Lista de Poemas

Vênus

Deusa, a teus pés a flor das minhas crenças, ponho!
Mulher, eu te procuro, eu te amo, eu te desejo!
Para a tua nudez, — a gaze do meu Sonho,
Para a tua volúpia, o fogo do meu beijo.

Divina e humana, impura e casta, o olhar tristonho,
Cabelos soltos, corpo nu, como eu te vejo,
Dás-me todo o calor dos versos que componho
E enches-me de alegria a vida que pelejo.

Glória a ti, que, do Amor, cantaste, aos evos, o hino,
Que surgiste do mar, branca, leve, radiante,
Para a herança pagã do meu sangue latino!

Glória a ti, que ficaste, à alma dos homens, presa,
Para a celebração rubra da carne estuante
E a régia orquestração da Forma e da Beleza!

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A Frase que Matou o Operário

"Não precisamos mais do seu serviço",
Disseram-lhe os patrões, há dois meses e pouco.
E ele se foi, sob o calor abafadiço
Daquela tarde, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço".

"Não precisamos mais do seu serviço..."
De tantos anos de trabalho era esse o troco
Que recebia. Em vez de lucro, apenas isso...
E ele consigo murmurava como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."

"Não precisamos mais do seu serviço..."
Tornou-se bruto e respondia, a praga e a soco,
Aos filhos e à mulher, famintos no cortiço.
E após, chorava murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."

"Não precisamos mais do seu serviço..."
E ele saía a ver emprego, triste e mouco,
Nada! Nenhum!... E cabisbaixo, o olhar mortiço,
Ele voltava, murmurando como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."

"Não precisamos mais do seu serviço..."
E cada vez sentia mais o cérebro oco.
Enforcou-se. Morreu. "Foi o diabo ou feitiço..."
E ele morreu murmurando, como um louco:
"Não precisamos mais do seu serviço..."

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Trovas

Tic-tac... E a mocidade
vai-se, e aparece a velhice...
Tic-tac... Ai, que saudade
dos tempos da meninice!...

O amor, que em sonhos espreito,
eu teu coração não medra:
Será por acaso feito
o teu coração de pedra?

Eu era um só. Tu surgiste —
e assim ficamos os dois:
Depois, eu vi que mentiste,
e um só me tornei, depois!

Foge-me a tua conquista,
vou-me embora, — por que não? —
Quanto mais longe da vista,
mais longe do coração...

Minha filha, pobre rosa,
vê quanto sofro, querida,
ao pressentir ver trevosa
a estrada de tua vida!

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Identificação e contexto básico

**Nome completo:** Francisco de Assis Garrido **Nacionalidade:** Portuguesa

Infância e formação

Francisco de Assis Garrido nasceu em Trás-os-Montes, na aldeia de Salselas, concelho de Macedo de Cavaleiros, onde passou a sua infância e adolescência. A paisagem transmontana e a vida rural moldaram a sua visão de mundo e influenciaram a sua sensibilidade poética.

Percurso literário

Assis Garrido iniciou o seu percurso literário com a publicação de "Vozes de Trás-os-Montes". A sua obra poética desenvolveu-se ao longo do tempo, explorando temas como a terra natal, a memória, o tempo e a condição humana. Colaborou em diversas publicações e antologias.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias **Obras principais:** * "Vozes de Trás-os-Montes" * "O Semeador de Estrelas" * "O Canto do Cisne" * "Ecos do Coração" * "O Poeta e a sua Sombra" **Temas dominantes:** A terra natal (Trás-os-Montes), a memória, o tempo, a natureza, a solidão, a busca de sentido, a condição humana. **Forma e estrutura:** Utiliza predominantemente o verso livre, explorando a musicalidade e o ritmo. **Linguagem e estilo:** Linguagem cuidada, imagética e com forte apelo sensorial, por vezes com um tom melancólico e reflexivo. **Movimentos literários associados:** Embora não se filie estritamente a um movimento, a sua obra dialoga com as sensibilidades da poesia contemporânea portuguesa, com ecos de uma tradição lírica.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico A sua obra insere-se no panorama da poesia portuguesa contemporânea, mantendo um diálogo com a tradição e abordando temas universais que ressoam com as preocupações existenciais da sociedade.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Assis Garrido dedicou grande parte da sua vida à poesia, sendo reconhecido pela sua discrição e pela profundidade do seu olhar sobre o mundo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção A sua obra tem sido reconhecida pela crítica e pelos leitores pela sua qualidade estética e pela profundidade dos temas abordados.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A sua ligação à terra natal e a uma tradição lírica portuguesa são marcantes. O seu legado reside na sua capacidade de expressar a universalidade da experiência humana através de uma poesia cuidada e emotiva.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Assis Garrido é frequentemente interpretada como uma meditação sobre a identidade, a memória e a fugacidade da existência, com uma forte ligação ao espaço geográfico da sua infância.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos O seu nome está intrinsecamente ligado à sua terra natal, Trás-os-Montes, que é um elemento central na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 2015. A sua obra continua a ser lida e celebrada, mantendo viva a sua memória através dos seus versos.