Lista de Poemas

Perguntas de um Operário Letrado

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
foram os seus pedreiros? A grande Roma
está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
só tinha palácios
para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
na noite em que o mar a engoliu
viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sózinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas
28 135

Há homens que lutam um dia, e são bons

Há homens que lutam um dia, e são bons;
Há outros que lutam um ano, e são melhores;
Há aqueles que lutam muitos anos, e são muito bons;
Porém há os que lutam toda a vida
Estes são os imprescindíveis
55 427

Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
32 802

Do rio que tudo arrasta

Do rio que tudo arrasta se
diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as
margens que o comprimem
27 728

Elogio da Dialéctica

A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nòs queremos nunca mais o alcançaremos

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nòs
De quem depende que ela acabe? Também de nòs
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã
13 844

Dificuldade de governar

1

Todos os dias os ministros dizem ao povo
Como é difícil governar. Sem os ministros
O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda
Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra
Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol
Sem a autorização do Führer?
Não é nada provável e se o fosse
Ele nasceria por certo fora do lugar.

2

E também difícil, ao que nos é dito,
Dirigir uma fábrica. Sem o patrão
As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
Ele nunca chegaria ao campo sem
As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que
Seria da propriedade rural sem o proprietário rural?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.

3

Se governar fosse fácil
Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas
Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários.
E só porque toda a gente é tão estúpida
Que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4

Ou será que
Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira
São coisas que custam a aprender?
14 255

O Vosso tanque General, é um carro forte

Derruba uma floresta esmaga cem
Homens,
Mas tem um defeito
- Precisa de um motorista

O vosso bombardeiro, general
É poderoso:
Voa mais depressa que a tempestade
E transporta mais carga que um elefante
Mas tem um defeito
- Precisa de um piloto.

O homem, meu general, é muito útil:
Sabe voar, e sabe matar
Mas tem um defeito
- Sabe pensar
14 004

O pior analfabeto é o analfabeto político. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que, da sua ignorância política, nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais

 

34

O que representa roubar um banco comparado ao que representa fundar um?

 

37

O objetivo da ciência não é abrir a porta para a sabedoria infinita, mas estabelecer um limite para o erro infinito

 

22

Comentários (9)

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Rosimeire Seixas
Rosimeire Seixas

no meu entender que nunca chegamos ou conquistamos algo sozinhos, temos interesse em chegar a algum lugar ,mesmo que fazemos grandes esforços. mas sempre temos alguém por trás ,ou seja, que indicou o caminho, orientou, enfim, mesmo que seja mérito nosso, mas sempre tem alguém.

Fernando Mendes
Fernando Mendes

Um poeta alem do tempo.

Inês
Inês

Desde muito tempo, o mundo sempre teve as diferenças entre seu povos , ricos e pobres, escravos, o passado nos mostra muitas coisas, mudou muita coisa , mas ainda ha de mudar muito e muito a escravidão foi abolida, mas ainda vivemos muitas coisa do passado.

Jessica  F G
Jessica F G

Que reflexao mais linda e profunda!

Iviane Queiroz
Iviane Queiroz

Vemos neste poema a importância do trabalho, porém sem reconhecimento nenhum para o que o fez

Identificação e contexto básico

Bertolt Brecht (nome completo Eugen Berthold Friedrich Brecht) foi um proeminente dramaturgo, poeta, encenador e teórico teatral alemão. Nasceu em Augsburg, na Baviera, e faleceu em Berlim Oriental. A sua obra é indissociável do contexto histórico da Alemanha do século XX, marcado pelas guerras mundiais, pela ascensão e queda do nazismo e pela Guerra Fria. Brecht escreveu predominantemente em alemão.

Infância e formação

Bertolt Brecht nasceu numa família burguesa, filho de um diretor de fábrica. Desde cedo demonstrou interesse pela literatura e pelo teatro. Estudou filosofia e medicina na Universidade de Munique, mas a sua paixão pelas artes cénicas falou mais alto. A Primeira Guerra Mundial, na qual serviu como voluntário médico, teve um impacto profundo na sua visão de mundo, solidificando o seu ceticismo em relação às instituições e à guerra.

Percurso literário

Brecht iniciou a sua carreira literária na década de 1920, com peças que já apresentavam um tom crítico e experimental, como "Baal" e "Tambores na Noite". A sua mudança para Berlim marcou um período de intensa atividade teatral e colaboração com outros artistas. Com a ascensão do nazismo, Brecht, por ser de esquerda e judeu, foi forçado ao exílio, vivendo em vários países, incluindo Dinamarca, Suécia, Finlândia e, finalmente, os Estados Unidos. Após a Segunda Guerra Mundial, regressou à Europa e fundou o Berliner Ensemble na Alemanha Oriental, que se tornou um palco de referência para o seu teatro.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Brecht é vasta e abrange peças de teatro, poesia e ensaios. Peças como "Mãe Coragem e os Seus Filhos", "A Ópera dos Três Vinténs", "Galileu Galilei" e "O Círculo de Giz Caucasiano" são exemplos do seu teatro épico. Os temas centrais incluem a crítica ao capitalismo, a guerra, a exploração social, a moralidade em tempos de crise e a natureza do poder. O seu estilo é caracterizado pela "distanciação" ou "efeito de estranhamento", que visa impedir a identificação emocional do espectador com os personagens, incentivando a análise racional. Utilizava canções, projeções de texto e narração para quebrar a ilusão cénica. A linguagem é muitas vezes direta e coloquial, mas também pode ser poética e alegórica.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Brecht viveu num dos períodos mais turbulentos da história europeia. A República de Weimar, a ascensão do nazismo, a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria moldaram profundamente a sua obra. Foi um intelectual politicamente engajado, membro do Partido Comunista, e a sua arte refletia as suas convicções marxistas. Colaborou com compositores como Kurt Weill e Hanns Eisler, e dialogou com outros artistas e intelectuais da época, tanto em oposição quanto em alinhamento.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Brecht teve várias relações significativas e casamentos, sendo Helene Weigel, atriz e sua companheira de longa data, uma figura central na sua vida profissional e pessoal. A sua vida no exílio foi marcada por dificuldades financeiras e pela constante perseguição política. A sua dedicação à causa comunista e à arte foi inabalável, mesmo perante as adversidades.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora a sua obra tenha sido frequentemente alvo de controvérsia e perseguição política, Bertolt Brecht é hoje reconhecido como um dos maiores dramaturgos do século XX. O seu impacto no teatro moderno é imensurável, influenciando gerações de encenadores, dramaturgos e teóricos. Recebeu várias distinções ao longo da vida, mas o reconhecimento global consolidou-se após a sua morte.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Brecht foi influenciado por autores como Shakespeare, Molière, Marx e Vsevolod Meyerhold. O seu legado reside na revolução que trouxe ao teatro, ao introduzir o teatro épico e ao questionar a função da arte na sociedade. O Berliner Ensemble tornou-se um modelo para companhias de teatro em todo o mundo. A sua obra continua a ser encenada e estudada globalmente.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Brecht é frequentemente analisada sob a ótica do materialismo histórico e da crítica social. Debates centram-se na eficácia das suas técnicas de alienação e na sua relação com a propaganda política. A sua visão sobre a moralidade e a necessidade de adaptação em tempos de crise continua a gerar discussões.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Brecht era conhecido por ser um pensador prolífico e um colecionador de citações e aforismos. Tinha um interesse particular em provérbios e ditados populares, que frequentemente incorporava nas suas peças. O seu método de trabalho era rigoroso e colaborativo, envolvendo intensas discussões com os seus atores e colaboradores.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Bertolt Brecht faleceu em 1956, em Berlim Oriental, vítima de um ataque cardíaco. A sua morte foi sentida como uma grande perda para o teatro mundial. O seu legado é preservado através do Berliner Ensemble e da contínua popularidade e estudo da sua obra em todo o mundo.