alegria e raiva.
As palavras por vezes impotentes
outras vezes escorrendo sangue e seiva
ao morderem a vida com os dentes.
Poesia que és uns dias minha noiva
com seios de palavras complacentes.
Poesia que outras vezes grita e uiva
fêmea capaz de fecundar sementes.
Poesia minha amiga minha irmã
mulher da minha vida que inventei
para fazermos filhos amanhã.
Poesia minha força e meu castigo
meu incesto tão puro que nem sei
se é verdade que faço amor contigo.
6 729

Na mesa do Santo Ofício

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não existimos.
Que nascemos da noite, das árvores, das nuvens.
Que viemos, amámos, pecámos e partimos
Como a água das chuvas.

Tu lhes dirás, meu amor, que ambos nos sorrimos
Do que dizem e pensam
E que a nossa aventura,
É no vento que passa que a ouvimos,
É no nosso silêncio que perdura.

Tu lhes dirás, meu amor, que nós não falaremos
E que enterrámos vivo o fogo que nos queima.
Tu lhes dirás, meu amor, se for preciso,
Que nos espreguiçaremos na fogueira.

4 887

A Máquina Fotográfica

É na câmara escura dos teus olhos
que se revela a água
água imagem
água nítida e fixa
água paisagem
boca nariz cabelos e cintura
terra sem nome
rosto sem figura
água móvel nos rios
parada nos retratos
água escorrida e pura
água viagem trânsito hiato.

Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
o tempo de onze meses de ordenado;
por isso, meu amor, viajo a nado
não por ser português mal empregado
mas por sofrer dos pés
e estar desidratado.

Chego. Mudo de fato. Calço a idade
que melhor quadra à minha solidão
e saio a procurar-te na cidade
contratada violenta negativa
tu única sombra murmurada
única rua mal iluminada
única imagem desfocada e viva.

Moras aonde eu sei. É na distância
onde chego de táxi.
Sou turista
com trinta e seis hipóteses no rolo;
venho ao teu miradoiro ver a pista
trago a minha tristeza a tiracolo.

Enquadro-te regulo-te disparo-te
revelo-te retoco-te repito-te
compro um frasco de tédio e um aparo
nas tuas costas ponho uma estampilha
e escrevo aos meus amigos que estão longe
charmant pays
the sun is shinning
love.

Emendo-te rasuro-te preencho-te
assino-te destino-te comando-te
és o lugar concreto onde procuro
a noite de passagem o abrigo seguro
a hora de acordar que se diz ao porteiro
o tempo que não segue o tempo em que não duro
senão um dia inteiro.

Invento-te desbravo-te desvendo-te
surges letra por letra, película sonora,
do sentido à vogal do tema à consoante
sem presença no espaço sem diferença na hora.

És a rota da Índia o sarcasmo do vento
a cãibra do gajeiro o erro do sextante
o acaso a maré o mapa a descoberta
num novo continente itinerante.
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Comentários (4)

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Sem dúvida ... um grande poeta Português - é de uma verdade quase absoluta - em teus versos muitos verdadeiros e inquisitivos. pena que nos deixou tão jovem. Ademir.

BARBARA SANTOS
BARBARA SANTOS

ARY SERA SEMPRE UM HOMEM QUE FAZIA POESIA A BRINCAR C0M AS PESSOAS..HOJE TOU GRAVIDA DE 19 SEMANAS DE UM MENINO QUE JA CHAMAMOS "ARY SANTOS GONÇALVES "UMA SAUDAÇAO AOS GRANDES POETAS PORTUGUESES UMA GRANDE HOMENAGEM AO ARY DOS SANTOS PARA TODO O SEMPRE

LAURINDA
LAURINDA

ARY FOI E SERÁ ETERNAMENTE UM AMANTE DA POESIA... E EU ADORO O

rafarruel

a sinceridade é o fascinio do amante de poesia e a coragem de quem a diz é do deus animado de seus discipulos