Bento Teixeira

Bento Teixeira

1561–1618 · viveu 57 anos PT PT

Bento Teixeira foi um poeta e dramaturgo brasileiro, considerado um dos precursores do Barroco no Brasil. Autor de "Prosopopeia", obra publicada em 1601, que marca o início da literatura brasileira impressa. Sua escrita é caracterizada pelo uso de figuras de linguagem complexas, rebuscamento formal e temáticas religiosas, refletindo as influências do Classicismo e do início do Barroco europeu.

n. 1561-01-01, Porto · m. 1618, Lisboa

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Aqui deu fim a tudo, e brevemente

Aqui deu [fim] a tudo, e brevemente
Entra no Carro [de] Cristal lustroso;
Após dele a demais Cerúlea gente
Cortando a veia vai do Reino aquoso.
Eu, que a tal espetáculo presente
Estive, quis em Verso numeroso
Escrevê-lo por ver que assim convinha
Para mais perfeição da Musa minha.


In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.83. (Coleção de literatira brasileira, 6
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Biografia

Identificação e contexto básico

Bento Teixeira foi um poeta, dramaturgo e militar luso-brasileiro, figura chave na transição do Classicismo para o Barroco na literatura de língua portuguesa, com destaque para a sua obra em solo brasileiro. É conhecido por ser o autor de "Prosopopeia", um poema épico publicado em 1601, considerado o marco inaugural da literatura brasileira impressa. Nascido em Portugal, viveu grande parte de sua vida no Brasil, no então Estado do Maranhão, participando ativamente da vida social e política da colônia.

Infância e formação

As informações sobre a infância e a formação de Bento Teixeira são escassas e por vezes controversas. Sabe-se que nasceu em Lisboa, Portugal, e que possivelmente teve uma formação ligada às letras e às artes militares. Mudou-se para o Brasil, onde se estabeleceu no Maranhão, tornando-se um membro influente da sociedade colonial. Sua formação literária, provavelmente, absorveu as influências do Classicismo tardio e as primeiras manifestações do Barroco que chegavam da Europa.

Percurso literário

O percurso literário de Bento Teixeira é marcado principalmente por uma única obra publicada: "Prosopopeia" (1601). Este poema épico, dedicado a D. Francisco de Sousa, então governador geral do Brasil, narra em verso a conquista do Brasil e a atuação de Jerônimo de Albuquerque na pacificação do Maranhão. Apesar de ser a sua obra mais conhecida, a sua produção literária pode ter sido mais vasta, com indícios de peças teatrais e outros escritos que se perderam. O seu nome também está associado a controvérsias sobre a autoria e a data de publicação de "Prosopopeia".

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra "Prosopopeia" de Bento Teixeira é um marco por ser o primeiro livro impresso no Brasil e por apresentar características que prenunciam o Barroco brasileiro. O poema utiliza uma linguagem culta, repleta de figuras de linguagem como hipérbatos, metáforas complexas e antíteses, revelando um estilo ornamentado e um vocabulário erudito. Tematicamente, aborda a gesta heroica da colonização, exaltando figuras como Jerônimo de Albuquerque e D. Francisco de Sousa, e mescla elementos da mitologia clássica com a realidade colonial. A estrutura do poema é épica, com invocações, epítetos e uma narrativa que busca imitar os grandes épicos clássicos, mas com uma sensibilidade que aponta para os desdobramentos do estilo barroco.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bento Teixeira viveu em um período de intensas transformações no Brasil Colônia, no final do século XVI e início do XVII. O Maranhão, onde se estabeleceu, era uma região de grande importância estratégica e econômica, mas também de conflitos e desafios. A "Prosopopeia" surge nesse contexto como um louvor às autoridades e um registro poético da expansão territorial portuguesa. A sua obra reflete a mentalidade da época, marcada pelo desejo de engrandecimento da Coroa Portuguesa e pela adaptação dos modelos literários europeus à realidade americana.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se sabe sobre a vida pessoal de Bento Teixeira, além de sua atuação como militar e sua relação com figuras importantes da administração colonial. Sua vida no Maranhão, para onde se mudou após um período de dificuldades em Portugal, parece ter sido marcada por ambições sociais e políticas. As controvérsias sobre sua vida, incluindo acusações de roubo e a suspeita de que a "Prosopopeia" não tenha sido inteiramente de sua autoria, adicionam um véu de mistério à sua figura.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção O reconhecimento de Bento Teixeira como autor da "Prosopopeia" foi estabelecido ao longo do tempo, apesar das dúvidas que pairaram sobre a autenticidade e a autoria da obra. "Prosopopeia" é universalmente aceita como o ponto de partida da literatura brasileira impressa, e Bento Teixeira, como seu autor, figura incontornável nos estudos de literatura brasileira. Sua obra, embora única em sua forma publicada, é estudada como precursora do Barroco no Brasil, influenciando gerações posteriores de escritores.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bento Teixeira foi influenciado por autores clássicos como Virgílio e Camões, cujos modelos épicos ele buscou emular em "Prosopopeia". Seu legado principal é a introdução do livro impresso no Brasil e a inauguração de um estilo literário que, embora em germe, prenunciava as complexidades e ornamentos do Barroco brasileiro. A "Prosopopeia" serviu de modelo e inspiração para os primeiros escritores brasileiros que buscavam consolidar uma identidade literária própria.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A "Prosopopeia" tem sido objeto de inúmeras análises críticas, que focam em seu valor como marco literário, em suas características barrocas e em seu contexto histórico-social. A obra é vista como um reflexo da época colonial, com suas tensões entre a cultura europeia e a realidade brasileira, entre o classicismo e o nascente barroco. A questão da autoria, especialmente a suspeita de que parte do poema possa ter sido escrita por outros, como Diogo Bernardes, também tem sido um ponto de debate crítico.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma das curiosidades mais notáveis sobre Bento Teixeira é a persistente dúvida sobre a autoria integral da "Prosopopeia". Há fortes indícios de que parte do poema, especialmente os primeiros cantos, possa ter sido originalmente de autoria do poeta português Diogo Bernardes, e que Bento Teixeira apenas a teria publicado e completado. Essa controvérsia adiciona uma camada intrigante à sua figura literária. Outro aspeto é sua passagem pela Inquisição, que pode ter influenciado sua mudança para o Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória As circunstâncias da morte de Bento Teixeira não são bem documentadas. Sabe-se que ele faleceu no Maranhão, onde viveu a maior parte de sua vida adulta. Sua memória está eternizada pela publicação da "Prosopopeia", obra que, apesar das controvérsias sobre sua autoria, é considerada o ponto de partida da literatura brasileira impressa e um dos primeiros exemplos do estilo barroco no país.

Poemas

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Aqui deu fim a tudo, e brevemente

Aqui deu [fim] a tudo, e brevemente
Entra no Carro [de] Cristal lustroso;
Após dele a demais Cerúlea gente
Cortando a veia vai do Reino aquoso.
Eu, que a tal espetáculo presente
Estive, quis em Verso numeroso
Escrevê-lo por ver que assim convinha
Para mais perfeição da Musa minha.


In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.83. (Coleção de literatira brasileira, 6
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Descrição do Recife de Pernambuco

Para a parte do Sul, onde a pequena
Ursa se vê de guardas rodeada,
Onde o Céu luminoso mais serena
Tem sua influição, e temperada;
Junto da Nova Lusitânia ordena
A natureza, mãe bem atentada,
Um porto tão quieto e tão seguro,
Que para as curvas Naus serve de muro.

É este porto tal, por estar posta
Uma cinta de pedra, inculta e viva,
Ao longo da soberba e larga costa,
Onde quebra Netuno a fúria esquiva.
Entre a praia e pedra descomposta,
O estanhado elemento se deriva
Com tanta mansidão, que uma fateixa
Basta ter à fatal Argos aneixa.

No meio desta obra alpestre e dura,
Uma boca rompeu o Mar inchado,
Que, na língua dos bárbaros escura,
Paranambuco de todos é chamado.
De Para'na, que é Mar; Puca, rotura,
Feita com fúria desse Mar salgado,
Que, sem no derivar cometer míngua,
Cova do Mar se chama em nossa língua.

(...)


In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.31-33. (Coleção de literatura brasileira, 6)

NOTA: A "Descrição..." é composta de 5 oitava
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Narração

A Lâmpada do Sol tinha encoberto,
Ao Mundo, sua luz serena e pura,
E a irmã dos três nomes descoberto
A sua tersa e circular figura.
Lá do portal de Dite, sempre aberto,
Tinha chegado, com a noite escura,
Morfeu, que com sutis e lentos passos
Atar vem dos mortais os membros lassos.

(...)

Quando ao longo da praia, cuja areia
É de Marinhas aves estampada,
E de encrespadas Conchas mil se arreia,
Assim de cor azul, como rosada,
Do mar cortando a prateada veia,
Vinha Tritão em cola duplicada,
Não lhe vi na cabeça casca posta
(Como Camões descreve) de Lagosta.

(...)

Um Búzio desigual e retorcido
Trazia por Trombeta sonorosa,
De Pérolas e Aljôfar guarnecido,
Com obra mui sutil e curiosa.
Depois do Mar azul ter dividido,
Se sentou numa pedra Cavernosa,
E com as mãos limpando a cabeleira
Da tortuosa cola fez cadeira.

Toca a Trombeta com crescido alento,
Engrossa as veias, move os elementos,
E, rebramando os ares com o acento,
Penetra o vão dos ínfimos assentos.
Os Pólos que sustem o firmamento,
Abalados dos próprios fundamentos,
Fazem tremer a terra e Céu jucundo,
E Netuno gemer no Mar profundo.

O qual vindo da vã concavidade,
Em Carro Triunfal, com seu tridente,
Traz tão soberba pompa e majestade,
Quanta convém a Rei tão excelente.
Vem Oceano, pai de mor idade,
Com barba branca, com cerviz tremente;
Vem Glauco, vem Nereu, Deuses Marinhos,
Correm ligeiros Focas e Golfinhos.


In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.23-27. (Coleção de literatura brasileira, 6)

NOTA: A "Narração" é composta de 10 oitavas. Referência à descrição de Tritão, feita por Camões n'OS LUSÍADAS: Na cabeça, por gorra, tinha posta/ua mui grande casca de lagosta (Canto VI, estrofe 17, versos 7 e 8
6 864

Canto de Proteu

(...)

A fama dos antigos co'a moderna
Fica perdendo o preço sublimado:
A façanha cruel, que a turva Lerna
Espanta com estrondo d'arco armado;
O cão de três gargantas, que na eterna
Confusão infernal está fechado,
Não louve o braço de Hércules Tebano,
Pois procede Albuquerque soberano.

Vejo (diz o bom velho) que, na mente,
O tempo de Saturno renovado,
E a opulenta Olinda florescente
Chegar ao cume do supremo estado.
Será de fera e belicosa gente
O seu largo distrito povoado;
Por nome terá Nova Lusitânia,
Das Leis isenta da fatal insânia.

As rédeas terá desta Lusitânia
O grão Duarte, valoroso e claro,
Coelho por cognome, que a insânia
Reprimirá dos seus, com saber raro.
Outro Troiano Pio, que em Dardânia
Os Penates livrou e o padre caro;
Um Públio Cipião, na continência;
Outro Nestor e Fábio, na prudência.

O braço invicto vejo com que amansa
A dura cerviz bárbara insolente,
Instruindo na Fé, dando esperança
Do bem que sempre dura e é presente;
Eu vejo co`o rigor da tesa lança
Acossar o Francês, impaciente
De lhe ver alcançar uma vitória
Tão capaz e tão digna de memória.

(...)


In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.37-39. (Coleção de literatura brasileira, 6)

NOTA: O "Canto de Proteu" é composto de 72 oitava
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Cantem Poetas o poder Romano

Cantem Poetas o poder Romano,
Submetendo Nações ao jugo duro;
O Mantuano pinte o Rei Troiano,
Descendo à confusão do Reino escuro;
Que eu canto um Albuquerque soberano,
Da Fé, da cara Pátria firme muro,
Cujo valor a ser, que o Céu lhe inspira,
Pode estancar a Lácia e Grega lira.

As Délficas irmãs chamar não quero,
Que tal invocação é vão estudo;
Aquele chamo só, de quem espero
A vida que se espera em fim de tudo.
Ele fará meu Verso tão sincero,
Quanto fora sem ele tosco e rudo,
Que por razão negar não deve o menos
Quem deu o mais a míseros terrenos.

(...)


In: TEIXEIRA, Bento. Prosopopéia. Introd. estabelecimento do texto e comentários Celso Cunha e Carlos Duval. Rio de Janeiro: INL, 1972. p.19. (Coleção de literatura brasileira, 6)

NOTA: O trecho inicial do poema até a "Narração" é composto de 6 oitava
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