Lista de Poemas

Buscando a Cristo

A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, pra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.

44 998

Pica-Flor

A uma freira que satirizando a delgada
fisionomia do poeta lhe chamou "Pica-Flor".

Se Pica-Flor me chamais,
Pica-Flor aceito ser,
Mas resta agora saber,
Se no nome que me dais,
Meteia a flor que guardais
No passarinho melhor!
Se me dais este favor,
Sendo só de mim o Pica,
E o mais vosso, claro fica,
Que fico então Pica-Flor.

91 945

Define a Sua Cidade

De dois ff se compõe
esta cidade a meu ver:
um furtar, outro foder.

Recopilou-se o direito,
e quem o recopilou
com dous ff o explicou
por estar feito, e bem feito:
por bem digesto, e colheito
só com dous ff o expõe,
e assim quem os olhos põe
no trato, que aqui se encerra,
há de dizer que esta terra
de dous ff se compõe.

Se de dous ff composta
está a nossa Bahia,
errada a ortografia,
a grande dano está posta:
eu quero fazer aposta
e quero um tostão perder,
que isso a há de perverter,
se o furtar e o foder bem
não são os ff que tem
esta cidade ao meu ver.

Provo a conjetura já,
prontamente como um brinco:
Bahia tem letras cinco
que são B-A-H-I-A:
logo ninguém me dirá
que dous ff chega a ter,
pois nenhum contém sequer,
salvo se em boa verdade
são os ff da cidade
um furtar, outro foder.

11 811

Pondera Agora com Mais Atenção a Formosura de D Ângela

Não vi em minha vida a formosura,
Ouvia falar nela cada dia,
E ouvida me incitava, e me movia
A querer ver tão bela arquitetura.

Ontem a vi por minha desventura
Na cara, no bom ar, na galhardia
De uma Mulher, que em Anjo se mentia,
De um Sol, que se trajava em criatura.

Me matem (disse então vendo abrasar-me)
Se esta a cousa não é, que encarecer-me.
Saiba o mundo, e tanto exagerar-me.

Olhos meus (disse então por defender-me)
Se a beleza hei de ver para matar-me,
Antes, olhos, cegueis, do que eu perder-me.


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
10 203

Epílogos

Que falta nesta cidade?................Verdade
Que mais por sua desonra?...........Honra
Falta mais que se lhe ponha..........Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
numa cidade, onde falta
Verdade, Honra, Vergonha.

Quem a pôs neste socrócio?..........Negócio
Quem causa tal perdição?.............Ambição
E o maior desta loucura?...............Usura.

Notável desventura
de um povo néscio, e sandeu,
que não sabe, que o perdeu
Negócio, Ambição, Usura.

Quais são os seus doces objetos?....Pretos
Tem outros bens mais maciços?.....Mestiços
Quais destes lhe são mais gratos?...Mulatos.

Dou ao demo os insensatos,
dou ao demo a gente asnal,
que estima por cabedal
Pretos, Mestiços, Mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?...Meirinhos
Quem faz as farinhas tardas?.........Guardas
Quem as tem nos aposentos?.........Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
e a terra fica esfaimando,
porque os vão atravessando
Meirinhos, Guardas, Sargentos.

E que justiça a resguarda?.............Bastarda
É grátis distribuída?......................Vendida
Que tem, que a todos assusta?.......Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa,
o que El-Rei nos dá de graça,
que anda a justiça na praça
Bastarda, Vendida, Injusta.

Que vai pela clerezia?..................Simonia
E pelos membros da Igreja?..........Inveja
Cuidei, que mais se lhe punha?.....Unha.

Sazonada caramunha!
enfim que na Santa Sé
o que se pratica, é
Simonia, Inveja, Unha.

E nos frades há manqueiras?.........Freiras
Em que ocupam os serões?............Sermões
Não se ocupam em disputas?.........Putas.

Com palavras dissolutas
me concluís na verdade,
que as lidas todas de um Frade
são Freiras, Sermões, e Putas.

O açúcar já se acabou?..................Baixou
E o dinheiro se extinguiu?.............Subiu
Logo já convalesceu?.....................Morreu.

À Bahia aconteceu
o que a um doente acontece,
cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, Subiu, e Morreu.

A Câmara não acode?...................Não pode
Pois não tem todo o poder?...........Não quer
É que o governo a convence?........Não vence.

Que haverá que tal pense,
que uma Câmara tão nobre
por ver-se mísera, e pobre
Não pode, não quer, não vence.

32 685

Ao Braço do Mesmo Menino Jesus Quando Apareceu

O todo sem a parte não é todo,
A parte sem o todo não é parte,
Mas se a parte o faz todo, sendo parte,
Não se diga, que é parte, sendo todo.

Em todo o Sacramento está Deus todo,
E todo assiste inteiro em qualquer parte,
E feito em partes todo em toda a parte,
Em qualquer parte sempre fica o todo.

O braço de Jesus não seja parte,
Pois que feito Jesus em partes todo,
Assiste cada parte em sua parte.

Não se sabendo parte deste todo,
Um braço, que lhe acharam, sendo parte,
Nos disse as partes todas deste todo.


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
20 148

Moraliza o Poeta nos Ocidentes

Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.
15 355

No Fluxo e Refluxo das Marés

Seis horas enche e outras tantas vaza
A maré pelas margens do Oceano,
E não larga a tarefa um ponto no ano,
Depois que o mar rodeia, o sol abrasa.

Desde a esfera primeira opaca, ou rasa
A Lua com impulso soberano
Engole o mar por um secreto cano,
E quando o mar vomita, o mundo arrasa.

Muda-se o tempo, e suas temperanças.
Até o céu se muda, a terra, os mares,
E tudo está sujeito a mil mudanças.

Só eu, que todo o fim de meus pesares
Eram de algum minguante as esperanças,
Nunca o minguante vi de meus azares.


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
4 612

À MARGEM DE UMA FONTE QUE CORRIA

A uma dama dormindo junto a uma fonte.

À margem de uma fonte, que corria,
Lira doce dos pássaros cantores
A bela ocasião das minhas dores
Dormindo estava ao despertar do dia.

Mas como dorme Sílvia, não vestia
O céu seus horizontes de mil cores;
Dominava o silêncio entre as flores,
Calava o mar, e rio não se ouvia,

Não dão o parabém à nova Aurora
Flores canoras, pássaros fragrantes,
Nem seu âmbar respira a rica Flora.

Porém abrindo Sílvia os dois diamantes,
Tudo a Sílvia festeja, tudo adora
Aves cheirosas, flores ressonantes.

3 133

SENHORA DONA BAHIA

Ninguém vê, ninguém fala, nem impugna,
e é que, quem o dinheiro nos arranca,
nos arranca as mãos, a língua, os olhos.

Esta mãe universal,
esta célebre Bahia,
que a seus peitos toma, e cria,
os que enjeita Portugal

Cansado de vos pregar
cultíssimas profecias,
quero das culteranias
hoje o hábito enforcar:
de que serve arrebentar
por quem de mim não tem mágoa?
verdades direi como água
porque todos entendais,
os ladinos e os boçais,
a Musa praguejadora.
Entendeis-me agora?

8 011

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Dandis
Dandis

O boca do inferno é foda

GEOVANA PNC
GEOVANA PNC

GEOVANA FOFOQUEIRA E INVEJOSA

COME CU
COME CU

EU DARIA PRO BOCA DE FOGO

André Matheus
André Matheus

E muito massa

Identificação e contexto básico

Gregório de Matos Guerra, conhecido como "Boca do Inferno", foi um poeta brasileiro do período colonial, considerado um dos mais importantes representantes do Barroco no Brasil. Nasceu em Salvador, Bahia, e faleceu em Recife, Pernambuco. Era filho de Fernão de Matos e de Maria da Guerra. A sua obra é vasta e diversificada, mas grande parte dela só foi compilada e publicada postumamente. Escreveu em português e a sua obra é fundamental para a compreensão da literatura e da sociedade brasileira do século XVII.

Infância e formação

Gregório de Matos recebeu uma educação esmerada em Salvador, onde estudou no Colégio dos Jesuítas. Em 1650, foi enviado para Coimbra, Portugal, para estudar Direito na Universidade de Coimbra, onde se licenciou em 1658. Durante a sua estadia em Portugal, teve contacto com a poesia da época e começou a desenvolver o seu próprio estilo. Voltou ao Brasil em 1661, mas retornou a Portugal em 1673, onde viveu por mais alguns anos antes de se estabelecer definitivamente na Bahia.

Percurso literário

O seu percurso literário foi marcado pela sua veia satírica e pela sua habilidade em retratar a sociedade baiana do século XVII. Foi um poeta que viveu intensamente o seu tempo, criticando os vícios, a corrupção e a hipocrisia da colónia. Embora tenha escrito poesia lírica, religiosa e amorosa, é na poesia satírica que se destaca pela mordacidade e pela criatividade com que usava a linguagem. Não publicou em vida, e grande parte da sua obra foi transmitida oralmente ou através de cópias manuscritas, o que gerou dúvidas sobre a autenticidade de alguns poemas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Gregório de Matos é profundamente barroca, caracterizada pelo jogo de contrastes, pelo uso abundante de figuras de linguagem (antíteses, paradoxos, hipérboles), pela linguagem rebuscada e pela exploração da dualidade entre o sagrado e o profano, o espiritual e o carnal. Os temas abordados são variados: o amor, a fugacidade do tempo, a morte, a vaidade, a crítica social e política. A sua poesia lírica é marcada pela idealização da mulher e pela expressão de um amor que oscila entre o êxtase e o sofrimento. Na poesia satírica, "Boca do Inferno" ataca com veemência as autoridades, os clérigos, os mercadores e os costumes da época. A sua linguagem é rica, inventiva e, por vezes, chocante, utilizando um vocabulário que vai do erudito ao popular.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Gregório de Matos viveu num período de consolidação da colonização portuguesa no Brasil, com uma sociedade hierarquizada, marcada pela escravatura, pela exploração económica e pela forte influência da Igreja Católica. A Bahia era um centro económico e cultural importante, mas também palco de tensões sociais e políticas. O Barroco foi o estilo artístico e literário dominante, refletindo as contradições e os conflitos desse período.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Gregório de Matos teve uma vida boémia e agitada. Era conhecido pelo seu temperamento irascível e pela sua língua afiada, o que lhe valeu o apelido "Boca do Inferno". Por diversas vezes, entrou em conflito com as autoridades, sendo expulso da Bahia e deportado para Angola em 1694. As suas relações pessoais eram complexas, e a sua obra reflete tanto as suas paixões como as suas desilusões.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Gregório de Matos foi uma figura polémica e admirada. A sua obra, apesar de não publicada formalmente, circulava amplamente, tornando-o conhecido como um poeta satírico e espirituoso. Após a sua morte, a sua obra foi gradualmente compilada e ganhou reconhecimento como um marco da literatura brasileira. No entanto, a questão da autenticidade de muitos poemas continuou a ser debatida por críticos e estudiosos.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Gregório de Matos foi influenciado por autores como Luís de Camões e pela poesia barroca europeia. O seu legado é imenso para a literatura brasileira, pois foi o primeiro poeta a dar voz à realidade social e cultural do Brasil colonial com tamanha vivacidade e originalidade. Abriu caminho para a poesia brasileira ao abordar temas e uma linguagem que refletiam a identidade nacional em formação. A sua obra é estudada como um documento histórico e literário fundamental.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Gregório de Matos é interpretada como um reflexo das contradições e dos contrastes da sociedade barroca colonial. A sua capacidade de transitar entre o sublime e o grotesco, o sagrado e o profano, o amor idealizado e a sátira mordaz, faz dele uma figura complexa e fascinante. A crítica destaca a sua originalidade na adaptação do Barroco europeu à realidade brasileira e a sua ousadia em questionar o poder e os costumes da época.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Gregório de Matos terá sido um homem de saúde frágil, mas de espírito impetuoso. A sua fama de "Boca do Inferno" advinha não só da sua poesia, mas também da sua agudeza de espírito e da sua tendência para a crítica direta. Uma curiosidade é que, apesar da sua vida boémia, demonstrou também uma faceta religiosa e reflexiva na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Gregório de Matos faleceu em Recife, para onde tinha sido exilado. A sua morte em 1695 marcou o fim da vida de um dos poetas mais originais e controversos do Brasil colonial. A memória de "Boca do Inferno" perdura como a de um poeta que ousou dizer o que muitos pensavam, mas não podiam expressar.