Lista de Poemas

Segunda Impaciência Do Poeta

Cresce o desejo, falta o sofrimento,
Sofrendo morro, morro desejando,
Por uma, e outra parte estou penando
Sem poder dar alívio a meu tormento.

Se quero declarar meu pensamento,
Está-me um gesto grave acobardando,
E tenho por melhor morrer calando,
Que fiar-me de um néscio atrevimento.

Quem pretende alcançar, espera, e cala,
Porque quem temerário se abalança,
Muitas vezes o amor o desiguala.

Pois se aquele, que espera se alcança,
Quero ter por melhor morrer sem fala,
Que falando, perder toda esperança.

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Anjo Bento

Destes que campam no mundo
Sem ter engenho profundo
E, entre gabos dos amigos,
Os vemos em papafigos
Sem tempestade, nem vento:

Anjo Bento!

De quem com letras secretas
Tudo o que alcança é por tretas,
Baculejando sem pejo,
Por matar o seu desejo,
Desde a manhã té à tarde:

Deus me guarde!

Do que passeia farfante,
Muito prezado de amante,
Por fora luvas, galões,
Insígnias, armas, bastões,
Por dentro pão bolorento:

Anjo Bento!

Destes beatos fingidos,
Cabisbaixos, encolhidos,
Por dentro fatais maganos,
Sendo nas caras uns Janos:
Que fazem do vício alarde:

Deus me guarde!

Que vejamos teso andar
Quem mal sabe engatinhar,
Muito inteiro e presumido,
Ficando o outro abatido
Com maior merecimento:

Anjo Bento!

Destes avaros mofinos,
Que põem na mesa pepinos,
De toda a iguaria isenta,
Com seu limão e pimenta,
Porque diz que o queima e arde:

Deus me guarde!

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Embarcado Já o Poeta

Adeus praia, adeus Cidade,
e agora me deverás,
Velhaca, dar eu adeus,
a quem devo ao demo dar.
Que agora, que me devas
dar-te adeus, como quem cai,
sendo que estás tão caída,
que nem Deus te quererá.
Adeus Povo, adeus Bahia,
digo, Canalha infernal,
e não falo na nobreza
tábula, em que se não dá,
(...)
E tu, Cidade, és tão vil,
que o que em ti quiser campar,
não tem mais do que meter-se
e magano, e campará.
Seja ladrão descoberto
qual águia imperial,
tenha na unha o rapante,
e na vista o perspicaz.
(...)
Vá visitar os amigos
no engenho de cada qual,
e comendo-os por um pé,
nunca tire o pé de lá.
Que os Brasileiros são bestas,
e estarão a trabalhar
toda a vida por manter
maganos de Portugal.
Como se vir homem rico,
tenha cuidado em guardar,
que aqui honram os mofinos,
e mofam dos liberais.
No Brasil a fidalguia
no bom sangue nunca está,
nem no bom procedimento,
pois logo em que pode estar?
Consiste em muito dinheiro,
e consiste em o guardar,
cada um o guarde bem,
para ter que gastar mal.
Consiste em dá-lo a maganos,
que o saibam lisonjear,
dizendo, que é descendente
da casa do Vila Real.
Se guardar o seu dinheiro,
onde quiser, casará:
os sogros não querem homens,
querem caixas de guardar.
Não coma o Genro, nem vista
que esse é genro universal;
todos o querem por genro,
genro de todos será.
Oh assolada veja eu
Cidade tão suja, e tal,
avesso de todo o mundo,
só direita sem entortar.
Terra, que não parece
neste mapa universal
com outra, ou são ruins todas,
ou ela somente é má.

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In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
3 771

Queixa-se o Poeta

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992
4 058

Contemplando nas Cousas do Mundo

Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
O Velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por Tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra, o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazo a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.


In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.

NOTA: Mapa: entenda-se o verso: exibe árvore genealógica; vazo a tripa: defeco, chulo 'estou cagando', isto é 'pouco me importo
9 113

Defende Seu Poeta por Seguro

Eu sou aquele, que os passados anos
Cantei na minha lira maldizente
Torpezas do Brasil, vícios, e enganos.

E bem que os decantei bastantemente,
Canto segunda vez na mesma lira
O mesmo assunto em plectro diferente.

(...)

A narração há de igualar ao caso,
E se talvez ao caso não iguala,
Não tenho por Poeta, o que é Pegaso.

De que pode servir calar, quem cala,
Nunca se há de falar, o que se sente?
Sempre se há de sentir, o que se fala!

Qual homem pode haver tão paciente,
Que vendo o triste estado da Bahia,
Não chore, não suspire, e não lamente?

Isto faz a discreta fantasia:
Discorre em um, e outro desconcerto,
Condena o roubo, e increpa a hipocrisia.

O néscio, o ignorante, o inexperto,
Que não elege o bom, nem mau reprova,
Por tudo passa deslumbrado, e incerto.

E quando vê talvez na doce trova
Louvado o bem, e o mal vituperado,
A tudo faz focinho, e nada aprova.

Diz logo prudentaço, e repousado,
Fulano é um satírico, é um louco,
De língua má, de coração danado.

Néscio: se disso entendes nada, ou pouco,
Como mofas com riso, e algazarras
Musas, que estimo ter, quando as invoco?

Se souberas falar, também falaras,
Também satirizaras, se souberas,
E se foras Poeta, poetizaras.

A ignorância dos homens destas eras
Sisudos faz ser uns, outros prudentes,
Que a mudez canoniza bestas-feras.

Há bons, por não poder ser insolentes,
Outros há comedidos de medrosos,
Não mordem outros não, por não ter dentes.

Quantos há, que os telhados têm vidrosos,
E deixam de atirar sua pedrada
De sua mesma telha receosos.

Uma só natureza nos foi dada:
Não criou Deus os naturais diversos,
Um só Adão formou, e esse de nada.

Todos somos ruins, todos perversos,
Só nos distingue o vício, e a virtude,
De que uns são comensais, outros adversos.

Quem maior a tiver, do que eu ter pude,
Esse só me censure, esse me note,
calem-se os mais, chitom, e haja saúde.

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In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.

NOTA: Faz focinho: mostra desprezo ou desagrado, seria equivalente à expressão 'faz beicinho', 'franze o nariz'; chitom: 'silêncio' 'cale-se!'; haja saúde: fórmula de despedida equivalente a 'saúde!' ou a 'adeus', hoje a 'até logo
2 095

Por Ocasião do Dito Cometa

Que esteja dando o Francês
camoesas ao Romano,
castanhas ao Castelhano,
e ginjas ao Português:
e que estejam todos três
em uma seisma quieta
reconhecendo esta treta
tanto à vista, sem a ver.
Será: mas porém a ser
efeitos são do cometa.

Que esteja o Inglês mui quedo
e o Holandês mui ufano
Portugal cheio de engano,
Castela cheia de medo:
e que Turco viva ledo
vendo a Europa inquieta,
e que cada qual se meta
em uma cova a temer,
tudo será: mas a ser
efeitos são do cometa.

(...)

Que haja no mundo, quem tenha
guisados para comer,
e traças para os haver,
não tenho lume, nem lenha:
e que sem renda mantenha
carro, carroça, carreta,
e sem ter adonde os meta,
dentro em si tanto acomode!
Pode ser: porém se pode,
efeitos são do cometa.

(...)
Que se vejam por prazeres,
sem repararem nas fomes
as mulheres feitas homens,
e os homens feitos mulheres:
e que estejam os misteres
enfronhados na baeta,
sem ouvirem a trombeta
do povo, que é um clarim!
Será: porém sendo assim,
efeitos são do cometa.

(...)

Que o pobre, e rico namore,
e que tenha com esta porfia
o pobre alegre se ria,
e que o rico triste chore:
e que o presumido more
em palácio sem boleta,
e por não ter, que lhe meta,
o tenha cheio de vento!
Pode ser: mas o intento
efeitos são do cometa.

Que ande o mundo, como anda,
e que se ao som do seu desvelo
uns bailem ao saltarelo
e outros à sarabanda:
e que estando tudo à banda,
sendo eu um pobre Poeta,
que nestas cousas me meta,
sem ter licença de Apolo!
Será: porém se eu sou tolo,
efeitos são do cometa.

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In: MATOS, Gregório de. Obra poética. Org. James Amado. Prep. e notas Emanuel Araújo. Apres. Jorge Amado. 3.ed. Rio de Janeiro: Record, 1992.

NOTA: Treta: por treuta, 'fruta'; boleta: por boleto, requisição para que um habitante aloje um ou mais militares em trânsit
1 924

Rompe o Poeta

Anjo no nome, Angélica na cara,
Isso é ser flor, e Anjo juntamente,
Ser Angélica flor, e Anjo florente,
Em quem, senão em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que não a cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente,
Que por seu Deus, o não idolatra?

Se como Anjo sois dos meus altares,
Fôreis o meu custódio, e minha guarda,
Livrara eu de diabólicos azares.

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda,
Posto que os Anjos nunca dão pesares,
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda.
5 394

Descrevo que era Realmente Naquele Tempo a Cidade da Bahia

A cada canto um grande conselheiro,
que nos quer governar cabana, e vinha,
não sabem governar sua cozinha,
e podem governar o mundo inteiro.

Em cada porta um freqüentado olheiro,
que a vida do vizinho, e da vizinha
pesquisa, escuta, espreita, e esquadrinha,
para a levar à Praça, e ao Terreiro.

Muitos mulatos desavergonhados,
trazidos pelos pés os homens nobres,
posta nas palmas toda a picardia.

Estupendas usuras nos mercados,
todos, os que não furtam, muito pobres,
e eis aqui a cidade da Bahia.

5 428

Soneto

Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.

O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ousadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.

Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.

O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo, mar de enganos,
Ser louco cos demais, que só, sisudo.

7 440

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Dandis
Dandis

O boca do inferno é foda

GEOVANA PNC
GEOVANA PNC

GEOVANA FOFOQUEIRA E INVEJOSA

COME CU
COME CU

EU DARIA PRO BOCA DE FOGO

André Matheus
André Matheus

E muito massa

Identificação e contexto básico

Gregório de Matos Guerra, conhecido como "Boca do Inferno", foi um poeta brasileiro do período colonial, considerado um dos mais importantes representantes do Barroco no Brasil. Nasceu em Salvador, Bahia, e faleceu em Recife, Pernambuco. Era filho de Fernão de Matos e de Maria da Guerra. A sua obra é vasta e diversificada, mas grande parte dela só foi compilada e publicada postumamente. Escreveu em português e a sua obra é fundamental para a compreensão da literatura e da sociedade brasileira do século XVII.

Infância e formação

Gregório de Matos recebeu uma educação esmerada em Salvador, onde estudou no Colégio dos Jesuítas. Em 1650, foi enviado para Coimbra, Portugal, para estudar Direito na Universidade de Coimbra, onde se licenciou em 1658. Durante a sua estadia em Portugal, teve contacto com a poesia da época e começou a desenvolver o seu próprio estilo. Voltou ao Brasil em 1661, mas retornou a Portugal em 1673, onde viveu por mais alguns anos antes de se estabelecer definitivamente na Bahia.

Percurso literário

O seu percurso literário foi marcado pela sua veia satírica e pela sua habilidade em retratar a sociedade baiana do século XVII. Foi um poeta que viveu intensamente o seu tempo, criticando os vícios, a corrupção e a hipocrisia da colónia. Embora tenha escrito poesia lírica, religiosa e amorosa, é na poesia satírica que se destaca pela mordacidade e pela criatividade com que usava a linguagem. Não publicou em vida, e grande parte da sua obra foi transmitida oralmente ou através de cópias manuscritas, o que gerou dúvidas sobre a autenticidade de alguns poemas.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Gregório de Matos é profundamente barroca, caracterizada pelo jogo de contrastes, pelo uso abundante de figuras de linguagem (antíteses, paradoxos, hipérboles), pela linguagem rebuscada e pela exploração da dualidade entre o sagrado e o profano, o espiritual e o carnal. Os temas abordados são variados: o amor, a fugacidade do tempo, a morte, a vaidade, a crítica social e política. A sua poesia lírica é marcada pela idealização da mulher e pela expressão de um amor que oscila entre o êxtase e o sofrimento. Na poesia satírica, "Boca do Inferno" ataca com veemência as autoridades, os clérigos, os mercadores e os costumes da época. A sua linguagem é rica, inventiva e, por vezes, chocante, utilizando um vocabulário que vai do erudito ao popular.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Gregório de Matos viveu num período de consolidação da colonização portuguesa no Brasil, com uma sociedade hierarquizada, marcada pela escravatura, pela exploração económica e pela forte influência da Igreja Católica. A Bahia era um centro económico e cultural importante, mas também palco de tensões sociais e políticas. O Barroco foi o estilo artístico e literário dominante, refletindo as contradições e os conflitos desse período.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Gregório de Matos teve uma vida boémia e agitada. Era conhecido pelo seu temperamento irascível e pela sua língua afiada, o que lhe valeu o apelido "Boca do Inferno". Por diversas vezes, entrou em conflito com as autoridades, sendo expulso da Bahia e deportado para Angola em 1694. As suas relações pessoais eram complexas, e a sua obra reflete tanto as suas paixões como as suas desilusões.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Em vida, Gregório de Matos foi uma figura polémica e admirada. A sua obra, apesar de não publicada formalmente, circulava amplamente, tornando-o conhecido como um poeta satírico e espirituoso. Após a sua morte, a sua obra foi gradualmente compilada e ganhou reconhecimento como um marco da literatura brasileira. No entanto, a questão da autenticidade de muitos poemas continuou a ser debatida por críticos e estudiosos.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Gregório de Matos foi influenciado por autores como Luís de Camões e pela poesia barroca europeia. O seu legado é imenso para a literatura brasileira, pois foi o primeiro poeta a dar voz à realidade social e cultural do Brasil colonial com tamanha vivacidade e originalidade. Abriu caminho para a poesia brasileira ao abordar temas e uma linguagem que refletiam a identidade nacional em formação. A sua obra é estudada como um documento histórico e literário fundamental.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Gregório de Matos é interpretada como um reflexo das contradições e dos contrastes da sociedade barroca colonial. A sua capacidade de transitar entre o sublime e o grotesco, o sagrado e o profano, o amor idealizado e a sátira mordaz, faz dele uma figura complexa e fascinante. A crítica destaca a sua originalidade na adaptação do Barroco europeu à realidade brasileira e a sua ousadia em questionar o poder e os costumes da época.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Gregório de Matos terá sido um homem de saúde frágil, mas de espírito impetuoso. A sua fama de "Boca do Inferno" advinha não só da sua poesia, mas também da sua agudeza de espírito e da sua tendência para a crítica direta. Uma curiosidade é que, apesar da sua vida boémia, demonstrou também uma faceta religiosa e reflexiva na sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Gregório de Matos faleceu em Recife, para onde tinha sido exilado. A sua morte em 1695 marcou o fim da vida de um dos poetas mais originais e controversos do Brasil colonial. A memória de "Boca do Inferno" perdura como a de um poeta que ousou dizer o que muitos pensavam, mas não podiam expressar.